O escandalo, que felizmente abortou á portaria do convento, poz de
sobre-rolda os paes de familia, que tinham meninas a educar nas
Ursulinas, e deu ás insomnes freiras um sexto sentido de observação.
Dentro do mosteiro reinava a opinião de que Theodora tinha bastante
capacidade para tomar criada, conforme o gorado systema de Libana. Além
d'isto, depois da expulsão da transmontana, a morgadinha, em vez de
quebrar de orgulho e reportar-se, enfuriou-se mais, e sahia com
invectivas e chacotas ás freiras velhas, clamando a vozes descompostas
que a mandassem embora, se lhes não servia assim. A communidade
offendida e esgotada de paciencia, consultado o tutor da educanda,
assumiu o uso ou o abuso dos antigos poderes monasticos, e encerrou-a no
seu quarto, com ameaças de a fecharem no tronco. Theodora esmoreceu
diante da força mixta das freiras e dos padres capellaens, que
promettiam supprir com o pulso a inefficacia da eloquencia persuasiva.
Vagamente informado da situação da sua amada, Affonso de Teive foi á
portaria do convento, no heroico proposito de ir arrancar a victima de
sobre as aras da theocracia despotica. A porteira, senhora de oculos e
de muita virtude, offereceu peito de martyr ás injurias impias do
acriançado amante. Porém, como quer que o acaso alli encaminhasse um
cabo de policia, quando Affonso gesticulava e vociferava um menos mau
improviso contra os conventos, o cabo, com as mãos atadas na cabeça,
correu ao regedor, e este acudiu no supremo lance, já quando o
allucinado alumno de rhetorica, estrondeava na porta valentes murros,
chamando Theodora a clamorosos gritos.
Travado pelos braços pujantes das authoridades, Affonso não pôde
resistir á surpreza do assalto. Escabujou e esbraveou em quanto as
forças da raiva o aqueceram; a final cahiu exanime nos braços da lei,
balbuciando ainda «Theodora!» Estava a instaurar-se-lhe processo, quando
a fidalga de Ruivães chegou a desfazer com a sua respeitavel presença, e
auxilio dos mais importantes cavalheiros de Braga, a criminalidade
pueril do filho.
Affonso, levado por sua mãe, foi para casa, deliberado a deixar-se
morrer. Cahiu de cama, e tresvariou em febres de mau caracter. Todavia,
os cuidados maternaes, cooperados pela robusta natureza dos dezeseis
annos, salvaram-no. Os olhos, durante a morosa convalescença,
choraram-lhe de continuo; os sonhos eram-lhe ainda supplicios de que
despertava em brados e soluços; não obstante, a cura do amor, que chora,
é certa: ferida de coração, onde possa chegar o agro e adstringente de
uma lagrima, cicatriza cedo ou tarde. Amores incuraveis são os que
desabafam em rancorosas explosões.
A parentela do illustre pimpolho, alvorotada pelas lastimas da fidalga,
reunira-se em conselho, e alvidrára que Affonso de Teive fosse completar
os estudos preparatorios em Lisboa, hospedando-se em casa d'um seu tio
desembargador. O moço obedeceu ás exhortações e rogos de sua mãe, depois
que a extremosa senhora lhe prometteu e asseverou que, a despeito de
tudo e de todos, Theodora, no praso de um anno, seria sua esposa.
Os parentes embicaram, resmoneando que o morgadio da Fervença o era só
em nome, sem vinculo, nem fôro em ascendente conhecido. Contra estas
razões se insurgiu Affonso em termos que fariam a illustração
democratica d'um botequineiro antes de ser cavalleiro do habito de
Christo. A fidalga, mais ufana de proceder do tronco dos primitivos
christãos, iguaes entre si e iguaes ante Deus, que vaidosa de
aparentar-se com os Pinheiros de Barcellos, e os Corrêas e Lacerdas da
Honra de Farelaens, votou com seu filho, dizendo «que na casa de Ruivães
sobejava a fidalguia e faltava a felicidade.»
Foi Affonso para Lisboa com o capellão. O tio desembargador gasalhou-o
nos braços, e as primas, filhas do bondoso magistrado, á mingua d'um
irmão, começaram logo a dizer que Deus lhes dera um, e, como tal, o não
deixariam voltar mais, sem ellas, á provincia.
Pouco montam tantas caricias para o contentamento de Affonso. Ralam-no
saudades, emmagrecem-no os jejuns, amarellece-o a tristeza. Nas aulas é
mau estudante; no circulo dos condiscipulos é um automato que ri por
comprazer, e vai sem saber que vai para onde o impellem; em casa com as
primas é um aborrecido, que nem ao menos as acha bonitas, nem scisma
sequer em adivinhar as charadas metricas, e logogriphos figurados, em
que todas são eximias, e sobre modo impertinentes.
