IX

Verei se posso repetir, sem inexactidão sensivel, o que Affonso de Teive

me contou, com seguimento aos successos descriptos.

«Nenhum rapaz dos meus annos--dizia elle--exerceria tão dolorosa

violencia sobre o seu espirito. Jurei commigo de nunca mais proferir o

nome de Theodora, e mesmo convencer minha mãe de me ter esquecido

d'ella. Eu não sabia a que porta do inferno fôra bater, sacrificando-me

puerilmente a uns pontos de dignidade, que homem nenhum de annos

experimentados conseguiu vingar. Em presença de parentes, e relações de

minha familia, atava com arames em brasa a mascara da minha agonia,

contra a qual minha propria mãe involuntariamente dardejava insultos.

Quando ella me dizia: «Estás esquecido d'aquella louca, meu filho! as

minhas orações foram ouvidas no céo» ou quando meu tio, com alegres

gargalhadas me applaudia, dizendo: «Sempre entendi que eras homem, meu

rapaz!» então a minha angustia exacerbava-se, e eu, assim que as

attenções me deixavam senhor meu, ia esconder-me a chorar, a chorar com

as mãos postas; e, muitas vezes, d'este inutil rogar á piedade divina,

erguia-me para escrever a Theodora cadernos de papel, que queimava,

antes de apagar a luz, ao entrar o sol no meu quarto. Que noites

aquellas!...

«Minha mãe deteve-se um mez em Lisboa. Adivinhei-lhe o desejo de me

trazer comsigo para a provincia; mas a obediencia não podia levar tão

longe a abnegação. Recordar estes sitios, vêr além os horisontes de

Braga, cuidar que ainda havia de encontrar, fortuitamente, Theodora, ou

alguem que me fallasse das felicidades d'ella, isto apertava-me tanto a

alma, que eu sentia em mim um desfallecimento de coragem, uma quasi

precisão de pedir a todos em altos brados que me amparassem.

«Então pensei em ir para Coimbra, onde esperava eu que mil rapazes de

todas as condições e feitios me arrancariam de mim proprio, e levariam

em suas folias, ou me habituariam o espirito ás consoladoras occupações

do estudo.

«Minha mãe accedeu promptamente á minha vontade.

«Fui para a universidade, muito escasso de preparatorios, e por isso me

matriculei em philosophia. Logo aos primeiros dias conheci que fôra um

erro confiar nas distracções juvenis de Coimbra. Alistei-me

primeiramente na roda dos moços-velhos, gente ridicula; mas d'uma

ridiculez que não distrahe ninguem. Cada um parecia que trazia dous

oraculos na cabeça: antes de expenderem os seus dogmas, punham-se á

escuta da inspiração; e, ao abrirem a bocca, a propria Minerva das

escadas latinas cuidavam elles que se apeava do sóco para escutal-os.

Zanguei d'estas creaturas infestas, e fui-me inscrever na fila dos

litteratos militantes, gente de pouco saber, de muitas maravalhas,

questionadora por necessidade de adivinhar a discutir o que não sabia da

leitura, emfim, futuras esperanças da patria, que bem sabiam que uma

diminuta sciencia, com muita ousadia, basta para attingir os pinaculos

sociaes. Tinham estes rapazes um jornal. Publiquei sem assignatura uma

das muitas poesias que eu tinha escripto nos arvoredos de Bellas, nos

tempos em que a imagem lagrimosa da reclusa das Ursulinas ia lá commigo

a ouvir a voz de Deus nas harmonias da terra. A poesia tinha a religiosa

suavidade d'um amor que se alliava aos santos enlevos do coração virgem.

Os litteratos disseram que eu imitava Lamartine, e que mesmo o traduzia

quasi litteralmente em algumas strophes. Ora, eu não tinha ainda lido

Lamartine: fui lêl-o, e corei de vergonha pelo grande poeta comparado

commigo. Em todo o caso, desgostei-me dos meus collegas por se darem uns

ares de tolice muito por ahi fóra dos limites rasoaveis. Passados tempos

dei ao jornal uma outra poesia, fremente de paixão, arrojada,

vertiginosa, escripta depois do meu desastre. Os meus collegas

avisaram-me de que a academia, lendo a minha ode, declarára que eu

traduzira Victor Hugo. Fui lêr depois Victor Hugo, e lastimei que os

soberanos do genio estivessem sujeitos ás chufas de todo o mundo, sem

excepção dos litteratos meus contemporaneos da universidade.

