Era em uma dessas noites em que o amor se pendura dos raios argentinos
da lua-cheia. O dorso do mar, sereno e suspiroso, scintillava em escamas
de prata. Na quebrada dos montes fronteiros, onde a lua não diffundia o
seu clarão, perpassavam luzinhas magicas, tremulas e subitaneas, que, ao
cabo de contas, vinham a ser as candeias dos lavradores que subiam do
redil para os casebres, ou desciam dos casebres para onde elles queriam,
cousa de que não faço questão.
E eu fitára os olhos no horisonte do occeano, terrivel e magestoso;
quadro indecifravel desde o cháos, provocação eterna ao orgulho do verme
chamado homem; gigante inquieto que submerge no seio, d'um sorvo apenas,
a taboinha juncada de soberbos tyrannos da terra, que lá se confundem
com a folhagem das algas, boiantes sobre a garganta dos abysmos. E o meu
espirito, desatado do poste vil chamado corpo, pairou nas alturas do
céo, voejou de mundo para mundo, librou-se na paragem luminosa das
chimeras, e desceu por fim sobre a imagem de D. Vicencia.
Eram dez horas da noite.
Sahi de minha casa, com a phantasia arrobada de delicias, e achei-me
machinalmente debaixo d'um caramanchão de faias e loureiros que
abobadavam uma janella aberta no angulo do jardim de D. Vicencia.
Os raios da lua, dardejando sobre a copa do miradouro, matisavam-na de
tremula folhagem de prata, e vinham, filtrando por entre os rotulos da
janella, mosquear a relva como a pelle da zebelina. Era muito para
ver-se tudo isto que eu, exacto retratista da natureza, vou pintando de
modo que o leitor parece-lhe que o está vendo. É o que se quer.
Sentei-me defronte desta como gruta de fadas, e imaginei o que ha mais
bello em Ossian, em Hoffmann, e nos contos orientaes, que eu, com
vergonha o confesso, não tinha visto, nem vi depois; mas, nestes ultimos
tempos, é preciso ser grande alarve para não saber tudo isto e muitas
cousas mais, lendo os folhetins dos meus amigos, sabedores de tudo,
conhecedores de todos os nomes distinctos, á excepção do Lobato, e do
Madureira, menos euphonicos que Macpherson, Goethe, Klopstock, e outros,
que elles conhecem, como eu, dos catalogos da bibliotheca _Charpentier_.
Estava eu, pois, nesta idealisação de todos os meus cinco sentidos,
divinisando aquella gruta, onde de tarde vira Vicencia com a face
voltada para o sol-poente, apoiada com geito encantador na mão eburnea.
Devo, para desarmar a critica, protestar contra o epitheto _eburnea_.
Entrou commigo a peste litteraria dos modernos torneiros de paragraphos.
Arredondar o periodo é a condição imposta pela tyrannia do gosto ao
escrevinhador laureado. Eu canto o que escrevo; e, se a toada me destoa
no tympano, desmancho a oração em partes, ajusto-as de novo, calafeto-as
de artigos, e pronomes, e conjunções, o mais afrancezadamente que posso,
e sahe-me a cousa um pouco inintelligivel, mas harmoniosa como um
clarinete de romeiro de S. Torquato de Guimarães.
_Com geito encantador na mão eburnea_: reparem que é um verso
hendecasyllabo. Quem ha ahi que arredonde melhor um periodo, sem
desnaturar a lingua, nem alastrar o verso de cunhas que resabem a
estrangeirice?
Tudo isto veio adrêde (eu traduzo: _á-propos_) para dizer que, estando
eu com os olhos embevecidos nas melenas das faias, abriu-se subitamente
a janella, e a lua deu de chapa na radiosa cara de D. Vicencia.
Viu-me, e não me conheceu: ia retirar-se quando eu, ainda absorto na
apparição, tossi o mais melicamente que pude. Vicencia deu ares de
conhecer-me. Eu, invocando todos os potentados da minha alma (não seja
sempre _potencias_) para vencer o acanhamento, murmurei:
«Sou eu...
--É o snr. João?
«É verdade, minha senhora.
--Então que faz por aqui?! versos?
