As filhas do desembargador Figueirôa rodeavam o primo Affonso de
agrados, de gozos familiares, e recreios, tendendo tudo a divertil-o de
sua taciturna melancolia. A senhora de Ruivães, escrevendo a seu irmão,
pedia-lhe que se descuidasse em materia de estudos, e tomasse muito a
peito a distracção do filho, qualquer que fosse o gasto que ella
houvesse de desembolsar. Os prazeres da sociedade eram temporãos ainda
para a idade de Affonso. Bailes e theatros atediavam-no só em cuidar que
havia de ir affrontar-se com centenares de mulheres entre as quaes nem
sequer em sombra se lhe offerecia, como agro alimento de saudade, a
imagem de Theodora. O pudor dos dezesete annos, a indole nada
communicativa, o receio de ser posto a riso por suas primas,
encrudesciam, na soledade silenciosa, a paixão do moço. Comprára-lhe o
tio, por ordem de sua irmã, um cavallo. Affonso recebeu a dadiva com
satisfação, por poder assim, quando lhe aprazia, alongar-se da cidade, e
refugiar-se em alguns arvoredos das quintas limitrophes de Lisboa.
O local mais attractivo do seu espirito era a quinta dos condes de
Pombeiro, em Bellas. Desde o reinado de el-rei D. Manoel que as gigantes
arvores d'aquella magestosa ancian estavam frondeando, e asylando as
gerações de aves, como para alegrarem com suas musicas, e gasalharem com
suas sombras o moço foragido do estrondear da cidade. Por alli as horas
lhe corriam placidas, contentes nunca, bem que a tristeza d'entre
arvoredos, ao murmuroso cahir d'agua em sonora bacia, seja uma
particular tristeza, que, relembrada depois, dá rebates de saudade,
saudade como a sentimos de alegrias para sempre idas com a sazão das
breves e donosas verduras da vida.
De cada vez que Affonso ia á quinta predilecta, em cada arvore nova
entalhava as letras iniciaes dos dous nomes, que elle imaginava, apesar
da distancia e dos revezes, atados para sempre com applauso de Deus.
Este pagão d'amor e por amor, á imitação de todos os amadores
visionarios, cuidava que a divindade se intromette n'estas brincadeiras
da terra, chamadas paixões, passatempo de muito folgar que, algumas
vezes, nas suas folganças e corrimaças, esbarra na sepultura aberta, e
lá se atira em corpo, deixando cá fóra a alma infernada na deshonra e na
execração. E querem os pobresinhos, com o peito aberto ao abutre de suas
chimeras, que Deus intervenha nos seus infernados brinquedos!...
E Affonso, escondido nas sombras escuras de Bellas, chorava por
Theodora, e, alteando o rosto ao céo, pedia ao Senhor que lhe visse as
lagrimas, e houvesse piedade d'ellas.
O desembargador inquietava-se com as longas ausencias do sobrinho; mas
não o contrariava. As filhas é que mais se queixavam da selvatiqueza do
primo, que se ia á aldêa a conversar com arvores e penedos, e deixava
suas primas que tanto se interessavam em divertil-o. N'estes queixumes
das gentis meninas, transparecia um mal disfarçado despeito de todas e
de cada uma. Qualquer d'ellas, a resguardo das outras, havia pensado em
ser a mais amoravelmente olhada dos olhos de Affonso, o galhardo moço,
que tantas graças tinha, como se lhe não bastasse ser rico! O amador da
orphan das Ursulinas, se podesse suspeitar que suas primas conjuravam em
disputar-lhe uns grãosinhos do incenso de Theodora, não faria menos que
odial-as. Estes escrupulos são a religião, o ascetismo dos illuminados
de amor, illuminados lhes chamarei eu em respeito do leitor maior de
trinta annos, e compaixão de mim, que ambos nós já fomos tambem
illuminados, e não é por nossa vontade que estamos agora atolados n'este
lamaçal, onde, por sobre todas as desgraças e vergonhas, ainda queremos
vêr na superficie lamacenta e torva espelharem-se as estrellas do céo da
nossa mocidade!