«Enfadado d'uns sandeus, que nem mesmo eram recreativos, bandeei-me com

os _trossistas_, iniciando-me para isso nas libações homericas da

genebra e cognac do Troni. Á primeira vez que me embriaguei, recobrando

o tino, envergonhei-me; lembrou-me minha mãe, e chorei. Não impediu isto

que me aturdisse segunda vez. Os meus socios de delirio diziam que eu,

embriagado, era um moço de boa companhia, alegre, sarcastico, ironico,

eloquente, e mesmo espirituoso. E, em verdade, das minhas perdas de

razão ficavam-me lembranças de ter visto o mundo de outra côr, e de

haver idealisado formosas chimeras douradas por novas e esplendidas

auroras d'outro amor. Comecei a sentir saudades da embriaguez quando, no

uso integro das minhas faculdades, me acommettiam os terrores da noite

infinita do meu coração, horas roubadas ao tormento dos parricidas, asco

acerbo a tudo que em volta de mim revelava alegria, odio mesmo á luz que

me amostrava os espectaculos da natureza, em que n'outro tempo a minha

alma, toda oração, toda absorvida, se evolava em effluvios de admiração

para o Altissimo.

«N'este perdimento de dignidade terminei o primeiro anno, com approvação

plena, e resolvi passar as ferias em Lisboa.

--Com approvação plena!--atalhára eu Affonso de Teive.

«Por que não?--respondeu elle--As minhas noites eram quasi todas

desveladas, depois que me recolhia fatigado das assuadas e disturbios.

Se o torpor me não adormecia, a visão de Theodora sentava-se em frente

da minha mesa, e dialogava commigo, ella no tom escarnicador da mulher

ovante da sua deshonra, e eu no accento supplicante de quem já não tem

que pedir senão piedade. A refugir d'este supplicio, ferrava com

desespero dos livros da aula, lia-os, e relia-os sem comprehendel-os;

mas, esmagado o coração sob as mãos de ferro da vontade, conseguia

entender, decorar, e expôr com clareza, uma ou outra vez, as idéas dos

compendios. Os meus creditos firmaram-se desde que me estreei

vantajosamente n'uma lição.

«Pediu-me minha mãe que a visitasse em ferias, embora me demorasse

poucos dias. Sem me negar aos seus desejos, consegui que ella fosse ao

Porto passar commigo a estação dos banhos de mar. Annuiu a santa

senhora.

«Os meus dias corriam magoados, mas serenos em Lessa da Palmeira, onde

se haviam reunido alguns parentes nossos de casas mui distantes umas das

outras. Meu tio Fernão concorreu com minha prima Mafalda, que o jovial

pae me tinha desenhado sem encarecimento. Fôra a minha companheira dos

brincos infantis. Viram-na os olhos da minha razão depois á verdadeira

luz. Era bella, e triste. A seriedade taciturna de Mafalda, se não fosse

vaidade de raça, seria um dialogar permanente com o namorado anjo da sua

innocencia. «Se eu podesse amal-a!» dizia eu a minha mãe, que se tornára

para mim, n'aquelles dias menos opprimidos, uma segunda consciencia. E

minha mãe, com a summa delicadeza da sua virtude, pedia a Mafalda que me

obrigasse a fallar, que me fizesse lêr alguns livros recreativos em voz

alta. Instado por minha prima, escolhi a leitura da _Noite do Castello

ou os Ciumes do Bardo_. Comecei a lêr pelo livro; porém, á segunda

pagina, dei de mão insensivelmente ao livro, e declamei de côr com

tamanho enthusiasmo, e com a voz tão vibrante de lagrimas, que minha mãe

rompeu em soluços, e minha prima empallideceu de assustada da minha

intimativa. Aqui tens tu um lance que eu não posso agora relembrar sem

rir! O que tudo isto me parece, visto d'aqui, do alto dos meus tamancos,

e através d'estes oculos de tres graus!