A senhora de Ruivães recebe de todos os correios instantes cartas de
Affonso accelerando as diligencias para o casamento. A consternada mãe
já por terceiras pessoas mandou sondar as difficuldades que importa
combater. De Braga dizem-lhe que Theodora já sahiu do encerramento da
cella, e tem o convento todo por homenagem, salvo o palratorio e a
cêrca. Ajuntam as informações que o tutor da morgada frequenta
semanalmente o convento, e algumas vezes vai com elle um filho, rapaz de
figura absurda, com uma gravata vermelha, capaz de seduzir uma nação de
pretos, e uma casaca archeologica, de cabeção tão copioso que parecia
enrolar um capote.
A descripção poderia ser acoimada de desgraciosa; mas de hyperbole não.
Este sujeito chama-se Eleuterio Romão dos Santos, por ser filho de
Eleuteria Joaquina, e de Romão dos Santos, tutor de Theodora, lavrador
abastado, visinho do mosteiro de Tibães.
Eleuterio tem vinte e dous annos; quiz aprender a lêr com seu tio padre
Hilario; mas a natureza oppoz-se-lhe, logo que elle, apoz um anno de
canceira, entrou a soletrar palavras de tres syllabas. Vencido pela
natureza, padre Hilario desistiu, visto que lhe era vedado arejar o
cerebro do sobrinho por uma fresta aberta a machado.
O filho unico de Romão dos Santos recebeu em upas de alegria a noticia
da sua incapacidade para soletrar nomes de tres syllabas. No dia
seguinte, o pae mandou-o á feira dos nove com uma junta de bois. O rapaz
effectuou a venda dos bois com tamanha astucia e vantagem que logo
d'alli se deu a conhecer a sua vocação. Uma segunda mercancia
robusteceu-lhe o credito, que outras vieram confirmando, até que Romão
deu ordem illimitada de dinheiro a Eleuterio para poder negociar em
bezerros e vitellas.
Estava o rapaz n'este auge de glorificação propria, e inveja dos
visinhos, quando falleceu a mãe de Theodora. A orphan, apenas sua mãe
cerrou olhos, foi conduzida para casa de Romão, seu tio paterno. A
criança ia lagrimosa e carecida de meiguices e consolações de alguma
senhora, que lhe fallasse a linguagem polida á qual estava afeita. Em
casa de Romão havia sómente a snr.ª Eleuteria Joaquina, creatura chan,
que, a cada soluço da sobrinha, dizia quasi sempre:
--Não chores, pequena; que a morte é portêllo que todos temos de passar.
E, para não dizer sempre o mesmo, variava d'este theor:
--Isto, como o outro que diz, é hoje tu, amanhã eu.
Eleuterio, porém, menos versado em lugares communs de pezames aldéãos,
querendo consolar sua prima, tirou estas palavras do peito:
--Senhora prima, olhe que o chorar faz mal ás meninas dos olhos.
Deixe-se de estar a suspirar, que não lhe dá remedio. Agora o mais
acertado é divertir-se pelas feiras. Vem ahi a de Villa Nova de
Famelicão, onde eu levo vinte e duas juntas de bezerros. Se a snr.ª
prima quizer, vamos comprar de meias algum gado, e deixe cá isso á minha
vigilancia, que eu, dentro d'um anno, prometto dar-lhe dinheiro de ganho
com que ha-de comprar um grilhão de duzentos mil réis, e umas arrecadas
de lhe chegarem aos hombros. O mais quem morreu morreu, é ditado dos
velhos.
--Quem morreu é rezar-lhe por alma--atalhou com má grammatica, mas com
piedosa intenção, o tio padre Hilario.
Theodora estava a rebentar de raiva, quando Eleuterio recolheu ao bucho
das cruas sandices outras muitas que já lhe ferviam nos gorgomilos.
Ahi está uma amostra de Eleuterio Romão dos Santos.
O conselho de familia deliberou o ingresso da orphan nas Ursulinas. A
menina acolheu agradavelmente a noticia, por se desentalar assim da
oppressão do primo alvar, e da tia, mais boçal do que racionalmente se
deve permittir á bondade de uma pessoa qualquer.
Logo que a mãe de Theodora morreu, o tio, que lhe conhecia o valor dos
bens, lançou contas ao futuro, e deu como realisavel um casamento, que
vinha a ligar as duas casas maiores da freguezia. Custou-lhe a ceder que
a pupilla se lhe distanciasse de casa; mas os votos dos outros membros
venceram, fundados na precisão de educar a menina, que fôra creada com
mestras, e de todo estranha á vida agricola.
