sua causa; a rainha porém fal-os entrar na ordem, á custa de repetidos
toques de campainha, e com ameaça de os fazer expulsar do salão.
O orador continúa:
--Ficarei por aqui a respeito de judeus, os quaes, em verdade, me causam
dó, ainda que não seja senão por os vêr condemnados a esperar o Messias,
até á consummação dos seculos; com isso já não estão mal castigados por
haverem crucificado a Christo, porque lá diz o rifão: «quem espera,
desespera». Passemos agora aos mahometanos. Quem era o tal Mafoma?
--O propheta de Deus! exclamam os mahometanos, pondo a mão no peito, e
dobrando-se reverentemente.
--Qual propheta, nem qual cabaça!...
Aqui é que foram ellas! Dizer isto o Preste João, e arrancarem os
_moiraços dos chanfalhos_, rugindo de cólera, foi tudo obra d'um
momento; a rainha porém sacudiu a campainha, mandou entrar o piquete da
guarda, e graças a esta energia da presidencia, accommodaram-se os
perturbadores da ordem, e o orador pôde, a final, continuar:
--Mafoma era um _sugeito_ que passava por sabio e grande, entre os seus
compatriotas, pela razão muito simples de que na terra dos cégos, quem
tem um olho é rei! Um dia, disse elle com os seus botões: Como hei de eu
arranjar a dominar estes _barbaças_, que não tratam senão de se divertir
com as moças?... como?... esperem lá... já sei. Engendro-lhes uma
religião baseada no grosseiro sensualismo, e metto-lhes na cabeça, que
ella me foi revelada por um anjo.» E dito e feito: arranjou o tal
_alcorão_, segundo o qual, a mulher e o cavallo vem a ser, para o homem,
uma e a mesma coisa, por isso que apenas servem para o divertir; e fez
acreditar aos asnos dos seus compatriotas, que, no outro mundo, haviam
de encontrar moças ás duzias, e obra desenganada.
--E é que as havemos de encontrar! gritam furiosos os mahometanos.
--Deixemos-nos de lerias!... que hão de vocês encontrar?! Só se forem
alguns tições, que outra coisa não podem lá achar uns barbaros como
vocês, que atravessam seculos e seculos, sem dar um passo na senda do
progresso! Vamos porém agora a vêr o que é a mulher, segundo a religião
estupida de Mafoma.
--Lancem-se essas palavras na acta! gritam, afogados em cólera, os
mahometanos.
--Não é da minha real vontade! responde a rainha. Prosiga o orador no
seu discurso, que eu cá estou para lhe manter o uso da palavra.
--Pois bem, eu continúo: É para cortar o coração, e fazer caír a alma
aos pés, a maneira como a mulher é tratada pelos musulmanos. Não se
contentam estes senhores com ter duas ou tres mulheres; possuem centos
d'ellas, encerradas em carceres, a que dão o nome de serralhos, ou
haréns. Atravessa a gente as cidades mais populosas da Turquia, e não
encontra uma mulher siquer para um remedio; e isto porque esses barbaros
até as privam do ar e do sol, as duas coisas mais preciosas, que a
natureza concede á creatura. Horror! cem vezes horror!! Negarem á
mulher, esse formoso ser, todo amor e ternura, a quem todos nós temos
dado o dulcissimo nome de mãe, o ar e o sol, que não negam aos mais
immundos irracionaes! Maldição sobre essa lei impia, sobre o falso
propheta, que a dictou, e sobre o povo barbaro e fanatico, que a segue!
--Ah! perro christão!... gritam, a um tempo, todos os musulmanos, ao
ouvir a energica apostrophe do Preste João; e, rugindo de raiva, mais
furiosos ainda do que da primeira vez, lançam mão dos alfanges, com
ameaça de acabar tragicamente com a discussão; a rainha porém, mandou
entrar novamente o piquete da guarda, que os desarmou e os metteu na
ordem, a poder de muita coronhada d'armas.
Apasiguada que foi aquella rusga, continuou o Preste João o seu discurso:
--Que differença entre o que a mulher deve á religião christã, e o que
deve a qualquer das duas religiões, mahometana e hebraica! Maria, em
cujas entranhas encarnou o Verbo Divino, senta-se, no ceu, ao lado do
Filho de Deus, e juntamente com Jesus, lhe dão os homens o dulcissimo e
santo nome de mãe. A religião christã glorifica a mulher, destinando-a a
esmagar a cabeça da serpente do peccado, e Jesus proclama a egualdade de
todas as creaturas humanas, e diz aos meninos que se acerquem d'elle,
igualando, por tal forma, a mulher ao homem, e exaltando os fracos em
cujo numero se conta a mulher. É pois a religião christã a unica que
favorece a mulher; é aquella que a emancipa da escravidão e do
opprobrio, a que a condemnam as religiões judaica e mahometana. Tenho
dito; veremos agora se ha ahi alguem, que seja capaz de me contradizer.
--Teem a palavra os judeus, disse a augusta presidente.
--A religião de Moysés, replicou um rabino, já completamente desanimado,
não carece de entrar em discussões, para provar a sua superioridade
sobre todas as outras.
--Ficamos _inteirados!_ disse a rainha, e accrescentou: Teem a palavra
os doutores musulmanos.
--Nós _cá_, os verdadeiros crentes, exclamou um turco, não discutimos
senão d'alfange em punho.
--Quer isso dizer, á bruta! exclamou a rainha indignada; e erguendo-se
da cadeira, accrescentou: estando já a hora mui adiantada, e não havendo
mais assumptos a tratar, está levantada a sessão.
