desabridas, nem tão pouco se lhe afiguravam crueis os motejos de
Marianno e de Toribio; já não julgava insupportavel o trabalho a que o
submettiam desde pela manhã até altas horas da noite, e até o quarto em
que dormia, humido e frio, triste e isolado, lhe parecia confortavel e
alegre desde que n'elle sonhava com os prazeres do domingo, embalado nas
risonhas esperanças de disfructar, ao menos um dia na semana, gosos
similhantes áquelles, que diariamente o deleitavam nos campos do seu
paiz natal.
--Se os bosques e os prados da minha terra são tão formosos, pensava
elle, como não hão de ser encantadores os d'aqui, se até por elles
passeiam os reis e a sua côrte? E quando as caçadas, lá nos meus sitios,
são tão divertidas, o que não acontecerá em Madrid, onde tudo deve
participar da grandeza da capital?
E os aprestes de caça de D. Lucas! Como são ricos! a espingarda e o
polvarinho marchetados de prata, e as polainas e os correões bordados a
sêda! Muito me hei de divertir! Parece-me que já estou a atravessar
espessos bosques de carvalhos e castanheiros seculares, a passar regatos
cristallinos, e torrentes espumosas, e a vêr, a meu salvo, do alto d'uma
fraga, do cimo d'uma collina ou da copa d'uma arvore, o javalí e o veado
perseguidos pelos cães. Por fim, ao caír da tarde, quando tivermos
reunido uma boa porção de formosas rezes, iremos descançar debaixo das
ramadas ou das nogueiras que fazem sombra aos casaes, onde não deixarão
de nos offerecer excellente leite e fructa saborosa. E quando entrarmos
na cidade! Com que orgulho, com que alegria não atravessaremos nós essas
ruas, com grandes enfiadas de perdizes ás costas, e trazendo á arreata
uns poucos de burros carregados de javalís e lebres!
Chegou finalmente o domingo tão desejado. O céo appareceu limpido e
puro; despontou o sol mais formoso que nunca, e um vento forte, que
soprára toda a noite, tinha seccado completamente o solo. Tudo
contribuia para aformosear e revestir de galas o dia destinado a
compensar Angelo dos desgostos e maus tratos que soffrera até ali.
Na véspera á noite tinha dito D. Lucas aos caixeiros, em presença dos
donos da casa, que eram fieis observadores dos preceitos religiosos:
--Amanhã _levantar_ cedo para ouvir missa antes de partir para o campo.
Os caixeiros, e bem assim D. Lucas, levantaram-se effectivamente muito
cedo, mas não foi para ouvir missa.
Bem se importava D. Lucas com a missa, quando se tratava de caça que era
o seu divertimento favorito!
O sobrinho de Quijano marcou tarefa a cada um dos rapazes. Angelo foi
encarregado de fazer varetas de junco, Manoel de encher de polvora os
polvarinhos e de chumbo as bolsas dos correões, e Marianno de fazer
provisão de fulminantes.
Soou finalmente a hora da partida; D. Lucas, Manoel e Marianno calçaram
botins muito grossos, afivelaram vistosas polainas bordadas a seda de
differentes côres, lançaram ás costas grandes saccos de caça e
armaram-se não só de espingardas de dois canos, como tambem de facas de
matto; por ultimo tiveram o cuidado de metter para os bolsos um bom
punhado de balas.
Angelo olhava para aquelles preparativos com indizivel satisfação, e
dizia com os seus botões:
--Estas polainas, estes enormes saccos de caça, estas facas de matto e
estas balas indicam que vamos correr montes espessos e escabrosos, que a
caça deve ser abundante e que de certo nos temos de haver com javalís
ferozes, e talvez até com ursos e lobos.
O que porém dava que entender a Angelo era vêr que D. Lucas se dispunha
a levar comsigo os dois cãesitos de casa do banqueiro, que não podiam
ter forças para arrostar com os perigos e fadigas d'uma caçada como a
que elle phantasiava na sua infantil imaginação.
