Infelizmente, muitos discipulos d'esta eschola, esquecendo o

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PRIMORES DA LITTERATURA HESPANHOLA

CONTOS ESCOLHIDOS

DE

D. ANTONIO DE TRUEBA

TRADUZIDOS LIVREMENTE

POR

F. DE CASTRO MONTEIRO

com uma introducção

POR

I. DE VILHENA BARBOSA

PORTO

Imprensa Portuguesa--Editora

1872

PRIMORES DA LITTERATURA HESPANHOLA

CONTOS ESCOLHIDOS

DE

D. ANTONIO DE TRUEBA

PRIMORES DA LITTERATURA HESPANHOLA

CONTOS ESCOLHIDOS

DE

D. ANTONIO DE TRUEBA

TRADUZIDOS LIVREMENTE

POR

F. DE CASTRO MONTEIRO

com uma introducção

POR

I. DE VILHENA BARBOSA

PORTO

Imprensa Portuguesa--Editora

1872

AO SEU PREZADO AMIGO

I. DE VILHENA BARBOSA

SOCIO CORRESPONDENTE DA ACADEMIA REAL DAS SCIENCIAS

Como testemunho de gratidão

Offerece

_O traductor._

_Meu querido Vilhena Barbosa._[1]

A grata recordação das lições que de ti recebi, quando no meu espirito

começava a desenvolver-se o gosto pelo estudo da litteratura; os salutares

conselhos, que me dispensaste, nos primeiros annos da minha adolescencia,

apontando-me a escolha dos auctores, que deveriam formar o meu estylo, e

robustecer as minhas tendencias litterarias; aquellas nossas conversas, de

tamanho interesse para mim, em que as luzes do teu illustrado entendimento

tentavam dissipar as trevas da minha ignorancia, conversas que, pouco a

pouco, e no decurso d'alguns annos de convivencia intima, iam subindo

d'alcance, á medida que, pelo estudo, eu me habilitava a comprehender-te e

a discutir comtigo, seriam já, de per si, sobejo motivo para que eu te

dedicasse este livrinho, se não houvesse ainda razões de entranhadissimo

affecto, razões todas do coração, e completamente alheias á cultura das

letras, que a isso me obrigam, com força de irresistivel encanto.

A minha vida está, desde os mais verdes annos, ligada, por laços

indissoluveis, a essa dedicação illimitada que sempre me votaste.

Era eu bem creança, e já tu me franqueavas os arcanos da tua vasta

erudição. Não sei que confiança era a tua na mediocridade da minha esphera

intellectual. Eram horas esquecidas d'instructiva palestra, em que a

historia patria, a philosophia da historia, as sciencias naturaes, e a

litteratura constituiam um thema variado, que me deleitava e instruia,

animando-me a procurar nos livros cabedal de conhecimentos com que podesse

corresponder ao teu paternal intento de me tornar util a mim e á sociedade.

Oh! que saudosos tempos, de feliz memoria, são esses para mim!

Quando nos separavamos, continuavas tu, de longe, a indicar-me os bons

modelos, e a apontar-me um futuro, que a tua céga amisade antevia para mim,

mas que, _erat scriptum_, eu não deveria attingir.

Nunca me abandonaste; e, se foi baldado o teu intento, ao menos da

constancia do teu affecto tiro eu motivo de muito orgulho, e isso basta

para me consolar.

Nos primeiros mezes de 1860, época de terrivel amargura para o meu coração,

revelou-se a tua amisade por mim pela prova mais grandiosa, que póde

aquilatar os sentimentos d'alma.

Em dezembro, tinha eu vindo de Coimbra ao Porto, a férias. Entrava em casa

com aquelle alvoroço, que tu por vezes presenciaste, e que sempre me

dominava, ao acercar-me de meus paes e de minha irmã. Minha mãe chorava de

alegria, cingindo-me n'um amoroso e prolongado abraço, e eu correspondia ao

seu carinho com todo o affecto, que me inundava o coração. Sabes como eu a

amava. Por mais d'uma vez te achaste ao nosso lado, no momento de nos

separarmos.

Eram os transportes de duas almas enamoradas, em presença da amarga e

tyrannica necessidade da ausencia.

Assim tambem, quando as ferias se avisinhavam, contavamos ambos as horas e

até os instantes, que faltavam para a nossa approximação, com frenetica

impaciencia.

N'essas emoções encontradas, por entre riso e lagrimas, se deslisaram os

primeiros annos da minha mocidade.

Punge-me recordar esse tempo de tão acerba saudade; enlucta-se-me a alma,

quando se me retrata na mente a imagem de minha piedosa mãe; e a ti sei eu

que hade offender-te a notavel modestia, que é um dos ornamentos do teu

nobre caracter, este publico testemunho, que te offereço, da minha

gratidão.

Mas ainda que o coração se me despedace ao escrever estas linhas, e a

despeito da contrariadade, que possa levantar no teu espirito, proseguirei

no meu intento.

Tem paciencia, e ouve o que talvez a tua consciencia nunca te mostrasse em

relevo, por causa d'esse sentimento elevadissimo, que esconde aos olhos do

homem a nobreza das suas proprias acções.

Poucos dias depois da minha chegada ao Porto, adoeceu minha mãe; e com tal

violencia se apresentou a molestia, que foram infructiferos todos os

esforços, que a medicina fez para a salvar.

A 22 de Janeiro voou aquella alma angelica, a abrigar-se no seio de Deus.

Passarei um véo por sobre o abysmo de insondavel martyrio, em que esse

angustiosissimo lance me sepultou!

Decorrido um mez, lembrou-me meu pae a necessidade de voltar para Coimbra.

Acordei então do lethargo em que caíra, depois do fatal acontecimento;

comprehendi quanto havia de justo e paternal n'aquella indicação, e parti.

Quando me encerrei no meu quarto escolastico, e que meditei na

transformação, que, em tão breve lapso de tempo, se operára na minha vida

moral, senti-me succumbir; arrastei-me para junto da janella, que olhava

para o Mondego, e alongando a vista por aquelle formoso quadro, tão poetico

e tão melancolico, deixei-me dominar completamente pela vehemencia da

saudade, que me opprimia, e assim permaneci por espaço de muitas horas.

Nos dias que se seguiram, foi sempre calando, mais e mais, no meu

coração, aquella profunda tristeza, que nada podia dissipar.

