Se um dia fazia gala, em uma reunião de pessoas distinctas, de não ter

gasto até a edade de quatorze annos, outro calçado que não fosse o do

seu _proprio coiro_, despedia, no dia seguinte, uma creada por a pobre

rapariga pedir, na sua innocencia, ao carteiro, que lhe lêsse uma carta

do seu noivo, por isso que sua ama não sabia lêr; agora despedia um

mendigo com a seguinte blasphemia: «Vá pedir a S. Bernardino», que na

bôca dos que podem e não querem dar, substitue a _supplica_--«queira

perdoar, irmãosinho, não póde ser agora»--que costumam usar os que

querem e não podem; e logo, sabendo que qualquer vizinho estava doente e

precisado de meios, era muito capaz de lhe mandar uma boa esmola. Pela

manhã dava uma _tarêa_ ao cão por este ter mordido o gato, e de tarde

dava outra ao gato por ter arranhado o cão; na quarta feira ia passear

ao Prado, de vestido de velludo, e na quinta apresentava-se no mesmo

sitio de vestido de chita.

Se sou tão minucioso e até prolixo, é porque não quero que alguem

critique e censure no pintor as inconsequencias do original.

D. Joanna dominava por tal arte o marido, que a vontade d'elle estava

sempre subordinada á sua. D. João tremia diante d'um gesto ameaçador da

mulher, e por mais d'uma vez teve ella um accesso medonho de cólera só

porque o honrado banqueiro entrou em casa ás dez horas em vez de se

recolher ás nove.

--Ora, com effeito, disse D. Joanna, quando D. João entrou na sala do

jantar, já julgava que seria preciso metter-lhe empenhos, e dirigir-lhe

algum requerimento para que o senhor se resolvesse a vir jantar. Se se

persuade que eu estou para aturar as suas grosserias, está muito enganado.

--Sempre tens muito mau genio, Joanninha! disse o banqueiro, esfregando

as mãos e com um sorriso affavel nos labios.

Sentou-se D. João á mesa, encheu um prato de sopa e passou-o a sua

mulher; esta porém empurrou-o com tal violencia, que todo o seu conteúdo

se entornou na toalha.

--Tambem tenho mãos para me servir.

--Como gostares mais, Joanninha, disse D. João humildemente.

Principiaram a jantar, e por mais que o banqueiro dirigisse a palavra a

sua mulher, em tom agradavel e risonho, não foi possivel quebrar-lhe o

silencio.

Por fim resolveu-se D. Joanna a fallar, perguntando ao marido:

--Então que negocios tão importantes foram esses que o obrigaram a

deixar-me esperar por si meia hora?

--Meia hora! Não sei como não disseste uma, filha!

--Faça o favor de me não contradizer! exclamou D. Joanna, com um gesto

terrivel. Eu fallo mais verdade do que você e toda a sua geração.

--Então! Não vale a pena alterares-te por tão pouco! A dizer a verdade,

nem por isso eram lá muito grandes os negocios que me prendiam;--estava

conversando com o pequeno.

--Com que pequeno?

--Com Angelo.

--Pois elle já chegou?

--Chegou, sim. Ainda o não sabias?

--Não, senhor, ninguem me disse nada. N'esta casa sou eu sempre a

_ultima palavra do credo_... Pois não devia ser assim, e d'hoje para o

futuro, eu lhe protesto que não tornará a acontecer uma coisa d'estas,

porque, no fim de contas, eu é que sou a dona d'esta casa; entende o

senhor?

E dizendo isto, D. Joanna atirou o trinchador com tal furia, que fez um

prato em pedaços.

--Oh! menina!... por quem és, Joanninha.

--Deixe-me... não me diga uma palavra, quando não...

O banqueiro fez um movimento para traz, porque a mulher tinha pegado

n'uma faca e agitava-a convulsivamente.

A final o silencio e a humildade do marido desarmaram aquella megera.

--Então, quando veiu o pequeno? perguntou ella.