Saíram a final, e tomaram pela rua abaixo; «muito barata ha de estar
ámanhã a caça!» diziam algumas pessoas ao verem-n'os passar.
E Angelo, que não comprehendia a ironia que se continha n'estas
palavras, cada vez se confirmava mais na ideia que tinha formado da caçada.
IX
Quando avistaram a porta de Toledo, ficou Angelo a pular de contente;
mais alguns passos apenas e estavam no campo, onde ia recrear a vista na
contemplação d'uma perspectiva encantadora; era esse o juizo que
formava, e que tinha como certo.
Se tanto o deleitavam as ridentes paisagens do seu paiz, com mais razão
entendia a pobre creança que o haviam de captivar as dos arredores de
Madrid, a capital da Hespanha onde tudo devia ser magnifico e admiravel.
Lá, na frente, pensava elle, hão de avistar-se talvez grandes montanhas
cobertas de frondoso arvoredo; a um lado elevar-se-ha uma verde colina
coroada pelas ruinas d'um castello mysterioso e sombrio; do lado opposto
erguer-se-hão ás nuvens penhas alcantiladas, por entre as quaes se
despenharão com rouco bramido impetuosas torrentes, e pelas faldas dos
montes ha de estender-se por certo uma veiga deliciosa, semeada de
casinhas brancas, e regada por um rio caudaloso, em cujas ribas estarão
collocados, destacando no horisonte, inumeros moínhos, completando a
paisagem com os seus tectos elegantes e pittorescos...
É este o espectaculo grandioso, que vae, n'um momento, offerecer-se aos
meus olhos!
E vendo que estavam quasi a chegar á porta, desceu Angelo a vista com o
proposito firme de a não levantar, em quanto não sentisse debaixo dos
pés a herva do campo, para assim poder abranger a um tempo e de repente,
o formoso panorama, que se lhe desenhava na mente.
A areia e a brisa subtil do Guadarrama, e não esse tapete de mimosa
relva, que sonhára, lhe fizeram conhecer que já se achava fóra de Madrid.
Ergueu de subito os olhos e abarcou ancioso com a vista a paisagem, que
tinha diante de si.
Ai! que differença entre o panorama, que se lhe apresentava e aquelle
que phantasiára na sua pueril imaginação!
Em frente limitavam o horisonte os cêrros escalvados e agrestes de Santo
Izidro, coroados não de arvores formosas e de castellos mysteriosos, mas
sim de telhados denegridos pelo fumo e de lugubres cemiterios,
circumdados de muros de terra. Do lado esquerdo uma planicie estéril e
monótona, da qual os accidentes mais bellos são o cêrro dos Anjos e o
cêrro Negro. Á direita as vendas ou retiros miseraveis e as aridas
encostas, que dominam a ponte de Segovia; e em baixo, na planicie, o
triste Manzanares, arrastando-se penosamente por entre muladares e
lavadouros!...
Um cruel desalento e uma profunda melancholia se apoderaram para logo de
Angelo; comtudo não perdeu de todo a esperança de deparar com o paraiso
dos seus sonhos.
--Quem sabe? pensava elle, talvez que ao transpor aquellas imminencias
se descubra uma paisagem menos arida e triste do que esta que d'aqui se
observa. E seguindo os seus companheiros, atravessou o Manzanares pela
ponte de Santo Izidro. De repente D. Lucas parou, recommendando, por
signaes, aos outros que não fizessem bulha. Todos obedeceram, e elle
então adiantou-se, nas pontas dos pés, agachando-se cautelosamente, e
com os perros da espingarda levantados.
Angelo suppoz que D. Lucas teria avistado alguma lebre, ou pelo menos um
bando de perdizes. Por fim o grande caçador de Madrid disparou a arma, e
exclamou cheio de alegria:
--Lá caíu, lá caíu! Áquelle já ninguem lhe vale!