Os meus companheiros de casa, moços distinctissimos, os quaes ainda hoje

amo como irmãos, envidavam todos os seus recursos para me fazer saír

d'aquelle estado de depressão de espirito, que me senhoreava; mas nada

podiam conseguir.

Por espaço de muitos dias, quando chegava o correio, erguia-me de subito,

machinalmente, para correr ao seu encontro; mas logo, lembrando-me que já

não existia aquella santa, que diariamente me confortava e fortalecia o

espirito, com o balsamo salutar do seu carinhoso affecto, caía novamente na

minha tristeza habitual.

Tão dolorosa e renitente enfermidade moral, não podia deixar de

transmittir-se ao corpo.

Adoeci.

Os progressos da doença foram rapidos e assustadores!

Eu delirava, e no meu delirio, evocava o nome de minha mãe.

A sciencia deu á molestia um nome; mas o meu coração dava-lhe outro.

Os médicos chamavam-lhe pneumonia... mas eu chamava-lhe _Saudade_!

Todos os meus companheiros, á porfia, se esforçavam por me provar a sua

amisade. D'elles porém havia um, a quem todos respeitavamos, que logo se

collocou á cabeceira do meu leito, servindo-me regularmente de enfermeiro.

Não referirei aqui o seu nome por lhe não ferir a modestia, que a tem,

em tão subido gráo como tu, e a qual eu não ouso devassar.

Recordo-me d'elle com muita saudade e muito reconhecimento.

E nunca mais nos encontramos!

Uma noite acordei e vi um vulto ajoelhado junto do meu leito;

sobresaltou-me, porque me parecia um padre! Era elle, vestido de batina,

e que resava no seu livro de orações!

Ergueu-se rapidamente e disfarçou para me não assustar.

Eu dissimulei; fingi que o não vira, e nunca lhe fallei d'esta scena

edificante, que ha de sempre permanecer gravada no meu coração.

Este livro deve chegar um dia ás mãos d'esse nobre mancebo, de quem o

destino me separou; que elle se recorde de mim com saudade, ao lêr estas

palavras, e veja n'ellas a expressão do muito reconhecimento, que tambem

lhe consagro.

A molestia aggravara-se, e ao terceiro dia, apresentava-se temerosa!

Eu sentia-me isolado, á mingua do conforto da familia; mas prohibira

expressamente, que avisassem meu extremoso pae da gravidade da minha

situação.

Este, ignorando a verdade, e presa de muitos trabalhos domesticos, não

foi ter commigo a Coimbra; mas escreveu-te para Lisboa, avisando-te de

que eu me achava enfermo.

No dia em que recebeste a sua carta, dirigiste-te a um dos meus

companheiros de casa, e este fallou-te com franqueza.

Isto soube-o eu mais tarde.

Vinte e quatro horas depois de teres lido a resposta, a que alludo,

dispertava eu d'um somno angustioso, e vi-te ao meu lado.

Quiz erguer-me e lançar-me nos teus braços, mas não pude.

Fizeste por me serenar o espirito, sobreexcitado pela tua presença alli,

e começaste a dispensar-me os thesouros do teu acrisolado affecto.

A molestia teve-me baloiçado entre a vida e a morte; e por fim, graças á

bondade do Altissimo, que me julgou talvez novo para deixar o mundo, e

que me proporcionou os desvelos do teu carinho, começou a declinar.

Foi longa a convalescença.

Quando, no decurso d'ella, eu me conservava ainda de cama, tu, sentado á

minha cabeceira, lias alto para me distrahir, ou divagavas sobre

aquelles assumptos, que sabias me eram mais gratos.

Ministravas-me cuidadosamente os remedios e as comidas, temperadas pela

tua propria mão, e informavas diariamente a minha familia das

progressivas melhoras, que eu experimentava.

Afinal, ergui-me da cama, e, poucos dias depois, comecei a dar alguns

passeios, pelo teu braço.

Ficava a minha casa proxima ao Jardim botanico, e era para ahi que

sempre nos dirigiamos.

Estavamos então entrados na primavera, essa estação encantadora, em que

o coração se retempera no ar embalsamado que nos rodeia; essa _gioventù

del anno_, como lhe chama o poeta, em que toda a natureza nos sorri, com

ineffavel magia.

Eu sentia-me _renascer_; parecia-me participar da qualidade dos arbustos

e das plantas, que nos cercavam; corria-me nas veias uma nova seiva, e

impressionava-me em extremo o grandioso espectaculo, que se offerecia a

meus olhos.

Depois de darmos algumas voltas por aquellas frondosas avenidas,

sentavamo-nos n'um banco do jardim, e um ao outro communicavamos as

impressões, que recebiamos d'aquelle panorama encantador das «saudosas

margens do Mondego», que d'alli se observa em todo o esplendor da sua

belleza.

Depois, quando o sol, declinando, nos aconselhava a regressar a casa,

levantavamo-nos e deixavamos vagarosamente aquella mansão deliciosa.

Os extremos da tua amisade tinham-me furtado talvez a uma prematura

morte, mas não lograram desanuviar-me o coração da magoa, que o suffocava.

Deixava-me por vezes dominar de profunda tristeza, e assim me conservava

por largas horas, alheiado completamente do mundo exterior, e só

entregue a amargas cogitações.

Um dia entraste no meu quarto, e disseste-me que era preciso saír de

Coimbra; que tinhas conversado largamente com o medico, e que este fôra

de parecer de que a distracção era o unico remedio que podia completar o

meu restabelecimento.

Sobresaltou-me a lembrança de que teria de me separar logo de ti.

Era uma injustiça que fazia á devoção do teu affecto; mas confesso-te

que não suppunha que tu levasses a tua generosa dedicação por mim, até

entrares commigo na casa paterna.

Sabia que a ausencia de Lisboa era em extremo prejudicial aos teus

interesses, e por isso imaginava que tu darias por terminada a tua

caridosa missão, com a minha partida para o Porto.

Quanto me enganava!

Eu estava ainda muito falto de forças e mal podia entender nos aprestos

da viagem; tu porém a tudo proveste com paternal cuidado.

Afinal, por uma aprazivel manhã, saímos de Coimbra.

Alugaramos uma carruagem, a melhor que se pôde encontrar, e por essa

bella estrada, que o mau fado da nossa administração publica, devia,

poucos annos depois, tornar quasi deserta, admirando o formosissimo paiz

que ella atravessa, formosissimo pela luxuriante vegetação que o cobre,

e pela extensão dos seus variadissimos panoramas, seguimos

agradavelmente até á primeira paragem, onde deviamos pernoitar.

