N'esse mesmo dia em que, por sentença do tribunal de Valmaseda, foi

enforcado um grande criminoso, no caminho de Colisa, salvou Cosme da

morte muitos viandantes, que, sem o seu auxilio, seriam devorados pelas

féras, ou se teriam despenhado nos precipicios d'aquelles temerosos

desvios, então mais temerosos do que nunca, por causa da espessura do

nevoeiro.

Recolheu-se á sua morada, agradecendo a Deus o haver-lhe dado forças

para soccorrer os seus irmãos, e, apenas chegou, feriu-lhe o ouvido o

toque da oração, que soou, lento e solemne, na longinqua torre da egreja

de Valmaseda.--O anjo porém não lhe appareceu n'aquella noite!

O santo ermitão encheu-se de terror, com a lembrança de que teria

offendido a Deus, visto que o anjo se furtava aos seus olhos; mas por

mais que pesou as palavras, que proferira, as suas obras e pensamentos

de todo o dia, não lhe foi possivel atinar com o agastamento do Senhor.

Aquella noite passsou-a toda em continua oração; chorou, macerou o

corpo, pediu a Deus perdão e misericordia para as suas faltas, e logo

que raiou a aurora, como a montanha se conservasse coberta de d'espessa

névoa, saíu em auxilio dos caminhantes.

De repente achou-se na encrusilhada, e ao vêr diante de si a forca, da

qual pendia ainda o cadaver do criminoso, justiçado no dia antecedente,

recuou cheio de repugnancia e movido d'espanto; e levantando a vista

acima do cadaver, que estava preso da corda, viu o anjo poisado no

madeiro da forca.

O anjo, longe de lhe sorrir então amorosamente, como de costume,

olhava-o com semblante severo e carregado.

Cosme parou; e com quanto ignorasse qual fosse a sua culpa, lançou-se de

joelhos, sobresaltado e cheio de terror, ergueu as mãos para o anjo, e

implorou perdão e misericordia.

--Cosme! disse-lhe então o anjo, incorreste no desagrado do Senhor e

precisas fazer grande penitencia para recuperar a sua protecção. Hontem,

em vez de confortar e consolar o desgraçado, que está pendente d'esta

forca, escarneceste-o, e olhaste com indifferença para a sua tribulação.

Desprende o seu cadaver da forca, sepulta-o em sagrado, e lançando em

seguida esse madeiro aos hombros, leva-o pelo mundo, e seja elle o unico

travesseiro, em que descances a cabeça.

--E poderei eu ainda um dia obter o perdão da minha culpa? exclamou

Cosme lavado em pranto de arrependimento.

--Sim, lhe tornou o anjo. Quando d'esse madeiro brotar um ramo verde, é

que o Senhor te perdoou.

Dito isto, subiu o anjo ao ceu, cercado de musicas mysteriosas e de

brilhantes resplendores.

Cosme acercou-se animosamente do cadaver suspenso da forca, desprendeu-o

e deu-lhe sepultura; pegando em seguida no madeiro, cujos extremos se

apoiavam nos primeiros galhos de duas arvores fronteiras, foi com elle

aos hombros pelo mundo, segundo as indicações, que o anjo lhe havia dado.

III

Andava Cosme pelo mundo com o madeiro da forca ao hombro, e toda a gente

o escarnecia e fugia d'elle horrorisada.

Uma noite, tendo perdido a esperança d'encontrar asylo entre os homens,

penetrou n'um bosque, esperando encontral-o no meio das féras, e vendo

uma luzinha atravez da espessura, encaminhou-se para ella, e deu comsigo

á porta d'uma cabana, onde uma velhinha dormitava, junto do lume.

--Santinha, disse elle á velha, com voz supplicante, deixe-me, pelo amor

de Deus, passar aqui esta noite.

--Não póde ser, lhe tornou a velha, porque tenho dois filhos, que são

bandidos, e que devem chegar dentro d'uma hora; se aqui o encontrassem,

com certeza o matavam.