E desappareceu por entre os choupos da margem do rio. Alguns momentos
depois tornou a apparecer, mostrando triumphante um passaro _ribeirinho_
que acabava de matar!
As illusões de Angelo soffreram um novo golpe. Que caçada era aquella em
que os caçadores se alvoroçavam tanto com a morte d'um passarito? Para
que serviam então tantas balas, tantas facas de matto e tantos saccos e
correões de caça?!
Os caçadores treparam aos cêrros de Santo Izidro, e Angelo dirigiu a
vista para o novo horisonte. Alli, como na porta de Toledo, não via para
todos os lados para onde olhava, senão áridas serranias, collinas
escalvadas, umas poucas d'arvores rachiticas, e alguns silvados e
espinhaes, contornando o regato de Luche.
D. Lucas não desanimava como Angelo. Atravessando campos semeados, atraz
d'um pardal ou d'uma cotovia, foi-se affastando, poupo e pouco, seguido
pelos seus companheiros. Angelo já se sentia fatigado, e outro tanto
acontecia aos dois _improvisados_ cães de caça. Sentou-se por fim n'uma
pedra, e os cãesitos, vencidos egualmente de cançaço, deitaram-se n'um
rego do campo; D. Lucas, porém, vendo isto, deu um empurrão á pobre
creança, e affagando os cães, obrigou-a a carregar com elles.--«Tu que
não pódes leva-me ás costas.»
Como D. Lucas seguisse a margem do ribeiro de Luche, saltou-lhe um
coelho de entre os pés. D. Lucas disparou-lhe um tiro a corta-matto,
porém o coelho proseguiu no seu caminho sem ter soffrido o _mais leve
incommodo_.
O caçador soltou uma praga e affirmou aos seus companheiros, que o
coelho ia ferido, e que se não tinha morrido logo ali, a culpa não era
sua, mas sim da polvora, que não prestava para nada. E o pobre Angelo
que já não podia com o corpo, e menos ainda com a alma, continuava a
seguil-os, carregado com os cães.
Com estas e outras proezas foi passando o tempo, e os caçadores tomaram
por ultimo o caminho de Madrid, levando nos correões meia duzia de
passaritos.
De vez em quando Angelo ficava para traz, e o sobrinho do banqueiro
ajudava-o então a andar, proferindo uma praga, ou dando-lhe um pontapé.
Junto á porta de Toledo, encontraram um caçador, que levava quatro coelhos.
--Olá, tio Lobo! disse D. Lucas; pelo que vejo não lhe correu mal, hein?
--Assim, assim, snr. D. Lucas; e o senhor, que tal?
--Ora deixe-me, homem, estou desesperado com esta maldita polvora.
--Então que tem? está humida, talvez?
--Nada, humida não está; mas não sei o que tem, que não presta para
nada; dei hoje mais de vinte tiros, e vi fugir todas as peças de caça
feridas.
--Pois a mim é que isso não acontece; a caça que me fugir preguem-m'a na
testa. Tenho uma polvora de contrabando, que não quero que haja melhor.
--Homem, vende-me vocemecê uns poucos d'arrateis?
--Com muito gosto, snr. D. Lucas; qualquer dia d'estes lá lh'os levo a
casa.
--Muito bem. Vamos agora a vêr esses _bicharôcos_.
--Póde vêr á vontade, que são quatro peças de caça aceiadas.
--Isso vejo eu. Provavelmente são para vender na praça?...
--Está bem de ver, nem a gente vive d'outra coisa.
--Pois, n'esse caso, fico eu com os coelhos.
--Estão ás suas ordens, snr. D. Lucas.
--E quanto lhe hei de dar por elles?
--Dá-me aquillo que o senhor quizer.
--Está bom, ahi tem um duro, serve?
--Muito obrigado, snr. D. Lucas. O que eu desejo é que os senhores os
comam com saúde. Até outra vez, se Deus quizer.
