E, uma vez que fallámos nos novos, seria ingratidão esquecer aquelles
que, pela sua influencia, pela sua dedicação, pela sua actividade e pela
sua propaganda, tanto contribuiram para o derramamento d'estas ideias no
povo portuguez. Refiro-me a José Fontana e Sousa Brandão.
Ser republicano ou ser socialista n'estes tempos que vão correndo, cousa
é que não importa um grande acto de coragem ou de audacia. Mas para
affirmar as opiniões republicanas e socialistas, na época em que
aquelles dois benemeritos o fizeram, requeria-se ainda mais que coragem
e audacia--requeria-se uma grande independencia de caracter e um grande
e soberano despreso pelas conveniencias e interesses pessoaes.
Os que modernamente vieram para a politica, não sabem, nem podem mesmo
avaliar, o que custava a propaganda n'aquelle tempo. Era uma lucta cruel
e constante, com a familia, com os amigos, e com tudo e com todos.
Ser republicano o mesmo era que ser um doido mau. Socialismo era
synonimo de pilhagem e de liquidação social.
[Gravura: José Fontana]
Os partidos por via de regra, ingratos para com os seus servidores.
Superior, porém, á gratidão dos partidos, ha o applauso da propria
consciencia. E só pela satisfação do dever cumprido, vale bem a pena
supportar as chufas dos adversarios, as calumnias dos maldosos e a
perseguição dos inscientes e dos inconscientes.
José Fontana era muitas vezes calumniado por aquelles que o não
comprehendiam. De Sousa Brandão sorriam-se os _finorios_ e os homens
praticos, como se tivessem dó d'elle. Fui d'essa época, e sei o que isso
era e o que isso custava! Mas que importava? Os calumniadores calaram-se
e os disfructadores desappareceram. José Fontana e Sousa Brandão são
hoje venerados e consagrados, em Portugal, como o são egualmente, na
Allemanha, Karl Marx e Lassale.
E isto porquê?
Precisamente porque elles representaram, na sociedade portugueza,
mais alguma cousa do que as suas proprias pessoas. Elles foram os
genuinos interpretes de uma ideia que honraram e glorificaram, pela sua
coherencia, pela sua abnegação e pelo seu civismo. Foram dois puros e
foram dois fortes. Era differente o processo de cada um. Mas o ideal, o
fim, o objectivo era o mesmo em ambos. José Fontana era o apostolo da
_Internacional_, e ella ahi está hoje mais solida e mais viva do que
nunca, apesar da perseguição dos governos! Sousa Brandão foi o
evangelista das _sociedades cooperativas_, e ellas ahi estão hoje a
impôr-se por toda a parte e em todas as classes, apesar dos embaraços e
obstaculos que o capitalismo lhe levanta!
[Gravura: Sousa Brandão]
Ha quem desanime na lucta e ha quem cance, durante o caminho. Nem um nem
outro souberam nunca o que era o desanimo ou o cansaço. Trabalharam,
combateram, perseveraram e seguiram sempre ávante como os crentes das
antigas religiões. Edificaram sobre as ruinas e construiram sobre
os escombros do velho mundo. A obra ahi está--bella, soberba,
imponente. O exemplo é d'aquelles que não morrem nunca e a lição é das
que aproveitam sempre. Inspiremo-nos no seu nobre e magnanimo exemplo e
reavivemos nos nossos espiritos a grandeza e a sublimidade da sua lição.
A homenagem aos mortos deve constituir um culto para os vivos. E, quando
os mortos se chamam José Fontana e Sousa Brandão, a homenagem reveste
então o duplo caracter de um preito ao amigo querido e de uma apotheose
pelo bravo, pelo apostolo e pelo heróe.