«Minha mãe impediu a continuação da leitura, e Mafalda nunca mais

desejou ouvir-me. Observei mais arrefecida, e muito menos attenciosa,

minha prima, desde aquella explosão de ciumes, por conta do poeta

Castilho. Isto inquietou-me tão de leve, que nem a vaidade me magoou.

«Estavamos em Setembro, e eu já tinha entrouxado as malas para voltar a

Coimbra. Fui despedir-me dos sitios, onde as horas me tinham sido mais

tranquillas, na soledade. Velejei n'um barquinho rio acima, e aproei á

ribanceira, d'onde se avistava o arruinado e já em parte desfigurado

conventinho de extinctos franciscanos. Á sombra d'um arco manuelino, que

havia sido a portaria do arrazado templo, meditei nos frades, no

convento, no refugio dos desamparados do mundo, nas lapides profanadas

que mãos impias arrancaram de sobre as cinzas de muitos corações,

extinctos com o segredo de sublimes torturas. Meditei, e maldisse a

civilisação, que fechára os aditos da paz, quando a guerra sacudia as

suas serpes mais inexoravel; maldisse a illustração, que aluira a

enfermaria dos empestados do vicio, quando a peste ardia mais

devoradora. A minha angustia era ainda immensa, por que eu não podia

dispensar-me de Deus, e dos homens, que apontavam o caminho de melhor

mundo.

«Descendo o rio, lá me ficavam ainda os olhos e as saudades nas

ruinarias do convento. Desembarquei na ponte, onde minha mãe me estava

esperando. Detive-me a passear com ella pelo braço, e a referir-lhe as

minhas idéas sobre os conventos. A virtuosa rejubilava-se ouvindo-me, e

dizia, em raptos de contentamento, que eu estava da mão do Senhor, e

que, apesar do mundo, havia de trilhar sempre os vestigios de meus

religiosos avós, alguns dos quaes tinham morrido martyres da fé nas

pelejas dos soldados de Christo contra os mahometanos. Ouvia eu

aprazivelmente a chronica de meus ascendentes, gloriosamente mortos na

Africa e no Oriente, quando vi ao longe, na estrada do Porto, á sahida

de Matosinhos, com direcção á ponte, uma senhora cavalgando um alentado

cavallo, ao lado d'um cavalleiro menos cuidadoso das arremettidas

garbosas do seu.

«Minha mãe assestou a luneta, e murmurou:--Valha-me Nossa Senhora dos

Remedios!... Se me não engano...

«Quem é?--atalhei eu. Minha mãe demorou a resposta. Os cavalleiros, no

entanto, avisinharam-se a galope. Antes de conhecel-a, adivinhou-a o

coração, que me repuxou á cabeça uma onda de sangue... Era Theodora,

Theodora, deslumbrante de formosura, gentil como as magnificas chimeras

do pincel inspirado, visão que me não parecia para olhos turvados de

verem as fealdades d'esta vida... Não te espante o ardor d'esta

linguagem. Eu fiz agora pé atraz vinte e quatro annos da minha vida, e

senti-me reviver n'aquelle momento... Agora, espera um pouco... Deixa-me

tomar fôlego, recordando minha mulher e meus filhinhos.

X

Affonso, passados dous minutos, continuou, demudado já o semblante da

jovialidade com que principiára.

«Theodora reconheceu-me. A turbação do meu animo era como uma vertigem,

e assim mesmo vi-lhe todos os lances de olhos, todas as linhas alteradas

d'aquelle adoravel rosto. Fitou-me. Estremeceu; vi-a estremecer na quasi

paragem convulsiva que fez o cavallo. E eu busquei o apoio do hombro de

minha mãe, e senti-me comprimido nos braços d'ella. E a magia satanica

do olhar da bella mulher empederniu-me; arrefeci; d'ahi a pouco era fogo

vivo a minha fronte; cuidava que a via ainda; e ella tinha passado. Puz

então a mão sobre o meu coração, e já lá encontrei a de minha mãe.

