Por _socialismo integral_ deve entender-se o socialismo encarado sob
todos os seus aspectos, em todos os seus elementos de formação, e com
todas as suas possiveis manifestações.
O sentimento não abdicará nunca, e será sempre o primeiro mobil dos
actos humanos--disse-o Claude Bernard na sua _Philosophia experimental_.
_Faz socialismo_ o sabio, o pensador, que, ao cabo das suas longas
investigações sobre a natureza das cousas, descobre o mysterio da
evolução universal.
_Faz socialismo_ o inventor, quando applica as forças productoras do
homem, favorecendo a multiplicação dos productos e diminuindo, ao mesmo
tempo, a duração e as agruras do trabalho.
_Faz socialismo_ o escriptor quando no livro, no drama ou no jornal, faz
a apotheose dos sentimentos de justiça para com os homens e de piedade
para com os animaes.
_Faz socialismo_ todo aquelle que combate pela liberdade.
_Faz socialismo_ o altruista que passa a sua existencia, fazendo o bem,
soccorrendo, consolando e fortalecendo os que soffrem e os que são
desventurados.
_Faz socialismo_ o poeta, quando canta o heroismo, a bravura, o
desinteresse e consagra as grandes e supremas virtudes civicas.
_Faz socialismo_ o professor, quando á orthodoxia das velhas formulas
inuteis, antepõe o sagrado ideal de emancipação humana, prégando-o e
ensinando-o aos seus discipulos.
Emfim, o socialismo já não é apenas uma doutrina abstracta. O socialismo
faz-se e pratica-se por toda a parte: por sentimento uns, por convicção
muitos, por raciocinio outros e por necessidade todos. E d'ahi a grande
variedade de escolas e um sem numero de theorias e de programmas.
Mas, em nosso juizo, é o socialismo professoral ou cathedratico aquelle
que mais tem concorrido para o desenvolvimento da ideia emancipadora, no
seio das sociedades modernas. E entre os principaes apostolos da escola,
seria erro imperdoavel esquecer os professores belgas que tão grande
relevo teem sabido dar ás doutrinas socialistas. Não fallando já no
fallecido Emile de Laveleye, o mais celebre dos economistas
contemporaneos e auctor de um livro que se tornou classico--_Da
propriedade e das suas fórmas primitivas_, cumpre-nos mencionar aqui
Hector Denis, Guilherme de Greef, o sabio auctor da _Introducção à
sociologia_, e Emile de Vanderwelde que, sendo advogado, pertence,
todavia, a esse glorioso grupo.
A Universidade livre de Bruxellas conta, no seu seio, dois
socialistas--Hector Denis e Guilherme de Greef, e um anarchista--Elisée
Reclus.
[Gravura: Emile de Vanderwelde]
Estão ainda na memoria de todos os recentes acontecimentos, que se
originaram pela suspensão official do curso de Elisée Reclus. Os
estudantes tomaram uma parte activa no assumpto. Hector Denis, o reitor
da Universidade, demittiu-se, e Guilherme de Greef interveiu a favor dos
que protestavam contra a intervenção dos poderes publicos. O governo
viu-se obrigado a reconsiderar, e o socialismo sahiu mais uma vez
triumphante da lucta.
Na campanha figurou tambem Emile de Vanderwelde, antigo alumno da
Universidade, um nobre e generoso espirito e auctor de um bello estudo
sobre _os parasitas organicos e os parasitas sociaes_.
Emile de Vanderwelde exerce, sobretudo, uma acção espiritual sobre o
socialismo belga. A sua influencia é enorme, e o seu prestigio cresce e
augmenta de dia para dia.
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Entre os socialistas cathedraticos, ha uma escola moderada que aspira á
implantação da theoria socialista por uma transformação gradual e lenta
da sociedade actual. Assim, são alguns de opinião que, para se chegar á
completa abolição da propriedade, se deverá principiar pela abolição da
grande propriedade que estabelece um desequilibrio economico no mundo,
concentrando e monopolisando nas mãos de alguns os capitaes e os
recursos que deveriam estar nas mãos de todos. Outros fazem distincção
entre a propriedade industrial e a propriedade agricola, reclamando a
suppressão da primeira e conservando a segunda, visto mediar uma enorme
distancia entre o industrialismo e a agricultura.
Succede o mesmo com relação á grande e á pequena industria e com relação
ás heranças. N'este ponto divergem tambem muitos socialistas, querendo
uns a extincção total das heranças, além de uma certa quantia e
revertendo o excedente para o fundo da educação nacional, contentando-se
outros apenas, com a sua extincção immediata em linha collateral.
Como quer que seja, ha um ponto fundamental em que todos estão de
accôrdo--a negação do existente. É indispensavel pois, destruir o que
está para o substituir. E a reconstrucção social será tanto mais facil,
quanto maior fôr o numero de ideias emittidas. Da variedade de
theorias é que hade resultar a unidade do conjuncto. E a lucta travada
entre o capitalismo e o proletariado ainda mais apressará e favorecerá a
solução do problema.
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