Pouco depois, tres morgados das margens do Tamega vieram sentar-se ao pé
de D. Vicencia, e começaram a fallar de cavallos. Discutiu-se a
pulmoeira d'uma egua ingleza, e os alifafes d'um alasão de Alter. D.
Vicencia fallou d'um urco inglez que era o mimo quadrupede do quartel
general do Beresford, e datou precisamente que em metade do seculo XVIII
florescera o tronco d'um cavallo pigarço que lhe morrera d'um aguamento
na estalagem de Vallongo.
Eu assisti estupidamente silencioso á pratica destes dignos Plutarcos de
cavallos illustres. Se quizesse dar o meu obulo para a conversação,
poderia apenas apresentar as minhas averiguações sobre quatro mataduras
d'uma egua em que viera, graças á benevolencia prestante do meu abbade.
Á meia noite, um tio de D. Vicencia, conego da sé patriarchal,
principiou a resonar a um canto da sala. A trombeta nazal do distincto
ornamento da igreja era o signal do despejo. A nobreza destes reinos
principiou a sahir, e eu, depois de quatro curvaturas, correspondidas
por quatro mesuras de alto a baixo, em que era soberanamente ridicula D.
Vicencia, fui para o meu quartel, scismar na mulher, á luz d'uma bugia.
Devo confessar que me não sahia das orelhas o ecco destas dulcissimas
palavras: «qual será a primeira mulher que aqueça as primeiras chammas
da sua alma?» Esta honra de fogareiro, concedida pelos melhores quarenta
annos que meus olhos viram, alvoroçou-me o sangue, e tirou-me a vontade
da ceia, dôce amiga que até então me embalava nos sonhos deliciosos d'um
Vitellio de meia tigella.
Vi duas vezes a mulher, em sonhos. Não sei porque, mas o sonho com a
mulher que póde amar-se, essa casta idealisação em que o material do
corpo não entra, faz que a gente accorde amando-a, revendo-a através da
nuvem esvaecida do sonho, desfigurando-a por uns contornos vaporosos,
que o leitor nunca viu, se Deus lhe fez o favor de lhe dar uma alma bem
chata, do que lhe dou os meus sinceros parabens.
Rompia a manhã no horisonte purpurino do mar, quando eu saltei do leito
da insomnia para o meio da rua. Senti que era poeta: alvoreceu-me nessa
madrugada o furor das rimas, e, sem vaidade, confesso que escrevi d'uma
enfiada vinte e tantas quadras, terminando todas por:
Meu amante coração.
É realmente um vacuo na historia da poesia moderna em Portugal a perda
lastimavel do meu primeiro jacto metrico. Se bem me recordo, o meu poema
poderia ter uma até duas, mas tres tolices em cada verso, isso posso eu
asseverar que não aos poetas contemporaneos, que tem levado o seu
talento creador a quatro, cinco, e mais. Como quer que fosse, eu
glorio-me de ter feito obra que muitos annos depois encontrei executada,
com pequenas correcções, ao som da viola, fazendo as delicias d'um
arraial.
Com a aurora da poesia veio a primeira nuvem das decepções amargas do
poeta, e vem a ser que, estando eu persuadido que o poeta sahia do
vulgar, entrava em convivencia com os sylphos, e, _ipso facto_,
dispensava o almoço,--enganei-me redondamente. Ás nove horas e meia,
quando o coração parecia ter feito monopolio da vida dos outros orgãos,
começaram-me os intestinos a resoar uma symphonia de rugidos, que devia
ser a da abertura d'uma opera muito séria. Fui a casa, e aquietei o
motim intestinal, como os imperadores romanos aquietavam a canalha:
_panem_, mas com manteiga, que os romanos não conheceram; o _et
circenses_ traduzi-lh'o em café com leite.
Consummada esta operação mixta, achei-me poeta em duplicado. Fiz um
soneto excellente durante a digestão. Era um acrostico a _Vicencia_; mas
como Vicencia tem só oito letras, e eu precisava de quatorze, venci a
difficuldade, buscando entre os seus appellidos um com seis letras.
