Belleza absoluta, de têlhas abaixo, ha uma só, que é a da mulher
formosa; e, na variada manifestação de belleza em diversidade de typos,
ha uma superior formosura, que constitue o bello universal, o bello que
prende e leva todos os olhos. A mulher, assim dotada, tanto impressiona
o espirito educado na visão e admiração das maravilhas da natureza e
arte, como o espirito desculto de toda a compostura e discernimento.
Dá-se o exemplo d'esta cousa formulada em these abstrusa na embriagadora
influição dos olhos de Theodora no animo selvagem de Eleuterio. A menina
de quatorze annos, que o lerdo vaqueiro comparava a um arenque,
appareceu-lhe aos dezeseis na grade do convento, e atordoou-o. O moço,
querendo exprimir ao pae a sensação recebida n'aquella hora, disse com
expansiva naturalidade:
--Quando ella me espetava os olhos, havia de dizer que a minha alma
estava fóra do corpo! Eu queria dizer-lhe alguma cousa, e a lingua
grudava-se-me ao céo da bocca. Quem me dera ser rei, e que ella fosse
uma pastora de cabras!
Se a linguagem fosse mais joeirada de plebeismos, a concisão da idéa
poderia attribuir-se a Shakspeare. A mais crystallina agua é a que
rebenta de penhascos ermos: assim, de espiritos selvaticos, resaltam por
vezes umas idéas limpidas, d'uma sensibilidade original, que faz pensar.
Romão ficou contente da resposta, decorou-a, e assim a pespegou a
Theodora. A menina, vesada á linguagem mais florida ou mais delicada de
Affonso, riu interiormente dos termos rusticos do primo, e de fóra
compoz o gesto para fingir que o não entendera. O tutor, porém,
instinctivo avaliador do capital do tempo, sem saber que os economistas
inglezes chamavam ao tempo capital, repetiu, já dilucidando-as, as
palavras de Eleuterio, aproando o discurso ao ditoso remanso do
casamento, que elle, na sua locução figurativa, denominava um _lindo
arranjo_.
A morgadinha ouviu anciada o tio, e respondeu com um ataque de nervos,
que era já o terceiro que a insultava; sympathica doença em meninas
pallidas, se é o amor contrariado que lhes desmancha o apparelho
nervoso. Theodora soluçava agudos gemidos, que iam reboando pelos
dormitorios. Acudiram algumas freiras, e transferiram-na á sua cella. A
prelada foi á grade averiguar do accidente, e sahiu convencida de que a
orphan era uma douda, a quem Libana, de impudíca memoria, ensinára a
fingir ataques nervosos. Romão dos Santos sahíra do convento no
proposito de consultar um egresso do Carmo sobre os tregeitos e feitios
que vira em sua sobrinha, para applicar-se-lhe a reza purgativa de
demonios, se o frade entendesse que ella os tinha no corpo. O zeloso e
invencivel demonifugo foi ao convento, avistou-se com a suspeita
energumena, mandou ás freiras que depozessem ácêrca das malfeitorias
attribuidas ao espirito immundo, e retirou-se capacitado de que a
morgada da Fervença estava possessa d'uma legião de travessos e
intrigantes diabinhos que usam, contra todo o natural, aninhar-se entre
religiosas, não as poupando mesmo, quando ellas tomassem o expediente
salvador do conhecido gallego da fabula de Almeida Garrett. Era
illustrado o egresso.
No entretanto, soubera Theodora que Affonso de Teive fôra para Lisboa.
Esta partida azedou-lhe a vaidade, sem embargo de ter sabido a
destemperada arremettida que elle fizera contra a porteira, e as
vergonhas e trabalhos que lhe ia custando ao pobre moço aquella façanha.
Porém, ninguem lhe dissera que dôres o pozeram á borda da sepultura, que
saudades o crucificavam em Lisboa, e que vans solicitações fazia a mãe
de Affonso para assegurar á filha da sua defunta amiga a certa
realisação do casamento.
Sobreveio ao despeito o enojo crescente, que mortificava a reclusa,
sempre espiada, e perseguida de velhas conselheiras, que tomaram á sua
conta salval-a. Ao despeito e ao enojo, acresceu o visital-a com mais
frequencia, e um pouco melhorado de figura, seu primo Eleuterio.
