«--Essa não está má! o que havemos nós de querer senão entrar?
«--Você é casado ou solteiro? pergunta o velho ao meu camarada.
«--Casado, responde o tal sugeito.
«--N'esse caso póde entrar, que basta essa penitencia para um homem
ganhar o ceu; e isto por maiores que sejam os peccados, que haja
commettido.
«E o meu companheiro entrou lá para dentro.
«--Caspite! disse eu com os meus botões; se aquelle ganhou o ceu por se
ter casado uma vez, com mais razão o devo eu ter ganho por me haver
casado duas. E larguei atraz do meu companheiro.
«--Onde vae o senhor? perguntou o porteiro, detendo-me por uma orelha.
«--Homem, o senhor deve estar farto de o saber! Vou para o ceu.
«--É casado ou solteiro?
«--Casado duas vezes á falta d'uma.
«--Duas vezes?!
«--Sim, senhor, duas vezes.
«--Pois vá para as profundas do inferno, que tolos d'esse lóte não têm
entrada no ceu.
«E aqui vou eu, amigo Paciencia, caminho do inferno! São coisas que só a
mim acontecem!...»
--É bem feito, disse o tio Paciencia, entre compadecido e indignado da
parvoice do seu amigo. Não te dizia eu que não podia obter perdão de
Deus quem duas vezes se casasse?
O tio Paciencia já não ia muito satisfeito e tranquillo, ao aproximar-se
das portas do ceu, porque as noticias que recebera do geniosinho do tal
porteiro, eram, na verdade, para intimidar o mais pintado.
--Vamos, tio Paciencia, dizia elle, é preciso que não desmintas, n'esta
occasião, o appellido que te puzeram, porque, se consegues catechisar o
porteiro, cólas-te lá dentro, e depois é que já ninguem te dá volta. O
velhote é exquisito de genio, caturra e curioso como todos os
porteiros... Mas tambem, deve a gente lembrar-se de que o pobre do homem
é tão velho, que já não póde com os calções, e devemos ser indulgentes
para com os velhos como para com as creanças, porque os extremos
tocam-se. Demais, a paciencia é uma virtude, que o proprio Jesus
recommendava ao apostolo S. Pedro, como se vê da seguinte cantiga:
Era S. Pedro na calva
perseguido do mosquito,
e o Mestre lhe dizia:
--Tem paciencia, _Periquito_!
Ao terminar estas reflexões, avistou o tio Paciencia as portas do ceu, e
estremeceu d'alegria, lembrando-se de que estava já a meio kilometro de
distancia do mundo onde todos os homens eram eguaes.
Chegou finalmente á portaria, e viu que não havia lá viva alma, o que
devéras lhe agradou, porque assim não se expunha a morrer arrebentado,
como quando ia trocar notas ao banco d'Hespanha.
Deu uma aldrabada pequena na porta, e um velho, que não tinha um pello
na cabeça, abriu o postigo e perguntou-lhe:
--O que quer você d'aqui?
--Ora, o Senhor lhe dê muito boas noites, lhe tornou o tio Paciencia,
com a maior humildade, tirando o chapeu. Como passou? Passou bem?
--Muito bem, muito obrigado. Mas o que queria o senhor?
--E a senhora e os meninos estão de saúde?
--Homem, despache d'aí, diga o que quer.
--O senhor não tem senão desculpar... mas... nada... eu... vinha vêr se
o senhor me deixaria entrar.
--Sente-se ahi, n'esse banco, e espere que venha mais gente, que não se
póde andar sempre a abrir e a fechar esse maldito portão, que é mais
pesado que um marido jogador.
--Está bem, senhor, essa é boa; faça favor de perdoar.
--Não ha de quê.
O velhote fechou o postigo, e o tio Paciencia, a quem as ultimas
palavras, que ouvíra, deram alma nova, sentou-se n'um banco, e começou o
seguinte soliloquio, para passar o tempo:
--O tal senhor porteiro é realmente um grande caturra. Quem diabo podia
suppôr que o homem se esquentaria por eu o cumprimentar como Deus manda!
Mas apesar de ter o genio um tanto assomado, bem se conhece que é um
santo. Pois, senhor, esperemos aqui, no banco da paciencia.
Estava o tio Paciencia entretido a apertar um cigarro, quando, ouvindo
uma tremenda aldabrada na porta, que por pouco a fazia em hastilhas,
ergueu a cabeça, e viu então que a pessoa, que com tanta arrogancia
chamava, era nem mais, nem menos, que o seu visinho marquez.