«Caminhamos para casa, e não trocamos palavra. Entrei no meu quarto,

lancei-me sobre a cama, abafei o rosto nas almofadas, e vinguei-me do

meu infortunio a chorar. Chorei, e senti-me desopprimido. Fui ao quarto

de minha mãe, e achei-a de joelhos orando. Quaes lagrimas me deram

allivio? seriam as d'ella ou as minhas? As d'ella, que o homem, quando

chora, desafoga uma paixão, e abafa n'outra: a do odio. Prantos que

salvam são os da dôr immerecida, os apêllos das iniquidades do mundo

para o tribunal da Providencia. E eu, quando chorava, amaldiçoava, e

pedia vingança.

«No dia seguinte, fui para Coimbra.

«Concentrei-me com a visão da ponte de Lessa. Não me deixou aquelle

adorado demonio recahir na minha miseria da embriaguez. Para que?--dizia

eu--Se tenho de voltar á razão para encontral-a com a tenaz ardente da

tortura?

«Quinze dias depois da minha chegada, abri uma carta marcada em Braga.

Oscillaram-me as pernas, e cuidei ouvir dentro do peito o despegar-se-me

o coração, uma dôr que eu não sei se é commum de todas as organisações,

dôr que eu tenho tantas vezes experimentado, que já a considero aleijão

dos vasos sanguineos. A carta era de Theodora, as linhas muito poucas, e

assim, se bem me lembro: «Foi o mau anjo da minha vida que me levou para

onde tu estavas, Affonso. Faltava-me o inferno de hoje. Não bastava o

remorso: era necessaria a fatalidade do amor, da paixão. D'aqui por

diante ha-de rasgar-me o peito a desesperação dos reprobos, que Deus

lançou de si. Arrasto-me a teus pés a pedir-te perdão. Não me amaldiçôes

tu d'hoje em diante. Se tens padecido, perdôa, e Deus te dê o triumpho

na bemaventurança; se te esqueceste, escarnece-me. Que vingança maior?

Adeus. Alegra-te, que eu desejo a morte, e ella virá salvar minha pobre

alma d'este miseravel corpo.»

«Que lucta, meu amigo! As horas d'aquelle dia e d'aquella noite foram

uma continuada alternativa de alegria douda e de excruciante agonia!

Começava a escrever-lhe, e rasgava logo as cartas, envergonhando-me

diante de minha propria consciencia. A paixão ia tocando as extremas

onde principia a perversão moral. Já me queria parecer que não era

indignidade nenhuma responder-lhe eu, quer insultando-a, quer

atirando-lhe aos pés com o meu coração infame. Ultrajal-a e adoral-a era

então a despotica necessidade da minha cabeça allucinada.

«Eu carecia de um amigo, e não tinha nenhum a quem mostrasse as secretas

dôres, que escondera de todos. Tive ancias de uma alma, que me

escutasse. Lembraram-me todos os que mais tinham convivido commigo. Sem

excepção d'um só, eram todos futeis, e incapazes de me pouparem á sua

zombaria, se me vissem chorar. Suffoquei-me, atirei-me aos braços da

minha algoz phantasia, deixei-me dilacerar pelo abutre da soberba,

soberba de não ser ridiculo em nenhuma das minhas desgraças.

«Passaram tres dias. Na minha banca estavam tres cartas fechadas, e os

fragmentos d'outras, que eu destinára a Theodora. Abri as cartas,

reli-as, tive pejo e tedio de mim, rasguei-as e fui embriagar-me.

«Porque? porque não havia de ser eu o que seria todo o homem, abrazado

de amor, ou sequioso de vingança? Que tinha que eu, condoendo-me ou

escarnecendo-a, lhe perdoasse? Se alguem se rira de mim abandonado

d'ella, que maior victoria queria eu, senão a de fazer risivel o marido

da mulher castigada por sua mesma abjecção? Esta philosophia hedionda,

com que se pavonea a philaucia de muitos sujeitos, celebrados pela

inveja e admiração d'outros miseraveis do mesmo formato, quem me privou

de a seguir, e aproveitar n'um caso da vida, em que a minha cura não

podia esperar-se da religião, da moral, ou da volubilidade do meu

caracter? Não lhe respondi; é o que sei dizer do meu inflexivel pundonor

dos dezenove annos. Era uma feroz vingança que eu me infligia á conta do

covarde quebranto em que me deixára a apparição da mulher vil, arreiada

com as pompas da felicidade.