D'antes, a cabeça exterior do moço era horrida, toda escadeada da
tesoura habil em tosquiar rezes, tufada de grenhas, com umas rêpas
caracoladas sobre as orelhas, e aquelle todo lustroso de azeite. Depois,
appareceu Eleuterio com o cabello cortado á escovinha, e os caracoes
banidos. Depoz a casaca no gavetão-museu da familia, e envergou uma
judia, como se usava então, com matizes e florões nas costas, e borlas
de apertar no pescoço. A pantalona continuava-se em polaina até á ponta
do pé, e abotoava sobre meio palmo do artelho com botões de
madre-perola. Além d'isto, o pae deu-lhe o relogio avoengo, que, no
continente e conteudo de caixas sobrepostas, parecia a baixella d'uma
familia, desde a tina do banho até á bacia do lavatorio. Os berloques
d'este thesouro, que não regulava ha quarenta annos, eram placas de
differentes pedras, e sinetes periformes de tal tamanho, que pareciam
armas de defeza.
Theodora custou-lhe a reconhecer o primo Eleuterio, afóra mãos e pés,
que nenhuns outros podiam confundir-se com os d'elle, a despeito mesmo
das torturas em que os trazia entalados. O rapaz tinha conquistado de
sua prima uma admiração comparativa: era já grande salto dado para
dentro do coração da menina.
Li em algures, e estou convencido d'uma verdade que sôa como paradoxo: e
é que o espirito de cada pessoa tem muito que vêr com o modo como ella
está entrajada. A intellectualidade apouca-se e confrange-se quando o
sujeito se olha em si, e se desgosta da compostura dos seus vestidos. O
desaire do espirito como que se identifica ao desaire do corpo. As idéas
sahem coxas e esconças do cerebro; a expressão tardia e canhestra
denuncia o retrahimento da alma: ha o quer que seja phenomenal que eu
tivera em conta de desvario meu, se muitos sujeitos me não tivessem
confessado semelhantes segredos de psycologia, em que o alfaiate
exercita importante alçada.
Demonstrado isto, explica-se o atavio de palavras com que Eleuterio se
sahiu no palratorio, no dia em que se mostrou desfigurado a Theodora. De
vez em quando, o moço baixava modestamente os olhos requebrados sobre os
berloques, e ao levantal-os para sua prima já nos beiços lhe borbulhava
alguma idéa bonita. Igual fortuna o bafejava, quando, acaso ou por
acinte, se via de polainas, abotoadas tanto ao justo da canella, que se
ficava algum tempo narcisando nos pés.
D'este primeiro colloquio sahiu a morgada pensativa. Algumas senhoras,
grandemente e astuciosamente admiradas, entraram na cella da menina a
perguntar-lhe se era, em verdade, seu primo Eleuterio o paralta que a
visitára. Theodora respondia que sim entre ufana e desdenhosa. As
freiras benziam-se, e exclamavam:
--Que perfeito rapaz elle se fez! Ninguem havia de dizer o que sahia
d'alli! Em Braga não passeia outro que o valha, nem quem o exceda.
--Seu primo é uma figura que dá na vista!--ajuntava a mais maliciosa das
freiras para não ficar em peccado com a sua consciencia.
Theodora, quando acordou na manhã seguinte, viu duas imagens: uma a
ennevoar-se e esvair-se como sonho que a memoria não póde já reter: era
a imagem de Affonso; outra avultou-lhe completa nos menores traços,
radiosa, animada e animadora: era a imagem de Eleuterio Romão dos
Santos.
Ergueu-se alegre, abriu a janella do seu cubiculo, aspirou o ar do céo
que nunca lhe parecera de tão lindo azul, e invejou as aves que
volitavam mui serenas gorgeando, ou regirando umas jubilosas voltas, que
á menina se figuraram as delicias da liberdade.
