A ALLEMANHA, A BELGICA E A INGLATERRA

Os paizes onde o socialismo está hoje, incontestavelmente, mais bem

organisado e desenvolvido, são a Allemanha e a Belgica. Na França

dividem-se e subdividem-se os grupos, chocam-se as personalidades, e os

odios e as desintelligencias evidenceiam-se a cado passo. Na Inglaterra,

apesar dos progressos realisados, n'estes ultimos tempos, principalmente

pela adhesão das _Trades--Unions_, ainda o socialismo não representa o

que póde chamar-se um partido politico.

Na Allemanha, os mesmos pruridos militaristas que se observam nas altas

regiões, reflectem-se, com maior ou menor intensidade, no partido

socialista. Nota-se, principalmente, este facto nos congressos, onde, a

um simples aceno do deputado Singer, todos os delegados approvam ou

reprovam, consoante as instrucções de ante-mão estabelecidas. A mesma

disciplina do exercito estende-se aos partidos e aos agrupamentos

politicos. E ai! d'aquelle que se desviar destas normas: corre o risco

de ser expulso, sem mais appêlo nem aggravo.

O partido socialista está pois, organisado, na Allemanha, como um

verdadeiro partido politico, um partido de governo, poderiamos, talvez,

dizer, com uma caixa de resistencia, os seus jornaes, as suas

associações e os seus milhares de filiados, em todas as cidades, em

todas as villas e em todas as aldeias do vasto imperio. Todos, sem

excepção, são obrigados a concorrer para as despesas do partido, e,

n'este facto, reside a base do direito de cada um, como partidario ou

membro da associação. Não se concebe um partido, sem os recursos

indispensaveis, para fazer face ás eventualidades de momento e para

combater o adversario, com vantagem. Os allemães sabem isto, e eis ahi

está o motivo porque o numero dos partidarios do socialismo sobe de dia

para dia na Allemanha, e por que os socialistas contam, presentemente,

com quarenta e sete deputados no _Reichstag_, tendo augmentado, a

representação partidaria, nas ultimas eleições.

[Gravura: Liebknecht]

Liebknecht, um dos chefes consagrados pela opinião, e o director do

_Vorwöerths_, o orgão do partido na imprensa, tem ácerca da politica a

mesma opinião que poderia ter, em campanha, um general ácerca da guerra.

Deante do inimigo, o dever é unir fileiras; e, todo aquelle que

abandonar ou se arredar do seu posto, tem de ser considerado como

desertor. E aqui está o motivo porque, no partido operario socialista

allemão, nem se admittem os dissidentes nem os independentes. Todos por

um e um por todos!--eis a maxima dos chefes. E n'este simples facto,

muito digno aliás de ser imitado, por todos os partidos avançados, está

a origem da força, do desenvolvimento e dos progressos do socialismo na

Allemanha.

Na Belgica acabam os socialistas de alcançar um enorme triumpho, pela

conquista do suffragio universal que até aqui não possuiam. O belga é

homem essencialmente pratico. O partido socialista, tendo reconhecido a

necessidade de organisar as suas forças, estabeleceu as grandes

cooperativas de consumo, principalmente de pão e de carvão, e logrou

attrahir a si o elemento trabalhador, disciplinando-o, pelo interesse, e

pela conveniencia, que da associação economica poderia advir á sua

futura existencia. E as cooperativas belgas tornaram-se assim, não só

valiosos elementos de cooperação, senão poderosas e temiveis armas de

combate, pois que, dos lucros a destribuir, ficam sempre em caixa uns

tantos por cento, para as despesas da propaganda. Não raro tem succedido

fazerem as cooperativas face a uma _gréve_, distribuindo, diariamente,

aos grevistas, alguns milhares de pães.

Não póde contestar-se o enorme progresso, feito pelo socialismo em

França que acaba de eleger quarenta e nove deputados, tendo,

principalmente, alcançado, em Paris, um assignalado triumpho. Mas é para

lastimar que não seja completa a união entre os differentes grupos

que representam as ideias socialistas. A franca adhesão de René Goblet,

A. Millerand, J. Jaurés, Camille Pelletan e outros notaveis politicos e

publicistas, deu ao partido um grande e decisivo impulso, e creou-lhe,

na camara, uma situação politica innegavel.

