A NOVA GERAÇÃO PORTUGUEZA

A evolução que, n'estes ultimos annos, se tem operado na parte sã,

intellectual, deixem-me dizer assim, da nova geração portugueza, é muito

digna de registar-se. Á frente d'esses moços estudiosos e enthusiastas,

encontra-se Fernando Martins de Carvalho, um grande e solido talento,

disciplinado pelo estudo da philosophia moderna e educado na convivencia

dos grandes mestres da sciencia social.

A tendencia federalista e socialista accentua-se na nova geração

portugueza, como um resultado da corrente internacionalista que, por

toda a parte, se impõe e affirma, e como uma consequencia logica e

necessaria das ideias do nosso tempo.

Prova este facto que marchamos para a conquista de um novo ideal e que a

politica, entre nós, vae perdendo o seu antigo caracter sentimental e

jacobino, para se transformar n'uma solução organica, positiva, liberal

e moral.

Procedendo assim, a nova geração portugueza affirma a sua solidariedade

com o movimento social moderno e mostra-se em tudo digna e á altura

dos grandes problemas que agitam a sociedade.

Parabens muito sinceros a todos esses bons e leaes companheiros, e, em

especial, a Fernando Martins de Carvalho, o chefe incontestado da

gloriosa crusada!

Os periodos que vão lêr-se representam mais do que um simples estudo ou

uma simples aspiração: são, para assim o dizer, o programma ou o

manifesto dos novos. Por isso julgámos que tinham aqui o seu logar, e

que seria de summa utilidade reproduzil-os, embora n'elles se notem umas

lisongeiras referencias á minha pessoa que não posso nem devo attribuir

senão á muita bondade de Martins de Carvalho.

* * * * *

«A aproximação do individualismo economico do individualismo politico é

o resultado de uma viciosa associação de ideias. A sociologia moderna

deve acceitar o individualismo, como solução politica, e o communismo,

como solução economica. Nem ha qualquer conflicto entre estas duas

formulas, restrictas aos campos proprios:--o _neminem laede_, essa

formula fundamental do individualismo, tem evidentemente consequencias

communistas; não lesar a ninguem é não tolher a ninguem a apropriação do

necessario, não é apenas não perturbar ninguem na sua situação actual,

justa ou injusta. Spencer, que generalisou a economia orthodoxa na

sociologia, é decididamente individualista e affirma a tendencia

evolutiva para a propriedade social.

Do primitivo communismo genealogico, de caracter familiar, passou-se

para o communismo local, dos que habitam o mesmo territorio. Dos

communismos das tribus passa-se para o communismo universal, para a

confederação de todas as communas.

A passagem de uma a outra fórma do communismo deu logar ao

individualismo economico, a desintegração, successiva e gradual, do

communismo genealogico, desde o condominio familiar até á simples quota

legitimaria dos parentes. O individualismo não poderá ser uma integração

social; os elementos que elle dispersou precisam de se integrar n'uma

nova fórma communista.

A evolução social realisa-se em virtude da lei do uso e do desuso, de

que deriva a divisão do trabalho, e que é o principio fundamental do

transformismo, em que se accentua hoje uma renascença lamarckista.

Lamarck deveria ter applicado aquella lei, que applicou só aos

organismos individuaes, tambem directamente aos organismos collectivos,

ás especies. A influencia do uso e do desuso actua sobre os orgãos dos

organismos individuaes, mas actua tambem sobre os organismos

individuaes, como orgãos dos organismos collectivos. A doutrina da

selecção natural não representa senão uma tentativa para applicar á

differenciação das especies a lei do uso e do desuso; na selecção

social, uma fórma da selecção natural, desapparecem todos os inuteis,

embora as subsistencias cheguem para todos. A evolução realisa-se

pela differenciação estructural das massas organicas primitivas,

constituindo os organismos individuaes; pela differenciação dos

organismos individuaes formando o protoplasma social primitivo, em

variedades, especies, reinos. Uma especie constitue-se organicamente

pela successão de fórmas cada vez mais perfeitas da divisão do trabalho,

pela formação de uma solidariedade social, generalisando-se gradualmente

dos pequenos grupos ás raças, e a toda a especie; á concorrencia vital

dentro das especies succede-se a concorrencia vital com outras especies,

até que umas e outras entrem n'um hyper-organismo superior, que irá até

estabelecer a solidariedade de toda a existencia.

A sociedade, que começou a sahir da primitiva homogeneidade communista

pela anthropophagia, com manifestações juridicas notaveis, como por

exemplo a condemnação do criminoso a servir de alimento á tribu,--pelas

fórmas parasitarias e commensalistas, vae pouco a pouco aproximando-se

da fórma superior da divisão do trabalho,--o communismo, que é a fórma

de repartição nos organismos perfeitos--a cada orgão segundo as suas

necessidades.