--Haviam de ser duas horas, filhinha; eu suppunha que o creado t'o teria

dito.

--Não me disse nada. Aquelle Toribio é um bruto, que ha de ir hoje mesmo

para o meio da rua. E que me diz tambem ao mono do rapaz, que não soube

subir para me vir cumprimentar?!

--Bem vês que elle, coitado, não sabe...

--Pois tem obrigação de saber que sou eu a dona d'esta casa.

--Em primeiro logar o pobre pequeno chegou meio morto de frio, e depois

aquelle excommungado de Lucas começou a embirrar com elle, de modo que a

creança ficou logo sem saber de que freguezia era.

--Eu me encarrego de o pôr fino com umas correias que alí tenho.

--Não digas isso, Joanninha; para o pôr fino, como tu dizes, requerem-se

carinhos e não correias. Já disse a Lucas, que comigo tem de se haver,

se lhe puzer a mão. A ti não é preciso repetir a mesma coisa, porque

tens melhor coração do que o meu sobrinho, e estou até convencido de que

has de ser para Angelo uma segunda mãe. Afianço-te que está morto por te

vêr; a primeira coisa que fez, quando chegou, foi perguntar por ti.

Esta mentira do banqueiro foi o bastante para reconciliar Angelo com D.

Joanna, que disse:

--Mas o que faz essa creatura no escriptorio? Porque o não mandaste

subir, logo que chegou, para tomar alguma coisa? Provavelmente está

ainda em jejum, molhado, cheio de frio...

--Nada, não, elle disse-me que não tinha vontade de comer; e quanto a

aquecer-se, está no meu gabinete, sentado ao fogão.

--E porque foi, então, que Lucas o tratou mal?

--Que queres? coisas d'elle! Por ter dito que gostava mais da sua terra

do que de Madrid.

--Santo Deus! Pois isso era motivo para ralhar com a creança? Aqui estou

eu a quem, graças a Deus, não falta nada, e no entanto, morro pela minha

aldeia...--Toribio! accrescentou D. Joanna, chamando pelo creado dos

trocadilhos, dize ao rapazinho, que está no gabinete do senhor, que suba.

--Quem, o _rocim-chegado_? perguntou o asturiano com um sorriso malicioso.

--Atrevido! exclamaram, a um tempo, D. Joanna e o banqueiro; se tornares

a divertir-te á custa d'Angelo, vaes immediatamente para o andar da rua.

O asturiano baixou a cabeça, pouco satisfeito com o exito do seu

gracejo, e um instante depois subia com o pequeno.

Angelo saudou D. Joanna com bastante desembaraço, e depois que ella lhe

chegou um prato de bolos, acabou de perder todo o seu acanhamento, e

respondeu com vivacidade ás mil perguntas que por largo espaço de tempo

lhe dirigiram os dois esposos.

--Tens muitas saudades de tua mãe? lhe perguntou D. Joanna.

--Muitissimas, respondeu o pequeno.

--Pois, se fôres bom rapaz, hei-de estimar-te e cuidar tanto de ti, como

se fôra ella propria.

--Muito obrigado, minha senhora!... disse o menino; e arrazaram-se-lhe

os olhos de lagrimas... lagrimas d'alegria e de agradecimento.

O banqueiro e sua mulher levantaram-se da mesa.

--Deixa-te estar aqui, filho, disse D. Joanna a Angelo; espera que vaes

tu agora tambem comer e os teus companheiros.

IV

Pouco depois entraram na sala do jantar D. Lucas e os caixeiros e

sentaram-se á mesa. Angelo porém conservou-se n'um canto, de cabeça

baixa, receioso, e sem se atrever a levantar os olhos para D. Lucas.

--Chega-te para a mesa, selvagem, disse-lhe o sobrinho de Quijano.

Parece-me que seria melhor ires outra vez guardar cabras lá para a tua

terra.

Alegrou-se o menino e sentiu-se ao mesmo tempo ferido no coração, ao

ouvir estas palavras; regosijou-o a lembrança de voltar para a sua

aldeia e enluctou-se-lhe a alma com o novo insulto que acabava de lhe

ser dirigido.