A _Petite Republique Française_ é hoje, na imprensa, o orgão do novo

grupo. O seu redactor principal--A. Millerand--é um escriptor de raça e

um dos mais brilhantes e eloquentes oradores da camara franceza. O

programma por elle exposto na sessão de 16 de fevereiro de 1893, foi

adoptado por quasi todos os candidatos socialistas, nas ultimas

eleições: «Revisão democratica da Constituição de 1875; modificação

radical e profunda, no interesse dos trabalhadores dos campos e das

cidades, da nossa legislação economica e do nosso systema de imposto;

acquisição para o Estado do Banco de França, das minas e dos caminhos de

ferro, arrancando-os das mãos da alta finança.»

O primeiro acto politico de Millerand, foi a defesa dos mineiros de

Monceau les Mines, em 1882. Desde então, nunca mais houve gréve em

França, em que elle não tenha posto o seu talento e as suas grandes

faculdades de orador ao serviço das victimas dos patrões gananciosos e

usurarios. E assim o vêmos na brecha, defendendo successivamente os

mineiros de Decazeville, os grevistas de Vierzon, e os mineiros de

Carmaux que o haviam escolhido como arbitro.

Foi elle o defensor de Duc-Quercy e Roche, em Villefranche, de Lafargue

e Culine, perseguido por causa dos fusilamentos de Fourmies, de

Baudin, em Bourges, e de muitos outros.

[Gravura: Millerand]

Adversario implacavel da alta finança, Millerand pronunciou, contra a

renovação do privilegio do Banco de França, um dos seus mais bellos

discursos, «atacando essa realeza do ouro que trata de egual para egual

com a Republica, e que, mercê da fraqueza e da cumplicidade dos regimens

anteriores, chegou á situação em que actualmente se encontra.»

E, melhor que todas as periphrases, uma citação poderá dar-nos uma ideia

da sua eloquencia. A peroração do seu discurso, relativo ao privilegio

do Banco de França, em que convida a burguezia a unir-se ao movimento de

transformação universal que se opera no mundo economico, é notabilissima:

«A massa dos trabalhadores, libertada por tres revoluções, poz-se a

caminho; quer que o suffragio universal tenha por complemento necessario

o bem estar universal. Pensa que ha contradicção em que um povo

seja, ao mesmo tempo, miseravel e soberano.

«A nação quer entrar na posse e no gozo de instituições, que até hoje

teem sido exploradas, apenas em proveito de um pequeno numero de

favorecidos. Vós não retardareis, nem a sua marcha, nem as suas

conquistas. É mister saber fazer a tempo os sacrificios necessarios.

«Responder-me-hão, talvez, os defensores do privilegio, que o

sacrificio, que lhes pedimos poderá sahir caro ao paiz. Assim o pensam,

estou convencido. Não ponho em duvida nem a sua sinceridade nem a sua

boa fé. A illusão não é nova. É velha como a humanidade...

«Assim como outr'ora succedeu com a nobreza, a burguezia invoca os

serviços já prestados, e os que, por ventura, ainda poderá prestar. Não

nego os seus serviços. É, sem duvida, bella e grande a parte que, ha cem

annos, tem tomado no desenvolvimento do commercio e da industria e no

aperfeiçoamento das sciencias. Se pretende invocar os seus serviços,

como outros tantos titulos ao reconhecimento publico, está no seu papel

e no seu direito. Mas se pensa poder abusar da sua antiga supremacia,

para manter, na sombra e no esquecimento, a multidão dos desherdados

que, por sua vez, pedem lhes seja reconhecido o direito que teem á luz,

á acção, ao desenvolvimento integral da sua personalidade; a

participação, n'uma palavra, á vida e á felicidade; n'esse caso, está

irremediavelmente perdida. Eu quereria apenas que a sua teimosia e a sua

obstinada resistencia não custassem muito caro ao paiz.