Cosme confiava piamente na promessa, que o anjo lhe tinha feito de que o

senhor lhe perdoaria, e como visse que o madeiro da forca não tinha

signaes, que indicassem que estava para rebentar, d'onde se deprehendia

que vinha ainda longe o momento da sua morte, insistiu em pedir á velha

que lhe désse pousada, no que ella, por ultimo, conveiu, esperando

conseguir dos filhos que o não assassinassem.

Estava Cosme exhausto de forças e, retirando-se para um canto da

choupana, poisou no chão o madeiro da forca, e deitou sobre elle a cabeça.

Condoida a velha de o vêr descançar em travesseiro tão duro,

offereceu-lhe um feixe de cheirosa herva do monte, mas Cosme o recusou,

dizendo:--offendi o Senhor, dizendo a um criminoso a quem levavam á

forca: «_quem as faz, paga-as_», e para que o Senhor me perdôe, vou pelo

mundo carregado com este madeiro, que deve ser o unico descanço da minha

cabeça, até que d'elle brote um ramo verde, que será o signal de que o

Senhor me perdoou.»

--Ai! exclamou a velha, rompendo n'um choro inconsolavel, se é tão

difficil para quem se arrepende e unicamente peccou por palavras o

alcançar o perdão do Senhor, quanto o não será para esses infelizes,

que, como os meus filhos, peccam todos os dias por palavras e obras, e

não têm no coração um vislumbre sequer do arrependimento.

O ancião adormeceu com a cabeça deitada no madeiro da forca.

Uma hora depois, chegaram os bandidos, e ao verem-n'o, arrancaram dos

punhaes para o assassinar.

A mãe, porém, contou-lhes a historia d'aquelle ancião, e pediu-lhes de

joelhos que, longe de o matarem, se arrependessem, como elle, das suas

enormes culpas.

--Pois bem, perdôe-se-lhe a vida, responderam os bandidos, fazendo

entrar os punhaes na bainha, e accrescentaram, soltando uma gargalhada

d'escarneo:

--Quanto ao arrependimento, havemos de o ter quando brotar o tal ramo

verde d'esse madeiro secco.

Principiaram os bandidos a cêar. Quando acabaram, dirigiram a vista para

o canto da cabana onde dormia o velho, e viram, com assombro, que do

madeiro secco tinha brotado um ramo verde e mimoso! Romperam então em

amargo pranto, rogando a Deus que lhes perdoasse as suas culpas.

Ao som de taes vozes acordou Cosme, e ao vêr que do madeiro secco tinha

brotado uma vergontea verde e louçã, expirou de alegria; e o anjo

baixou, sorrindo amorosamente, a tomar conta da sua alma, e a leval-a

comsigo para o ceu.

FIM DO MADEIRO DA FORCA.

A NECESSIDADE

I

Ainda hoje existe, junto á confluencia de dois rios, um formoso

castanheiro, a cuja sombra eu me sento, sempre que por alli passo, haja

ou não haja calor, e isto pela razão muito natural de que, sendo eu

creança, costumavamos sentar-nos, minha mãe e eu, á sombra d'aquella

mesma arvore, quando iamos a uma aldeiasinha, que ficava perto da nossa.

A pequena distancia do castanheiro vêem-se ainda as ruinas d'um moínho,

taes quaes eram nos tempos saudosos da minha infancia; e a lembrança de

minha mãe, do castanheiro e das ruinas, faz-me recordar d'um conto, que

ella me contou, em uma tarde de verão, ao pé da arvore frondosa, a cuja

sombra, graças a Deus! ainda posso sentar-me.

O ultimo moleiro, que habitou o moínho, era conhecido n'aquellas

redondezas pelo appellido de Senéca; e vejam lá, não vão mudar para o

primeiro o accento que puz sobre o segundo «_e_» d'este appellido, pois

que o moleiro de quem estou fallando, e que minha mãe conheceu e tratou,

era tão modesto, que ainda hoje no ceu se veria muito afflicto e

contrariado, se o confundissem com o philosopho cordovez.