--Adeus, tio Lobo.
O _verdadeiro_ caçador tomou a dianteira aos caixeiros de Quijano. D.
Lucas tratou logo de enfeitar o seu correão com os quatro coelhos, e
pouco depois entrava em Madrid, tão inchado que não cabia na rua de
Toledo, e causando inveja áquelles que ainda pela manhã tinham zombado
d'elle.
X
Dois ou tres dias depois da famosa caçada, estavam no gabinete de D.
João Quijano, palestreando junto do fogão, o banqueiro, seu sobrinho D.
Lucas e quatro ou cinco amigos intimos da casa.
Fóra, no escriptorio, trabalhavam em silencio os caixeiros e com elles
Angelo, cujas côres rosadas iam pouco e pouco desapparecendo, e cuja
tristeza era cada vez mais profunda.
--Como vamos nós de caça, D. Lucas? perguntou um dos amigos.
--Ás mil maravilhas, respondeu D. Lucas.
--Meu sobrinho, acudiu o banqueiro, está sendo o rei dos caçadores! Pois
não sabem que, domingo, teve a habilidade de se apresentar aqui com
quatro coelhos, que pareciam quatro bezerros?!
--Que nos diz, homem?
--Nem mais nem menos, é como lhes conto. Aprendam como elle a matar
coelhos onde ninguem os costuma matar, nos suburbios de Madrid.
--Sempre queria saber como isso foi, disse um dos interlocutores.
--Tem pouco que saber, disse D. Lucas. Matei domingo quatro coelhos,
junto ao ribeiro do Luche. Aquillo foi n'um abrir e fechar d'olhos, e é
preciso advertir que a polvora não prestava para nada.
--Não sei como isso se faz; eu cá, por mais voltas que dou, não sou
capaz de levantar um coelho por estas visinhanças.
--É porque os senhores são caçadores das duzias! Eu por mim, nem sequer
preciso de cão; havendo coelho, está prompto; faço-o saltar, e depois de
lhe atirar, nem todos os santos lhe valem, porque onde eu puzer a vista
ponho o tiro. Pum! coelho a terra!... Os quatro de domingo foi um
momento em quanto caíram.
--Pois, senhor, não tem que vêr, é um bom caçador!
D'isso está elle convencido. A caçada de domingo ha de ser apregoada por
toda a cidade; não falla d'outra cousa a quantas pessoas aqui entram!
Estava ainda o sobrinho do banqueiro narrando, com toda a miudeza, como
matára os quatro coelhos, quando entrou no escriptorio o tio Lobo, que
ia levar a D. Lucas os dois arrateis de polvora de contrabando, que este
lhe encommendára.
--Esta ahi o snr. D. Lucas? perguntou o caçador aos caixeiros.
--Sim, senhor, respondeu Angelo.
--Pois faça favor de lhe dizer que está aqui fóra o tio Lobo, que o
procura.
O pequeno entrou no gabinete.
D. Lucas, que ainda não tinha acabado de contar como matára os quatro
coelhos, ficou logo furioso por lhe interromperem a historia, e antes
que o pequeno tivesse tido tempo de fallar, perguntou-lhe, com aquella
amabilidade que lhe era propria:
--Que queres tu d'aqui, borrego?
--É que está ali fora o Lobo, respondeu Angelo.
Desataram todos a rir, vendo a relação casual, que havia entre a
pergunta e a resposta.
Não era para admirar que Angelo omitisse a denominação de _tio_, que
costumava preceder o nome do caçador, porque esse tratamento, que é tão
vulgar em quasi toda a Hespanha, não se usava nem se usa, na sua
provincia, senão quando o justificam os laços de consanguinidade.
Julgando por tanto que se riam por não se haver explicado bem, ficou
corrido de vergonha, e tratou de se fazer comprehender melhor.