«O progresso é cego, ingrato e brutal: os interesses particulares valem

pouco deante d'elle. N'esta grave questão do credito, como em todas as

outras, o que devemos fazer é aplanar-lhe o caminho, facilitando a sua

marcha, e poupando assim ao paiz de que somos servidores algumas d'essas

luctas violentas, d'essas convulsões dolorosas, d'essas supremas crises

de sangue e de lagrimas, que até aqui teem assignalado cada uma das

_étapes_, cada um dos progressos da historia e da evolução humana.»

A _Petite République_, collaborada por alguns dos principaes socialistas

francezes, entre os quaes convêm assignalar René Goblet, Jules Guesde,

Marcel Sembat, J. Jaurés, Ed. Vaillant, Eugène Fournière, Hovelacque, E.

Baudin, Gustave Rouanet, Dumas, Pierre Baudin, René Viviani, Clovis

Hugues, Paul Lafargue, Camelinat, Duc-Quercy, Gérault-Richard, Madame

Paule Mink, etc., é, por sem duvida, o grande reducto do socialismo

parisiense, e em volta d'elle, teem os adversarios e conservadores de

todas as côres e matizes estabelecido um verdadeiro estado de sitio,

atacando-o, formulando accusações e inventando calumnias, que não servem

para outra cousa senão para exaltar ainda mais a ideia, se é possivel,

elevando e glorificando aquelles que a defendem.

Tambem o socialismo agrario se tem desenvolvido, em França, de uma

maneira espantosa. Acaba de o provar o ultimo congresso dos socialistas

agrarios, realisado em Auxerre, em que tomaram parte quasi todos os

deputados do partido operario socialista. A maior parte dos

congressistas estavam de blusa de trabalho e de tamancos, com as

mãos calejadas da enxada.

[Gravura: Thivrier]

Os socialistas agrarios francezes possuem hoje mais de 150 secções,

organisadas no Este e no Norte. O deputado Thivrier representa na camara

o elemento socialista da população rural do Allier.

Thivrier assiste de blusa azul ás sessões parlamentares. Fóra do

parlamento tambem a não despe nunca. Conheci-o no _Coq d'Or_ da rua

Montmartre. Apresentou-m'o Cipriani. O _Coq d'Or_ é o _rendez-vous_ de

todos os socialistas militantes. Pelas 6 horas da tarde, são certos,

n'aquella cervejaria, Eugene Fournière, Gustave Rouanet, Gérault

Richard, Camélinat, Baudin, Degay e muitos outros.

Thivrier é dotado de caracter energico; homem de poucas palavras, mas

firme e resoluto; e isso explica a attitude por elle tomada na camara

franceza, por occasião da sua expulsão.

O camponez é, em geral, refractario á propaganda socialista. Os

socialistas da cidade variam inteiramente de processo, quando se trata

da população rural. A propaganda, em vez de ser humanitaria,

transforma-se em socialismo pessoal, baseado no communismo

liberatorio--a união dos pequenos proprietarios e caseiros communaes, em

opposição aos syndicatos patronaes e aos grandes agricultores.

[Gravura: John Burns]

O congresso de Auxerre elaborou já o programma das reivindicações dos

socialistas agrarios.

Na Gran-Bretanha e Irlanda, o movimento socialista tem feito grandes

progressos. Pela primeira vez, foram nomeados para assistir a um

congresso, em Zurich, os membros do parlamento, como delegados de

organisações operarias.

Coube a John Burns, o heroe de 1887, e o eloquentissimo deputado de

hoje, essa suprema honra e essa suprema gloria.

Os trabalhadores agricolas começam tambem a despertar n'aquelle paiz, e

o partido operario acaba de se constituir, como partido independente,

sem ligações com os antigos partidos, o que demonstra evidentemente que

o movimento socialista tem ali augmentado em poder e extensão.

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O Primeiro de Maio · 第 21 / 101 题