Não tinha Senéca pretenções a philosopho, mas era-o até sem querer, e a

isto devia elle indubitavelmente o seu appellido, em cuja applicação não

podemos deixar de reconhecer uma philosophia muito profunda; se não,

reparem os leitores, e digam-me se não é bem admiravel a do povo, que,

com a mudança d'um simples accento, marca o abysmo, que separa o

philosopho da natureza do philosopho do estudo! Tinha eu que fazer, se

quizesse referir os muitos rasgos d'engenho e sã philosophia com que

Senéca _illustrou_ a sua trabalhosa e modesta vida, e portanto

limitar-me-hei a referir um dos que mais captivaram minha pobre mãe, de

quem herdei o gosto que tenho pelas recordações da infancia.

II

Senéca não tinha outra familia senão um filho de dez annos, nem outras

cavallarias senão um burro de vinte. Morreu-lhe a mulher, que era quem

ficava no moínho, curando das moagens, emquanto elle andava com o burro,

levando e trazendo folles por aldeias e casaes, e o pobre Senéca viu-se

então em graves embaraços, porque os seus ganhos lhe não permittiam

tomar uma creada, que substituisse sua mulher no moínho, nem um creado,

que o substituisse a elle no transporte dos folles.

--E como te has de tu arranjar agora? lhe perguntavam os visinhos,

quando o viram viuvo, e sem outro auxilio mais que o do pequeno.

--Não me dá isso cuidado, respondia Senéca, não faltará quem me ajude.

--Isso é bom de dizer; mas quem te ha de ajudar?

--Quem?... A Necessidade.

Os visinhos punham-se a rir do bom humor de Senéca, porém sem

comprehender o que elle queria dizer na sua.

Uma certa manhã apparelhou Senéca o _burrico_, poz-lhe em cima um sacco,

que continha quatro alqueires de farinha, e chamando o pequeno, disse-lhe:

--Rapaz, toma o burro pela arreata, e leva-me esta carga á padaria de

Somorrostro.

O pequeno _desatou_ a chorar.

--Que é lá isso, homem? perguntou-lhe o pae.

--Que ha de ser de mim pelo caminho, se o burro cair, ou se espojar no

chão! exclamou o rapazito, sem cessar de chorar.

--Não te dê isso cuidado, disse Senéca; se tal acontecer, não faltará

quem te ajude a levantar o burro.

--E quem é que me ha de ajudar n'essas devezas tão solitarias, que não

se encontra por ellas viva alma?!

--Quem? A Necessidade. Se o burro caír, ou se deitar no chão e se não

podér erguer, chama pela Necessidade, e verás como logo acode em teu

auxilio.

--Está bem, disse o pequeno, limpando as lagrimas com a manga da

jaqueta; e pegando na corda do burro, tomou pela margem do rio, caminho

de Somorrostro, que distava uma legua do moínho.

--Ora, ora, ora! Sempre este Senéca tem coisas!... diziam os visinhos,

ao verem o rapazito com o burro atraz de si. Com que então a

Necessidade, com cujo auxilio contava Senéca, para levar e trazer os

folles, era essa pobre creança?!... E o pequeno, quem é que o ha de ajudar?

III

Seguia o filho de Senéca com o seu burro á arreata ao longo dos

carvalhaes, que assombram as margens do rio, que corre pelo valle

profundo, que separa Somorrostro de Galdámes e Sopuerta, quando, ao

chegar a um pequeno areal muito suave, fez o burro esta reflexão:

--Ai! que bella cama para eu descansar um pouco!... e então, se eu

podesse soltar esta maldita carga, que me vae amolando as costellas!

E de repente, antes que o pequeno olhasse para traz, estirou-se ao

comprido no meio do chão.

--Ai! minha mãe!... exclamou o rapazinho aterrado;--porque convém saber

que em Hespanha, e com especialidade na Biscaya, não só aos pequenos

como tambem aos grandes, o primeiro auxilio que lhes occorre invocar nas

maiores afflicções, é sempre o de sua mãe, ainda mesmo que já a tenham

no ceu.