--Parece-me que é assim que tenho ouvido chamar-lhe; e accrescentou, «é
aquelle caçador a quem o senhor comprou domingo os quatro coelhos junto
á porta de Toledo.»
Estas palavras de Angelo foram acolhidas com uma gargalhada ainda mais
ruidosa do que a anterior, porém menos inoffensiva; uma gargalhada de
mofa, insultante, sangrenta, e isto porque os caçadores têm dois grandes
defeitos; são geralmente embusteiros e invejosos, e assim como não
perdem a occasião de mentir, tambem não perdem nunca o ensejo de
humilhar os que caçam, ou suppõem caçar mais do que elles.
D. Lucas ficou por espaço d'um segundo immovel, envergonhado e corrido;
porém, de repente, injectaram-se-lhe os olhos de sangue,
engorgitaram-se-lhe as veias, e tornou-se completamente livido e
desfigurado.
Arremeçou-se como um tigre sobre a pobre creança, vociferando e
praguejando como possesso, e lançando-lhe as mãos ao pescoço, levou-a
d'encontro á parede e começou a descarregar-lhe furiosas patadas no
estomago, antes que D. João e as outras pessoas, que se achavam
presentes, tivessem tido tempo para se interpor entre aquella fera e o
innocente cordeiro, que, por unica defesa, invocava o nome de sua mãe.
Oh! tu, Fernan Caballero, nobre e generoso cantor do nosso bom povo
hespanhol, amigo dos pobres d'espirito e dos ricos de coração, que tens
cabeça d'homem para pensar e alma de mulher para sentir; tu que és o
amigo por excellencia dos meninos e das mães, dos fracos e dos
attribulados; tu que buscas e encontras as dôres e as afflicções do
proximo, onde as almas vulgares as não descobrem, e que, com tanto
sentimento e caridade, as prantêas, dize-me, meu bom Fernando, não achas
que os sabios legisladores da humanidade tem sido extremamente crueis e
ignorantes, pondo os meninos debaixo da salvaguarda do codigo, que
protege os homens, em vez de os acobertar com a égide celeste do codigo
que protege os anjos?!
XI
Alguns mezes haviam já decorrido depois do dia em que Angelo escapou,
por milagre, de morrer ás mãos de D. Lucas.
Era por uma aprazivel manhã de primavera. A sala de jantar de D. João
Quijano tinha uma janella, que olhava para o norte. Em quanto o
banqueiro e sua mulher tomavam chocolate na sala, Angelo fôra para a
varanda, e ali se conservava, com a vista immovel e fixa na direcção do
seu paiz.
O pobre pequeno estava mais alto do que quando chegára das montanhas de
Biscaya, porém tinha emagrecido consideravelmente. Cobria-lhe o rosto
uma pallidez mortal, e nos seus bellos olhos, tão meigos e sympathicos,
retratava-se-lhe a profundissima tristeza que lhe ia n'alma.
--O que fazes tu ahi, Angelo? perguntou carinhosamente D. Joanna.
O menino não respondeu.
--Oh! meu Deus! O que terá esta creança?! accrescentou a mulher do
banqueiro, com verdadeira afflicção.
--Não sei o que elle tem, Joanna, mas ninguem me tira da cabeça que está
doente desde que Lucas lhe bateu, apesar do medico dizer, passados
quinze dias, que o considerava completamente restabelecido.
--Queira Deus que Lucas lhe não tornasse a pôr a mão.
--Não, filha; por isso fico eu. Mas vejo-o tão abatido e melancholico,
que receio muito pela sua existencia.
--Ai! Nossa Senhora permitta que te enganes. Angelo se chama e foi elle
na verdade um anjo que trouxe a paz e a harmonia á nossa casa; porque,
desde que para aqui veiu esse menino, nós que sempre andavamos de rixa,
estamos inteiramente mudados, e tenho fé em que elle ha de acabar por
abrandar e adoçar por uma vez este meu maldito genio.