«Estava a admirar a natureza, minha senhora.
--E admiravel que ella está!
«Muito admiravel, admirabilissima! muito bonita é a natureza!
--Eu tambem quiz ver o mar onde a lua se espelha tão poeticamente! Mas a
noite vai arrefecendo; e eu receio muito as constipações á beira-mar. Se
me dá licença, recolho-me...
«Pois eu ainda fico... Estou gostando muito desta encantadora noite...
Quem ama, não tem medo ás constipações...
Estas palavras proferi-as com certa entonação de despeito, e fiquei
satisfeito da minha veia epigrammatica. Vicencia, porém, redarguiu:
--O logar é incompetente para fallar d'amores. Quem nos visse aqui a
deshoras suspeitaria de nós. Nada de escandalos, snr. João Junior. Venha
cá ámanhã, e então me dirá o effeito que lhe fez o poetico espectaculo
desta formosa noite; mas... se valho alguma cousa na sua vontade,
peço-lhe que se recolha, e não queira privar-se de me ver ámanhã,
constipando-se hoje... Promette ir?
«Sim, minha senhora...
--Então, boas noites.
E fechou o rotulo, mais depressa, por sentir passos na extremidade da
travessa, que era de pouquissima passagem.
Eu permaneci quieto no meu sitio, meditando, triste, na indifferença
gélida com que fôra recebido, em hora tão romantica, tão mysteriosa!
N'isto, passou por mim um vulto. Era o homem, cujos passos a fizeram
fugir com mais presteza.
O tal vulto, ao perpassar por mim, mediu-me d'alto abaixo, afrouxando o
piso. Olhou para a janella de Vicencia, e fixou-me de novo. Deu alguns
passos, e retrocedeu... Confesso que já não estava contente!
O encapotado foi até á extremidade do bêcco, e voltou. Parou diante de
mim, e disse por debaixo do capote, em ar de tyranno de tragedia:
--Que quer vossê aqui?
«Não quero nada...--gaguejei eu.
--Pois então, mude-se.
Eu demorava um pouco a execução do mandado solemne de despejo, quando o
homem recalcitrou:
--Mude-se, ou eu o ajudo a mudar.
A ajuda, pelos modos, era uma pranchada de chanfana, que o nosso amigo
deixou vêr por debaixo da fimbria do capote. Dispensei o auxilio
offerecido, e retirei-me cozido com a parede, scismando nas bellezas
appensas a uma noite de lua cheia á beira mar.
Ao cabo da viella parei, sustido por um pensamento negro. «Será aquelle
homem um amante de Vicencia?!»
O ciume deu-me intrepidez, quero dizer--a intrepidez de parar e
esconder-me d'onde podesse espreitar a scena mais escandalosa de que o
leitor tem noticia!
A janella abriu-se. Era Vicencia... conheci-lhe a voz! Não sei o que
ella disse que fez rir o meu rival. Ouvi o soido de ferro que raspava no
peitoril da janella! eram os ganchos d'uma escada. Ouvi o som cavo do
embrulho de cordas a cahir na terra. Vi o maldito subir, coar-se pela
janella, recolher a corda... e... maldição! maldição!...
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E, desde essa noite nefasta, a minha fronte pendeu abatida como cabeça
de estatua que um raio fulminou.
Contei as minhas amarguras á vaga gemente, e acordei os eccos das
solidões compadecidas.
Como Fausto, como Manfredo, e como Werther, perguntei ao Creador se a
vida não era uma grande patacuada.
O demonio do suicidio segredou-me as delicias do aniquilamento.
Quiz tentar contra a minha existencia, e vacillei longo tempo na escolha
do instrumento.
Queria um genero de morte novo, maravilhoso, inaudito, e memorando!
A pistola, o punhal, o laço, a asfixia, o verdete eram já n'esse tempo
expedientes muito safados.
Em cata d'um morrer distincto, habituei-me á dôr. Vivi, se vida póde
chamar-se este mixto de funcções animaes em que predomina o almoço, o
jantar, e a ceia.
Não se conhecia então o instrumento de suicidio que a sociedade actual
inventou: O ARTIGO DE FUNDO.