Á medida que esta evolução se realisa a concorrencia social torna-se

cada vez menos intensa; o parasitarismo interno da especie transforma-se

em parasitarismo com relação ás outras especies. As profundas

differenciações anthropologicas, produzidas pelas velhas fórmas

parasitarias da constituição social, vão-se attenuando. A analogia real

da sociedade com o organismo, que tem sido muito exaggerada e tem

dado logar a mil hespanholadas scientificas, a doutrinas muito

estheticas que se têem destacado por gemmiparidade das theorias de Comte

e Spencer, não nos póde levar a idealisar a sociedade futura como a

perfeita reproducção do organismo individual, com a sua forte

differenciação de estructura, a sociedade é um organismo superior, que

reproduz na sua phase embryonnaria a evolução dos organismos individuaes

(como pela lei biogenetica o individuo reproduz na vida fetal toda a

evolução organica anterior), mas que na sua phase post-embryonnaria a

continua.

A economia da divisão do trabalho, que se succede á primitiva economia

communista, tem duas phases preparatorias: uma militar, violenta,--a

escravidão, a servidão, o feudalismo--, outra pacifica,--o capitalismo

moderno. A distribuição da riqueza pelo producto do trabalho, dando

logar á intervenção da concorrencia, produz o capitalismo; a theoria

communista quer que se pague o trabalho-funcção social e não o

trabalho-producto, como o capitalismo e mesmo o collectivismo, uma

doutrina transitoria evidentemente, e que se vê em difficuldades para

provar que o capital não é accumulação de trabalho, coisa absolutamente

indifferente no ponto de vista communista.

As castas não são diversas raças, diversos povos, que se sobrepõem; são

differenciações anthropologicas, que se formam dentro de todas as

sociedades pela acção de factores eminentemente sociaes, as fórmas

primitivas da divisão do trabalho. As castas correspondem ás raças

occipital--a exploradora pela violencia--e á frontal, a

primitivamente explorada, que se liberta pela intelligencia;--a theoria

de Gratiolet é verdadeira, admittindo-se factores sociaes da

differenciação dentro das primitivas raças, que pouco a pouco

desapparecem perante as nacionalidades, um parasitismo de que resultam

differenciações anthropologicas, e perante as castas. O militarismo

exterior e internacional e o militarismo nacional ou aristocracia, têem

origens economicas, e produzem differenciações anthropologicas.

No regime communista primitivo o direito é a coacção á adaptação social

pela intimidação, ou o appressamento violento da inadaptação. Existia a

promiscuidade. Havia perfeita egualdade economica e perfeita egualdade

politica.

Fez-se sentir a necessidade da divisão do trabalho: ia-se constituir a

primeira fórma de parasitarismo. Ninguem ousava violar a tradição, com

profunda sancção religiosa, da propria tribu. Começa a guerra permanente

entre as tribus de bimanos. O que se não aventurava a escravisar

individuos, a monopolisar femeas, a apossar-se da propriedade da propria

tribu, cahia sobre a tribu visinha. O individualismo começou pela

escravidão dos extrangeiros, pela exogamia, pelo roubo da propriedade

das outras tribus. Constituiu-se um direito internacional,

fundamentalmente differente do direito do _clan_;--conflicto

anthropologico, o direito tinha um caracter collectivo;--crime e pena

eram conflictos ethnicos.

Constituiram-se assim em casta os homens de guerra, passando depois a

exercer a violencia sobre a propria tribu. O direito entre as

castas passou a ser cópia do direito internacional; o velho direito

interno só persistiu em _survivances_ nas relações entre os membros das

classes inferiores.

Á casta, como a todos os grandes factores sociaes, devia corresponder

uma differenciação anthropologica. A anthropologia criminal, quando nega

os factores economicos do crime, não repara em que a selecção natural

das raças tem segundo o darwinismo, de que essa escola deriva, uma

origem economica--o facto registado pela lei de Malthus.

Á primitiva selecção individual devia pouco a pouco substituir-se uma

selecção entre os grupos anthropologicos, que se iam formando, selecção

naturalmente preventiva, d'ahi a formação da escravidão, que é uma fórma

de caracter duradouro da selecção e que se substituiu á pena de morte do

criminoso e do prisioneiro de guerra; d'ahi a formação na aristocracia

da familia polygamica, destinada a garantir a rapida multiplicação da

casta superior, e acompanhada de diversas medidas restrictivas da

multiplicação da casta inferior.