Se bem me recordo era a estalagem d'Albergaria, esse covil immundo, da

qual ainda hoje me não lembro, que não sinta logo pelo corpo, um certo

pruído, que me excita horrorosamente os nervos.

No dia immediato continuamos a nossa jornada, mas não com tanta

felicidade como na vespera.

Levantára-se muito vento, e parece-me que te estou vendo, meu bom

Ignacio, receioso de que o frio prejudicasse o regular andamento da

minha convalescença, repartindo-me em mil cuidados, para me pôr a salvo

d'uma recaída!

E agora me lembra um episodio d'essa saudosa jornada, que tem relação

com o que levo dito, e que é mais um attestado do conforto e da

commodidade das taes locandas da antiga estrada coimbrã.

Quando chegamos a S. João da Madeira, saímos da carruagem, e entramos na

hospedaria, para jantar.

Depois que démos as nossas ordens, na cosinha, subimos para a sala, onde

deviamos esperar que nos servissem; mas era tal a _ventania_, que

entrava pelos buracos dos vidros, e pelas fendas do telhado, que, não

querendo voltar logo para a carruagem, de que já estavamos fartos,

tomamos o partido de nos sentarmos a um canto, e abrir os chapéos de

sol, a vêr se d'este modo podiamos afrontar a intemperie.

Pouco tempo porém estivemos n'essa posição caricata; afinal entendemos

que o mais acertado era jantarmos dentro da carruagem, e assim o fizemos.

Ainda hoje me rio, quando me acode á ideia essa scena de comedia, que

acabo de descrever.

D'ahi por algumas horas chegavamos aos Carvalhos, onde nos esperavam,

meu pae e minha irmã, e todos juntos seguimos para o Porto.

Com a viagem, que descrevi com leves traços, termina esse episodio da

nossa vida, em que se patenteia bem a elevação do teu caracter, e a

dedicação que te devo; mil annos que eu vivesse, nunca esta pagina da

minha mocidade, se me apagaria da memoria.

Sei, e já o disse no principio d'esta carta, que vou offender a tua

modestia, tornando publico esse exemplo que déste da nobreza dos teus

sentimentos.

Não importa. És tu geralmente apreciado como homem de letras, quero que

todos te apreciem tambem como homem de coração;--como exemplo do amigo

dedicado.

Porto, 12 de janeiro de 1872.

F. de Castro Monteiro.

[1]Vilhena Barbosa só terá conhecimento d'esta carta, quando lhe chegar

á mão o meu livro. O respeito que me merece a sua proverbial modestia

obriga-me a deixar aqui esta declaração.

INTRODUCÇÃO

I

As letras e as artes têm muitos pontos de affinidade. Ambas filhas

predilectas da civilisação; caminhando a par na via dos progressos

humanitarios; auxiliando-se e concorrendo mutuamente para o seu commum

desenvolvimento e esplendor; cabendo-lhes egual quinhão de gloria nos

aperfeiçoamentos, grandeza e prosperidade de qualquer nação; tem

identico valor e significação para se aquilatar por ellas a cultura de

um povo; e, finalmente, ambas são um como espelho em que a humanidade se

retrata, tal qual é, segundo as epochas da sua historia.

Nas artes é, principalmente, a architectura, pelas intimas relações que

tem com a sociedade, a que resume em si, com maior exactidão, as idêas,

as crenças, as aspirações, as necessidades, em fim, a vida moral e

physica dos povos.

Nas letras o romance, a meu vêr, como nas artes a architectura, é qual

lamina em que se espelham, com fidelidade, os pensamentos, a indole e os

costumes da sociedade para a qual foram escriptos.

Na traça mesquinha ou grandiosa de um monumento; nas suas fórmas

acanhadas ou esveltas; na ornamentação pesada e mal disposta, ou ligeira

e graciosamente distribuida; na esculptura dos ornatos grosseiros e sem

significação ideal, ou delicados e expressivamente symbolicos, escreveu

o architecto, sem attentar em tal, uma pagina da historia dos seus

contemporaneos, eloquentissima na sua mudez, e cheia de verdade, porque

a mão do seu auctor era dirigida, não por paixões ou respeitos humanos,

mas unicamente pelo amor da arte. E julgando o artista que a movia em

cega obediencia aos preceitos da mesma arte, a sua dextra seguia tambem

os impulsos da sua imaginação, que não podia eximir-se á despotica

influencia das idêas e costumes dominantes; e além d'isso, no desempenho

da sua missão, tinha de satisfazer as exigencias e necessidades

publicas, que são sempre determinadas pelo movimento intellectual e pela

successiva modificação dos costumes.

O romancista quer que o seu livro corra mundo, e seja lido com prazer.

Para alcançar este _desideratum_, procura deleitar, e para este fim tem

de vasar a sua obra nos moldes do gosto publico; isto é, tem de a

accommodar ás idêas e costumes em voga n'essa epocha. E ainda que

consideremos o escriptor, pegando da penna, sem que o mova o interesse

pecuniario, forçosamente ha de escrever sob a mesma poderosa influencia

das idêas e costumes publicos.

II

Quando as cruzadas, minando pela base o feudalismo, crearam o espirito

cavalleiroso, que, d'envolta com o sentimento religioso, foi adoçando

pouco a pouco a fereza da edade media, e, ao mesmo tempo, abrindo a

porta á illustração do seculo, surgiu o romance, como guarda avançada

das letras; cruzada não menos santa, preparada no remanso do gabinete

pelos primeiros chronistas, annunciada e apregoada pelos antigos

trovadores.

O romance mostrou-se desde logo o retrato fiel da sociedade, em todas as

phases da sua vida moral e physica.

Pois que n'essas eras se manifestavam e expandiam o sentimento religioso

em guerras contra os infieis, e o do prazer em justas, torneios e

caçadas, ou em saraus, onde os trovadores cantavam, ao som do alaúde,

amores e guerras; pois que a justiça humana chamava amiudadas vezes os

delinquentes ao campo dos combates judiciarios; pois que as moradas da

nobreza eram castellos, cercados de fossos, e eriçados de ameias; as

espadas, as lanças e as armaduras os melhores ornamentos das suas salas;

a montearia, a diversão predilecta das illustres castellãs; o romance,

reproduzindo todas estas feições sociaes, tomou a fórma de novellas de

cavallaria. Amores e guerras constituiam, portanto, o assumpto obrigado

d'essas composições. A honra, o valor, a coragem, a dedicação

desinteressada, a fé e a esperança estreitamente unidas, todos estes

dotes de um perfeito cavalleiro, todas estas idêas, que então occupavam

os espiritos quasi exclusivamente, até dos que não possuiam tão nobres

qualidades, sobresaíam e brilhavam com tanto fulgor nas paginas d'essas

novellas, como as estrellas que scintillam no manto negro da noute.

