--Eu não fallava na maré do mar, minha senhora...
«Ah... não? eu pensava...
--Queria eu dizer que... o coração muda d'um instante para o outro.
«Agora entendo! Ora sente-se...
E eu sentei-me, resolvido a ser homem; mas a cadeira era baixinha e eu
fiquei virtualmente sentado como um macaco. Quiz accommodar uma perna
sobre a outra; mas o meu mestre de rhetorica tinha-me dito que era
signal de má criação cruzar as pernas. Desejei n'aquelle momento
angustiado ter nascido na Laponia, ou encurtar em corpo na razão directa
da pequenez do espirito. Experimentei variadas attitudes: uma vez,
ficava-me o pé direito em aleijão; outras, o joelho esquerdo formava com
o direito o apice d'um triangulo isosceles. Resolvi, por fim, estender
uma perna, e encurvar a outra em fórma de fateixa. Isto em quanto ás
extremidades inferiores; mas a anathomia prova que o Creador tambem fez
as extremidades superiores para castigo de amantes garraios. A mão
direita andou longo tempo em busca de uma posição, desde o seio do
collete até ao joelho; por fim, metti-a na algibeira. A esquerda
inutilisei-a entre as costas e a cadeira. Definida a minha posição,
immobilisei-me nesta caricatura, como se fosse de greda. Desviei as
minhas attenções plasticas do corpo, e fiz-me todo espirito, para
destruir o mau effeito do involucro.
--Não toma banhos?--disse D. Vicencia, como se eu lhe tivesse aguado as
bellas cousas que tencionava dizer-me.
«Sim, minha senhora, já tenho vinte banhos.
--Soffre dos nervos?... É um terrivel padecimento...
«Eu tambem soffro bastante dos intestinos» atalhei eu com toda a
ingenuidade.
--Sim? Ainda ha peores enfermidades... As do coração é que não se curam.
«E v. exc.ª padece do coração?--disse eu com sincera condolencia.
--Muito...
«Algum aneurisma?
--Aneurisma moral... que é o peior de todos. O snr. João Junior ha-de
soffrel-o tambem quando chegar a sua hora.
«Por em quanto, não sinto dôres de peito, minha senhora. O meu mal é
todo de intestinos.
--O coração--tornou ella sorrindo de um modo celebre--o coração tambem é
um intestino.
«Ha-de perdoar, minha senhora; mas os intestinos estão por debaixo do
estomago. Tenho um tio cirurgião que sabe perfeitamente a anatomia, e
nunca lhe ouvi dizer que o coração era um intestino.
D. Vicencia ria desafinadamente. Eu estava um pouco enfiado e corrido
deste mau gosto de discutir ás gargalhadas.
«De que se ri v. exc.ª?»--interpellei eu, desarranjando um pouco a minha
attitude, que tanta arte me custára, e tanto me custou a restaurar.
--Eu rio-me da boa fé com que o senhor enrista a lança em defesa da
anatomia do seu tio. Eu tenho fallado em estylo allegorico. O snr. João
Junior sabe perfeitamente o que é allegoria.
«Pois não sei?--repliquei eu com ar de triumpho--_Allegoria est
tropus_... V. exc.ª sabe latim?
--Não, não sei.
«Eu traduzo: Allegoria é o tropo, por meio do qual se mostra nas
palavras uma cousa differente da que se tem no pensamento, empregando
todavia, para designar esta ultima, outra que com ella se assemelhe. Ha
duas especies de Allegoria, que são: a _total_, e a... V. exc.ª ri-se?
Cuida que eu estou a mentir?
--Não cuido; peço-lhe que não repare nos meus risos. Eu estou folgando
de ouvir um sabio...
«Sabio, não digo; mas ainda não ha tres mezes que eu estudei o meu
Quintilliano...
--E sabe-o de cór... Qual é o seu destino? tenciona ser frade?