Pouco a pouco tem ido perdendo de intensidade a fórma violenta do

individualismo, pelo apparecimento do capitalismo e pelo cruzamento das

castas, primitivamente prohibido, que caracterisa as fórmas sociaes

superiores, como o cruzamento das raças caracterisa a domesticação com

respeito ao estado selvagem. O caracter de conflicto anthropologico do

direito na phase primitiva do militarismo tem pouco a pouco

desapparecido de diversos dos seus ramos; primitivamente aquelle direito

que hoje só tem sancção civil, tinha uma sancção penal. Hoje o

direito penal tende a tornar-se tão contractualista como o direito

civil; Spencer baseia toda uma theoria penal sobre a organisação

systematica da indemnisação de perdas e damnos.

Á medida que o militarismo vae declinando, vae-se realisando no direito

internacional uma endosmose do direito interno progressivo; o contrario

precisamente do que se deu nas origens do militarismo.

Resultado de todos estes progressos sociaes é o desapparecimento

evolutivo das differenciações anthropologicas, a que as castas e as

nacionalidades deram origem.

Contra o que o collectivismo affirma, somos de opinião que o capitalismo

representa um progresso. A evolução realisa-se pela acção cada vez menor

da hereditariedade, permittindo a evolução rapida da especie, por

adaptações repetidas. A organisação em castas, a hereditariedade

politica e economica, correspondeu a phases inferiores da transformação

da especie: hoje sobre a hereditariedade predomina a adaptação, na sua

fórma seleccional, que tem como consequencia politicamente o regime

representativo, economicamente o regime capitalista. As selecções, não

sendo fixas pela hereditariedade, que, tanto nas suas consequencias

politicas, como nas suas consequencias economicas, tende a desapparecer,

é uma transição necessaria para o regime da egualdade, em que as

progressivas adaptações da especie não se realisarão seleccionalmente,

mas solidariamente.

É um facto conhecido o da degeneração das aristocracias,

facto perfeitamente egual ao da degeneração das raças indigenas

perante a civilisação branca, e ao da degeneração das raças

criminosas,--selecções militaristas e aristocracias abortadas, raças

d'origem teratologica,--perante o homem normal. Á degeneração das

aristocracias correspondeu necessariamente a formação das monarchias;

era facil no decorrer da degeneração da casta, uma familia garantir-se o

poder monarchico. Quando a degeneração se estende ás dynastias, a

monarchia torna-se temperada ou constitucional. É possivel que na

degeneração da burguezia perante o quarto estado, pelo mesmo processo

historico appareçam novos cesarismos.

Vejamos os factores intellectuaes da evolução social. O homem primitivo

faz corresponder á sensação o mundo exterior; á _ideia_, que julga

independente da sensação, o espirito, a substancia: eis a origem do

substancialismo, do livre-arbitrismo, da doutrina das ideias innatas, da

theoria da creação. Reconhecida a dependencia causal da ideia para a

sensação, substitue-se ao principio da substancialidade o principio de

causalidade, e funda-se a sciencia moderna, positiva, monista,

determinista e evolucionista. Por fazer do positivismo uma questão de

methodo e não determinar precisamente a origem do causalismo e todas as

suas consequencias, Comte acceitou a irreductibilidade dos phenomenos e

a relatividade dos conhecimentos, principio que occasionou esta recente

recaida idealista. A evolução scientifica não é deductiva, como queria

Comte, mas inductiva, das ciencias do espirito para as sciencias

mais geraes, as do mundo inorganico; é assim que, por exemplo, a

doutrina da evolução appareceu successivamenie na sociologia, na

biologia e na physico-chimica. Note-se que na astronomia ainda se

admitte a evolução-circular, da nebulosa á nebulosa, e a

evolução-circular foi precisamente a primeira phase do evolucionismo

social; e que nada ha ainda sobre a evolução geral physico-chimica.

Conhecem-se os factores psychologicos da marcha social; conhecem-se os

seus factores biologicos ainda; e muito mal os factores inorganicos.

A doutrina do livre-arbitrio deu origem ao contractualismo na politica,

no direito economico, na familia e no direito penal, punindo o crime,

não o criminoso. O determinismo, que successivamente, visivelmente na

criminologia, tem passado da sua fórma statica, para uma fórma dynamica,

evolucionista, do motivismo psychologico ao condicionalismo biologico e

anorganico, tem como consequencia necessaria uma constituição

socialista. O direito economico fundar-se-ha sobre o destino social dos

actos, não sobre o livre-arbitrio dos contrahentes; reconhecido o

governo de leis sociologicas, e o progresso, contradictorio com o

livre-arbitrio, isto é, a eterna possibilidade do homem pensar e

praticar indifferentemente, desapparecerá a necessidade do Estado,

resultado theorico da necessidade de uma eterna intervenção coactiva

para levar o livre-arbitrio ao Bem; a pena terá um fim socialista, a

adaptação do criminoso á sociedade. Esta adaptação será facil, contra o

que julga a antropologia criminal, que admitte a evolução

anthropologica e social e nega a evolução anthropologica e social dos

criminosos, que, sabendo que a symbolica juridica mostra bem que a

origem da propriedade foi a conquista e que a origem da successão foi o

culto dos mortos, chama aos attentados contra a propriedade--_delictos

naturaes_. A probidade actual que é senão o habito violentamente creado

de respeitar a desegualdade economica, hereditariamente transmittido?