Affonso esperava ainda. Sua mãe mentia-lhe. Seu tio, aferrado ás
tradições de avós, devia de tramar a quebra do casamento destinado com
uma menina, apenas formosa, rica, e pura como um anjo a quizera para si.
É o que Affonso pensava do silencio da mãe, e das reflexões do velho.
Estava, uma tarde de Agosto, Affonso em Bellas. Desde o dia anterior que
não voltára a Lisboa. O tio, como elle não voltasse ao segundo dia,
metteu-se á sua carruagem, e foi procural-o, e entregar-lhe cartas
recebidas do norte. Uma era de sua mãe, outra d'um seu tio paterno,
fidalgo de Barcellos, o mais acerrimo impugnador do casamento de um
Teive Lacerda Corrêa Figueirôa, com uma mulher da Fervença, que, dizia
elle, por nome não perca.
A carta da mãe dizia simplesmente:
«Não era digna de ti, meu filho, Deus bem m'o tinha dito, e o coração
estalava-me em ancia de t'o dizer. Agora, meu filho, ou cumpre o que o
tio Fernão te pede, ou faz o que a honra te aconselhar.» E poucas mais
expressões de conforto religioso; mas insinuantes como sabem dizel-as as
mães, que nunca se temem de corar diante de seus filhos.
A carta de Fernão de Teive era mais prolixa versando quasi toda sobre o
casamento de Theodora com Eleuterio.
Parecem-me dignos de extracto uns relanços d'esta carta, que eu copiei
do original. Não parecem de fidalgo velho, e estranho ao estylo
picaresco do folhetim:
«....... Eu estava em Braga, de visita aos primos Vasconcellos do
Tanque, e acaso vi o cortejo nupcial da morgada sem morgadio.
Predominavam as eguas de albardão e rabicho na parte equestre do
prestito, que era luzido, por que os arreios brilhavam, principalmente
as barbellas. O noivo ia desencabrestado, visto que tirára bula para
isso, quando tirou dispensa do parentesco. A morgada, com cara
relamboria, levava ares fulos; e procurava as estrellas ao pino do meio
dia, pasmada de vêr que ellas não vinham á janella admiral-a. Eu,
lembrando-me que a vergontinha da Fervença esteve a querer trepar pelos
troncos de Farelães e Numães, dei louvores a Deus, e parabens aos nossos
antepassados!.............................................................
..........................................................................
«Perguntei quem eram os figurões do prestito. O meu sapateiro conhecia
quatro. Varreram-se-me da memoria os nomes, e só me lembro que levavam
cara de terem bebido em jejum á saude da noiva. O lapuz do noivo queria
montar á Marialva; mas o ginete, quando chegou á Cárcova, festejou a
suciata com quatro couces que iam apanhando os jarretes da morgada, como
amostra dos que ella ha-de levar do marido................................
..........................................................................
«Tinhas a côrte celestial a pedir por ti, Affonso! Quando te deu na
venêta ser marido de Theodora, em quanto a mim tinhas lido o folheto que
reza de uma que era formosa e sábia. Vai ás arcadas do Terreiro do Paço,
que lá a encontras pendurada no cordel do livreiro cego. Theodora por
Theodora, antes a do papel de mata-borrão, que est'outra é um borrão da
tua mocidade, que felizmente o tempo ha-de gastar.........................
..........................................................................
«Agora é tempo de te dizer que tens uma prima, e eu tenho uma filha. Se
a queres esposar, vem quando estiveres farto da capital. Está senhora, e
foi educada como as senhoras da nossa raça. Aos meus olhos de pae,
Mafalda parece-me gentil e esvelta. Em palavras é discreta como se os
cabellos, em vez de puro ouro, lh'os tivesse embranquecido a
experiencia. Em acções creio que nenhuma ainda praticou de que me não
deva honrar, e bemdizer a mãe que a educou, e o sangue illustre que lhe
fórma o coração.
«Tua mãe compraz-se na minha resolução. Vem gozar as delicias puras
d'uma mocidade bem encaminhada, e recebe a benção de teu tio
_Fernão de Teive_.»