Approximou-se timidamente da mesa, mas não se chegou tanto, como devia,

segundo a opinião de D. Lucas; este dando-lhe um murro nas costas exclamou:

--Chega-te mais, bruto! A culpa tem quem não deixa ficar estes animaes a

pastar no campo, ou os não faz comer, quando muito, n'uma manjadoura em

logar de mesa!

Todos os caixeiros do banqueiro desataram a rir em honra do chiste de D.

Lucas.

O pobre Angelo derramava entretanto uma torrente de lagrimas, e

comparava as caricias da sua familia com aquellas offensas barbaras e

grosseiras.

--Então, comes ou não comes? perguntou D. Lucas.

--Não tenho vontade, respondeu Angelo.

--Tanto melhor; d'esse modo não corres perigo de agarrar alguma

indigestão, e hão de abater essas bochechas de _frade Bernardo_.

Por unica resposta continuou Angelo a chorar e a suspirar pelos paes,

pelos irmãos, pelos seus companheiros d'infancia e pelas queridas

montanhas de Biscaya, onde até ali tinha vivido tão livre, tão estimado

de todos e tão feliz!

E os caixeiros de Quijano a escarnecerem-n'o, a rirem-se d'elle, sem a

mais leve sombra de compaixão, como se a pobre creança fosse um corpo

sem alma, como se a considerassem sem coração para sentir!

É na verdade uma coisa que indigna e irrita as pessoas sensiveis, e que

até revolta o animo, a falta d'humanidade com que são, de ordinario,

tratados nos grandes centros, e particularmente em Madrid, os rapazes

que para ali são mandados das aldeias!

Chega uma pobre creança, que nunca saíu do seio da sua familia, onde, se

a não cercavam riquezas e commodidades, lhe sobravam carinhos e ternos

cuidados; chega ordinariamente cheia de frio, extenuada de fadiga,

muitas vezes até com fome, e sempre saudosa e triste, e em logar de a

confortarem e de lhe proporcionarem carinhos, de que necessita então

mais do que nunca, todos a escarnecem, todos zombam da sua innocencia e

da sua humildade, das suas lagrimas e da sua linguagem.

Ai! não accuseis o auctor d'este livro de se entregar a falsas

declamações; a justificação d'essas palavras conserva-a elle impressa na

sua memoria propensa a recordar, e no intimo do seu coração sempre

disposto a perdoar, para nunca mais saír d'ali.

Durante a primeira tarde, que passou em casa de D. João Quijano, foi

Angelo victima da selvageria, que estou condemnando. Abusaram

indignamente da sua natural simplicidade e prudencia, obrigando-o a

praticar um certo numero de coisas, que repugna enumerar; por ultimo

fizeram-n'o persuadir de que todas as pessoas que entravam pela primeira

vez em Madrid, careciam de ser pesadas a fim de pagarem uns certos

direitos proporcionaes ao peso que tivessem.

Puzeram-n'o em cima d'uma balança, e ali o conservaram por tanto tempo,

que a pobre creança já tinha o corpo quasi desconjuntado; quando

terminou aquella experiencia de martyrio, que faz lembrar os tormentos

inventados por Diocleciano e Torquemada, teve elle de soffrer outro

talvez mais doloroso ainda, qual o das mofas e zombarias dos seus

verdugos, que desapiedadamente lhe retalhavam o coração!

E os caixeiros do banqueiro, homens barbados, que, como taes, estavam

constituidos na obrigação de proteger o fraco e de consolar o triste;

que eram chamados a desempenhar graves e sagrados deveres na sociedade,

mostravam-se contentes com a sua obra, e imaginavam-se, talvez, cheios

de talento e de graça por haverem illudido e martyrisado uma creança,

que, pela primeira vez na sua vida, vertia lagrimas de desespero, longe

de seus paes que a idolatravam, e das queridas montanhas da sua patria!