E pegando n'uma vergasta começou a zurzir o burro sem dôr nem piedade;

porém o animal, por mais esforços que fazia para se levantar, não o

podia conseguir.

Estava já o pequeno quasi a chorar, quando se lembrou do conselho, que o

pae lhe havia dado, e, em vez de dar largas ao pranto, começou a gritar:

--Necessidade! Necessidade! faz-me o favor de vir aqui ajudar-me a

erguer este burro?!

O pequeno bem olhava para todos os lados, a vêr se apparecia a

Necessidade, mas não via ninguem. Já cansado de chamar e de esperar pela

Necessidade, desatou o arrocho, que prendia o sacco ao apparelho do

burro, e alliviou-o da carga; em seguida deu-lhe uma vergastada e o

animal ergueu-se d'um salto. Então o pequeno tomou o burro pelo

cabresto, levou-o para junto d'uma ribanceira, e rolando o sacco até lá,

pôde, a muito custo, collocal-o em cima do animal; apertou-o bem com o

arrocho, montou-se sobre a carga, atirou uma pancada ao burro, e

proseguiu no seu caminho, mais alegre que umas paschoas.

Passada uma hora chegava o rapaz ao moínho, cantando e fazendo trotar o

seu _ginete_.

--Olá, pequeno, disse-lhe o pae, apenas o avistou, como te foi pela tua

viagem?

--Muito mal, meu pae.

--Então o que te aconteceu, homem?

--Deitou-se o burro no caminho, e, por mais pancadas que lhe dei, não

foi capaz de se levantar.

--E então o que fizeste?

--Desprendi a carga, levei o burro para o pé d'uma ribanceira, fui

rolando o sacco até lá...

--Bem, bem, já percebo. Quer isso dizer que chamaste pela Necessidade,

não é assim?

--Chamei, chamei; fartei-me até de chamar; mas não appareceu...

--Rapaz, disse Senéca, vê como tu te enganas;--quem te levantou e

carregou o burro não foi senão a Necessidade.

Tinha razão Senéca, e tambem eu a tenho para dizer aqui que a

necessidade presta tanto auxilio e tamanhos beneficios ao homem, que não

sei como ainda lhe não deram a cruz de beneficencia.

FIM DA NECESSIDADE.

A PORTARIA DO CEU

I

O tio Paciencia era um pobre sapateiro remendão, o qual ganhava

honradamente o pão de cada dia, mette que mette a sovella e puxa que

puxa o fio, em um portal de Madrid, e devia o apellido por que era

conhecido á resignação com que sempre tinha soffrido os muitos

trabalhos, que o Senhor lhe havia dado.

Ao tempo da constituição de 1820, era já rapaz dos seus quinze ou

dezeseis annos, mas tinha a innocencia de uma creança de oito, e como

ouvisse a cada passo dizer que todos os homens eram eguaes, perguntou ao

mestre se aquillo seria verdade.

--Não acredites n'essas cousas, lhe respondeu o mestre. Só no ceu é que

os homens são eguaes.

Sentiu o rapaz que não acontecesse outro tanto na terra, mas consolou-se

com a idêa de que o eram no ceu, e quando algum freguez da loja

convidava o mestre para beber uma pinga na taberna proxima, dizia com os

seus botões o pobre aprendiz:

--Pena é que não sejamos todos eguaes na terra, como succede no ceu,

porque se assim fosse, por certo que o freguez me não differençaria do

mestre, e, como elle, iria eu tambem agora á taberna beber a minha

pinga; mas, acabou-se... paciencia... no ceu seremos todos eguaes.

Passados dois annos, coube-lhe a sorte do recrutamento; então mais do

que nunca teve elle motivo para lamentar que os homens não fossem eguaes

na terra como no ceu, por isso que na sua companhia havia soldados

distinctos, e cabos, sargentos e officiaes, que provavam ser verdade

aquillo que o mestre lhe tinha dito ácerca da egualdade humana; porém

consolava-se ainda o pobre rapaz, pensando que no ceu se acabariam as

distincções, e todos seriam eguaes.