Entretanto, Romão predispoz o filho a cuidar seriamente no _bonito
arranjo, que lhe sahia a talho de fouce_: estylo figurado e pittoresco
em que são inventivos os nossos camponezes, e em que Romão primava
sempre que tinha entre mãos algum _bonito arranjo_, o qual vinha a ser
sempre um arranjo feio para o proximo.
Eleuterio, ao principio, disse que a prima lhe parecia um arenque.
Fundava o desdenhoso a sua critica na magreza delicada e cortezan de
Theodora. Entre os galans da estôfa de Eleuterio mulher de encher olho
queria-se vermelhaça, alta de peitos, ancha de quadris, roliça e grossa
de pulsos, com os queixos tumidos de gargalhadas estridulas, e as
facecias equivocas, e os estribilhos patuscos sempre engatilhados nos
beiços grossos e oleáceos. Theodora era o envez de tudo isto.
Faz pena vir aqui a ponto o descrevel-a, quando o contraste lhe fica tão
de perto.
Theodora, aos dezeseis annos, era um modêlo acabado de formosura, como
raras se vos deparam nas raças patricias, que o concurso de
circumstancias, umas espirituaes, outras physiologicas, aprimoraram. A
pallidez era n'ella o principal caracteristico das bellezas de eleição,
á escolha de olhos onde parece que os nervos opticos vem da alma, e não
do cerebro a tecerem a retina. A mulher pallida é a que vem cantada em
poemas e estremada em romances: ora, quando a poesia e prosa conspiram a
dar a realesa do amar e padecer á mulher pallida, havemos de curvar-lhe
o joelho, na certeza de que ella se fará amante e martyr, por amor do
poema e do romance, ainda mesmo que a natureza lhe tenha temperado o
coração d'aço. Póde ser que semelhante clausula, no decurso d'este
livro, acuda á retentiva do leitor.
Relumbravam no alvor das faces de Theodora olhos negros, não vivos,
antes morbidos, como se a queda das longas palpebras, iriadas de veias
azuladas, lhes vedasse o raio de luz em cheio que rebrilha, aquece, e
regira os globos visuaes. Do nariz diremos que, n'esta feição, a mais
rebelde aos desvelos da natureza, tão extremada se mostrára ella, que
bastante lhe fôra aquella perfeição para desmentir os que a taxam de
desprimorosa. Em labios, não sei se me valha das figuras antigas--rosas
e coraes, romans e carmim--se me avenha com esta verdade prompta e
fluentissima que d'um traço copia como o pincel, e d'uma phrase exprime
tudo, como em phrases de Castilho: «era um osculo perpetuo de
innocencia.» Como isto sahe bem na musica da expressão; e que bello
seria o mundo, se as boccas formosas estivessem sempre absorvidas no
osculo perpetuo da innocencia! Ó Theodora, se tu então morresses, o teu
rosto trasladado em marfim, ainda agora nos seria a imagem dos labios
nunca despregados do beijo d'algum anjo, resabiado ainda da
voluptuosidade dos anjos mal-avindos com o candor celestial. Mas tu
cresceste, e deformaste-te, ó chrysalida! A tua essencia de céo vaporou
para lá no alar-se de alguma virgem, irman tua, que o Senhor chamou na
ante-manhã do primeiro dia nebuloso de sua vida; e o que de ti ficou foi
a formosura e a desgraça da mulher.
Mas, afóra a essencia pura do céo, que esvelta, que peregrina mulher cá
se ficou a ostentar as galas mundanas, esse opulento nada que desaba do
altar da nossa idolatria a um roer surdo de vermes e podridão!
Esta ultima palavra tolhe-me de continuar a descrever Theodora.
Esmoreceram-me os espiritos. Cahi da minha phantasia na lagôa fétida da
verdade. Achei-me como ás margens d'uma sepultura regélida do giar d'uma
noite de Dezembro. Parou-me o sangue no pulso, inteiriçaram-se-me os
dedos, e a penna desprende-se. Assobia o nordeste pelas arestas dos
jazigos, e remexe e sacode de sobre esta pedra umas corôas humidas de
orvalho, crystallizado em lagrimas; são corôas de perpetuas sagradas á
formosura, que se julgou immorredoura, á sexta hora do seu breve dia. Lá
vão as corôas no bulcão do vento; lá vão esgalhadas as frondes do chorão
e do cypreste; lá vai tudo; a memoria dos vivos lá se foge tambem d'esta
sepultura: tudo foi; só tu ficaste, ó Cruz!