V.

Fui, nas tres noites immediatas, ao pinhal do Pastelleiro, esperei a

apparição até ás onze horas, mas nenhuma das janellas se abriu jámais!

Pude, uma vez, encontrar a caseira: perguntei-lhe se a senhora se

retirára, ou estava doente, respondeu-me que a tinha visto na varanda

todas as tardes, acrescentando que a porta travessa, por onde eu entrára

na quinta, uma tarde, fôra trancada por ordem da snr.ª D. Felismina.

Esta providencia apertou-me o coração, e feriu a susceptibilidade do meu

amor-proprio.

Á quarta noite, demorei-me até depois da uma hora, suppondo que

Felismina appareceria mais tarde, certa de não ser importunada no seu

colloquio amoroso com as estrellas. Eu queria dizer-lhe que me perdoasse

o atrevimento de ter sido indiscreta testemunha dos seus extasis:

pedir-lhe-hia que não se privasse desse poetico prazer, porque eu não

viria alli mais, ainda que essa privação me custasse torturas de

saudade. O coração offendido tem destas generosidades. É sempre a fabula

das uvas e da raposa... Nessa quarta noite, pois, seria hora e meia,

quando tres vultos, vindos do lado de Lordello, passaram defronte da

casa de Felismina, e fallaram baixo entre si. Abafei a respiração para

me não denunciar, e senti o prazer de encontrar as minhas pistolas que

machinalmente mettera nas algibeiras. Os vultos eram homens de jaqueta,

e chapéo desabado. Um d'elles trazia uma escada de mão, e os outros

pareceram-me armados de paus.

Em quanto elles observavam, cosidos com a parede, a segurança das

portas, avisinhei-me eu da estrada, e colloquei-me, sem ser sentido, a

distancia d'um tiro de pistola. Vi pôr a escada a uma columnata do

patim, que formava para o caminho uma pequena varanda. Vi um dos tres

marinhar lestamente por ella; porém, resvalou da aresta do balaustre, e

viria abaixo com o homem, se os companheiros a não sustentassem a prumo.

Não obstante, este movimento fez rumor, e uma das janellas foi

subitamente aberta.

Eu estava em ancias por saber se estes homens eram ladrões. Felismina

deu-me a certeza da minha suspeita, e inspirou-me arrojos de bravura.

Apenas ella appareceu na janella, e bradou: «Thereza, Thereza, chama o

caseiro!» eu saltei d'um pulo á estrada, e disparei sobre o grupo uma

pistola. O resultado do tiro foi maravilhoso! Os ratoneiros davam saltos

de corça por aquella estrada fóra, deixando a escada, e uma fouce

encavada n'um pau.

Em casa de Felismina ia grande reboliço. Ouviam-se os grasnidos de

Thereza, os latidos dos cães, e os gritos ameaçadores do caseiro. Ella,

porém, não sahira da janella, presenceando a fuga dos salteadores.

Radioso de heroismo, fui debaixo da janella de Felismina, e disse-lhe:

«Não se assuste, minha senhora; eram tres miseraveis ladrões que fugiram

a um homem só.»

A este tempo, abriu-se a porta-de-carro, e o caseiro appareceu em

fralda, com um bacamarte engatilhado. Vendo-me, veio direito a mim na

melhor disposição de m'o despejar na cabeça, quando Felismina bradou:

«Os ladrões já fugiram; foi esse senhor que os fez fugir.»

O bravo em fralda poz a arma em descanço. A mulher, com o saiote

vermelho pelos hombros, reconheceu-me, e disse para a janella: «Este

senhor é aquelle que andou outro dia na quinta.» O silencio de Felismina

provava que ella não carecia d'esta novidade.

Contei então o que presenciara do pinhal visinho. O caseiro

interrompeu-me grosseiramente, perguntando-me o que fazia eu por alli

áquella hora. Tartamudeei na resposta. Felismina, porém, atalhou,

pedindo-me que não fizesse caso da rustica pergunta do caseiro. O boçal

desfez-se em satisfações, e instou para que eu bebesse uma pinga

d'aguardente porque estava fria a noite. Não respondi ao offerecimento,

que fez rir Felismina; despedi-me com palavras muito delicadas da

senhora; soceguei o animo aterrado de Thereza; e fui para minha casa,

cheio de gloria, d'alegria, e de esperanças. A gloria era uma tolice:

sou eu o primeiro a confessal-a; mas as esperanças alegres fundavam-se

na opinião elevada que Felismina faria de mim. Não era só defendel-a dos

salteadores; era estar alli, defronte da sua janella, ás duas horas da

noite, como guarda vigilante da sua tranquillidade, com os olhos fitos

na cupula celeste que a cobria, expiando a imprudencia de lhe haver dito

algumas palavras apaixonadas. Isto devia impressional-a.

Contei, em casa, esta aventura á minha Poncia, que me esperava ainda a

pé. Aqui é que foi o benzer-se e tregeitar de mulher sábia em agouros e

feitiços. Quiz-me convencer de que tudo aquillo eram artimanhas da

bruxa; e saltou-me ao pescoço para vêr se eu tinha a figa de azeviche.

Não a encontrando, chamou-me herege, e não me deixou sem eu pendurar o

bento guizo no pescoço. Deitando-me, pareceu-me que o ar do quarto

estava impregnado d'um cheiro acre, que era mais forte na cama. Erguendo

o travesseiro, encontrei um mólho d'arruda, e um alho que tem na Flora

popular, um adjectivo desgraçado. Eram exorcismos da tia Poncia, que

tinha em menos conta o nariz quando se tractava de curar a alma d'um

possesso de bruxedos. Atirei o deposito de hervanario á rua, e consegui

adormecer embalado pelas minhas esperanças.

No dia seguinte, seriam onze horas, estava eu na praia, esperando a

maré, quando vi Thereza, procurando alguem entre os grupos. Palpitou-me

o coração! Serei eu quem ella procura?... Sahi-lhe como por acaso ao

encontro, e ella, que mal me vira na quinta, olhando-me perplexa,

parecia esperar que eu a conhecesse. Dei-lhe um ar de riso, Thereza

fez-me signal que a seguisse. Parou na praia dos Inglezes, olhou em

redor com desconfiança, e disse-me:

«Aquella senhora manda-lhe agradecer muito o que V... fez esta noite; e

pede-lhe que faça o favor de lhe dizer que a porta travessa da quinta

foi fechada porque não havia remedio senão fechal-a.»

Eu fiquei-me a olhar para a velha, pasmado da segunda parte do recado!

Thereza, sempre sobresaltada, ia retirar-se sem resposta, quando eu,

caminhando com ella, lhe disse:

--A porta da quinta foi fechada para eu lá não entrar?

«Foi, sim, senhor, porque... não lhe posso dizer mais nada. A senhora o

que quer é que V... saiba que por vontade d'ella não foi que a porta se

fechou; em fim, ha cousas que se não podem dizer. A snr.ª D. Felismina

custou-lhe bastante a mandar fechar a porta; mas, se se soubesse....

Adeusinho, meu senhor... que tenho medo que me conheçam.--»

Não esperou resposta.

Fiz mil conjecturas, e nenhuma só que se aproximasse da verdade. Desafio

o leitor mais esperto para que anteveja a solução deste problema.

Scenas da Foz · 第 71 / 89 题