«O meu segundo anno de Coimbra foi um continuado suicidio. Desbaratei a

saude em toda a especie de desregramento e libertinagem. Não dei nos

olhos da academia, porque, n'aquelle anno de 1846, a fermentação da

guerra civil absorvia os espiritos alvorotados dos academicos. Fechou-se

a Universidade em Maio, quando eu, extenuado de insomnias e empeçonhado

de bebidas estimulantes, cahi de cama, com o sincero desejo e alegre

esperança de que me não levantaria mais.

«Escondi de minha mãe aquelle estado em quanto me não assalteou o

remorso de a não chamar ao meu leito, e confessar-me da vileza de alma

que me levára a destruir a minha vida por meios tão ignominosos. Foi

esta vergonha que me salvou. Pedi com ancia e lagrimas aos medicos que

me salvassem. Disseram-me que fosse para a Madeira recobrar vigor, e

viajasse depois um anno nos paizes temperados e arborisados. A meu vêr,

a sciencia queria dizer no seu receituario que eu estava em vesperas de

encetar uma viagem barreiras a dentro da eternidade.

«Confiei na juventude, na vontade de viver, e ergui-me. Sahi de Coimbra

para o Porto. Tenteei o meu espirito, animando-me a procurar as

montanhas saudosas, os meus queridos pinheiraes de Ruivães, os regatos

crystallinos, orlados de verduras em que minha mãe me via creança, a

colher boninas para lh'as entretecer nos cabellos. A minha alma amava

então estas cousas com o transporte arrobado e sereno dos tisicos: é que

o envolucro já lhe não empecia o filtrar-se n'ella o calor da luz ideal,

aquelle calmo ambiente em que se degela o sangue coalhado no coração.

«Venceu o desejo da vida. Isto que, um anno antes se me antolhou feio e

inhabitavel, aformoseou-m'o então o anhelo de viver. Até a côr do céo,

d'onde me choveram as alegrias dos dezeseis annos, me sorria e chamava.

Nem já o temor de me encontrar com Theodora pôde conter-me. Que

importava? Eu cuidei que a porção de minha essencia, captiva do amor

d'ella, se tinha caldeado e vaporado ao fogo, d'onde eu sahira

refundido, e mui estranho ao homem do outro tempo.

«Surprehendi minha mãe, sentada á sombra da carvalheira da porta,

relendo as minhas ultimas cartas, escriptas com a ternura da alma

alumiada pela alva d'um melhor dia. Ao contacto do peito da virtuosa,

senti exuberancia de saude, de alegria, e de uncção religiosa. Então me

considerei estreado em nova existencia.

«Esperava eu que se abrisse a Universidade para ir a Coimbra repetir o

segundo anno, cujas disciplinas nem sequer as tinha visto no index dos

compendios. Minha mãe dissuadia-me de voltar a Coimbra, dando como

desnecessaria a formatura a quem não havia de ganhar a vida por ella.

Eu, porém, desejava instruir-me; dava-me como necessario recolher idéas

que ao depois me aligeirassem no estudo os annos de toda a vida, que eu

designára passar na casa, onde meu pae tinha vivido a sua, com todas as

ditas da paz. Minha boa mãe transigiu. A dôce creatura, accusando-se

sempre de motora da minha desgraça, obrigára-se a expiar pela abnegação

e condescendencia. E de mais, ella temia que, alguma hora, me

reapparecesse a visão de Lessa.

«Que presentimento!

«Dias antes da minha destinada partida, fui ás Taipas despedir-me de meu

tio Fernão, que estava em Caldas. Ao entardecer sahi com minha prima

Mafalda a passear na carvalheira. Já era escuro, quando nos fizemos na

volta de casa. Ao atravessarmos a alamêda dos banhos, acercou-se de nós

um vulto de mulher rebuçado n'uma capa alvacenta. Mafalda apertou-me o

braço convulsivamente. O vulto parou em frente de nós, e disse n'um tom

ironico:--Consintam que os contemple na sua felicidade: é um prazer dos

felizes verem-se admirados.

«Reconheci a voz de Theodora. Mafalda sentiu o tremor do meu braço, e

reconheceu-a tambem de instincto.