--Assim é, Joanninha, exclamou o banqueiro commovido; sempre esperei que
quando tivesses um filho, se operaria em ti uma grande mudança. Não quiz
Deus conceder-nos essa ventura, mas enviou-te em compensação essa
criança, a quem queres hoje quasi tanto como se fôras sua mãe.
--Quem sabe se o que tem o pequeno é um desejo ardente de voltar para a
sua aldeia... suspirava tanto por isso, a principio...
--Tambem me não parece que seja essa a causa do seu soffrimento. Desde
que os paes lhe disseram n'uma carta, que era elle o unico amparo com
que contavam para a velhice, e que, se voltasse para a terra, nada
poderia fazer em beneficio d'elles, não cessa de dizer que está
satisfeito em Madrid, e até quando alguma vez se encontra de bom humor,
costuma repetir o proverbio «_de Madrid só para o céo_».
--Pois é preciso mandar chamar o medico, porque se não cuidarmos d'elle
váe cada dia a peior. Angelo, accrescentou D. Joanna, chamando novamente
pelo menino.
Este deixou como assustado a immobilidade em que estava, olhou novamente
com ineffavel languidez para o norte, e entrou na sala.
--Que tens tu, meu filho? perguntou-lhe com ternura D. Joanna,
correndo-lhe a mão pela cara.
--Não tenho nada, respondeu Angelo.
--O que fazias na varanda?
--Nada; estava a vêr o sol.
--Vamos, senta-te aqui, e toma chocolate comnosco.
--Não me appetece.
--Mas o que é isso? O que te falta? Não te quero eu como se fôra tua mãe?
O menino não respondeu; arrasaram-se-lhe os olhos de lagrimas, e os de
D. Joanna tambem.
--Olha, accrescentou esta, não vás outra vez para a varanda que te faz
mal o sol; vae antes um bocado até ao escriptorio, não para trabalhar,
mas para vêr se te distrahes com os teus companheiros.
Angelo saíu da sala, e desceu a escada.
Ás tres horas, subiram para jantar D. Lucas, e os dois caixeiros Manoel
e Marianno.
--Onde ficou Angelo? perguntou D. Joanna.
--Não veiu cá para cima.
--Virgem santissima! Onde estará então a pobre creança?!
--Talvez se fosse deitar.
--D. Joanna correu pressurosa ao quarto de Angelo, e foi encontral-o na
cama.
--O que quer isso dizer, filho? O que tens?.. Estás doente?
--Sim, minha senhora, respondeu Angelo com voz sumida.
--Então o que te dóe?
--Não me dóe nada, mas sinto-me doente.
--Toribio! Toribio! vae, corre chamar o medico, que está o menino
doente, gritou da escada D. Joanna.
Pouco depois chegou o medico. Tomou o pulso a Angelo, e fez um gesto de
mau agouro.
--É coisa grave? perguntaram a um tempo, e com anciedade, D. Joanna e o
banqueiro.
--Gravissima, respondeu o medico... e observando-o novamente,
accrescentou, em voz baixa, dirigindo-se ao dono da casa;--está quasi a
morrer.
Angelo abriu por um momento os seus meigos olhos, cujo brilho estava já
empanado pelo sopro da morte, volveu-os para a imagem do Senhor
crucificado, como querendo expressar-lhe profunda gratidão, e fechou-os
logo, para nunca mais os tornar a abrir.
Todos proromperam em amargo pranto, á excepção de D. Lucas.
--E de que morreu? perguntou este ao medico, que tinha antecipadamente
interrogado a familia ácerca dos padecimentos de Angelo.
--Morreu, lhe tornou o medico, de uma affecção moral, para cujo
desenvolvimento contribuiram por certo padecimentos physicos. Os meninos
são homens no sentimento, e creanças no vigor; por isso Deus amaldiçôa
os seus oppressores. Este menino morreu da mais santa de todas as
enfermidades; morreu de _Nostalgia_.