III

Em quanto as cruzadas, attrahindo a um campo commum as differentes

nações da Europa, e pondo em contacto o Occidente com o Oriente, faziam

raiar a aurora de uma nova civilisação, travavam encarniçada lucta a

realeza e o feudalismo. Aquella, soccorrendo-se ao principio popular,

acabou por triumphar do seu poderoso adversario. Porém, durante a pugna,

o poder real teve de arcar com o poder theocratico, o qual, a seu turno,

alcançára victoria sobre a propria realeza.

A influencia dos pontifices no regimen dos estados, que tão benevola e

providencial se ostentou, em quanto serviu de medianeira entre os

opprimidos e os oppressores, estendendo sobre os mais fracos a égide do

poder espiritual, veiu a tornar-se oppressiva e intoleravel, desde que,

abusando da sua intervenção nos negocios temporaes das nações, converteu

em tyrannia aquella missão paternal.

A supremacía dos papas, actuando na politica dos governos e nas idêas e

costumes populares, imprimiu uma grande modificação no viver da

sociedade. Essa modificação não tardou a estampar-se no romance,

despojando-o dos esplendores e galanteria, com que até alli se ataviára,

e fazendo-lhe vestir a roupagem, modesta e singela, mas não falta de

poesia, das lendas religiosas, que lá foram aninhar-se nas chronicas

monasticas, parecendo fugir ás impurezas do seculo.

A fé viva, sugeitando a razão além do dogma; a esperança vivissima em

uma eternidade de gloria e de suprema ventura na outra vida, como

recompensa do refreamento das paixões e das abstinencias, e como

compensação das grandes dôres; o curso geral das cogitações e

controversias dos sabios para as materias theologicas; as diversões

populares restringindo-se, quasi exclusivamente, ás procissões, nas

quaes eram admittidas dansas, e toda a sorte de exhibições phantasticas

e burlescas, aos arraiaes e outras festividades religiosas, e,

finalmente, aos autos sacros, que constituiam o theatro na infancia,

depois do seu renascimento; as provas do fogo, do ferro em brasa, e da

agua fervente, denominadas _juizo de Deus_, aceites nos tribunaes de

justiça como testemunhos irrecusaveis da innocencia ou da culpabilidade:

todo este pensar e este viver reflectiam-se nas lendas religiosas com a

mesma exactidão e vigor, com que o sol reflecte na superficie das aguas

a sua fronte luminosa.

IV

Não é meu intento traçar a historia d'este ramo de litteratura. Direi,

todavia, que d'aquelle modo continuou o romance, em todos os tempos, e

sob todas as fórmas, a reproduzir em si, com mais ou menos naturalidade

e viveza de côres, as mudanças que se vão operando nas idêas e nos

costumes.

D'est'arte se revestiu das fórmas classicas, quando, sob a influencia

dos sabios e dos artistas, foragidos de Constantinopla, ao desmoronar do

imperio do Oriente, se operou nas letras, nas artes, e no proprio viver

da sociedade, a grande revolução denominada _renascença_, a qual foi

inspirar-se nas obras grandiosas da antiga Grecia.

Do mesmo modo assumiu o romance a gravidade philosophica, quando

Voltaire, Rousseau, e outros grandes pensadores do seculo passado,

proclamando verdades, que faziam estremecer em seus thronos os monarchas

despoticos, convidavam os estadistas a meditarem nos problemas sociaes,

cuja semente assim lançavam á terra; e excitavam os povos a reflectir na

significação e importancia dos direitos do homem.

Assim o romance se tornou historico, logo que a sociedade, sentindo o

mal estar de uma organisação que os progressos da civilisação iam

fazendo caducar, recorria ao passado, como que procurando nos archivos

da historia o elixir para se rejuvenescer; isto é, estudando nas antigas

sociedades as fórmas governativas, que mais lhe quadrariam sob a

revolução que se preparava.

Quando, em nossos dias, a applicação do vapor á locomoção e ás machinas

industriaes, bem como a telegraphia electrica, pondo em facil e rapida

communicação todos os povos do globo, estabeleceram novas condições de

existencia social, que hão de operar forçosamente, em maior ou menor

espaço de tempo, uma transformação completa, não só no modo de viver,

mas tambem na organisação da sociedade; quando a attenção dos homens

pensadores começava a fixar-se na grande revolução prevista, e a meditar

nos difficeis problemas que ella em breve deveria offerecer á resolução

dos philosophos e dos estadistas; quando a attenção geral dos povos,

desapegada das tradições do passado, se absorvia inteiramente na

contemplação do presente, admirando as maravilhas do progresso, anciando

saciar-se dos gosos, que elle gera com mão fecunda e prodiga, o romance,

deixando tambem em repouso os archivos da historia, começou a

inspirar-se nas scenas da vida actual. E ao passo que retratava a

sociedade, dando colorido e relevo a cada uma das suas feições, lançava

á arena da discussão as novas e grandes questões sociaes.

Porém, partindo do mesmo ponto, movidos por egual impulso, os

romancistas contemporaneos, que se dedicaram a descrever os costumes e

praticas da actualidade, dividiram-se em duas turmas, seguindo caminho

differente. Uns, impellidos por uma idêa elevada e generosa, pintaram

com côres negras, mas verdadeiras, todas as angustias e miserias da

sociedade moderna, estudando-lhes as causas, apontando os perigos

futuros, fazendo avultar os defeitos e defficiencias das instituições;

chamando, em fim, a solicitude dos poderes publicos para o horrivel

cancro, que vae corroendo o corpo social. Á frente d'estes illustrados

romancistas colocára-se Eugenio Sue.

Infelizmente, muitos discipulos d'esta eschola, esquecendo ou

despresando os intuitos philosophicos do mestre, trataram sómente de

deleitar; e reconhecendo as tendencias do seculo para os gosos sensuaes,

e para os grandes sobresaltos do espirito e do coração, puzeram em acção

todas as paixões violentas, e todos os instinctos ferozes da humanidade.