Tudo soffreu a pobre creatura em silencio; nem sequer lhe restou o

linitivo de se queixar a D. João dos barbaros tratos de que foi victima;

prohibiram-lh'o os seus verdugos com ameaças que lhe infundiram novo

terror e novo desalento.

V

Dormia toda a familia de Quijano no andar nobre da casa, á excepção do

caixeiro mais moderno e dos cães, que se acommodavam no pavimento

terreo, destinado quasi exclusivamente ao escriptorio e suas dependencias.

Os dois cães, Moiro e Pomba, dormiam no gabinete do banqueiro, que

estava ricamente mobilado, ao passo que o caixeiro se alojava n'um

quarto pequeno e humido, alumiado apenas por uma especie de fresta ou

gateira aberta na parede, situado n'um patamar constantemente varrido

pelo vento que entrava da rua e pelo que vinha d'um pateo que havia nas

trazeiras da casa; a mobilia d'esse mesquinho aposento consistia toda em

um leito de pinho com colchão, dois lençoes, um cobertor, um travesseiro

e um lanceiro ou cabide tôsco para pendurar o fato e... grandes

cortinados de teias d'aranha pendentes do tecto.

Em tempo dormia o caixeiro mais moderno (rapaz de tempo) n'um quarto

excellente do andar nobre; D. Lucas porém havia disposto as coisas por

outra fórma, muito antes da época a que me refiro; tinha lá umas ideias

_suas_ d'hygiene, em virtude das quaes dizia que muitas vezes os

caixeiros adoeciam por passarem repentinamente d'uma vida incommoda para

uma vida commoda, d'um colchão duro para um colchão molle, d'um quarto

mau para um quarto bom.

Quiz o tio oppôr-se áquella estupida innovação, ponderando que o que

fazia adoecer os rapazes que entravam para sua casa não era senão o

pessimo tratamento que recebiam de D. Lucas; este porém, taes argumentos

empregou em defesa da sua theoria, que, para se livrar de polemicas,

teve o pacifico banqueiro de concordar com elle. Os rapazes continuaram

a adoecer, mas D. Lucas afirmava ao tio que tudo aquillo era fingimento

e impostura para que os deixassem dormir no andar de cima, e o bom do

banqueiro, que já não tinha pequena cruz nas teimas e ralhações de sua

mulher, não quiz continuar em divergencia com o sobrinho, e acabou por

admittir o seu barbaro systema penitenciario.

Patrões e caixeiros ceavam quasi simultaneamente, sendo as sóbras da

mesa dos primeiros servidas aos segundos. D. Lucas comia de ordinario

com estes, excepto porém nos dias sanctificados e á noite, que fazia

companhia aos tios. Não podia o sobrinho do banqueiro tolerar que os

caixeiros fumassem, e não obstante tinha uma paixão desmedida pelo

tabaco; mas diante do tio não era capaz de fumar, e isto explica-se

facilmente. D. Lucas começou a fumar quando, pela sua pouca edade,

carecia para o fazer de occultar-se do banqueiro; e mais tarde, quando

já eram escusadas essas precauções, continuou a matar o vicio ás

occultas, talvez por habito, e talvez tambem por não dar o seu braço a

torcer, por isso que em tempo tinha jurado e tornado a jurar ao tio que

bastava o cheiro do tabaco para o transtornar completamente.

Erguia-se da mesa, ainda com o bocado na bocca, e entrando na cosinha,

onde comiam os caixeiros, apertando o seu cigarro, que se não atrevia a

accender, com medo de que na sala se presentisse o cheiro, pegava n'um

castiçal e dava a voz de _deitar_ ao _rapaz de tempo_. Achava-se este

ainda em meio da ceia, por isso que os outros lhe levavam sempre um

prato de vantagem, mas D. Lucas estava desesperado por fumar, de maneira

que o pobre rapaz não tinha outro remedio senão levantar-se da mesa, dar

as boas noites a toda a familia, começando pelos caixeiros, e seguir a

D. Lucas, que já pelas escadas abaixo tirava cada fumaça que valia bem

um dobrão.

