Fui, nas tres noites immediatas, ao pinhal do Pastelleiro, esperei a
apparição até ás onze horas, mas nenhuma das janellas se abriu jámais!
Pude, uma vez, encontrar a caseira: perguntei-lhe se a senhora se
retirára, ou estava doente, respondeu-me que a tinha visto na varanda
todas as tardes, acrescentando que a porta travessa, por onde eu entrára
na quinta, uma tarde, fôra trancada por ordem da snr.ª D. Felismina.
Esta providencia apertou-me o coração, e feriu a susceptibilidade do meu
amor-proprio.
Á quarta noite, demorei-me até depois da uma hora, suppondo que
Felismina appareceria mais tarde, certa de não ser importunada no seu
colloquio amoroso com as estrellas. Eu queria dizer-lhe que me perdoasse
o atrevimento de ter sido indiscreta testemunha dos seus extasis:
pedir-lhe-hia que não se privasse desse poetico prazer, porque eu não
viria alli mais, ainda que essa privação me custasse torturas de
saudade. O coração offendido tem destas generosidades. É sempre a fabula
das uvas e da raposa... Nessa quarta noite, pois, seria hora e meia,
quando tres vultos, vindos do lado de Lordello, passaram defronte da
casa de Felismina, e fallaram baixo entre si. Abafei a respiração para
me não denunciar, e senti o prazer de encontrar as minhas pistolas que
machinalmente mettera nas algibeiras. Os vultos eram homens de jaqueta,
e chapéo desabado. Um d'elles trazia uma escada de mão, e os outros
pareceram-me armados de paus.
Em quanto elles observavam, cosidos com a parede, a segurança das
portas, avisinhei-me eu da estrada, e colloquei-me, sem ser sentido, a
distancia d'um tiro de pistola. Vi pôr a escada a uma columnata do
patim, que formava para o caminho uma pequena varanda. Vi um dos tres
marinhar lestamente por ella; porém, resvalou da aresta do balaustre, e
viria abaixo com o homem, se os companheiros a não sustentassem a prumo.
Não obstante, este movimento fez rumor, e uma das janellas foi
subitamente aberta.
Eu estava em ancias por saber se estes homens eram ladrões. Felismina
deu-me a certeza da minha suspeita, e inspirou-me arrojos de bravura.
Apenas ella appareceu na janella, e bradou: «Thereza, Thereza, chama o
caseiro!» eu saltei d'um pulo á estrada, e disparei sobre o grupo uma
pistola. O resultado do tiro foi maravilhoso! Os ratoneiros davam saltos
de corça por aquella estrada fóra, deixando a escada, e uma fouce
encavada n'um pau.
Em casa de Felismina ia grande reboliço. Ouviam-se os grasnidos de
Thereza, os latidos dos cães, e os gritos ameaçadores do caseiro. Ella,
porém, não sahira da janella, presenceando a fuga dos salteadores.
Radioso de heroismo, fui debaixo da janella de Felismina, e disse-lhe:
«Não se assuste, minha senhora; eram tres miseraveis ladrões que fugiram
a um homem só.»
A este tempo, abriu-se a porta-de-carro, e o caseiro appareceu em
fralda, com um bacamarte engatilhado. Vendo-me, veio direito a mim na
melhor disposição de m'o despejar na cabeça, quando Felismina bradou:
«Os ladrões já fugiram; foi esse senhor que os fez fugir.»
O bravo em fralda poz a arma em descanço. A mulher, com o saiote
vermelho pelos hombros, reconheceu-me, e disse para a janella: «Este
senhor é aquelle que andou outro dia na quinta.» O silencio de Felismina
provava que ella não carecia d'esta novidade.
Contei então o que presenciara do pinhal visinho. O caseiro
interrompeu-me grosseiramente, perguntando-me o que fazia eu por alli
áquella hora. Tartamudeei na resposta. Felismina, porém, atalhou,
pedindo-me que não fizesse caso da rustica pergunta do caseiro. O boçal
desfez-se em satisfações, e instou para que eu bebesse uma pinga
d'aguardente porque estava fria a noite. Não respondi ao offerecimento,
que fez rir Felismina; despedi-me com palavras muito delicadas da
senhora; soceguei o animo aterrado de Thereza; e fui para minha casa,
cheio de gloria, d'alegria, e de esperanças. A gloria era uma tolice:
sou eu o primeiro a confessal-a; mas as esperanças alegres fundavam-se
na opinião elevada que Felismina faria de mim. Não era só defendel-a dos
salteadores; era estar alli, defronte da sua janella, ás duas horas da
noite, como guarda vigilante da sua tranquillidade, com os olhos fitos
na cupula celeste que a cobria, expiando a imprudencia de lhe haver dito
algumas palavras apaixonadas. Isto devia impressional-a.
Contei, em casa, esta aventura á minha Poncia, que me esperava ainda a
pé. Aqui é que foi o benzer-se e tregeitar de mulher sábia em agouros e
feitiços. Quiz-me convencer de que tudo aquillo eram artimanhas da
bruxa; e saltou-me ao pescoço para vêr se eu tinha a figa de azeviche.
Não a encontrando, chamou-me herege, e não me deixou sem eu pendurar o
bento guizo no pescoço. Deitando-me, pareceu-me que o ar do quarto
estava impregnado d'um cheiro acre, que era mais forte na cama. Erguendo
o travesseiro, encontrei um mólho d'arruda, e um alho que tem na Flora
popular, um adjectivo desgraçado. Eram exorcismos da tia Poncia, que
tinha em menos conta o nariz quando se tractava de curar a alma d'um
possesso de bruxedos. Atirei o deposito de hervanario á rua, e consegui
adormecer embalado pelas minhas esperanças.
No dia seguinte, seriam onze horas, estava eu na praia, esperando a
maré, quando vi Thereza, procurando alguem entre os grupos. Palpitou-me
o coração! Serei eu quem ella procura?... Sahi-lhe como por acaso ao
encontro, e ella, que mal me vira na quinta, olhando-me perplexa,
parecia esperar que eu a conhecesse. Dei-lhe um ar de riso, Thereza
fez-me signal que a seguisse. Parou na praia dos Inglezes, olhou em
redor com desconfiança, e disse-me:
«Aquella senhora manda-lhe agradecer muito o que V... fez esta noite; e
pede-lhe que faça o favor de lhe dizer que a porta travessa da quinta
foi fechada porque não havia remedio senão fechal-a.»
Eu fiquei-me a olhar para a velha, pasmado da segunda parte do recado!
Thereza, sempre sobresaltada, ia retirar-se sem resposta, quando eu,
caminhando com ella, lhe disse:
--A porta da quinta foi fechada para eu lá não entrar?
«Foi, sim, senhor, porque... não lhe posso dizer mais nada. A senhora o
que quer é que V... saiba que por vontade d'ella não foi que a porta se
fechou; em fim, ha cousas que se não podem dizer. A snr.ª D. Felismina
custou-lhe bastante a mandar fechar a porta; mas, se se soubesse....
Adeusinho, meu senhor... que tenho medo que me conheçam.--»
Não esperou resposta.
Fiz mil conjecturas, e nenhuma só que se aproximasse da verdade. Desafio
o leitor mais esperto para que anteveja a solução deste problema.