Compozeram d'est'arte, é bem certo, quadros grandiosos, cheios de vida e

de animação, scintilantes de fogo e de energia, em que se succedem uns

aos outros os episodios dramaticos, e as scenas tragicas. Mas, atravez

das galas da poesia, com que os adornaram, e sob o brilho seductor dos

ouropeis com que se esforçam por atenuar, senão santificar, a hidiondez

de torpezas e devassidões repugnantes, transparece o virus da corrupção

da alma, ministrado em taça de ouro á mocidade inexperiente e ávida de

commoções fortes.

A outra turma de romancistas tem trilhado mais nobre senda, no

desempenho de uma missão civilisadora e santa.

Os seus romances não deslumbrarão, talvez, o espirito com o esplendor

das imagens; não o sobresaltarão com a rapida successão de casos

extraordinarios; não subjugam a razão, nem expõem o coração a contínuo

tremor com o longo encadeamento de commoções violentas.

Como o prado, que, sob o sol da primavera, se veste de verdores, que vae

matisando pouco a pouco de flores singelas, mas rescendendo de suaves

aromas, resplandecentes e encantadoras pela viveza e variedade das

côres; e que no inverno troca as alegrias em tristezas, as galas em

miseria, para outra vez folgar e enriquecer-se sob o novo sceptro de

Flora; assim nas producções d'estes romancistas alternam-se as scenas

meigas e suaves da familia com os tristes acasos da sorte, com as

tribulações da desventura, emfim, com as tempestades da vida. N'estes

quadros avultam tambem os contrastes, como na natureza; os toques de luz

e de sombra, colhidos nas vicissitudes da fortuna e no tumultuar das

paixões. Figuram ahi alguns dos vicios e crimes, que são no mundo moral

a imagem das forças destruidoras no mundo physico. Mas apresentam-se,

não com o semblante vellado, embora por véo transparente, que mal deixa

distinguir-lhes a fealdade; não com as feições embellesadas e

disfarçadas com arrebiques e louçainhas, que fascinem e lhes conciliem

as sympathias das almas ingenuas e credulas, mas sim taes quaes são, na

sua completa nudez, em toda a sua asquerosa deformidade.

Finalmente, d'esta lucta entre o bem e o mal, figurada n'estes romances,

sáe a virtude ou o arrependimento coroado pela felicidade, e o crime ou

o vicio punido pela justiça dos homens, ou pela de Deos, que dos

proprios vicios e crimes fez gerar o castigo que os pune na terra.

A esta turma de romancistas, a que pertence a eschola allemã, veiu

associar-se uma outra, ainda mais singela e modesta, talvez, mas tambem

guiada pelo mesmo impulso generoso de deleitar, moralisando. Compõe-se

esta de um certo numero de auctores de contos e tradições populares,

entre os quaes occupa logar de honra D. Antonio de Trueba.

V

Nascido na Biscaya em 1821, uma das provincias da romantica e

cavalleirosa Hespanha, tão original no curso e transformações do seu

longo viver; nascido na Biscaya, repetimos, onde se tem conservado mais

arraigado o respeito ás tradições do passado, o amor aos antigos fóros

populares, e o apego aos velhos costumes, D. Antonio de Trueba não podia

eximir-se a essa triplice e poderosa influencia. Bebendo com o leite

aquelle respeito; bafejado desde o berço por aquelle amor; preso

áquelles costumes pelas mais doces recordações da infancia, o seu

espirito difficilmente poderia deixar de revoltar-se contra o progresso,

que tudo nivela, abatendo o que era grande, e exaltando o que era

humilde; contra as idêas do seculo, que mofam das crenças do passado;

que despojam de poesia as tradições; que parecem tender a materialisar a

vida á força de commodidades e gosos, creados para deleite dos sentidos.

Resuscitando, pois, as tradições das antigas eras, empenhou-se em fazer

reviver, com todo o brilho d'outr'ora, as santas crenças de seus maiores.

Pondo em parallelo, em alguns dos seus contos populares, os costumes da

velha sociedade com os que se vão modificando e surgindo no meio do

desenvolvimento do espirito humano, insurge-se, é certo, contra o

progresso, e, apontando para a corrupção que elle gera e alimenta, deixa

expandir-se a sua indignação.

Mas, quando se pensa em que o auctor d'esses contos e tradições foi

creado no remanso e singeleza da vida campestre; quando se considera em

que os dias da infancia e da adolescencia se lhe deslisaram tranquillos

e alegres no seio da familia, sem que viessem perturbar-lhe o repouso,

desvairar-lhe as idêas e corromper-lhe o coração, o bulicio das cidades,

o tumultuar das paixões e a seducção dos vicios; quando se reflecte em

que os verdores, e as suaves harmonias, e os contrastes pittorescos do

seu valle natal lhe infundiram n'alma a doce poesia da natureza; e que

os carinhos e maximas moraes de uma extremosa mãe e virtuosa perceptora

lhe fizeram o espirito meigo, franco, recto e eminentemente religioso;

quando se attenta em tudo isto, comprehende-se, acha-se natural, e

desculpa-se aquella insurreição contra os progressos do seculo.

Qual mimosa sensitiva, que se contráe e desfallece ao simples contacto

da mão indiscreta ou bemfazeja, como se a ferisse duro e traiçoeiro

golpe; assim Trueba se confrangiu logo que, transpondo as montanhas do

seu pacifico valle, e achando-se de improviso face a face com a

sociedade, que desconhecia, viu, como que offuscando o brilho das

grandes idêas do progresso, os sentimentos nobres e patrioticos, e as

aspirações elevadas e generosas do coração humano, luctando por toda a

parte, e quasi sempre vencidas pela ambição do poder e das honras, pela

cubiça do ouro, pela sêde dos gosos e dos prazeres, pela fortuna dos

mais atrevidos, e pela inveja dos menos felizes. Irritou-se, vendo as

conveniencias partidarias e individuaes supplantarem muitas vezes o

interesse publico; vendo as leis severas e inexoraveis para com os

fracos e desvalidos, e frouxas e flexiveis para com os poderosos ou

protegidos; vendo elevaram-se homens, que a falta de merito condemnava á

obscuridade, emquanto ficavam esquecidos e occultos, nas sombras da

modestia e da humildade, muitos cidadãos dos mais prestantes; ouvindo

apregoar maximas e alardear virtudes e serviços, que os exemplos e os

factos desmentiam; indignou-se, reconhecendo no curso da civilisação as

tendencias do seculo para converter nos gelos da descrença e do egoismo

o ardor da fé, a luz benefica da esperança, o fogo santo da abnegação,

do amor do proximo e da patria!