Encontrei _Raposo_; por consequencia--VICENCIA RAPOSO!
Era um bello soneto, que será publicado na 2.ª edição, para não alterar
a ordem delineada da 1.ª Perfilei-me na praia, eram dez horas e vinte e
cinco minutos. O coração dava-me cambalhotas no peito, quando a
vanguarda de D. Vicencia, composta de paspalhões, appareceu na calçada.
Nisto, desponta a cadellinha, que eu amava quanto é possivel amar-se uma
cadella que nos proporciona o namoro com a dona. Depois... ELLA!
Então é que foi! Eu já não sabia o que havia de fazer das mãos!
Parecia-me que a perna direita era um membro incommodativo. Os hombros
encolhiam-se-me, e os braços procuravam, entre todas, a postura mais
desengraçada! D. Vicencia cortejou-me de longe, e eu, querendo
corresponder-lhe, tirei o chapéo tanto á pressa que me ficou metade do
forro em volta da testa, como uma aureola de marroquim vermelho.
Attribulado com os sorrisos de quatro petimetres que me estavam ao lado,
quiz dar-me uma compostura geral ao corpo para os encarar com
sobresenho, e resvalou-me um pé na aresta d'uma fraga. Dobraram a risada
os peralvilhos, e eu, emparvecido, cosi-me com uma barraca, desejando
n'aquelle instante bifurcar-me na egua ulcerosa do abbade, e demandar o
patrio ninho.
Não o quiz assim a minha desventura.
D. Vicencia não testemunhára a minha segunda catastrophe, graças ao
cumprimento d'um adventicio. Quando eu me escoava subtilmente por entre
as barracas, não pude deixar de envesgar um olho miserando sobre
Vicencia. Viu-me! procurava-me com aquelle ar desdenhoso das mulheres
espertas, que parecem não querer vêr o homem que mais procuram. Ora,
Vicencia, além de esperta, tinha um uso!... Não fallemos disso!
O magnetismo d'aquelle olhar collou-me os pés á areia como os da estatua
do idiotismo! Sorriu-me com o mais amavel dos desleixos, brincando com
as borlas do seu elegante casaco, roupão, ou como é que se chamava, de
castorina côr de rato! Eu tomei a brincadeira das borlas como um acêno,
e penso que me não enganei. Este espirito sagaz é uma cousa muito velha
em mim!
Fui-me aproximando disfarçadamente. Vicencia, com mais subtil disfarce,
deixou o grupo dos senhores donatarios que regougavam as suas tolices
habituaes. Foi sentar-se solitaria ao pé d'uma barraca, e eu, tremulo de
susto, fingindo quanto pude um animo frio que mais me denunciava,
avisinhei-me com o chapéo na mão.
--Como passou a noite, snr. João Junior?--acudiu ella ao meu embaraço.
«Muito obrigado, minha senhora...--gaguejei eu.
--Passou bem, não é assim?
Creio que fiz um tregeito parvo com os beiços, no qual tregeito queria
eu significar-lhe que não passára lá grande cousa.
--Então passou mal?--tornou ella.
Uma idéa, distinctamente tola, me acudiu de improviso á mente. Julguei
do meu dever não atraiçoar o legitimo sentimento de ternura que ella
fizera nascer. Revesti-me da bravura moral que o amor inspira a todos os
patetas bisonhos, e respondi bruscamente:
«Quem sonha com o objecto amado não passa bem.»
Nos labios de Vicencia esvoaçou um riso imperceptivel. Ainda hoje me dá
muito que pensar aquelle riso! Acho, aqui para nós, que a generosa
mulher satisfez com aquelle riso ao estimulo de uma conscienciosa
gargalhada.
--Pois o senhor não me disse ainda hontem que não amava?
«É verdade, minha senhora... mas... lá vem a maré...
--Vem a maré?! (disse ella) a que horas virá ella hoje? Tanto queria
tomar banho cedo!
Imaginem, pios leitores, com que cara eu ficaria!