Lidas estas cartas, Affonso levou o lenço ao suor da testa e ás
lagrimas, que lhe cahiram a quatro. O tio, já avisado do successo de
Braga, discursou largamente de pitada no dedo, e os oculos montados na
mais grave das attitudes. Affonso diz que o não ouvira longo tempo, e o
abominára depois que o ouvira.
Quizera o desembargador leval-o comsigo na traquitana; mas o moço
rebellou-se arrogantemente contra as ordens do velho, já irritado da
pertinacia do sobrinho em ficar, terceira noite, fóra de casa. Affonso
internou-se de corrida entre o arvoredo, n'um impeto de desesperação ou
loucura. O magistrado deixou-o, e foi para Lisboa, d'onde participou á
irmã o resultado das cartas, e aproveitou o ensejo para vaticinar que
Affonso ia caminho da demencia a passos de gigante.
Disse-me Affonso que, n'aquella noite, fôra ter a Mafra; e repousára, na
madrugada, encostando a cabeça a um degrau do templo. Ao nascer do sol,
quiz agitar-se em nova caminhada; mas o cavallo, prostrado de fadiga e
fome, resistiu impassivel á espora. Esta contrariedade, que faria rir o
leitor, pungiu acerbamente Affonso. A mais tragica desventura tem uma
physionomia comica, se bem lh'a procuramos. Escusavel seria o riso de
quem observasse o cavalleiro, roxo de febre e colera, esporeando os
ilhaes do esbuxado cavallo, decepado de jejuns, e correrias arabes pelos
descampados, onde seu dono acalmava as vertigens da paixão! Que funesta
sorte a do irracional que dá em poder de tal amo! O infeliz, privado do
dom da palavra, nem sequer póde questionar com o dono a supremacia da
sua racionalidade!
Em quanto o cavallo reparava as forças na manjadoura, Affonso escreveu a
sua mãe, pedindo-lhe recursos para se ausentar de Portugal, e licença
para se demorar no estrangeiro até poder regressar esquecido de
Theodora. Escreveu tambem ao tio Fernão, lastimando-se de não poder
aceitar a felicidade das mãos de sua prima Mafalda.
Feito o proposito de viajar, o phrenesi descahiu em sombria, mas serena
tristeza.
O céo negro abria-se-lhe, a instantes, em relampagos de luz. Atirava
elle com a alma ao futuro, ao vago, ao sonho indelineavel, e retrahia-se
com ella a uns rapidos assomos de alegria, que não eram senão rebates de
esperança, esperanças tão amigas dos dezoito annos! Viajar era-lhe já
uma ancia; cria-se resgatado assim das penas, e só assim que nenhum
outro lenitivo humano lhe poderia já valer.
Embebecido n'esta esperança, voltou para Lisboa, e recolheu-se
tranquillo a casa do desembargador. Ninguem fallou em Theodora. As
primas forcejavam por distrahil-o sem mostrarem proposito d'isso. O
velho proferia maximas umas de Seneca, outras d'elle ácerca das paixões;
abstendo-se, porém, de apontar o alvo onde iam bater as sentenciosas
frechas. Affonso, n'aquelles oito dias, podera recopilar maximas e
proverbios com que, no decurso de longa existencia, regesse as suas
acções, e repartisse sciencia de bem viver por todas as pessoas
transviadas do caminho direito; porém, confessa o inattento sobrinho do
apotegmatico desembargador que apenas se recorda de que eram em latim as
maximas de Seneca, e quasi latinas as do tio em virtude do estylo graudo
e philintiniano em que as compozera. O certo foi que Affonso não
aproveitou nada, nem mesmo o gosto da latinidade.
Mais vernaculo mentor lhe estava reservado, como ao diante se verá.
