Trato de afivelar já uma mordaça á maledicencia. Muita gente cuida que o
meu namoro com a mysteriosa senhora do Pastelleiro ha-de ser um conto
muito bonito, em que eu hei-de dizer cousas muito galantes, em que ella
ha-de fazer tregeitos de pudicicia, até que finalmente acabemos ambos
por nos adaptarmos ás formulas vulgares d'uma rotineira paixão das que
morrem no inverno, se nascem no verão ao pé d'um pinhal, cuja poesia não
resiste ás primeiras nortadas de Outubro. Agora tomem fôlego que o
periodo é uma especie de machina pneumatica.
Pois saberão que não tive namoro com a snr.ª dona... ia dizer Felismina;
mas a mulher chamava-se Leocadia. A razão do pseudonimo virá em seu
tempo. Por hora, saiba-se a figura que eu fiz, a figura que ambos
fizemos. E o leitor, duro d'alma, o leitor-leão que retorce o bigode e
enruga a fronte encarando com visos de tyranno todas as mulheres, suas
imaginarias victimas--esse, que a maior parte das vezes é um pobre
homem, não leia isto porque de certo não aprenderá aqui a receita com
que se fascinam as mulheres.
Declaro, pois, que não namorei a snr.ª D. Leocadia, moradora no logar do
Pastelleiro, suburbios de S. João da Foz, em 1828.
Declaro, outro sim, que nunca lhe disse cousa que duvida faça á virtuosa
commemoração de sua memoria, nem consta que as más linguas sujassem a
reputação desta senhora.
D. Leocadia contou-me a sua vida, e, desde o preambulo de tão triste
historia, confesso que senti abalar-se-me a alma de commoções que não
eram isto vulgarmente chamado amor dos homens. Conheci que não estava no
seio d'ella coração que podesse ser meu. Grande coração ella tinha; mas
o amor de que extravasava era o amor espiritual dos anjos, o perfume
continuo d'uma adoração, que não podia deixar cahir neste chão maldito
um só bago de incenso. Depois de ouvil-a uma hora, sem ousar
interrompêl-a, comecei a sentir não sei que terror de ter tentado
disputar a alma d'aquella mulher a um homem que dormia o somno eterno,
cujo espirito, porém, dizia ella, adejava entre nós, quando proferiamos
o seu nome.
Eu fui sempre criança n'isto de superstições. O ether para mim foi
sempre, e ha-de sêl-o sempre, um infinito vacuo que os olhos d'alma
contemplam cheio de espiritos. As almas das pessoas que amei, que
estimei, que vi partirem-se d'aqui successivamente deixando em redor de
mim o ermo do desterro, a insulação medonha do estrangeiro em solo de
barbaros--essas almas revoam nas florestas, deslisam-se-me nos cabellos
que o terror encrespa, gemem aos meus ouvidos como o suspiro do mar
dormente... essas almas... perdoem-me a divagação... Eu cuidava agora
que estava a escrever no meu album uma de muitas paginas que virão algum
dia confirmar posthumamente a minha reputação de grande piegas, ou de
grande pateta, legado unico que preestabelece e assegura a boa paz entre
os meus herdeiros.
Vinha eu dizendo, pois, que a vida de Leocadia foi uma triste vida. Vou
contal-a; saibam, porém, que D. Leocadia morreu já. Este preliminar
aviso é necessario para muitos effeitos, sendo o mais valioso ter-lhe eu
promettido a ella sigillo de confissão durante a sua vida. Então,
pensava eu ir primeiro a descançar das minhas fadigas; esperal-a a ella
rodeada d'anjos lá, cortando a immensidão do céo, no dia do seu resgate.
Enganei-me. Leocadia fugiu na idade em que os olhos descem a procurar na
terra os vinculos que nol-a podem fazer querida. Voou deste baixo
repositorio de escorias para a limpida estancia da sua patria; e eu,
velho e enfermo, ralado de saudades do coração que consumi, vestida a
alma dos andrajos que troquei pelas galas d'uma poesia que só eu tive, e
toda a gente porfiou em destruir-me, eu, mytho d'outras eras, esphinge
posta em altar de lama n'um templo de vendilhões torpissimos, eu,
finalmente, fiquei por cá, quinze annos depois d'ella, sem poder atinar
com a intenção providencial que por aqui me traz entregue aos baldões
d'um destino, que umas vezes me parece cruel, e outras patusco.
Ahi vai agora o conto:
Leocadia nascêra em uma notavel villa de Traz-os-Montes. Seu pai era
official de cavallaria, e senhor d'uma casa mediocre. De Bragança
passára para Lisboa a commandar um regimento, e levára comsigo sua filha
de nove annos já sem mãi. A menina entrou n'um collegio, onde esteve até
aos dezenove annos. Sahiu para a companhia de seu pai reformado em
coronel, e completou a sua educação na convivencia de algumas poucas
familias exemplares.