--É melhor bater com a cabeça! gritou de dentro o porteiro, ao ouvir
aquelle barulho. Quem é o bruto que chama assim?
--O excellentissimo senhor marquez de Pelusilla, grande d'Hespanha de
primeira classe, cavalleiro de todas as ordens creadas e por crear,
senador do reino, etc., etc.
Mal isto ouviu, o porteiro abriu de par em par a porta, quebrando pelo
espinhaço com muitas reverencias, e exclamando:
--Perdoe v. exc.^a se o fiz esperar algum tempo, mas... é que eu não
suppunha, que tivessemos por cá tamanha honra. Queira v. exc.^a entrar,
que, pela _balburdia_ que lá vae por dentro, é de crêr que já tenha
corrido a noticia de que temos por estes bairros o cavalheiro mais
illustre e mais rico de toda a Hespanha.
Com effeito o ceu estava alvoroçado com a chegada do marquez, para o
qual começava a improvisar-se uma recepção esplendida. Repicavam os
sinos, e os foguetes cortavam o ar em todas as direcções; já não havia
uma varanda, nem uma janella d'onde não pendesse um cobertor de damasco,
ou quando menos uma colcha de chita, modesta, mas vistosa. As imprensas
vomitavam versos (ih! que nojo!) em louvor do marquez; os garôtos
_esganiçavam-se_ todos a dar vivas a sua excellencia; as virgens
largavam a costura, e vestindo-se de branco, e pondo na cabeça a sua
grinalda de flores, lançavam mão da lyra, e tocavam e cantavam como
desesperadas; desde as charangas das ruas até a orchestra do theatro
real, todas as musicas faziam ouvir as suas harmonias; em summa, era
tudo festa, jubilo e regosijo. Até o proprio porteiro, quando voltou a
fechar a porta, deu um pulo de contente, exclamando:
--Bravissimo! Hoje é dia de atirar uma cana ao ar!
--Sim, como não atires a cabeça!... rosnou por entre os dentes o tio
Paciencia, indignado com o que estava presenciando.
Repetiam-se lá por dentro as manifestações d'alegria, e o estrondo dos
festejos, e o tio Paciencia, que assistia áquelle enthusiasmo,
continuava n'estes termos o seu soliloquio:
--E esta!... Ainda me custa a acreditar o que por aqui vae com a chegada
do marquez! Com que, passo toda a minha vida a soffrer com santa
paciencia os trabalhos e humilhações da terra, imaginando que no ceu
todos os homens são eguaes, e que, por conseguinte, me verei aqui livre
de todos os meus pesares e apoquentações, e no fim de contas, chego ás
portas do ceu e recebo logo a prova mais irritante de desegualdade, que
póde imaginar-se! Com que então, aqui, como na terra, a mim, porque sou
um pobre sapateiro, fazem-me estar, como um espantalho, á espera na
portaria, e ao marquez, só porque é marquez e rico, e por vir carregado
de cruzes e _calvarios_, abrem-se-lhe, de par em par, as portas, e
recebem-n'o com repiques de sinos, com foguetes, musicas, versos, e
colchas de seda nas janellas!... Isto realmente é para fazer ferver o
sangue nas veias a um santo!... Porém, paciencia, snr. Paciencia!... Se
consigo a final entrar lá para dentro, o que já me vae parecendo bem
difficil, posso reputar-me feliz, porque alli deve passar-se
divinamente, a julgar pelo pouco que vi, quando o velho deu passagem ao
marquez, e pela baforada, que sae, quando abrem ou fecham a porta ou o
postigo.
O barulho que este fez ao abrir-se, tirou o tio Paciencia das suas
meditações; fez-se vêr a calva do porteiro, o qual vinha examinar se já
havia gente reunida, á espera, na portaria.
--O que faz você ahi? perguntou o porteiro, reparando no tio Paciencia.
--Senhor, respondeu humildemente o tio Paciencia, estava esperando...
--Se as lebres esperassem tanto!...
--Como o senhor não apparecia...
--Tem razão, tem... são tantas as coisas em que tenho que pensar, que de
todo se me varreu da idêa... Eu vou já abrir, amigo. Ora!... mas porque
não chamou por mim, homem de Deus?!...
--O senhor bem vê que... como sou um pobre sapateiro...
--Qual sapateiro, nem qual cabaça! aqui no ceu todos os homens são eguaes.
--Devéras?! exclamou o tio Paciencia, dando um salto d'alegria.