N'um dos dias em que Affonso estava esperando recursos para se expatriar
com a sua dôr, chegou a Lisboa a fidalga de Ruivães. Affonso, desgostoso
da surpreza, bem que as lagrimas o consolassem ao vêr sua mãe, receiou
que ella viesse apostada, com o imperio dos prantos ou da authoridade, a
demovel-o de viajar. A santa senhora, entrando-lhe na alma, sorriu
benignamente, e disse-lhe:
--Eu vim despedir-me de ti, meu filho, já que tu, antes de sahir de tua
patria, não quizeste ir abraçar tua velha mãe, e abraçal-a talvez para
nunca mais a tornares a vêr. Vim eu, sabe nosso Senhor com que fadigas
aqui cheguei. Mas sempre te devo dizer, Affonso, que eu ouvi muitas
vezes contar a tuas avós que era costume em nossa geração nunca sahirem
da patria para as guerras contra a Hespanha os militares ainda mancebos
e os generaes já encanecidos, sem irem de Lisboa ao Minho despedir-se
dos seus, e orarem em commum diante da cruz a que suas mães tinham orado
com elles tenrinhos nos braços. Este era o uso da nossa familia antiga,
meu filho, e não sei por que não ha-de continuar comnosco tão salutar
costume. Aos pés da cruz a que elles oravam, tambem eu orei comtigo em
meu seio, e lá aprendeste de minha bocca as tuas primeiras orações.
Sempre pensei que o meu nome ao menos--nome dôce de mãe que te
estremece--seria algum tanto mais em teu coração, e esse pouco bastaria
a que o meu Affonso, disposto a desterrar-se sem mais outra razão que a
sua pouca força de alma, o não havia de fazer, sem me ir dar com
anticipação o abraço, que eu lhe pediria nos ultimos instantes da vida.
Aqui estou eu, pois, meu filho, para te abençoar, e ficar pedindo a
Jesus Nosso Pae que te guie, e ampare, e restitua aos que te ficam
chorando. Em quanto a dinheiro, Affonso, tu dirás o que queres, que
prompto está. Prasa a Deus que elle te não sirva de ruina ou deshonra.
O desembargador, que estivera ouvindo esta affectuosa e branda censura,
quando a irmã concluiu, foi direito ao sobrinho, bateu-lhe no hombro com
severidade, e clamou:
--Acorda, coração de pedra!... Córa de pejo, e dôa-te o arrependimento,
filho mau!
--Meu mano--disse a senhora--o nosso Affonso não é mau filho, nem tem
acção de que deva corar. Se a tivesse, eu não seria a mãe que sou. O que
elle tem é ser infeliz; mas quem o encaminhou n'esta má vereda fui eu.
--Tu, Eulalia?! Como assim?--perguntou o desembargador interdicto.
--Eu, eu fui, quem primeiro lhe fallou em Theodora, e lhe preparou o
coração para captivar-se da filha da minha primeira amiga da mocidade.
Cuidava eu que o nascimento honrado de Theodora a dispensaria de herdar
fidalguia, para que ella fosse excellente esposa de meu filho, e digna
de o ser do filho da mais illustre mãe. Eu enganei-me, e elle foi
enganado por mim. Affonso apaixonou-se; quando lhe quizemos valer, era
tarde; tardiamente aconselhei; e meu filho, se não fosse um anjo,
poderia ter-me obrigado a discreto silencio, quando eu, pouco ha, lhe
chamei fraco.
Affonso lançou-se em pranto desfeito, aos braços de D. Eulalia; e, após
curtos instantes de offegante silencio, exclamou:
--Eu não irei viajar, se a sua vontade é essa, minha mãe. Eu tenho em
sua alma um thesouro de bens e de alegrias. Viva, minha querida mãe, o
que eu mais necessito é a sua vida!
--Graças vos dou, meu Creador e Redemptor!--clamou a senhora, muito
commovida, com as mãos postas--Grande é o poder que daes ao coração
maternal! Eu não vos merecia tanto, meu Deus! mas a vossa misericordia
não mede os merecimentos pela afflicção com que as mães vos chamam!
E, volvendo o rosto ao filho, cobriu-o de beijos, e tomou-o para o seio
com o fervor e mimo com que o acariciava na infancia.
O magistrado e as filhas solemnisavam o espectaculo chorando e rindo de
contentamento.