Na confrontação do presente com o passado o seu juizo não podia deixar

de ser desfavoravel ao primeiro, porque tudo o que via e ouvia,

annuviando-lhe os verdadeiros resplendores do progresso, contrariava as

suas idêas e os seus habitos, e derrocava pela base os poeticos e

formosos castellos, que phantaseara nos sonhos dourados da adolescencia.

E a sua rapida passagem da estreiteza de apertado valle, segregado por

assim dizer, do resto da Hespanha, para a amplidão dos grandes centros

industriaes, para o seio da turbulenta e voluptuosa Madrid,

offuscando-lhe a vista, como se sahira de improviso das trevas para a

claridade, forçosamente lhe havia de obstar a que visse n'essa anarchia

das ideias, n'esse desenfreamento das paixões, n'essa relaxação dos

costumes, emfim, n'essa corrupção moral, que tanto o escandalisavam, as

consequencias naturaes da grande e inevitavel revolução social, que

estamos presenceando.

Não lhe deixaria attentar em que este acontecimento é o resultado dos

maravilhosos descobrimentos do seculo XIX, os quaes acabando com as

distancias, pondo em intimas e faceis relações todos os povos do globo,

e na presença uns dos outros todos os cultos religiosos, as locubrações

dos sabios de todo o mundo, todos os productos da terra e da industria

humana, haviam de produzir, por effeito de uma força irresistivel, o

duro embate das velhas idêas e dos interesses á sombra d'ellas creados,

com as idêas e interesses, que os progressos humanitarios iam gerando e

desenvolvendo. Não lhe permittiria reconhecer que d'aquelle embate havia

de nascer a lucta a todo o transe; da lucta o exacerbamento das paixões;

d'estas o affrouxamento dos vinculos sociaes e dos proprios laços de

familia; e de tudo isto a desordem nas idêas e a corrupção geral nos

costumes.

É este o triste apanagio das revoluções, que tendem, não a derrubar um

throno, ou a mudar uma ou outra instituição, mas sim a assentar em bases

inteiramente novas o edificio social. A nossa época é, infelizmente, um

d'esses periodos de desmoronamento, e por conseguinte de transição, que

apparecem de seculos a seculos na historia geral das nações, como

gigantescos e temerosos marcos, erguidos no caminho por onde a

Providencia impelle a humanidade, para assignalarem e separarem as

grandes phases da civilisação.

Portanto essa condemnação dos progressos do seculo, que apparece em

alguns dos contos de Trueba, em rasão dos motivos que lhe dão origem,

não deslustra, antes pelo contrario honra o seu coração bondoso e o seu

caracter justo e leal. Mas se alguem, mais severo, ou menos attento ao

que expendi em seu abono, quizer lançar-lhe em rosto as suas opiniões

reaccionarias, leve-lhe em conta a belleza dos quadros que traça com

suavissimo pincel; a singelesa e elegancia do estylo, com que dá relevo

e vida ás meigas scenas de familia e aos risonhos paineis da natureza,

e, finalmente, a moralidade que ressumbra de todas as paginas dos seus

livros.

VI

D'este juizo das obras de Trueba, que se me affigura imparcial, deduz-se

naturalmente um pensamento de louvor a quem promove entre nós a

vulgarisação d'estas boas producções. Em uma quadra, como esta, em que a

litteratura portugueza está sendo a todo o momento, não enriquecida, mas

sim invadida por traducções de romances que, na maior parte dos casos,

não a honram pela pureza da linguagem, e a desauthorisam pela

licenciosidade dos costumes, que põem em seductora exposição; presta o

traductor um bom serviço ás letras e á moral publica.

Auctores como Trueba illustram e ennobrecem a litteratura que os adopta

e perfilha. Livros, como os seus, podem ser offerecidos á mocidade por

leaes conselheiros e guias seguros nos escabrosos caminhos da vida.

Na versão prestou o traductor verdadeiro culto aos preceitos e

exigencias da lingua materna, conservando aos pensamentos e ás imagens

originaes toda a sua elevação e vigor, todo o seu brilho e poesia.

A litteratura hespanhola é tão rica e variada em todos os ramos do saber

humano, quão mal conhecida, infelizmente, em o nosso paiz, n'estes

tempos modernos. Desde o principio d'este seculo temo-nos quasi

restringido a cultivar a litteratura franceza, dedicando-lhe a nossa

exclusiva admiração, em prejuizo de outras não menos opulentas e

brilhantes. Por conseguinte tambem por este lado o distincto traductor

dos contos de Trueba bemmerece dos seus concidadãos. O seu talento, já

provado nas lides de escriptor publico, apresenta agora n'este ensaio a

amostra do que vale no difficil genero, que encetou; difficilimo, sem

duvida, quando se quer verter em linguagem de lei os pensamentos de

auctor estranho com toda a belleza e vigor da inspiração original.

I. DE VILHENA BARBOSA.

CONTOS DE TRUEBA

NOSTALGIA--O MADEIRO DA FORCA--A NECESSIDADE--A PORTARIA DO CEU--O

PRESTE JOÃO DAS INDIAS

NOSTALGIA

I

Mães que tendes filhos e que fundaes a sua felicidade e a vossa em

mandal-os para Madrid ou para a America; lêde este conto, que para vós o

escrevo.

Não penseis que é invenção minha o que vou narrar-vos; começa esta

historia no dia 10 de novembro de 1836, época em que Madrid era, _peor_

e _melhor_ do que hoje. Quem não entender o que deixo dito lembre-se do

que succede com a baixella de prata, que, quanto mais a esfregam, mais

brilha e menos peza.

Havia em Madrid um frio intensissimo: nevára na véspera, e antes que a

neve tivesse tido tempo de derreter nas ruas, sobreviera uma geada

fortissima, o que junto ao vento de Madrid, que mata um homem e não

apaga um _candil_, dava á temperatura d'aquella heroica cidade o

caracter e a temperatura da Siberia.