--Pois, então!... Não faltava mais nada senão andarmos aqui com
cathegorias! Isso é bom lá para a terra! Vamos, entre cá para dentro.
O porteiro nem por isso abriu toda a porta, como quando entrou o
marquez, mas o sufficiente para que podesse passar _um homem_. O tio
Paciencia acercou-se da cancella, lançou um relancear d'olhos lá para
dentro, e deteve-se ali, dolorosamente surprehendido. As virgens não
largavam a costura, nem os rapazes saíam da escóla; não havia uma triste
sineta que tocasse; os foguetes não rasgavam as nuvens; as musicas não
deixavam ouvir as suas harmonias; nem sequer uma pobre colcha de chita
adornava as janellas, nem tãopouco as imprensas vomitavam versos!...
O porteiro, que não tinha nada de tolo, adivinhou o doloroso espanto do
tio Paciencia, e acudiu a desvanecel-o, dizendo-lhe:
--Que quer isso dizer, homem? Então fica para ahi pasmado, em vez de
entrar cá para dentro?.
--Não me disse o senhor, ainda ha pouco, que no ceu todos os homens eram
eguaes?
--Disse, sim senhor, e d'ahi?...
--Então... como é que ao marquez...
--Homem, você se não é tolo, parece-o! Pois não leu na sagrada
escriptura, que é mais facil entrar um camello pelo buraco d'uma agulha
do que um rico no ceu?...
--Não, senhor, não sabia isso.
--Pois póde acreditar que é a pura verdade. Sapateiros, ferreiros,
lavradores, mendigos, gente, em summa, farta de trabalhar e de padecer,
chega aqui a todo o instante, e não temos que estranhar a sua chegada.
Já outro tanto não acontece com os ricos e os fidalgos; passam-se
seculos sem vermos o _focinho_ a um figurão, como esse que veiu hoje, de
modo que, quando algum nos apparece por cá, anda tudo n'uma poeira! Ora,
venha, ande lá para dentro, que já é tempo de descançar.
O tio Paciencia transpoz o limiar da porta, e não podendo com a alegria,
que o dominava, caíu de joelhos, e exclamou, erguendo as mãos para o
Senhor, que saía ao seu encontro:
--Senhor! Bemdito sejaes vós, que daes a bemaventurança eterna aos que
padecem na terra!
FIM DA PORTARIA DO CEU.
O PRESTE JOÃO DAS INDIAS
I
Não basta que os contos populares deleitem: é mister que, ao mesmo tempo
que deleitam, ensinem.
Este que vou contar não sei se satisfará á primeira condição; a segunda
porém, ha de por certo preenchel-a, por isso que o leitor, que o levar a
cabo, ficará sabendo quem era o Preste João das Indias, do qual todos
fallam, e pouquissimos são os que o conhecem, a não ser de nome.
Pois, senhores, havia nas Indias um rei mui poderoso, cujo unico
successor directo era uma filha de tres ou quatro annos. Como o monarcha
se sentisse muito mal, chamou todos os grandes do reino, e fallou-lhes
do seguinte modo:
--Ando tão adoentado, ha tempos a esta parte, que milagre será não
esticar a canella antes de oito dias, e confesso que essa partida tão
repentina para o outro mundo, me penalisa em extremo, por quanto
desejava deixar casada a minha augusta filha; e no emtanto S. A. não
passa por ora d'um _comecilho_. Asseguro-vos que pouco me importa
morrer, porque para morrer todos nós nascemos, e demais, tanto faz
morrer hoje como amanhã; porém o que eu não queria era que a pequena se
casasse para ahi qualquer dia, em virtude de altas razões d'estado, com
um principe, que não fosse muito do seu agrado.
--Senhor, lhe tornou um dos homens politicos mais importantes do reino,
faz V. M. muito mal em estar a affligir-se com essas coisas. Quando a
princeza chegar á edade de tomar estado, ha de casar-se com o principe,
que fôr mais do seu gosto; e se houver no reino quem se atreva a querer
oppôr-se á liberrima escolha de S. A., esteja V. M. certo de que tem que
se haver comnosco.
--Ora, ora! Então cuidas tu que eu engulo essas _patranhas_? replicou o
rei, traduzindo a sua incredulidade n'uma estrepitosa gargalhada. Nem
que eu não soubesse o que são os partidos politicos! Aquelle que então
estiver no poder apresentará a minha filha o seu candidato, e a pobre
pequena terá de se aguentar, não com o marido que mais fôr do seu gosto,
mas sim com aquelle que mais convier aos seus ministros, os quaes, só
por satisfazerem mesquinhos interesses de partido, serão capazes de a
obrigar a casar ainda que seja com o moiro Musa.