Em quanto o pequeno se deitava, alumiado pela vela collocada no

corredor, em frente da porta do quarto, acabava D. Lucas de fumar o seu

cigarro, pegava no castiçal, fazia quatro festas aos cães, deitados n'um

colchãosinho muito fôfo, e em seguida subia as escadas a fim de passar

um bocado da noite na companhia dos donos da casa.

Se D. João tivesse um hospede e este lhe perguntasse a razão porque o

sobrinho descia ao escriptorio, ainda bem não tinha acabado de cear,

seria esta a resposta do banqueiro:

--Vae deitar os cães e o pequeno, dar uma vista d'olhos lá por baixo,

vêr se está tudo bem fechado, e demora-se até poder trazer para cima a

luz, porque aqui em Madrid é preciso muito cuidado com os fógos. Como

estes rapazes são em geral muito _dorminhocos_ e Lucas entende que por

nós gostarmos de palestrar o nosso bocado, não se segue que o pequeno

esteja para ahi a turrar com somno, dá-se pressa em o levar para a cama.

Succedeu a Angelo nem mais nem menos do que aos seus antecessores, com a

differença, porém, de que á pobre creança lhe foi dobradamente mais

custoso deitar-se a meia ração, por isso que todo o dia estivera fazendo

cruzes na bocca, e quando o chamaram para a ceia tinha fome canina.

Uma pessoa adulta, oppressa pelo peso de tão profundo desgosto como era

o d'elle, teria olhado para a comida com repugnancia, ainda que

estivesse a caír de fraqueza; mas é que uma pobre creança, se acontece

perder o appetite por espaço d'algumas horas, prompto o recupera, por

mais acerbos e cruciantes que sejam os seus desgostos.

Angelo deitou-se e Dom Lucas despediu-se d'elle do seguinte modo:

--Ora queira Deus que pela manhã não haja preguiça! Aqui não se trata só

de comer e dormir. Ás seis horas _varrer_ bem o escriptorio.

Dom Lucas, como temos visto, usava muito d'essa especie de linguagem

impessoal inventada pelos lacaios com o fim de se esquivarem a dar

tratamento.

VI

Angelo, com a solidão do seu aposento, deu-se por compensado da parte da

ceia de que a maldade de D. Lucas o privára. Alí podia sequer chorar

desafogadamente, podia rogar a Deus que o restituisse ás suas montanhas,

invocar o nome de seus paes, e execrar até os seus algozes, sem que uma

gargalhada de despreso, um dito humilhante ou uma pancada fossem

perturbal-o nas suas cogitações.

Ai! muito chorou a pobre creança, n'aquella noite!

--Como é triste viver em Madrid! pensava elle. E dizerem na minha terra

que--_de Madrid só para o céo!_--As pessoas que dizem isso de certo

nunca estiveram aqui! As ruas e as praças estão convertidas em lodaçaes

immundos; a gente anda toda aos encontrões; as carruagens e os cavallos

atropellam e cobrem de lama os transeuntes; as goteiras alagam os

individuos que seguem pelos passeios; e o vento que sopra das portas faz

rebentar o sangue nas mãos e na cara!

É bem differente d'isto o meu querido paiz, os campos amenos da Biscaya!

Lá alveja a neve lisa e pura por sobre a relva e as penhas, nas arvores

e nos telhados, e quando o sol ou a chuva a derretem não é em lodo que

se converte, mas sim em cristallinos arroios; lá não se apinhôa,

confunde e atropella a gente, o gado e os carros, que a todos Deus

concedeu campo e largueza por onde se espalhem á vontade; e se tambem

ali sopra o ar frio do inverno, é ar que dá saude em vez de tiral-a.