Amava ella Eleuterio Romão?! Não amava, disse-o ella, e eu juro nas
palavras de Theodora. O que ella amava era a liberdade; os anhelos de
sua alma anciavam sofregos um viver, que o temperamento lhe estava
pedindo a gritos, gritos que a sociedade não escuta, não acredita, e não
perdôa. O que ella via em Eleuterio era o homem já desfigurado da
repulsão primeira; o homem aceitavel como libertador de um seio que quer
encher-se de perfumes, sem se dar em servidão ao homem, que lhe vai
descancellar os adytos do mundo. Assim é que muitas mulheres tem amado
aquelles que as salvam; d'este amor, assim chamado por não haver mais
elastico epitheto que dar á cousa, é que surdem os irremediaveis
infortunios, os odios irreconciliaveis, e as affrontas que levantam as
campas, encerram algozes e victimas, e ficam ainda de pé sobre ás lousas
infamadas, pregoando o opprobrio dos filhos gerados no crime e
amaldiçoados na infamia de suas mães... Colho as vélas; que, n'este
rumo, ia varar em semsaboria encapotada em moralisação: cousa duas vezes
importuna.
Conseguira, n'este tempo, a senhora de Ruivães que uma secular das
Ursulinas entregasse uma carta á morgada, carta de esperanças, alento, e
consolações, com miudas noticias dos padecimentos do filho em Ruivães, e
das penas e receios que o desesperavam em Lisboa. Terminava a carta
promettendo á menina que, antes de cumpridos dous annos, os votos de
todos se haviam de realisar diante de Deus, com tanto que Theodora
con-servasse firmeza, coragem, e constancia.
--Dous annos!--disse entre si a morgada--Esperar dous annos n'este
purgatorio!... Se Affonso me ama, porque não ha-de vir já roubar-me
d'este carcere? Dous annos! e viveria eu aqui tanto tempo á espera de
não sei que?! Eu captiva aqui dous annos, e elle em Lisboa a
divertir-se!... Se ao menos eu o esperasse em liberdade, os dias iriam
menos arrastados; mas, privada dos prazeres que elle está gozando,
esperar um futuro talvez duvidoso... é loucura! Quem me diz a mim que
Affonso, n'este espaço tamanho de tempo, se não apaixona por outra? Se
me elle ama, como dizia, e a mãe me diz agora, quem nos impede de
casarmos já? Se somos muito novos, lá virá occasião de envelhecermos. O
que eu tenho, meu é já; ninguem m'o rouba por eu casar contra vontade do
conselho de familia... Dous annos!...
E, n'aquelle dia e nos dous seguintes, Theodora, de cinco em cinco
minutos, dizia: _Dous annos!_ e ficava meditativa, até de novo exclamar:
_Dous annos!_
Respondeu a morgada á mãe de Affonso que a sua saude se havia perdido na
oppressão e dissabores d'aquella vida, em que tão contrariada se via.
Dizia mais que a precisão de se livrar de tal captiveiro a obrigaria a
dar-se como esposa a um homem que ella não amasse. Queixava-se da
ausencia e silencio de Affonso, e citava o namorado da sua amiga Libana
como exemplo de rapazes apaixonados. Concluia desejando a Affonso todas
as venturas d'este mundo, em quanto ella se deliberava a experimentar
todas as desditas.
A virtuosa de Ruivães, lendo o final da inesperada carta, acolheu-se á
sua capella, e longo tempo esteve em joelhos pedindo á Virgem que
defendesse Theodora dos seus funestos instinctos.
E, desde aquella hora, a mãe de Affonso, com quanta delicadeza de
admoestação e brandura affectuosa pôde, desviou o filho de pensar em
Theodora como futura companheira de sua vida. Affonso pedia
instantemente explicações de tal mudança no espirito de sua mãe; e ella,
podendo responder com o mais idoneo documento, que era a propria carta
da morgada, dilatava as suas razões para mais tarde. E, ao mesmo tempo,
escrevendo a Theodora, conjurava-a a ter mão de sua imprudente mocidade,
descrevia-lhe o quasi nada que conhecia do mundo, citava-a para diante
da virtuosa memoria de sua mãe; mas não mais lhe fallou de Affonso.
A morgada não deu peso a tal omissão, nem achou rasoavel o
sentimentalismo da fidalga; irritou-se mais por lhe não responderem ao
artigo essencial de sua carta, que era apressar-se o casamento, visto
que a sua saude corria perigo.