Differimos do collectivismo:--na nossa solução final economica, que é

communista; na theoria politica, que é o anarchismo scientifico; no

processo theorico, por isso que fazemos sociologia anthropologica e por

não fazermos sociologia exclusivamente economica. Os primitivos

socialistas como os primeiros economistas nem sequer suspeitaram a

sociologia, viveram no especialismo economico; n'uma segunda phase

economista e socialista levaram a explicação economica a todos os

phenomenos sociaes, fizeram sociologia economica; n'uma terceira phase a

economia orthodoxa generalisou-se com as outras sciencias sociaes na

sociologia spenceriana. Tudo hoje tambem faz prever a constituição de

uma sociologia socialista. A biologia nunca ousou explicar a evolução

organica só por factores economicos--os que dizem respeito á nutrição. O

collectivismo é, em Marx principalmente, um argumento _ad hominem_ com

relação á economia orthodoxa, de cujas entidades metaphysicas tirou

consequencias habeis, mas scientificamente infundadas; Karl Marx vê-se

obrigado a contradizer violentamente as suas theorias, aproximando

o seu socialismo da formula communista da distribuição.

Differimos do anarchismo, apesar de acreditarmos que o Estado tende a

desapparecer pelas rasões que démos e ainda pelas legitimas deducções

sociologicas da doutrina lamarckiana da creação natural dos instinctos,

em virtude da qual o Estado perderá a sua rasão de ser apenas tenha

formado habitos, que, tornados hereditarios, sejam a base moral da

sociedade futura:--na theoria determinista e anthropologica, e pelo

sentimento profundo da evolução historica. É preciso contar com a

historia, a hereditariedade psychologica; o espirito social não é

evidentemente a _taboa rasa_ da velha psychologia materialista. A

evolução tem periodos revolucionarios; a _lucta pelo direito_ de Jhering

é a theoria do progresso sanguinolento das sociedades. Mas não podemos

como o anarchismo ou como o jacobinismo fazer do crime politico uma

metaphysica revolucionaria. Dissémo-nos communistas: devemos notar que a

unica theoria socialista de que saiu uma sociologia, foi uma doutrina

communista, a de Saint-Simon, cuja influencia na obra de Comte é conhecida.

É nitida a nossa posição. Libertos completamente das velhas doutrinas,

hereditariedade morbida muitas vezes secular do espirito collectivo,

affirmamos a necessidade de uma reconstrucção social completa. As velhas

theorias sociaes, que são senão as velhas tendencias inconscientes, a

que se quer dar um pretexto de que se faz pedantemente uma sociologia,

como o hypnotisado dá um pretexto pueril e julga da sua iniciativa

os actos suggeridos e que inconscientemente praticou?

É no partido republicano o logar dos novos, não vencidos por essa

_surménage_ mental da historia que caracterisa o momento, para quem a

sociologia não é apenas um libretto da _Portugueza_, que fazem uma

critica intellectual do que existe, e que deixam a velha critica

jacobina, uma parte de policia carregada.

É preciso que o partido republicano faça, porém, vigorosamente

affirmações socialistas e federalistas. Estas duas correntes poderosas

teem sido vehementemente representadas na propaganda republicana por

Magalhães Lima, contra aquelles, para quem a republica é toda a sciencia

social e um _ménagesinho patriotico_, e que fazem a sociologia pacata do

bom homem Ricardo.

A questão politica não é indifferente, contra o que alguns deduzem do

principio socialista de que as transformações politicas teem apenas

factores e destinos economicos. Os novos devem pois, collocar-se ao lado

dos republicanos, porque a solução politica immediata é a mesma.

Socialistas, achamo-nos reunidos aos orthodoxos, que piedosamente julgam

o socialismo uma metaphysica do roubo. Aproxima-nos uma especie de

_isomorphismo_, porque as nossas e as suas doutrinas crystalisam nas

mesmas formulas politicas.

Socialismo rasgado, não um socialismo que seja um dilettantismo da

Historia, e que corresponda á velha formula--_panem et circenses_,

politica internacional definida e sem hesitações, tem sido a

propaganda vehemente feita por Magalhães Lima, que assim abriu uma

nova phase na historia do partido republicano portuguez. Os novos podem,

pois entrar sem hesitações na vida nova do partido.»

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O Primeiro de Maio · 第 92 / 101 题