Leocadia, ainda no collegio, maravilhava-se de sentir no peito uma ancia
como se não fosse o ar bastante para encher-lhe um vacuo oppressivo. Bem
conhecia ella que a sua queixa era um singular achaque dos que o
instincto ensina a curar. As mestras, que a viam scismadora a
esconder-se entre as murtas e as tilias do jardim, graças á experiencia,
entendiam melhor a molestia da discipula do que entenderam a sua dos
dezenove annos.
Nesta anciedade vaga, sahiu Leocadia do collegio, entrou na roda de
pessoas bem procedidas, e viu que os dous sexos se misturavam nas salas,
e conversavam sem desaire, muito a beneplacito da sã moral. Um dos dous
sexos causou-lhe uma estranheza em que as faces davam o signal,
rosando-se, pintando-se da mimosa purpura que, rara, em nossos dias,
reçuma em rosto de dezenove annos, por uma razão que o leitor sabe, e
mais eu.
O sexo, porém, que mais a constrangia (sempre a natureza tem cousas!)
era, quer m'o creiam quer não, o sexo que mais gratas scismas lhe dava
nas suas contemplações, sósinha.
Havia ahi na sua roda um rapaz, tão acanhado como ella, o que menos
palavras lhe dizia, e essas palavras custavam-lhe tanto ao pobre do
moço, e tão frivolas eram, que, se os olhos não dissessem mais que elle,
Leocadia julgar-se-hia entre todas a mais indifferente ao timido
Vasco--chamava-se elle Vasco, se bem me recordo.
Amou-o ella: é o que não soffre duvida; e elle amou-a, como...
deixemo-nos de metaphoras--amou-a como hão-de vêr que elle o prova,
depois.
O tal Vasco era pessoa de bem; quero dizer que tinha duas costellas, ou
tres, parece-me que eram tres as costellas nobres que elle tinha. Não
obstante, como as acções do Banco eram menos que as costellas nobres, o
meu pobre Vasco andava por alli entre aquella gente, e ninguem dava fé
se elle entrava ou sahia, excepto Leocadia, que o não perdia da vista
dos olhos, e da outra vista do coração, de maior alcance ainda, se o
coração não é myope, ou zarolho, peior mil vezes.
Corações zarolhos, dou-lhes a minha palavra d'honra que os conheço até
pelo cheiro. Descobriu-se ultimamente a operação do estrabismo para
elles. É infallivel, nas mulheres que vieram com esse aleijão a este
mundo. Havemos de fallar a este respeito no oitavo volume desta
edificativa obra.
Bom coração era o de Leocadia, coitadinha! Umas senhoras velhas, dando
no segredo dos olhares que os dous se cambiavam com certa finura que o
amor astucioso ensina, as taes velhas solteironas foram dizendo á menina
que o rapazinho era bello moço e de boa familia; mas a respeito de
haveres não tinha nada. Conclusão de velhas: «deixe-se a menina de
gastar o seu tempo mal, porque a mocidade anda a galope, e quando a
gente mal se precata, deixou perder a occasião de arranjar noivo
conveniente, e acha-se velha.»
Esta linguagem corruptora, hedionda, asquerosa, doutrina que prostitue a
mulher, que a enfeita para se expôr em leilão torpe, esta linguagem fez
córar Leocadia.
Vasco cobrou animo com a familiaridade, e gaguejou o prologo d'uma
declaração amorosa. Leocadia, que lhe havia adivinhado o segredo
aprasivelmente, acceitou-o, corando e sorrindo de modo que nunca foi tão
linda como então, nem houve sorriso e pudôr que tanto alindassem um
rosto innocente.
Reanimado pelo bom acolhimento, o nosso Vasco, pouco e pouco, deu
liberdade ao coração, e disse quanto podia; mas quanto sentia, isso não
se consegue aos dezoito annos. Escreviam-se todos os dias, davam-se
reciprocamente uma edição diaria do seu amor em duas ou mais folhas de
papel, e, depois da vigesima carta, escreviam o prospecto do seu futuro,
com a riquesa de imaginação usual de todos os prospectos.
Deviam ser formosissimas as perspectivas do magico amor d'aquellas
almas, ambas poetas, innocentes ambas, desferindo na corda virgem do
mesmo som o primeiro hymno de saudação á vida, cheia de nova luz,
especie de bem-aventurança ephémera posta entre o dormir da razão na
infancia, e o despertar desse terrivel dom na adolescencia! Bellas
deviam ser essas esperanças, por que o pensamento de ambos era
sanctificarem pelo casamento a sua identificação n'uma só alma, irem
ambos n'essa alma unica habitar uma casinha campestre, rodeada de
arvores, onde os passarinhos tivessem as suas luas-de-mel, e os seus
ninhos, e os seus filhinhos pipilantes. Queriam ao pé dessa casinha uma
fonte, derivando em fios de prata por sobre a relva as suas aguas, e
nessa relva havia de pastar um cordeirinho branco, malhado de preto, com
um laço escarlate no pescoço, o qual cordeirinho andaria sempre atraz de
Leocadia, e daria cabeçadas no cão de Vasco, que havia de ser um cão do
Monte de S. Bernardo, que se enroscaria (o cão) aos pés de sua ama,
lambendo-lhe a ponta do sapato de carneira côr de flôr de alecrim.