Ai! quão differente teria corrido para mim o dia, se o passasse na minha

aldeia! Se lá estivesse, andaria no campo a patinhar no gelo; teria

feito grandes bólas de neve no alto da montanha, para as vêr

despenhar-se no valle; em seguida voltaria a casa, e depois de ter

almoçado junto do lume, subiria á trapeira para apanhar os passaros, que

ali vão abrigar-se do mau tempo e procurar o sustento que não encontram

nos campos cobertos de neve; e á noite, em quanto minha mãe estivesse

preparando a ceia, contar-me-hia meu avô as suas façanhas da guerra da

independencia. No fim da ceia iria para a cama acompanhado por minha

mãe, que depois de me cobrir e agasalhar cuidadosamente, se despediria

de mim, como de costume, com um dôce beijo. Ai! que differença! assim

não estaria, como agora estou, acordado e a chorar, mas dormiria

tranquillo e socegado até que, com outro beijo, fosse despertar-me pela

manhã!

Entregue a tão saudosos pensamentos passou Angelo em claro quasi toda a

noite. Já se ouviam na rua os pregões dos vendilhões e fornecedores da

cidade, o barulho dos carros e os passos dos transeuntes, quando,

vencido pela vigilia, e tomado do cansaço do corpo e do espirito, caíu

n'um benefico somno.

Adormeceu profundamente; rosaram-se-lhe as faces, e a posição em que

ficára e a sua respiração serena e plácida, revelavam uma dulcissima

tranquillidade d'espirito; entreabria-lhe os labios aprasivel sorriso,

e, de vez em quando, soltava d'elles os nomes de _pae_, _mãe_, e outros

como estes saudosos e gratos ao coração da desventurada creança.

Agora sonhava que se achava na aldeia, cercado da sua familia ou

brincando com os seus companheiros de infancia; depois, que trepava ao

cimo das arvores em busca d'um ninho de rôla, ou de pombo torcaz;

derribava ás pedradas as maçãs e as nozes; corria ao bosque a fazer

assobios da casca do castanheiro, ou ao ribeiro para construir moinhos

de junco; logo subia ao alto da montanha, coroada por uma ermida, em

roda da qual andava o tambor chamando para a romaria. Por ultimo sonhava

que era noute de S. João, que todo o valle estava illuminado pelas

fogueiras accesas nos oiteiros, e o inundavam d'alegria o repique dos

sinos, os morteiros, as cantigas e os gritos de jubilo, que acompanham

sempre aquella festa classica e essencialmente infantil!

Embalado n'estes sonhos deliciosos, que lhe representavam todos os

encantos do seu paiz natal, sonhos que melhor do que ninguem póde

adivinhar o auctor d'este livro, porque tambem chorou e sonhou como

Angelo, não ouviu o pobre menino as sete horas que bateram compassadas

no relogio do escriptorio.

VII

Manoel e Marianno (eram estes os nomes dos dois caixeiros do banqueiro)

desceram as escadas, e vendo que Angelo se não tinha ainda levantado,

dirigiram-se para o seu aposento.

--É melhor acordal-o, dizia Manoel, porque se chega D. Lucas e o

encontra a dormir não deixa de lhe fazer a operação do costume.

--E que tem lá isso? replicou Marianno, para nós é até um divertimento.

A pena que me resta é não haver aqui á mão um bom molho de ortigas.

--Não tenhas mau coração. Já não soffreu pouco hontem o pobre pequeno,

principalmente com a historia da balança.

--E que tem que soffresse?! Tambem nós soffriamos quando eramos como elle.

--Pois por isso mesmo que a nós nos trataram mal é que eu entendo, que

devemos tratar agora bem os que se acham em identicas circumstancias.

E dizendo isto, approximou-se da cama de Angelo, e principiou a abanal-o

e a chamar por elle; mas o menino estava tão ferrado no somno, que

continuava a dormir profundamente.

--Que é lá isso, perguntou D. Lucas, apparecendo á porta do quarto.

Então esse estupido ainda está na cama?!

--Está, sim, senhor, respondeu Marianno.

D. Lucas proferiu uma praga e accrescentou, dirigindo-se a Marianno:

--Vaes vêr como esperta n'um instante. Traz-me lá de cima, da talha, uma

bilha d'agua para se lhe applicar o remedio.