--Mas, senhor, V. M. deve lembrar-se de que este paiz é um paiz
essencialmente monarchico...
--Isso é bom de dizer! Não estamos nós vendo, todos os dias, homens
politicos, que nos concedem, a nós os reis, até o direito divino, e que,
se um bello dia lhe não agradamos, nos chegam, inclusivamente, a negar o
direito de pessoas decentes!
--De accôrdo, mas é que esses são uns vilões que nunca deveram ter parte
na luta dos partidos.
--Mas o grande caso é que a têm no goso dos direitos constitucionaes.
--Em summa, ordene V. M. o que lhe aprouver, e eu lhe assevero, que póde
marchar tranquillo para o outro mundo, e sem o menor receio de que
deixemos de cumprir rigorosamente as suas ordens.
--Pois bem, n'esse caso escutae-me: quando minha augusta filha estiver
em edade do tomar estado (e isso é coisa, que facilmente se conhece),
deveis dar-lh'o a saber, tendo em vista todo aquelle recato com que se
deve fallar d'essas coisas a uma donzella; em seguida fareis apregoar
por todas as nações do mundo, que a vossa rainha e senhora resolveu
casar-se, e dará a sua mão ao principe, que mais fôr do seu agrado.
--Até ahi estamos bem; mas V. M. sabe que o mundo se divide
principalmente em tres religiões, a saber: a religião christã, a
mahometana e a judaica. Devo portanto suppôr que V. M. terá já formado o
seu juizo, ácerca da religião a que deve de pertencer o seu augusto genro.
--Homem, francamente, ainda nem tal coisa me passou pela cabeça.
--Ah! pois isso é coisa muito séria!
--Vae-te d'ahi com esses teus escrupulos de freira! Vós todos sabeis que
no meu reino não ha religião alguma. A fallar a verdade, já por vezes
tenho pensado sobre se conviria ou não que a houvesse, porque ha muito
quem diga, que não póde haver sociedade sem o freio da religião; porém,
no fim de contas, tenho acabado sempre por dizer cá para os meus botões:
«deixar correr; quem me manda a mim metter a redemptor? Que religião
póde haver n'um paiz tão desmoralisado como este, onde todos os dias se
manda gente á forca?! Vá uma pessoa introduzir aqui, por exemplo, a
religião christã, segundo a qual todos os homens são eguaes: haviam de
marchar bem as coisas, desde o momento em que os escravos, que tiram os
coches, soubessem que valem tanto como os senhores, que vão dentro
d'elles, mui _repimpados_!»
--Visto isso, entende V. M. que a melhor religião... é não ter religião
nenhuma, não é verdade?
--Não digo isso, homem; nem tanto ao mar, nem tanto á terra. O que eu te
digo é que não tenho querido quebrar demasiado a cabeça, pensando em
coisas tão delicadas. Que escolha, minha augusta filha, marido do seu
gosto, e ainda mesmo que seja pêrro judeu...
Assim terminou a conferencia do rei com os próceres da republica, e
avisado andou S. M. em não a deixar para o dia seguinte, porque
n'aquella mesma noite teve um ataque tão forte, que esticou a canella,
sem ter tempo sequer para dizer «Jesus».
II
Como era natural, apenas o rei morreu, levantou-se a questão da escolha
d'uma regencia, que devia tomar as rédeas do governo, durante a
menoridade de sua excelsa filha, e então é que foram ellas!
Sobre se a regencia devia ser de tres, ou d'um unico estadista, e se
este deveria ser Pedro ou Paulo, levantou-se tamanha tempestade, que ia
tudo pelos ares. Por ultimo optaram pela regencia _una_, e por então
terminou a contenda; porém os partidos politicos, para os quaes vêr os
seus contrarios no poleiro e vêr o diabo é tudo uma e a mesma coisa,
começaram novamente a tecer os pausinhos. Era o regente um soldado
destemido e honrado d'uma vez; porém como homem d'estado não passava
d'um _simplorio_, que entendia tanto de governo como eu entendo de
lagares d'azeite; os seus inimigos, aproveitando-se da inepcia com que
elle dirigia a politica, não descançaram em quanto lhe não deram um
pontapé, e o expulsaram do palacio.
Nomeou-se novo regente. Este então era um passaro que cantava na mão,
porém ao mesmo tempo, tão medroso, que apenas ouvia um tiro, era capaz
de se metter cem braças pela terra abaixo; d'ahi resultava que cada dia
havia um pronunciamento.