Deixou de servir o rei, e aproveitando-se do pouco que sabia do officio

de sapateiro, estabeleceu-se n'um portal, e alí passou o resto dos seus

dias, conformando-se com as privações que soffria, na esperança de ir

para o ceu e gosar então d'essa igualdade, que não encontrára na terra.

No andar nobre da casa, cujo portal occupava, vivia um marquez, que por

certo muito o houvera magoado com o espectaculo da sua opulencia, se não

fôra um excellente homem, e a não ser tamanha a sua paciencia, e sobre

tudo tão arreigada no seu coração a esperança de lhe poder dizer um dia

no ceu: «meu amiguinho, aqui todos nós somos eguaes.»

Não era porém só o marquez que lhe fazia sentir, que não fossem todos os

homens eguaes na terra; até os seus amigos mais intimos queriam

differençar-se d'elle. Estes amigos eram o tio Mamerto e o tio Macario,

homens de tão boa conducta, que não podia o tio Paciencia viver sem a

sua honrada companhia.

O tio Mamerto tinha uma paixão desenfreada pelos toiros, e passava por

ser muito entendido em materia tauromachica.

Quando, no reinado de Fernando VII, se creou uma escóla para ensinar

esta sciencia, esteve o bom do homem quasi a ser nomeado _lente

cathedratico_ da faculdade, e este precedente era o bastante para que

elle se considerasse superior ao tio Paciencia, o qual, reconhecendo

esta superioridade, se consolava pensando que, se o seu querido amigo e

elle não eram eguaes na terra, o seriam por certo no ceu.

O tio Macario era muito feio, mas casou com uma mulher lindissima, porém

levadinha da breca.

Ao cabo de vinte annos d'um viver amargurado, morreu-lhe o demonio da

mulher, e o pobre homem ficou tão descançado que lhe parecia ter entrado

no ceu; passados tempos, enamorou-se d'outra rapariga, que não ficava a

dever nada á primeira, e casou segunda vez, apesar de todos os esforços

que o seu amigo, o tio Paciencia, fez para lhe tirar isso da cabeça.

Ora, como o tio Paciencia nunca tinha conseguido que as mulheres se

agradassem d'elle, ao passo que do tio Macario se agradavam aos pares,

julgava este ter certa superioridade sobre o primeiro, que, da sua

parte, não deixava tambem de a reconhecer, e que devéras se teria

affligido com isso, se não fôra a lembrança de que o seu bom amigo e

elle seriam eguaes no ceu, já que na terra o não podiam ser.

O tio Mamerto era capaz de ir até ao fim do mundo para assistir a uma

corrida de toiros; tanto assim, que até costumava dizer: «Parece-me que

trocava de bom grado a gloria eterna por uma boa tourada», ao que o tio

Paciencia replicava sempre, agastado: «Homem, não digas heresias, que

não vá Deus castigar-te.»

Um dia em que os passaros caíam das arvores, assados pelo sol, havia em

Getafe uma corrida de garraios; o tio Mamerto, foi vêl-os, _á pata_,

segundo o seu costume, e, de volta a casa, acamou com uma febre, que o

levou d'esta para melhor vida.

No mesmo dia estava muito mal, na cama, o tio Macario, por causa d'uma

tremenda coça que a mulher lhe tinha dado, porquanto se a primeira

mulher lh'as dava grandes, a segunda não lhe ficava atraz. A mulher, que

nunca perdia a occasião de lhe communicar uma boa noticia, deu-se pressa

em lhe participar, que o tio Mamerto tinha _esticado a canella_, e

ouvindo isto, o pobre Macario, que já não estava para muitos sustos,

_esticou_ tambem a sua.