«Desviei-me do caminho trilhado para seguir ávante. Theodora deixou

cahir a dobra da capa, em que occultava meio rosto, e disse n'um tom

arrogante:--Veja, snr. Affonso de Teive! Veja, que ainda sou formosa! O

coração está esmagado; mas a face ainda conserva as graças que poderiam

arrebatar maior alma que a sua.

«Deteve-se alguns segundos arquejante: eu ouvia-lhe o latejar do alto

seio no fremito da sêda do corpete. Depois, com um gesto de arremesso,

lançou-me aos pés um volume, e afastou-se a passo rapido.

«Levantei o objecto arremessado, e conheci que eram papeis e um objecto

de mais solidez, deviam de ser as minhas cartas. O restante que seria?!

«Mafalda ia murmurando:--Que mulher, santo Deus! que ousadia!... Eu bem

desconfiava que era ella. Quando tu estavas a dormir esta tarde, vi

passar esta mesma creatura, assim encapotada sobre um grande cavallo,

com um criado de farda. Tua mãe tinha-me dito como a vira em Lessa, e

meu pae descreveu-m'a tão pelo miudo que a adivinhei. Não t'o disse, e

pedi a Deus que te levasse depressa d'aqui...--Não receies, minha boa

prima--disse eu a Mafalda--que esta mulher na minha vida, já agora,

apenas póde ser um estorvo de tres minutos, quando eu passeio nas

Caldas--Minha prima replicou:--Não te illudas, meu primo: esta mulher é

a tua sina maldita.

«Sorri-me, e fui examinar o pacote. Eram as cartas cintadas com uma fita

preta, e d'esta fita pendia uma pequena chave; era tambem uma caixinha

de tartaruga fechada. Entendi que a chave pertencia á caixa. Abri-a, e

vi uma trança de cabellos, com tres flôres resequidas compostas entre as

madeixas, como se as estivessem enfeitando. Reconheci as tres flôres:

tinha-lh'as eu levado do jardim de minha mãe, em dia dos seus annos.

«Tirei a trança, e insensivelmente, a contemplal-a, achei que a tinha

perto dos labios. Circumvaguei os olhos, a examinar que me não vissem.

Estava sosinho, e fechado... Beijei os cabellos de Theodora, meu amigo!

Peço-te desculpa de não corar agora; consinto, porém, que, se alguma vez

escreveres esta historia, ponhas seis pontos de admiração, quando

chegares aqui, e discorras o melhor que souberes e poderes, ácerca da

miseria do bruto que chora, e beija tranças de cabellos, do bruto que ri

de seu mesmo vilipendio, do bruto, em fim, chamado _homem_. «Ia depôr as

madeixas no cofre, receioso de alguma surpreza, e então vi um papel

dobrado no fundo da caixinha. Era uma carta. Escondi-a sofregamente,

fechei os cabellos, escondi o cofre e as minhas cartas no sacco de

noite, e palpitante de commoção sahi do meu quarto, e fui respirar no

escuro d'uma varanda, onde presumia não encontrar alguem.

«Apenas sorvi um hausto de ar, que me chegou ao coração impregnado das

auras balsamicas da minha mocidade, ouvi um respirar alto e tremente.

Fui á extrema da varanda, e vi minha prima, com as faces entre as mãos,

repuxando ao seio os soluços com anciada violencia. Chamei-a

carinhosamente. Interroguei-a. Quando bem a comprehendi, não sei

dizer-te que entranhado compungimento me cortou a alma! Cahiram-me nas

mãos as lagrimas de Mafalda... Perguntei-lhe por que chorava.

Respondeu-me:--São as primeiras lagrimas: é por ti que as choro, meu

primo. Deus deixa-te perder... Não ha ninguem que te possa salvar

d'aquella mulher.--E, desprendendo-se das minhas mãos, fugiu a soluçar.

«Eu levantei olhos ao céo, e disse, em meu espirito, com terror quasi

infantil:

--Não deixeis que eu me despenhe no mesmo abysmo, d'onde a vossa

misericordia não tem querido salvar-me!

«E cuidei que o céo, se abrira á minha oração com um milagre.