IV
Ficou a rainha quasi resolvida a casar com um christão; porém, receiosa
de que houvessem murmurações e commentarios que lhe fossem
desagradaveis, lembrando-se de que alguem poderia dizer que ella obrára
levianamente, determinou-se a tentar uma outra prova. Consistia essa
prova em fazer com que os apostolos das tres religiões celebrassem, na
sua presença, uma das cerimonias mais importantes dos ritos que
professavam.
Christãos, musulmanos e judeus, todos, com muito gosto, acceitaram a
proposta de S. M., que logo fixou o dia para as cerimonias, que deviam
verificar-se no mesmo salão, onde se tinha discutido qual era das tres
religiões aquella a que mais devia a mulher.
Os primeiros que saíram a terreiro foram os mahometanos, os quaes
annunciaram que iam executar a _Zala_.
Tinha a rainha grande curiosidade de presenciar esta cerimonia, que
julgava ser magnifica, e que muito a divertiria; quando porém viu que a
tal _Zala_ consistia tão sómente em cruzarem aquelles _ratões_ as mãos
no peito, e fazerem reverencias e mais reverencias, ficou mais fria que
o proprio gêlo.
--Muito engraçados são os taes _moirinhos_! disse S. M., com riso
disfructador; e ordenou, em seguida, que saíssem a campo os judeus, a
vêr que tal se portavam.
O grande rabino, com o seu barrete _enterrado_ até ás orelhas, como usam
os seus correligionarios, sacou d'um livro, e immediatamente appareceram
todos os judeus com os seus ripanços nas mãos. Ora, os taes livros
seriam muito edificantes, mas tinham tanta côdea, que só com uma tenaz
se lhes poderia pegar. O rabino principiou a entoar um psalmo, e todos
os judeus o acompanharam; cantavam porém tão desentoadamente, e davam
tão insoffriveis bérros, que a pobre da rainha não teve outro remedio
senão tapar os ouvidos, e mandar a toda a pressa que cessasse tamanha
algaravia.
Cessou com effeito, e os christãos dispuzeram-se, por ultimo, a celebrar
o santo sacrificio da missa, para o que o Preste João tinha tudo
perfeitamente ordenado.
Collocaram no salão um magnifico altar, accenderam uma grande quantidade
de tochas, que faziam bellissima vista; puzeram o orgão n'um sitio, que
tinha excellentes condições acusticas, tossiram e _aguçaram o pigarro_
os cantores que haviam de officiar a missa, e que, como em principio
dissemos, eram os melhores de Roma; e, em seguida, subiu o Preste João
ao altar, magnificamente revestido, bem como os dois acólitos, que o
acompanhavam. A missa foi solemnissima, e tanto os celebrantes, como os
cantores e o organista fizeram prodigios, que deixaram de bôcca aberta a
rainha e a sua côrte.
Os mahometanos e os judeus olharam uns para os outros, e disseram por
entre os dentes:
--Derrotaram-nos em tudo e por tudo estes perros christãos!
E na verdade não se enganaram, porque a rainha chamou, pouco depois, o
Preste João, e disse-lhe:
--Decididamente caso com um christão.
--Louvado seja o Senhor! exclamou o Preste João, cheio de santa alegia.
Agora só falta que V. M. escolha o christão, que deve ter a ventura de
occupar o thalamo de tão formosa princeza.
--Já está escolhido, disse a rainha das Indias, fazendo-se córada como
uma romã.
--E quem é esse feliz mortal?
--Tu.
--Eu!... V. M. não está em seu juiso!
--Então! faz-te agora de manto de seda!...
--Não, senhora; porém não sabe V. M. que eu sou padre, e que os padres
catholicos não podem casar?...
--Que me dizes, homem?
--Digo-lhe isto, real senhora!
--Pois, amigo; partiste-me o coração!
--Então, porque?
--Porque estou apaixonada por ti, e se não casar comtigo, não caso com
ninguem.
--Mas, senhora, entre os meus correligionarios ha moços mais bem
parecidos do que eu.
--Asseguro-te que nenhum me póde agradar tanto como tu.
--Sinto isso bem; mas eu é que não posso casar.
--Visto isso, não terei outro remedio, senão dar a mão d'esposa a algum
d'esses moiros... que... diga-se a verdade, entre elles ha rapazes bem
_tirados das canellas_, e o que me não agrada n'elles é apenas a
religião, que professam...
Quando o Preste João ouviu estas palavras, tremeu dos pés á cabeça,
pensando, e com razão, que, pelo facto de a rainha casar com um
mahometano, todas as Indias, povoadas de milhões e milhões de
habitantes, abraçariam a seita detestavel de Mafoma, ao passo que, se
casasse com um christão, toda aquella gente seguiria a religião de Christo.
--Senhora, disse elle, por fim, á rainha, póde ser que consigamos
harmonisar tudo. O Papa, que é o Vigario de Christo na terra, é o unico
que póde auctorisar-me a casar com V. M. Vou já escrever-lhe, pelo
correio d'hoje, pedindo-lhe a competente licença.
--Oh! que feliz idêa! exclamou a rainha; e riam-se-lhe os olhos, de
contente. Bem digo eu que és um rapaz de muitos recursos!
O Preste João poz logo mãos á obra; escreveu ao Papa, contando-lhe,
muito pelo miudo, o que se passava, e, na _volta do correio_, recebeu de
Sua Santidade a dispensa para casar com a rainha das Indias.
Celebraram-se, pouco tempo depois, as vôdas, com grandes festas e muito
regosijo (bem entendido, depois da rainha se ter feito christã) e,
passados annos, recebiam o baptismo todos esses milhões de milhões de
indios, que os inglezes, nos nossos dias, se fartaram de metralhar, sem
dó, nem piedade.
Eis-ahi a historia do Preste João das Indias. Outros a contarão com mais
graça do que eu, porém com melhor intenção por certo que ninguem a conta.
FIM.