Que vida, que esperanças tão bonitas! Nas manhãs de estio, quando o
pintasilgo, o pisco, a calhandra, o cochicho, e toda a orchestra dos
musicos do bosque, dessem a alvorada d'um bello dia, Vasco e Leocadia,
espriguiçando-se ainda de deliciosas insomnias, sahiriam para o ar
livre, sorveriam abraçados o primeiro halito da atmosphera, perfumado de
alecrim e rosmaninho, revesar-se-hiam em ir á fontinha buscar
burrifadores de limpida agua, regariam os canteiros, as balsas, os
vasos; e depois, botariam milho ás gallinhas, enxotariam a gata que se
encarapitou n'um ramo de romanzeira para agadanhar um passarito que
ensaia os primeiros vôos; depois, chamariam o cão e o cordeirinho, iriam
para ao pé do rumorejar da fonte. Vasco leria os seus poetas italianos,
o seu querido Petrarcha, e Leocadia, chorosa pelo tão mal recompensado
amor do infeliz poeta, abraçaria o seu, tambem fadado das musas,
exclamando: «que nos vejam do céo esses desgraçados amantes que não
acharam cá em baixo o nosso paraizo.»
Isto é bonito, digamos a verdade; e mais ainda se não disse tudo.
Em quanto ao almoço, jantar, e ceia, e merenda nos dias grandes, (cá
estou ao vosso alcance, sisudos leitores, que estaveis a adormecer no
periodo anterior) em quanto a esses solemnissimos actos da vida ides por
força vascolejar nas mandibulas a mais regalada das gargalhadas, que
ainda estoirou de vossos alegres queixos! Deveis de saber que os pobres
amantes projectavam estes grandes melhoramentos na sua vida como por cá
se projectam os melhoramentos materiaes do paiz, isto é: não cuidavam da
receita, nem do orçamento, nem do _deficit_, nem... eu sei cá como se
chamam essas cousas que por ahi dizem os que sabem lá da salvação do
paiz! O que eu sei é que este par de creaturas bemaventuradas, com
quanto fossem muito anteriores ás importantes applicações do magnetismo,
attribuiram ao magnetismo propriedades que os modernos ainda não
sonharam, tendo sonhado quanto ha de tolice sub-lunar. Entenderam elles,
pois, que o magnetismo era uma substancia nutritiva como vacca e arroz,
como _roast-beef_ e almondegas, como esparregado e pudim de batata! Que
parece esta sandice ao leitor circumspecto, que tem o seu estomago na
devida consideração, e crê que isto de poesia e poetas, de idealismo e
espiritualismo, são o que realmente são: _indróminas_? Pois é verdade,
como lhe vinha contando, amigo, senhor meu, cuidavam elles que o trivial
e velhissimo facto de se amarem os separaria dessa lei commum, lei
estupida por isso mesmo que é para todos, praxe, tão velha como o amor,
de attender ás justas reclamações deste ser intimo que faz os grandes
estadistas, os eximios patriotas, os jornalistas preclaros, e
particularmente os homens gordos: quero dizer--o estomago,
viscera-rainha, orgão dos orgãos, potencia sempre discutida, sob um
pseudonimo qualquer, no discurso do throno, aganipe das locaes mais
chorudas do jornalismo, irmão gemeo da soberania do talento, o estomago,
oito letras a cujo serviço estão as outras dezeseis, porção, em fim, do
homem notavel, que mais se lhe venera, por isso que a chegada de uma
summidade a qualquer terra é logo celebrada por tres, quatro, cinco
jantares em que uma concava terrina de sôpa e uma pyramide de boi assado
substituem os presentes d'ouro e pedrarias com que na antiguidade se
regalavam os adventicios de longes terras.
Era preciso todo este palavriado para saber-se que Leocadia e Vasco não
scismavam com o que haviam de entreter o fogo sagrado d'essa mola por
excellencia do machinismo humano. Dar-se-hia por injuriado o coração, se
o torpe raciocinio lhes argumentasse _á priori_ com as villãs
necessidades da materia, cousa de que elles tinham apenas a necessaria
para se amarem.
Não pensava, porém, assim, o snr. Gervasio Leite, pai de Leocadia, nem a
snr.ª D. Fortunata Proença, madrasta da mesma menina, casada tambem em
segundas nupcias com o militar, e mãi d'um rapaz estragado, senhor d'uma
boa casa no Alem-Téjo de que sua mãi era uso-fructueira.
D. Fortunata, casando com o coronel, promettêra-lhe empregar a sua
authoridade maternal sobre o filho para que elle, ultimada a sua
formatura na Universidade, casasse com Leocadia. Este casamento
assegurava á enteada, se não um digno esposo, ao menos uma boa casa, e,
a todo o tempo, um dote que ella poderia levantar, se os maus costumes
do marido fossem incorregiveis.