Por effeito de um d'esses pronunciamentos, caíu o regente, e
organisou-se então uma regencia composta de tres magnates.
Até ali era um só a crear nichos para empregar os seus amigalhotes, um
só a querer enriquecer á custa da nação, um só a monopolisar os favores
da joven princeza, e um só a governar mal; multipliquem agora esse um
por tres, e imaginem a poeira, que se levantou com a tal regencia trina!
Conheceu finalmente a princeza que estava em edade de casar-se, e correu
voz, por todas as nações, de que ella punha a sua mão a _concurso_ e a
daria ao principe, que mais lhe agradasse.
Os primeiros, que acudiram ao reclame, foram os judeus, os quaes
trajavam rica e vistosamente, e tinham o cuidado de fazer tinir bem o
dinheiro diante da princeza, suppondo talvez, que o vil _metal_ teria
para ella tantos attractivos como para elles; e, emquanto os que iam á
_mostra_ faziam sua côrte á princeza, andavam os rabinos pelos cêrros
pedindo a Deus, que désse a algum dos da sua casta aquella boa pequena,
que tão bello partido era.
Chegaram em seguida os mahometanos, e era muito para se vêr, tantos
moiros montados em cavallos, mais ligeiros que o vento, escaramuçando e
jogando canas, a vêr se, assim, engodavam a princeza.
Afinal appareceram os christãos, que, com suas justas e torneios, e o
seu porte cheio de garbo e gentileza, sabiam encantar o coração das
donzellas.
--Então, em qual das tres religiões escolhe V. M. marido? perguntou o
presidente do conselho de ministros á rainha.
--Homem, nem sei o que te diga, respondeu a rainha. Bem se diz que quem
tem que escolher tem que fazer. Se queres que te falle verdade, gosto de
todos.
--Vamos, mas V. M. precisa decidir-se por um.
--Asseguro-te que sinto realmente devéras não poder decidir-me, sequer
ao menos, por tres. Olha, que entre os christãos ha alguns rapazes bem
guapos!... mas entre os judeus e os moiros... não te digo nada!...
--Em summa, disse o presidente do conselho, isto não é sangria desatada;
deixe-os V. M. penar, uns e outros, por espaço d'alguns mezes, e depois,
então, poderá V. M. escolher, com perfeito conhecimento de causa; isto
de escolha de marido é, para as raparigas, operação muito delicada...
O presidente do conselho teve a honra de que S. M. seguisse o seu
parecer, e christãos, mahometanos e judeus, continuarem a fazer as suas
_zumbaias_ á real moça, cuja mão ambicionavam.
Chegou noticia a Roma do que se passava nas Indias, e o Padre Santo
ordenou que se fizessem preces, para que Deus inspirasse a rainha afim
de que casasse com um christão, coisa que redundaria em gloria e
augmento da christandade.
Havia n'aquelle tempo em Roma um Preste ou sacerdote, ainda moço,
conhecido pelo nome de Preste João, o qual era a admiração de toda a
gente, em rasão do seu saber e virtudes, zelo religioso e galhardia.
O Preste João apresentou-se ao Padre Santo, e disse-lhe:
--Santissimo Padre, o que se está passando nas Indias é, quanto a mim,
coisa mais seria, do que parece, á primeira vista. Aquillo é um paiz
desgraçado, onde ninguem crê em Deus, nem em Santa Maria; onde todos são
impios e atheus. Se a rainha se casa com algum pêrro judio, estamos bem
aviados; vae tudo para o diabo. Se porém a rainha dér a mão de esposa a
um christão, corto a cabeça, se todos os indios, dentro em poucos annos,
não forem tão christãos como nós. Posto isto, vou pedir uma graça a
Vossa Santidade.
--Se fôr coisa que eu possa conceder-te...
--Que V. S. me deixe ir ás Indias, para ver se faço entrar aquella gente
no bom caminho.
--Estás servido, filho; pódes partir quando quizeres.
--Pois, n'esse caso, vou immediatamente tirar passaporte.
--Toma cuidado, filho; vê lá que esses infieis te não preguem alguma
peça... particularmente os judeus...
--Isso não me mette medo, que por muito que saibam, sempre hei de saber
mais do que elles.
--Pois vae na graça de Deus, e leva comtigo a minha benção paternal.
--Graças, Santissimo Padre!