«Não, minha senhora... Eu parece-me que não sirvo para a vida
ecclesiastica. Meu pai quer que eu seja frade Bernardo; mas eu... acho
que não se póde ser bom frade, quando se fazem versos.
--Pois o senhor é poeta?
«Tenho minha tal ou qual inclinação para isso.
--Ha-de dar-me uma amostra da sua musa. Tem algum poema escripto na Foz,
cantando o Neptuno, e as deusas do mar?
«Ainda não escrevi nada sobre Neptuno; mas se v. exc.ª ordena, farei uns
versos a esse assumpto. Hoje escrevi eu umas quadras e um soneto, que
deixei em casa.
--Deixou em casa? que pena! Não se lembra de alguns versos?
«Não, minha senhora.
--Qual foi o motivo?
«O motivo... o motivo...--gaguejei eu, esfregando os dedos da mão
esquerda na palma da mão direita--O motivo... bem sabe v. exc.ª qual
foi...
--Eu!... não sei! Talvez a bravura com que o senhor salvou a minha
cadellinha!...
«Qual cadellinha!? Ora! não fallemos n'isso... Os versos foram feitos...
a v. exc.ª
--A mim?! Dobrada razão para lh'os pedir. O que me pertence não póde ser
retido, em seu poder, sem meu consentimento. Vá já buscar os meus
versos, snr. João Junior, e leve-m'os a minha casa, sim?
Ergui-me da infernal cadeira radioso de gloria! Da praia a minha casa
não vi ninguem. Caminhava sobre flores d'um perfume embriagante. Tudo me
parecia azul-celeste. O coração dava encontrões na estreita bocêta do
peito. Cheguei a persuadir-me que estava curado dos intestinos.
Fatalidade! O extremo d'um grande prazer é um desgosto. Procurei os meus
versos que deixára sobre a banca, e não os vi. Corro á cozinha, e
interrogo uma velha, que me acompanhára de casa. Pergunto-lhe pelos meus
poemas, e ella arregala os olhos enviezados de marroquim, sem saber o
que eu procuro. Insto pelos meus papeis, e a incendiaria diz-me que, á
mingua de carqueja, accendera o fogão com uns papellitos que achára
sobre a mesa.
Senti a cruenta precisão de matar esta velha! Injectaram-se-me os olhos
de idéas assassinas. Traquinaram-me os queixos convulsivos de raiva.
Entrou em mim o _delirium tremens_... Foi a imagem de Vicencia que me
salvou... se não... ai da velha! e ai de mim tambem!
Sahi, fui-me empoleirar no penedo mais hirsuto dos Carreiros, bebi a
longos tragos a inspiração, reproduzi as idéas da poesia supplementar á
carqueja, e outras novas suggeridas por um novo ardor. Ó poder do genio!
Cento e vinte versos, repartidos em quadras, a inspiração ejaculou d'um
vomito! Escriptos a lapis, trasladei-os em papel de peso na loja d'um
tendeiro. Corri a casa de D. Vicencia. Annunciei-lhe a catastrophe da
1.ª edição, que a fez rir muito. Deixei-a lêr mentalmente a segunda, e
não ousei procurar no semblante d'ella a denuncia da sensação que lhe
faziam.
Lido o poema, D. Vicencia, séria, magestosa, e commovida, sentou-se,
fez-me sentar, por um gesto, junto de si, e murmurou estas palavras que
nunca, através de trinta annos, pude esquecer:
--O senhor fez-me rir hoje; mas os seus versos fazem-me pensar com mais
seriedade do que eu queria. O senhor é uma criança de coração,
annunciando talento e infortunio. É um innocente que fará rir, antes que
o ensinem a chorar... Agradeço os seus versos, os seus sentimentos, e o
offerecimento do seu coração.
Felizmente para mim entrou gente na sala.
O capitulo seguinte não sei se terei a coragem de escrevêl-o! Vou lêr
alguns das _Confissões de J. J. Rousseau_ para me animar.