Marianno, que parecia feito á similhança de D. Lucas, obedeceu de

prompto, e largou pelas escadas acima, esfregando as mãos de contente.

No primeiro andar, e debruçado n'uma varanda de ferro que dava para o

pateo interior da casa, coberto por um tolde, estava Toribio, escutando

o que se passava em baixo, pois d'alli se ouvia tudo perfeitamente.

--Que temos, snr. D. Marianno, perguntou elle ao caixeiro.

--Vou buscar uma bilha d'agua para fazermos a _operação_.

--Ao _rocim-chegado_?

--Nem mais nem menos; vem d'ahi, se te queres rir.

--Isso já a mim me palpitava, que se lhe havia de fazer o _remedio_. Mas

a agua não deve ser da talha; essa está pouco fria por causa da

proximidade do fogão. Temos aqui um bom jarro d'ella, que, de proposito,

deixei ficar de noite sobre o alpendre.

--És um rapaz de talento, Toribio! exclamou, rindo, Marianno, em quanto

o bruto do creado pegava no jarro da agua.

--Deve estar excellente! accrescentou, vendo-a coberta d'uma espessa

crusta de gelo, que foi quebrando com os nós dos dedos, á maneira que

descia os degraus da escada.

Toribio não quiz privar-se do barbaro goso de assistir ao martyrio que

ia soffrer a pobre creança, e correu, todo alvoroçado, atraz de Marianno.

Dom Lucas pegou no jarro, e afastando para o lado a roupa que cobria o

menino até ao pescoço, despejou-lhe de golpe toda a agua por sobre o

peito, com grande satisfação de Marianno e Toribio. Manoel, esse,

coitado, estava compungido da sorte do rapazinho. Angelo soltou um grito

e ergueu-se de subito, ao sentir no corpo a agua gelada.

--Isto é para vêr se acordas! disse D. Lucas, e completou a phrase com

uma nova praga.

O menino não replicou, nem tratou sequer de desculpar-se. Atirou

immediatamente comsigo da cama abaixo, e vestiu-se sem proferir uma

palavra. Os seus olhos não derramavam lagrimas, mas derramava sangue o

seu coração! Tinha á cabeceira da cama uma estampa, já enegrecida pelo

tempo, representando Jesus crucificado. Ergueu os olhos para a divina

imagem e exclamou no intimo de sua alma afflicta:

--Senhor, levae-me já para o céo ou para as minhas montanhas!

VIII

Do seio d'aquella nuvem de tristeza que o cercava, luziu para o pobre

Angelo um raio de esperança. Pelas conversas que ouviu, de D. Lucas e

dos seus companheiros, veiu no conhecimento de que os caixeiros do

banqueiro tinham licença de saír nos dias santificados e para logo

concebeu a esperança de gosar tambem d'esse prazer, libertando-se da

tristeza e da oppressão de toda a semana, n'aquelle dia de folga e de

liberdade.

De quantas necessidades experimentava era por certo a maior a de

respirar por algum tempo livremente, vendo o céo e o sol, as arvores e

os campos.

Manoel era o unico que dirigia a palavra a Angelo sem aquella aspereza e

zombaria com que sempre lhe fallavam D. Lucas e Marianno. Por isso,

depois de dois dias de hesitação, abalançou-se o menino a perguntar-lhe

se tambem lhe dariam, a elle, licença para saír ao domingo para o campo..

--De certo, isso nem se pergunta, respondeu Manoel.

Esta resposta, que a outro qualquer pareceria em extremo laconica, fez

verter lagrimas de agradecimento e de alegria a Angelo; de agradecimento

porque encerrava em si um thesouro d'indulgencia, comparada com as que

todos os dias recebia n'aquella casa, e de alegria por lhe vir confirmar

as fagueiras esperanças que nutrira.

Contos escolhidos de D. Antonio de Trueba · 第 2 / 6 段