«A imagem de Theodora passou ante mim; vi-a repulsiva, abjecta,

vilissima, e prostituida. Subito, n'um disco luminoso, desenhou-se-me o

vulto angelical de Mafalda, com a face em lagrimas, humilde como uma

santa, e ao mesmo tempo altiva como a virtude sem nodoa.

«Amei então minha prima; todas as estrellas do céo m'a estavam

bem-fadando para mim; todos os rumores da noite diziam commigo um hymno

ao Senhor que me descaptivára das ciladas da mulher fatal, que no

descaro mesmo de sua audacia me fascinára, e com aquelles cabellos

tecera o baraço de estrangulação da minha dignidade.

«Fui, fervoroso de ternura, em busca de minha prima. Encontrei-a á

cabeceira do leito de seu pae. Chamou-me o tio para os pés da sua cama.

Sentei-me com inquieta alegria. O velho achou-me outro em olhar, em tom

de voz, em ar de rosto. Queria saber o segredo da transformação.

Perguntava a Mafalda se o sabia. A menina sorria com aquella distincta

angustia que lacera a alma sorrindo, por que as lagrimas só servem para

exprimir os soffrimentos communs.

«Assisti ao chá de meu tio, pedi-lhe a benção, e recolhi-me ao meu

quarto. Minha prima despediu-se de mim sem me fitar no rosto. A sua

natural altivez soffria, depois que eu a surprehendêra chorando

provavelmente. Este resguardo augmentou a divinisação de Mafalda.

«Fechado na minha alcôva, abri a carta de Theodora. Está n'este masso

lacrado, ha quatorze annos. Quebre-se o lacre, por amor da

authenticidade da historia... Aqui a tens. Lê tu, em quanto eu dou folga

aos pulmões. Ha muito anno que não fallei tanto tempo!

Li a carta de Theodora, cujo traslado segue:

«Quem te disse a ti que eu tinha cahido diante de mim mesma, Affonso?

«Quando te dei eu direito de suppôr que o teu silencio, em resposta a um

grito do coração, me esmagaria os brios de mulher, que, d'um sopro, faz

saltar de suas vestes a lama do teu desprezo?

«Quando eu te appareci magnifica de dedicação, fizeste-te mesquinho tu.

As minhas lagrimas figuraram-se-te o pus d'um coração corrompido; e eram

soro do mais nobre sangue.

«Não podeste chegar com a fronte á altura da minha, e apedrejaste-m'a!

«Quem cuidas tu que és, soberbo senhor, que voltas o rosto da tua

escrava, e não sabes sequer usar a misericordia de dizer á mulher, que

te ama, que não seja infame, amando-te?!»

N'este ponto suspendi eu a leitura, tomei a respiração, e disse:

--Esta senhora tem estylo, ou eu não entendo nada de estylos! Que

interrogatorio!

«Podes rir, que eu tambem cá estou mordendo os beiços para não espirrar

uma casquinada na cara do antigo Affonso de Teive--disse o meu amigo.

--Mas o estylo--tornei eu sinceramente agradado da leitura--o estylo

aqui não póde ser a mulher: aqui, ha, pelo menos, a triple intelligencia

de tres escriptores de melenas sacudidas aos quatro ventos da

inspiração! Por Hercules! Isto sim que é mulher... e «aqui ha que vêr»

como diz o Garrett.

--E que lêr--ajuntou Affonso de Teive--continúa, se queres.

Perfilei as minhas faculdades intelligentes, e segui a leitura:

«A contas, homem de ferro, que endureceste o teu fragil barro d'outro

tempo ao fogo de baixas paixões, a contas com a mulher desprezivel!

«Que fazias tu, quando eu me estorcia de saudades de ti, e dôres do meu

captiveiro, dentro das grades das Ursulinas?

«Quando soubeste que a tyrannia me fechava a sete chaves n'uma cella, e

me media os atomos de ar, que eu respirava a furto, que fazias tu para

resgatar os quinze annos d'uma mulher que queria o sol das flôres, das

aves, dos mendigos, do ultimo verme que se arrasta e cumpre o seu

destino debaixo dos olhos de Deus?»

--Parece-me, reflecti eu, que esta senhora arredonda ambiciosamente os

periodos, meu caro Affonso; e, se me dás licença, direi que ha estylo de

mais n'este periodo!... Estou morto por te perguntar que impressão te

fazia isto ha quinze annos!...