D. João Quijano, rico banqueiro que morava na rua de Toledo, estava no

seu escriptorio, situado nos baixos da casa, com seu sobrinho D. Lucas,

e n'uma sala contigua trabalhavam em silencio, sentados ás suas

carteiras, dois caixeiros encarregados da contabilidade e da

correspondencia. O gabinete do banqueiro tinha um postigo com vidraça

que dava para o escriptorio geral, e pelo qual o tio e o sobrinho

espreitavam amiudadas vezes, no intuito de se certificarem se os

caixeiros cumpriam as suas obrigações; phrase de que D. Lucas se servia

para os fazer trabalhar, quando os ouvia fallar em cousas alheias aos

assumptos commerciaes da casa.

D. João era homem de cincoenta annos, pouco mais ou menos, córado,

robusto, de nariz grande e cabelleira tão bem arranjada e composta, que

os proprios caixeiros não teriam dado por ella, se não fôra o genio de

sua mulher D. Joanna, que, nos seus accessos de cólera, lh'o lançava em

rosto, chamando-lhe «tio _cabelleira_».

D. Lucas devia ter os seus vinte oito a trinta annos; era pouco mais

alto que um cão sentado, e nem a sua phisionomia, nem as suas palavras

revelavam talento ou bondade de coração. Não obstante isso tolerava-lhe

o tio os defeitos, e até sentia estima por elle, não só por ser

empregado antigo da casa, mas tambem porque podia dizer-se que era D.

Lucas quem carregava com todo o peso do estabelecimento.

--Veja lá, tio, disse D. Lucas a D. João, levantando os olhos para um

relogio, que estava collocado na parede, em frente da escrevaninha do

banqueiro,--se tem de ir á Bolsa, não se descuide que são quasi duas horas.

--Parece-me que não vou lá hoje, respondeu D. João; quem ha de saír de

casa por um tempo d'estes? A vida é curta, e se eu morrer... tocam os

sinos a defuncto, e está tudo acabado... Demais deve estar por ahi a

chegar o pequeno e tenho desejos de o vêr. Recebi pelo correio uma carta

de meu irmão Martinho, na qual este me diz que o rapaz saíu de lá no

primeiro do mez, na carroça de Chomin, e segundo o meu calculo, temol-o

por ahi hoje. Talvez não fosse mau mandar o Toribio á estalagem.

--Não sei para que; quando elle chegar, cá virá ter.

--O pobre pequeno deve vir tolhido de frio.

--Não lhe dê isso cuidado; não inspira compaixão quem vem como elle para

Madrid, comer bom pão e boa carne, em vez de comer brôa e batatas n'uma

aldeia da Biscaya.

--Pois apesar d'isso estou bem certo de que preferiria encontrar hoje,

ao apear-se da carroça, a cosinha de seus pães, com a sua priguiceira e

um bom fogo de rama de pinheiro, a entrar n'esta habitação ricamente

mobilada e com chaminé á franceza.

--Parece-lhe que o empreguemos em compras e recados?

--Não foi essa por certo a ideia de seus paes quando resolveram mandal-o

para Madrid. É preciso collocal-o no escriptorio a fim de que, pouco a

pouco, se vá instruindo e orientando no negocio.

--Pouco a pouco! Verá como antes de um mez o faço saber mais do que

Merlin. _A letra com sangue entra_...

--Não concordo comtigo, Lucas. Toma conta, não lhe ponhas sequer a mão;

não quero que aconteça com este o que aconteceu com outros, que á força

de maus tratos, os entonteceste, e tive que os mandar para a terra...

Dispunha-se D. Lucas a tomar a defesa do seu barbaro systema d'educação,

quando tocou a campainha;--calaram-se de subito, tio e sobrinho,

applicando o ouvido na direcção do portal.

--Elle ahi está! exclamaram ambos a um tempo, ao ouvirem no patamar a

voz do pequeno que saudava o creado que fôra abrir-lhe a porta.

--Senhor, disse este com sorriso d'escarneo, apparecendo á entrada do

escriptorio, está aqui Chomin com o _rocim-chegado_.

D. João franziu as sobrancelhas como descontente de que o creado se

atrevesse a proferir o estupido equivoco que vae escripto em italico, ao

passo que o sobrinho soltou uma estrondosa gargalhada em honra da graça

de Toribio, que era um asturiano tonto com pretenções a faceto:

--Que entrem, respondeu D. João.

Com effeito Chomin, que era um dos recoveiros das provincias

Vascongadas, entrou no escriptorio, acompanhado d'um menino de doze a

treze annos.

II

Não se tinha enganado D. João, suppondo que a pobre creança chegaria

gelada.

Angelo (era assim que se chamava o novo caixeiro dos snrs. Quijano e

Sobrinho) estava a tiritar com frio; tinha as mãos e a cara lividas e os

seus olhos indicavam que, na noite antecedente, em vez de se terem

fechado para o somno, se tinham aberto para o pranto. O pobre rapazinho

parou á porta do escriptorio, com o chapéu na mão, de cabeça baixa, e

mal pôde articular um cumprimento.

--Ora aqui o tem, disse Chomin, depois das saudações do estylo. Desde

que saímos da aldeia, ainda não cessou de chorar com saudades das suas

vaccas e das suas cabras.

--Pobre pequeno! exclamou D. João, afagando Angelo.

--Deixe lá, atalhou o almocreve, que o pão trigo de Madrid faz esquecer

de prompto a brôa de Biscaya. Bem diz o provérbio que «_de Madrid só

para o céo_».

D. João acercou-se de Angelo, e disse-lhe, correndo-lhe a mão pela cabeça:

--Vamos, homem, então, que tal achas Madrid? Parece-te melhor que a tua

aldeia?

--Não, senhor, respondeu o pequeno com os olhos arrasados de lagrimas.

--Dizes bem, dizes! exclamou D. João, pondo-se a rir e fazendo uma nova

caricia ao rapazinho. Devem ser assim os homens; a melhor terra é sempre

aquella que nos viu nascer.

--Sim, sim, ria-se tio, disse D. Lucas, fazendo um gesto de enfado;

ria-se da sandice d'esse bruto. Não ha duvida, o rapaz promette! Mas

deixa estar que caíste em mãos de quem te sabe ensinar!

--Não se afflija, snr. D. Lucas; o _rapazelho_ põe-se fino com um bom

par de açoites todos os dias.

--Isso fica por minha conta, respondeu D. Lucas.

--Valha-me Deus; não sejam assim, replicou o banqueiro; que admira que o

pequeno tenha saudades de seus paes, se nunca se separou d'elles? E

accrescentou, dirigindo-se a Angelo: deves trazer vontade de comer?