Como eu já disse, não podia o tio Paciencia viver sem os seus dois

amigos, porque lhes queria muito. Estranhando que, em todo o dia, elles

lhe não tivessem apparecido para palestrar um pouco e fumar um cigarro

na sua companhia, quando á noitinha deixou o trabalho, foi procural-os,

e soube então que ambos tinham morrido. Essa noticia causou-lhe um abalo

enorme, e, n'aquella mesma noite, tomou atraz d'elles o caminho do outro

mundo, com a grande consolação de que ia finalmente para onde todos os

homens eram eguaes.

Toda a visinhança sentiu muito a morte do tio Paciencia, pois todos

depositavam tamanha confiança na sua honradez e no seu caracter docil e

serviçal, que, quando careciam de trocar algumas notas do banco

d'Hespanha, encarregavam d'isso o tio Paciencia, que era capaz de morrer

arrebentado, para dar conta da incumbencia.

Na manhã seguinte á morte dos tres amigos, o bruto do creado particular

do marquez, quando entrou no quarto, teve a imprudencia de dizer a seu

amo que o sapateiro do portal morrêra, ao saber que dois amigos seus

tinham faltado quasi de repente. E como o marquez era um fidalgo muito

apprehensivo, e corriam uns certos rumores de cholera em Madrid,

assustou-se tanto com a saída de sendeiro do bruto do creado, que,

poucas horas depois, era cadaver, com grande desgosto da pobreza do

bairro. E por todas as partes se se ouvia dizer: «Estes homens, assim,

nunca deviam morrer.»

II

O tio Paciencia emprehendeu a jornada do ceu, muito contente com a

esperança de gosar da gloria eterna, de viver em um mundo onde todos os

homens eram eguaes, e finalmente de encontrar ali os seus queridos

amigos Mamerto e Macario. Com relação porém a este ultimo pensamento não

deixava elle de ter suas duvidas, porque dizia lá para os seus botões:

--E se lhe não querem abrir as portas do ceu?! Elles foram sempre homens

de bem ás direitas; mas o demonio da paixão de Mamerto pelos toiros, e a

tolice do Macario de casar segunda vez, tendo-se saído tão mal da

primeira, fazem-me receiar que lhes dêem com a porta na cara.

Para saír um tanto de duvida, perguntou a um viandante se tinha visto

passar por alí dois sugeitos, com estes e aquelles signaes; e como elle

lhe respondesse affirmativamente, proseguiu o tio Paciencia no seu

caminho, mais alegre que umas paschoas.

O caminho do ceu era escabroso e áspero, e essa era por certo a razão

porque n'elle se não encontrava senão gente pobre e habituada á fadiga.

Impressionado o tio Paciencia por não ver nenhum _figurão_, entre tantos

caminhantes, dizia, de si para si:

--Não admira que os homens ricos não façam esta viagem, porque teriam de

fazel-a no cavallinho de S. Francisco. Se podessem emprehendel-a de

carruagem, os diabos me levem, se não viamos por aqui mais trens do que

no Prado e na Fonte Castelhana.

O tio Paciencia interrompeu as suas reflexões ao vêr approximar-se,

vindo do lado do ceu, um homem, que chorava como um bezerro, e dava

mostras da maior desesperação. Era nada mais nem nada menos do que o tio

Mamerto.

O tio Paciencia sentiu uma pancada no coração, annunciando-lhe alguma

desgraça, quando reconheceu o seu amigo.

--O que tens tu, homem? perguntou elle ao tio Mamerto.

--Que demonio hei-de eu ter! Se eu não fosse um bruto, como não ha

segundo, não me fechavam para sempre as portas do ceu!

--Mas então como foi isso? explica-te com a bréca, que me tens o coração

em talas. Aposto que não foi senão por causa da maldita paixão pelos

toiros.

--Parece-me que concorreu.

--Vamos, por quem és, conta-me o que se passou.

--Cheguei á portaria do ceu, e encontrei alí uma porção de gente, que

estava á espera de vez para entregar os passaportes para o outro mundo.