Eleuterio, cada vez mais assiduo na grade, já tinha uma outra judia côr
de alecrim, outras pantalonas apolainadas, um collete de veludo
escarlate, e um cavallo de marca, apparelhado a primor, e obediente ao
freio para todo o genero de upas e galões. Theodora gostou d'isto, por
que um dos anhelos era a equitação: sonhara-se muitas vezes cavalgando
selim razo, trajada em amazona, com as dobras do amplo véo ondulando no
phrenesi de desapoderado galope. O cavallo--faz pejo dizel-o! foi muito
no determinar-se a morgada a responder categoricamente ás timidas
perguntas do primo Eleuterio. Assim foi. Ageitado o ensejo, a menina,
balbuciando com artificial pudor, disse que estava disposta a tomar
estado, visto que a idade lh'o permittia. Eleuterio, perplexo, de
ouvil-a, sem ousar suppor-se o noivo escolhido, sopesava o bofe direito,
cuidando que estava alli o coração; quando, porém, a prima lhe disse:
--Faço aquillo que meu tio Romão quizer... Caso com quem elle
determinar...
Eleuterio expediu um ai de desafogo, e riu-se alvarmente, esfregando as
mãos.
Por amor d'este successo vim eu a desenganar-me de que a natureza anda
muito abastardada e contrafeita no theatro e nos romances. Casos
analogos d'aquelle tenho-os visto remedados com tregeitos e exclamações
inversas da logica da natureza. No romance todos os Arthures ou
Ernestos, ao saberem que são amados, empallidecem, suam, ajoelham,
declamam, quando não podem oscular com frementes soluços a mão da mulher
amada. No theatro, em lances identicos, tenho visto desmaiar sujeitos,
que matariam a futura sogra e o proprio pae, se lhe atravancassem o
caminho da felicidade. Rir ás cascalhadas é que eu ainda não vi amante
ditoso nenhum, no instante solemne de se crêr amado. Eleuterio Romão dos
Santos é o primeiro modêlo que a natureza me offerece.
E a verdade é só uma. Ao beijo da felicidade, que endouda e transporta,
o homem, que não estoura em explosões de riso, deve de estar mui
calcinado de coração. Dramaturgos e romancistas, por via de regra, são
umas pessoas aridas, frias, e falsas, que inventam a natureza, depois
que desbarataram a sensibilidade, exagerando as generosas commoções que
receberam d'ella.
Theodora gostou medianamente dos modos de seu primo. Antes ella o queria
falsificado no molde dos romances, que a menina transmontana lhe
emprestára; mas, ainda assim, aceitou com paciencia a linguagem
desartificiosa d'aquella ingenua e bruta alma.
Aquietado do seu arrebatamento, Eleuterio Romão dos Santos fallou assim:
--Cheguei ao que desejava, graças a Deus! A pena que eu tenho é não ser
tão rico como Sansão. (O padre Hilario quizera leccional-o em sagrada
escriptura: fallou em Salomão, ao que se presume, e o rapaz, assim como
odiava o soletrar palavras de tres syllabas, deve suppôr-se que tambem
em materia de historia, preferia os individuos de duas aos de tres
syllabas.)
E continuou:
--Se eu fosse tão rico como Sansão, prima Theodora...
N'isto, como lhe não occorresse idéa nenhuma com que fechar a oração
condicional, levou a mão á testa, e roçou a epiderme com o aro d'um
robusto annel que trazia no dedo indicador. Idéa magnifica! Tirou o
annel, e lançou-o ao regaço de Theodora. Tinha o annel um grosso
topazio, engastado n'um circulo de perolas. Theodora examinou o objecto,
e enganada pela circumferencia do aro, esteve quasi a pensar que era uma
pulseira.
--Faz favor de encaixar no dedo, prima--disse Eleuterio.
--Não me serve--disse a menina.
--É que está magrinha das mãos...--replicou o moço--Pois guarde-o, e
quando engordar o porá no dedo. Lá que a prima ha-de engordar com os
ares de Tibães, isso é que não falha. Vamos a tratar da dispensa, e
acabar com isto. O que eu queria era ser tão rico como Sansão.