--Não, senhor, respondeu o menino, lavado em lagrimas.

--Não chores, disse D. João; chega-te para o lume e aquece-te, emquanto

não chamam para o jantar, e logo tomarás conta do teu serviço e verás

como antes de um anno te tornas um verdadeiro negociante.

O pequeno approximou-se da chaminé com o chapéu na mão; mas como o

cegavam as lagrimas, tropeçou n'uma cadeira e lançou por terra uns

papeis que estavam sobre ella.

--Desastrado! não vês por onde andas? exclamou D. Lucas, agarrando-lhe

n'um braço e sacudindo-o com violencia.

De repente effectuou-se no animo do menino uma reacção inesperada. Elle

que, um momento antes, mal se atrevia a levantar os olhos, ou a

pronunciar uma palavra, ergueu a fronte com altivez, e virando-se para

D. Lucas, disse-lhe:

--Expulse-se-me de sua casa, mas não me maltrate. Aqui maltratam-me,

emquanto na minha aldeia me choram. Como quer então o senhor que eu

goste mais d'esta terra do que da minha?! E accrescentou, dirigindo-se

ao almocreve:

--Já não quero aqui ficar; volto comsigo para a Biscaya.

Estas palavras, bem longe de commoverem D. Lucas e o almocreve, fizeram

rir este e encolerisar aquelle, que murmurou, levantando o punho fechado

sobre a cabeça da creança:

--Se fosses meu filho abria-te a cabeça com um murro!

D. João, porém, saíu em defeza do pobre rapaz, arredando d'elle com

violencia seu sobrinho, e exclamando:

--Lucas, já te disse que não consinto que lhe ponhas a mão. Se o achas

rude e acanhado, se está commovido e saudoso, recorda-te de como eras

tambem, e do modo como te apresentaste quanto vieste para Madrid. E

Vm.^ce, snr. carroceiro, fique sabendo que não se tratam os racionaes

como as mulas.

--Não faça caso, snr. D. João; isto em mim não passa de um gracejo, e

senão elle que diga a maneira como eu o tratei pelo caminho.

--Carregando-me de lenços de contrabando! O que me valeu foi não me

revistarem á entrada das portas; do contrario estaria a estas horas na

cadeia!

--Não está mau modo de cuidar da innocente creança, que foi confiada á

sua guarda! exclamou D. João, olhando com indignação para o almocreve.

Retire-se já da minha presença, que me estão dando tentações de dar uma

parte de si á policia.

--Ora, snr. D. João!... Então o senhor faz caso do que dizem creanças?

--Já lhe disse que se retire da minha presença.

--Está bem, snr. D. João; mas...

--Não ha aqui mas, nem meio mas. Tenho dito, ponha-se no andar da rua.

O carroceiro não se atreveu a replicar e retirou-se murmurando não sei

que insolencia.

D. João arrastou uma cadeira para junto do fogão, e sentou-se ao lado de

Angelo que tinha cessado de chorar. O pobre pequeno estava já um tanto

mais satisfeito por ver que nem todos n'aquella casa o tratavam com

aspereza, e que se havia ali quem o maltratasse, tambem tinha quem o

defendesse e lhe proporcionasse consolações e affagos, que lhe faziam

lembrar os que deixára no lar domestico.

D. Lucas despeitado por vêr que o tio tomava as dôres pelo

recem-chegado, a ponto de o reprehender a elle pela sua falta de

humanidade, tinha-se retirado para o escriptorio, e por conseguinte

ficaram sós, Angelo e D. João.

Era este natural da aldeia do pequeno, e posto tivesse ido para a côrte

de tenra edade, e absorvessem de ordinario todos os seus pensamentos e

acções os assumptos commerciaes, nem por isso havia renegado o paiz

natal, nem esquecido os seus parentes.

--Vamos, Angelo, disse elle ao rapazinho com modo carinhoso, dando-lhe

uma palmada no hombro; conversemos um bocado ácerca da nossa aldeia;

venham de lá algumas noticias frescas d'aquella boa gente. Então de quem

te despediste tu antes de partir?

--Despedi-me de todos os meus parentes e vizinhos.

--Muito bem! N'esse caso havias de vêr meu irmão, não é verdade?

--Sim, senhor, recommendou-me que lhe désse muitas lembranças, e bem

assim á senhora D. Joanna, e a D. Lucas... mas a este é que eu as não dou.

--Não sei porque não, filho.

--Porque me trata muito mal.

--Não faças caso, homem. Com que então deram-te lembranças para mim?

--Sim, senhor, e especialmente o snr. abbade.

--Deve estar muito velho, o bom do padre! coitado!

--Não, senhor; se o visse andar por aquelles montes ficava admirado.

Ninguem dirá que tem mais de quarenta annos. Como não ha, lá na aldeia,

quem não reze a Deus todos os dias para que lhe dê saude, não tem nem

uma dôr de cabeça.

O colloquio de D. João e Angelo, interessantissimo para ambos elles, foi

interrompido logo em começo pela entrada do asturiano, que tinha chamado

ao menino _rocim-chegado_.

--Senhor, disse o creado, manda dizer a senhora que está a _mesa na sôpa_.

O banqueiro riu-se d'esta troca de palavras e encaminhou-se para o

primeiro andar.

III

Não estava a mesa na sôpa, mas estava a sôpa na mesa, e D. Joanna, a

esposa de Quijano, aguardava com impaciencia a chegada do marido, não

porque tivesse o estomago vazio, mas sim porque o seu caracter irascivel

e dominador não supportava que a fizessem esperar.

D. Joanna, que entrára como creada e acabára por ser ama em casa de D.

João Quijano, tinha o relogio atrazado, pois assegurava ter trinta

annos, ao passo que a sua physionomia, e o que ainda é mais, a certidão

do baptismo, lhe davam quarenta.

Deter-me-hei pouco na descripção dos seus dotes physicos; direi apenas

que as creadas, que despedia todas as semanas, a mimoseavam, ao descerem

pela ultima vez as escadas, com os epithetos de: _dentes de cavallo_,

_estafermo_, e _olhos de gato_.

Quanto ao moral era D. Joanna a personificação da antithese;

alternavam-se n'ella a vaidade e a modestia, a avareza e a liberalidade,

a crueldade e a compaixão, a elegancia e a falta de gosto no vestir.

Contos escolhidos de D. Antonio de Trueba · 第 1 / 6 段