«Lê, e no fim fallaremos--disse Affonso. E eu li:

«Não respondas. A vil, a abjecta, a desgraçada é generosa. Não

respondas. Ri, e escuta.

«Abandonada por ti, enganada, não sei por que nem com que fim, por tua

mãe, achei-me fraca para cruzar os braços, e esperar a morte. Á borda do

abysmo, vi uma tabua de salvação. Sabia que, segurando-me n'ella, as

mãos se rasgariam em chagas incuraveis. Sabia-o; mas agarrei-me á tabua

de salvação. Escutei a desgraça; que não tinha outro anjo, nem outro

demonio que me aconselhasse. Escutei-a, e aceitei o marido que ella me

deu. Perdi-me para a vida da alma; mas encontrei a vida dos olhos e dos

ouvidos, e do seio, onde me roia a serpente da soledade e do desabrigo.

«Vi arvores, vi estrellas, ouvi os canticos da terra e os amorosos

murmurios da natureza festiva. No centro do mundo era eu a unica mulher

sem mãe, sem pae, sem amigo, sem coração que se abrisse ás cinzas do

meu. Não importa. Via o sol no firmamento; e para além do sol, a

infinita luz dos que bem-disseram a mão do Senhor que, á sua vontade,

desdobra um crepe de trevas sobre os corações, que, em sua innocencia,

não ousam interrogal-o como Job!»

--De mais a mais--reflecti eu--lida nos livros sagrados!... Posso, sem

indiscrição, perguntar se a authora d'esta carta morreu ou vive

escorreitamente?

«Espera que a concatenação dos factos te elucide--respondeu Affonso.

Prosegui, lendo, com espanto maior que o meu costume, se acerto de topar

cousas escriptas por pessoas de juizo duvidoso:

«Trasbordou um dia a amargura de minha alma. Não sabia onde me levava a

vertigem. Corri leguas. As arvores, que gemiam um som, as fontes que

tinham uma voz, os trovões que estalavam do céo de bronze, as catadupas

que bramiam no despinhadeiro, tudo me dizia o teu nome. Corri as

montanhas que nos viram meninos; reconheci a fraga onde nossas mães se

sentavam; orei á cruz de pedra, que está na quebrada da serra. E não te

vi. Dous mezes te procurei, sem balbuciar o teu nome. E, quando ha um

anno te avistei encostado ao hombro de tua mãe, a voz do meu orgulho de

desgraçada disse-me: Se elle quizer que tu te percas por elle, amanhã

não terás honra, nem familia, nem marido, nem creatura sobre a terra que

te não insulte.

«E escrevi-te, Affonso! Aquelle papel era uma renunciação, aquellas

palavras queriam dizer:--Dá-me a perdição como salvamento; dá-me a

infamia como gloria; o mundo vai apedrejar-me, e eu cuidarei que elle me

acclama virtuosa; todas as devassas me julgarão indignas d'ellas; e eu,

contente da minha deshonra, estenderei benignamente a mão a todas as

miseraveis, que m'a cuspirem.

«E tu, Affonso? Como me julgaste morta para a virtude, aproximaste-te do

cadaver, pozeste-lhe sobre o peito um pé, calcaste, viste-lhe nos labios

o sangue do coração, e escarraste-lhe!

«Voltei do outro mundo. A mulher, que viste ha pouco, era um phantasma.

Os cabellos negros, que adornastes com tres flôres n'aquelles formosos

quinze annos, cahiram-te aos pés. As flôres vem aradas do fogo do

inferno. O phantasma voltou ás suas labaredas, para nunca mais te

crestar o riso dos labios com as chammas dos seus olhos. Vai tu ao céo,

e pede a Deus que me deixe adorar-te na eternidade das penas. Pede-lhe

que me dê eternidade para a expiação, e eternidade para o amor. Adeus.»

Não sei bem dizer d'onde me vieram as lagrimas. Sei que terminei a

leitura da carta, já quando os olhos mal discriminavam as letras.

Como a gente, ás vezes, chora?...

Era o estylo!

Amor de Salvação · 第 18 / 34 题