Bom ou máu, ahi fica um rapido esboço do actual movimento. Foi simples a
nossa missão. Desejando que todos vissem pelos proprios olhos e
palpassem pelas proprias mãos, limitámos-nos a fazer a historia do que é
e do que se passa. Historiámos; não criticámos; narrámos; não
commentámos. _Savoir pour prévoir, afin de pouvoir_--tal era a maxima de
Augusto Comte. _Saber para prevêr, afim de poder_--tal deve ser o
principio de todos os que, presentemente, se dedicam e consagram aos
estudos politicos e sociaes.
Não confundamos o ideal com a utopia. O ideal de hoje é a realidade de
ámanhã. O ideal,--disse muito bem Elie Réclus, não é senão o
desenvolvimento da realidade. A utopia não passa, muitas vezes, do
espirito ou do cerebro que a gerou. Mas não succede o mesmo com o ideal
que encontra sempre uma realisação pratica, no mundo. O socialismo é o
ideal do seculo XIX e será a realidade do seculo XX. Muitos governos
monarchicos começam já a aceitar-lhe as reivindicações e as
consequencias. Gladstone perfilhou, para o seu programma liberal, o
dia normal das 8 horas de trabalho e a responsabilidade nos accidentes.
É socialista o imperador da Allemanha e são socialistas todos os
governos da Europa. Comprehende-se. Fazendo concessões ao proletariado,
os reaccionarios e ultramontanos procuram defender-se da onda que os
ameaça, prolongando d'este modo a sua existencia, embora á custa de uma
especulação e de uma hypocrisia. Não acontece porém, o mesmo com os
partidos avançados. Esses teem de acompanhar o movimento, sob pena de se
suicidarem, não o fazendo. Ahi fica a advertencia. Quem tem olhos para
vêr, veja; quem tem ouvidos para ouvir, oiça.
N'este livro reproduzi, a largos traços, as minhas impressões sobre o
congresso operario de Zurich de 1893, desenvolvendo os assumptos ali
tratados, segundo o criterio das diversas escolas socialistas. Aos novos
me dirijo, porque só dos novos ha alguma cousa a esperar. Os velhos são
impenetraveis ás ideias modernas. Concorre, para isso, o egoismo e a
intransigencia da edade. Seria absurdo esperar qualquer cousa de
proficuo e de util de elementos gastos, cançados, e, em parte,
desacreditados. Já uma vez o disse e não cessarei de o repetir. O bom
senso publico não reconhece, em geral, senão dois partidos--o partido
dos que avançam e o partido dos que recúam. Deixemos recuar os que tudo
sacrificam ao seu interesse pessoal e á sua desmesurada ganancia;
deixemos recuar os timidos, os covardes e os impotentes; e avancemos
nós, unidos, fortes e disciplinados--unidos na acção, embora
divergentes na doutrina; fortes pelo sentimento do dever, e
disciplinados pela solidariedade das ideias e dos principios.
A festa do 1.º de de maio do corrente anno será uma nova affirmação da
força e da importancia do proletariado internacional.
Michelin, o illustre deputado socialista, apresentou ultimamente, na
camara franceza, o seguinte projecto de lei:
«O trabalho é a origem unica e legitima da riqueza. Nenhum producto póde
existir sem o trabalho, que é a condição essencial da liberdade e da
prosperidade do homem, e só, por meio d'elle, se póde assegurar o
progresso e moralisar a sociedade.
«Os trabalhadores tomaram a iniciativa da celebração de uma festa
annual, com o fim de honrar o trabalho. Peço por isso, á camara que
decrete, no sentido de considerar esta festa nacional.
Os poderes publicos, cuja missão consiste em dar satisfação ás
aspirações do povo, não podem senão associar-se a um sentimento tão
elevado, demonstrando assim o desejo sincero em que estão de examinar,
para as attender, as justas reivindicações dos trabalhadores que
constituem a immensa maioria do paiz.
«Por estas rasões, tenho a honra de submetter á camara o seguinte projecto:
Art.º unico--O 1.º de Maio é declarado o dia da festa nacional e annual
do trabalho.»
Michelin deseja, por este modo, consagrar o 1.º de Maio, assim como se
tem consagrado o 14 de julho que é o dia da festa da Republica. Perderia
a festa dos operarios, n'este caso, o seu caracter de resistencia, e
converter-se-hia n'uma celebração pacifica do trabalho. Nada mais nobre
e digno! Aos termos da proposta, associou-se enthusiaticamente o grande
poeta socialista, Clovis Hugues, embora outros divergissem por desejarem
conservar ao 1.º de Maio a sua feição, radical e revolucionaria, de
combate e de opposição ao existente.
De um ou de outro modo, a celebração do 1.º de Maio não deixará de
fazer-se.
Ha um problema a resolver. É a questão magna do seculo. Ou os governos o
resolvem, ou as sociedades terão de passar por um cataclismo terrivel.
É este o dilemma. E da solução do assumpto dependerá, no futuro, a
felicidade e o bem-estar dos povos!