FIM DA NOSTALGIA.
O MADEIRO DA FORCA
I
A grande montanha de Colisa, que se ergue entre as Encartações[2] de
Biscaya, e a demarcação juridica de Castella, era na edade media uma
especie de Thebaida, onde faziam vida penitente alguns anachoretas, aos
quaes se attribue a edificação do santuario que a corôa.
Sendo eu creança, e caminhando com minha piedosa mãe por uma montanha
das Encartações, paramos a descançar, ao descobrir o valle onde
habitavamos.
Era por uma tarde aprazivel de verão. O sol escondia-se por detraz dos
montes, que recortavam o horisonte, e nas quebradas das serras ouviam-se
os chocalhos do gado, que descia ao valle; em baixo, na planicie, saíam
as raparigas das herdades, e pondo á cabeça as suas bilhas, dirigiam-se,
cantado, á fonte do _Castanhal_, para que seus paes e irmãos achassem em
casa agua fresca, quando, ao soar o toque da oração, lançando ao hombro
as enxadas, e resando as Ave-Marias, se encaminhassem para o logar.
Do cimo do outeiro coberto de fragrantes margaridas, brancas de neve,
onde minha mãe e eu estavamos sentados, contemplando o nosso querido e
formoso valle, em um de cujos extremos avistavamos, meia occulta por
frondoso arvoredo, a nossa aldeia ainda mais querida e saudosa,
descobria-se o santuario de Colisa.
Entramos a fallar d'aquella ermida, e minha mãe, que tinha uma fé santa
e cega nas tradicções religiosas, que brotam e vivem á sombra dos
santuarios das montanhas, sem que possam os seculos alterar-lhes o viço
e a frescura, prendeu-me a attenção, e commoveu-me devéras a alma
contando-me o que, a meu turno, vou contar-vos.
Vivia nas solidões de Colisa um santo ancião, chamado Cosme, que passava
uma terça parte da sua existencia entregue á adoração e glorificação de
Deus, e o restante guiando e soccorrendo os viajantes, que atravessavam
aquellas montanhas; e isto pela razão de que, n'aquelle tempo, como as
guerras de partidos ensanguentassem de contínuo os valles, fugiam
d'elles os caminhantes, e transitavam pelos montes mais desertos, e
afastados do commercio dos homens.
Sempre que Cosme soccorria algum viandante extraviado, ou extenuado de
fome e cansaço, ao soar o toque de Trindades na egreja de Valmaseda, que
se avistava lá em baixo, no pé da montanha, apparecia-lhe um anjo, que
lhe sorria amorosamente, e que logo se remontava ao ceu, deixando-o
immerso em mystica alegria.
Um dia, de manhã, estando os montes cobertos de mui densa névoa, saíu
Cosme da miseravel choça, onde vivia vida penitente, e poz-se a divagar
por aquelles bosques espessos e fragosos, a vêr se encontrava alguns
caminhantes, que n'elles se houvessem extraviado, e, de repente, deu de
cara com uns poucos de homens, que levavam outro manietado.
--Porque vae preso esse infeliz? lhes perguntou elle.
--Porque é um grande criminoso, a quem a justiça condemnou á morte, lhe
responderam.
--_Quem as faz paga-as_, disse o anachoreta, dando tregoas á sua compaixão.
Os executores da justiça de Valmaseda detiveram-se mais acima, n'uma
encrusilhada, pegaram n'um grande madeiro secco, que, havia muitos
annos, estava estendido ao lado do caminho, fixaram as extremidades
d'esse madeiro secco nos primeiros galhos de duas arvores parallelas,
lançaram um laço ao pescoço do criminoso, e suspenderam-n'o d'aquella
forca improvisada, voltando a Valmaseda apenas se certificaram de que
elle tinha expirado.
[2] _Encartaciones_, as terras de Biscaya, que gosam de fóros e
regalias especiaes.
II