Foi dito e feito; o Preste João, acompanhado d'um luzidissimo séquito de
sacerdotes, em cujo numero se contavam os melhores cantores de Roma, e
munido de riquissimos paramentos e decorações d'egreja, inclusive um
orgão, que era o melhor que, até então, se tinha visto n'aquelle genero,
tomou o caminho das Indias.
Felizmente os inglezes não eram, n'aquella época, tão philantropicos,
como o são agora, do contrario não teriam deixado de lhe armar alguma
ratoeira, na idêa em que estão, de que, para civilisar os cypaios, são
mais eloquentes os seus canhões, carregados de metralha, do que os
hyssopes dos missionarios catholicos, ensopados em agua benta.
III
Os judeus e os moiros souberam que o Preste João se dirigia para as
Indias, e estavam atrapalhados da sua vida, porque havia muito tempo que
a fama trombeteira lhes tinha levado noticia do saber, da virtude, do
zelo religioso, e da extremada galhardia do Preste João.
Chegou este, a final, com o seu séquito, e a rainha ficou enamorada da
graciosa dignidade, com que elle a saudou, a ponto de não poder ter mão
em si, que não dissesse, baixinho, ao presidente do conselho:
--Olha que este christão não é _nenhuma asneira_!...
Vendo o Preste João a rainha mui bem disposta em seu favor, aproximou-se
de S. M., e disse-lhe:
--Senhora, vejo que V. M. vacilla sobre se ha de casar-se com um
christão, com um moiro, ou com um judeu. Creia V. M. que a religião de
Christo é a unica verdadeira, grande e salvadora, e que as outras são
umas _religiõesitas de tres ao vintem_, que nem com cem varas chegariam
ao ceu, d'onde procede, e onde apoia sua augusta fronte o christianismo.
E se V. M. se quer certificar de que isto que lhe digo é a pura verdade,
não tem mais que ordenar, que nos reunamos, na sua presença, judeus,
mahometanos, e christãos, a fim de discutirmos qual das tres religiões é
a melhor, e, sobre tudo, qual é aquella, que mais favorece as mulheres,
pois essa é a grande questão, nas circumstancias actuaes.
--Com muito gosto; não tenho a menor duvida em acceder aos teus desejos,
respondeu a rainha. Amanhã apresentar-vos-heis todos diante de mim, e
veremos, então, quem é que leva a melhor.
Com effeito, no dia seguinte, estava a rainha sentada no seu throno, e
as tres religiões, representadas pelo Preste João, e pelos judeus e
mahometanos mais sabios, dispostos a discutir na sua presença.
--Está aberta a sessão, disse a rainha. E como era o Preste João quem
tinha provocado aquelle certame, devia considerar-se como o primeiro, e
por esse motivo que pedira a palavra, a rainha accrescentou: «Tem a
palavra o Preste João.»
Os judeus e os moiros começaram logo a murmurar, accusando de parcial a
augusta presidente; esta porém fel-os entrar na ordem, a poder de muitas
razões, e toques de campainha.
--Senhores, disse o Preste João, trata-se de orientar a S. M. acerca
d'um assumpto mui grave, qual é a escolha do homem a quem, de
preferencia, deve ligar o seu futuro. Ora, o que mais interessa a S. M.,
é saber o que mais lhe convém, se um marido christão, se mahometano, ou
judeu; quanto a mim a questão está resolvida, para S. M., desde o
momento em que esta augusta senhora, ou para melhor dizer, _senhorita_,
souber qual é das tres religiões aquella, que mais protege e favorece os
fracos em geral, e a mulher, em particular.
«Comecemos pela religião judaica.
«A mulher, no povo de Israel, era escrava submissa do homem, e não sua
companheira. Quasi nas primeiras paginas, nos testemunha isso o velho
Testamento, pois nos diz que Abrahão, marido de Sára, recebeu Agár por
mulher, ainda em vida da primeira, e logo adiante nos conta que Esaú
casou, ao mesmo tempo, com duas irmãs cananêas. O Decálogo, revelado
mais tarde a Moysés, no alto do Sinai, dizia: «não desejarás a mulher do
teu proximo»; mas não dizia: «terás uma unica mulher», e Salomão, que
era o prototypo da sabedoria hebraica, teve milhares de concubinas.
Pergunto eu agora a S. M. se está disposta a soffrer que o seu futuro
marido lhe dê uma, ou mais substitutas?!
--Substitutas! a mim!... exclamou a rainha indignada. Tenho bom genio
para isso! Mais facil seria enterrarem-me viva!
--Pois eu continúo....