O porteiro, que visava os papeis, com a sua grande calva _á mostra_, e o

seu mólho de chaves na mão, levava a coisa com toda a pachorra, e

moía-os com perguntas, primeiro que permittisse a entrada. Eu, que, como

é bem natural, estava morto por me vêr lá dentro, disse com os meus

botões:--Este velho, com os seus vagares, é capaz de me conservar aqui

de fóra até á noite. Pois deixa estar, que se te pilho distraído, atiro

commigo lá para dentro, ainda que depois me cortes uma orelha, como

fizeste ao pobre Malco. Estava eu a pensar n'este expediente, quando

vejo o porteiro armar uma questão com um pobre diabo, a quem não deixava

entrar, com o pretexto de ter sido apaixonado de toiros. Ahi temos nós

os toiros! disse eu, ao vêr aquillo. O velhote é capaz de me fazer

esperar uma eternidade, e por fim, se chega a saber que tambem fui

affeiçoado ás toiradas, nega-me a entrada, como aconteceu com o outro. E

que faço eu? Assim que o porteiro deu uma volta: zás! _raspo-me_ lá para

dentro. Já dava graças a Deus pela minha resolução, e vae senão quando o

porteiro, dá-lhe na cabeça contar quantos estavam na portaria, e conhece

que lhe falta um.

«--Falta-me aqui um! grita enraivecido, e aposto uma orelha que não é

senão o madrileno. Ou elle não fosse de Madrid, o maroto, que se escoou

lá para dentro como um gato: deixa estar que já vamos ajustar contas!

«--Ó meu senhor, disse da banda um adulador, que tinha assim geitos de

cortezão, quer que eu lh'o saque de lá para fóra por uma orelha?

«--Deixemos-nos d'orelhas, respondeu o velhote; e chamando uns musicos,

a quem fallava com muito agrado, porque parece que lhe tinham sido

recommendados por Santa Cecilia: Toquem lá a musica da saída do toiro!

«Os musicos começam de tocar, e eu (sempre sou muito bruto!) ao ouvir

aquelle toque, julgo que ha corrida de toiros na portaria, e sáio muito

lépido a vêl-a; de repente, o porteiro fecha a porta e deixa-me ficar de

fóra, com uma cara de palmo e meio, dizendo-me:

«--Vá já para o inferno, seu meliante, que uma paixão por toiros como

essa, não póde Deus perdoal-a.

«E aqui tens tu, querido Paciencia, como eu vou caminho do inferno por

causa da minha maldita mania pelas toiradas!»

O tio Paciencia prorompeu em amargo pranto ao vêr a infelicidade do seu

velho amigo, e esteve quasi a prégar-lhe um sermão, mas não o fez por se

lembrar de que era prégar no deserto; ambos continuaram, por ultimo, o

seu caminho; o tio Paciencia o do ceu, que era costa acima, e o tio

Mamerto o do inferno, que era costa abaixo.

--Querem vêr que tambem me acontece alguma na portaria? O tal senhor

porteiro tem um geniosinho endemoninhado!

Isto dizia o tio Paciencia, seguindo sempre o seu caminho, quando

avistou outro homem, que vinha do lado do ceu. Este não se carpia, nem

se arrepellava; trazia porém a cabeça baixa, e denotava profunda tristeza.

--Esperem! disse o tio Paciencia. Os diabos me levem se aquelle não é o

tio Macario! Pois que? Não é senão elle!

Com effeito, o tio Macario era o da cabeça baixa.

Os dois amigos abraçaram-se commovidos.

--Tu por aqui, Paciencia! disse o tio Macario. Para onde vaes, homem?

--Ora, para onde hei de eu ir? Vou para o ceu.

--Duvido muito que lá entres.

--Então porque?

--Porque é difficilimo entrar lá.

--E em que consiste a difficuldade?

--Consiste em ser o porteiro o velho mais caturra, que eu tenho visto. E

para prova, basta o que se deu commigo.

--Conta depressa.

--Uma frioleira! Chegamos, eu e outro, á porta; chamamos, e apparece-nos

o porteiro, com a sua grande calva e o competente mólho de chaves na mão.

Contos escolhidos de D. Antonio de Trueba · 第 4 / 6 段