O partido socialista italiano divide-se em duas grandes escolas: a
escola evolucionista e a escola revolucionaria. A primeira tem recrutado
os seus numerosos adherentes na alta Italia e na Italia central, ao
passo que a segunda tem recrutado especialmente os seus adherentes na
Italia meridional.
Mas, áparte a questão de methodo, as duas escolas caminham
conjunctamente, tornando-se muitas vezes difficil delimitar os dois campos.
Os evolucionistas consideram a revolução como uma fórma violenta da
evolução, e pensam que, sem haver necessidade de a provocar, a revolução
ha de produzir-se violentamente no dia em que todos os trabalhadores
tiverem adherido ao socialismo.
Os revolucionarios, admittindo as grandes vantagens que resultam de um
paciente e demorado trabalho de preparação, sustentam que o operario
italiano é já bastante socialista, para que seja necessario ainda
esperar. Segundo a opinião d'estes ultimos, uma longa espera poderia
levar os trabalhadores a duvidarem do triumpho da sua causa.
Á organisação dos _fasci dei lavoratori_ se deve o enorme
desenvolvimento que ultimamente tem adquirido o movimento socialista na
Italia.
Os _fasci_ (fachos) são associações operarias, tendo por base a
cooperação e por fim o triumpho do collectivismo, segundo as theorias de
Karl Marx. As mulheres tambem são admittidas.
O primeiro _fascio_ foi fundado em Catanea, ao sopé de Etna, no dia 1.º
de maio de 1890. Em menos de quatro annos, fundaram-se na Sicilia mais
160 _fasci_. O numero de adherentes subia, ainda ha poucos mezes, a
300:000, na sua maioria agricultores.
O sr. Giolliti, então presidente de conselho, principiou a preoccupar-se
seriamente com o movimento socialista dos _fasci_, e, num intuito de
repressão, mandou á Sicilia o commandante Sensales, senador, com o fim
de dissolver aquellas associações.
Sensales estudou, inquiriu, investigou, e nada encontrou que podesse
servir de pretexto a uma dissolução; o que não impediu o ministro de
encher a Sicilia de soldados, obrigando as auctoridades a uma repressão
rigorosa e até sangrenta, se tanto fosse necessario. O massacre de
Giardinello foi o resultado d'estas ordens.
Mas as medidas de rigor, empregadas pelos emissarios do governo, não
serviram senão para augmentar a popularidade dos _fasci_, já então muito
grande, chamando para elles as attenções de toda a Italia. Os seus
fundadores aproveitaram as circumstancias, para crear novas secções e
recrutar alguns milhares de novos adherentes, de modo que o numero dos
associados dos _fasci_, pode hoje bem avaliar-se em 400:000. Em pouco
tempo será de meio milhão.
Os _fasci_ passaram da Sicilia para o continente, onde a sua organisação
avança rapidamente, e em especial na Calabria, nos Abruzzos, na
Ponille e na Romagna. Em Roma e Napoles, tambem foram fundadas muitas
secções dos _fasci_.
A propaganda pelo facto é repellida pelos socialistas italianos, que
nada esperam da dynamite. O partido socialista italiano não é
terrorista, mas _pacificamente revolucionario_, na phrase consagrada.
Semelhantemente ao que succede na Irlanda, o socialismo agrario, tem
tomado, na Italia, um incremento espantoso, n'estes ultimos tempos. Os
governos são impotentes para o debellar. Não basta só mandar fusilar o
povo faminto que se revolta nas ruas e nas praças publicas, como succede
na Sicilia. Emquanto as causas do mal subsistirem, os effeitos hão de
continuar a dar-se, fatal e irremediavelmente. O que importa pois, na
Italia, é conjurar a crise economica e financeira que a levaram á ruina,
e d'isso não serão capazes os governos monarchicos. Por isso o partido
socialista, que já hoje constitue um partido forte e invencivel, ha de
ir augmentando de dia para dia, até ao momento do seu triumpho. As
adhesões a estas idéas emancipadoras, chegam a cada passo e de todos os
pontos do paiz. O grande escriptor Edmundo de Amicis converteu-se ao
socialismo, e é hoje uma das suas figuras mais salientes. Collajani, o
celebre deputado que levantou no parlamento a questão dos bancos, é
tambem socialista. Collajani é o temivel adversario de Lombroso. Combate
o atavismo, e sustenta, com os positivistas modernos, que o individuo
não é senão um producto do seu meio. Giuseppe Felice, o deputado
siciliano, que foi preso por occasião dos acontecimentos da Sicilia,
é uma das mais nobres e sympathicas personalidades do movimento agrario,
e é muito considerado entre os seus concidadãos. O mesmo com Claudio
Treves, um moço de raro e excepcional talento, e tantos outros que seria
longo enumerar aqui.
Para mostrar quanto o socialismo agrario tem uma rasão de ser na Italia,
basta que façamos um pequeno estudo sobre os impostos n'aquelle paiz.
«Vejamos o que paga uma familia operaria na Romagna. O chefe da familia
ganhou, durante o anno, 586 liras e 72 centimos. Comprou 7 hectolitros
de trigo. Mas esse cereal paga o direito de 5 francos por kilo. Segue-se
pois, que de imposto para o Estado e para lucro dos que vivem á sombra
da protecção aduaneira, o operario foi logo espoliado em perto de 26
francos.
«Comprou tambem 7 hectolitros de milho, e sobre essa compra teve de
pagar 6 francos de imposto.
«Pelo vinho nada pagou, porque apenas bebeu agua. Compra, por semana, um
litro de sal para sua casa. Com esse consumo lucrou o governo, no fim do
anno, 15 francos e 60 centimos. Pela sua illuminação, gasta, cada
semana, em sua casa, 20 centimos com petroleo. No fim do anno somma esta
despesa 10 francos e 40 centimos. Só á sua parte, embolsa o governo 7
francos e 10 centimos.
«Vivendo mais que modestamente, a familia, em todo o anno, gastou em
fato 15 francos e 25 centimos. Em impostos, exigem-lhe cêrca de 3
francos. De modo que só n'estas verbas, o contribuinte concorreu para o
Estado com 10 por cento do seu ganho.
«Junte-se a tudo isto os impostos directos, os impostos supplementares
de consumo e outros que ha em muitas communas da Italia, e ver-se-ha a
rasão que assiste ao desgraçado que, trabalhando mais do que póde, deixa
nas garras do fisco quasi todo o resultado do seu labor.
[Gravura: De Felice]
«A miseria é tanta e tamanha, que, nas pequenas communas da Sicilia, o
povo apenas póde comer pão ordinarissimo, fabricado com farelos. E, nas
ricas e uberrimas planicies da Lombardia, as classes trabalhadoras
tambem não teem para se alimentar mais que a _polenta_, uma especie de
massa de farinha de milho, havendo muitos que, por extrema pobresa, nem
sequer podem temperar com sal essa miseravel comida.»
Ora foi precisamente contra este triste estado de cousas, que o
sympathico e honrado deputado siciliano de Felice levantou o grito de
revolta que logo se repercutiu em todo o paiz, com a rapidez de um
relampago.
De Felice Jiuffrida nasceu em Catanea, no anno de 1860.
Socialista convicto, havia-se assignalado na imprensa, pelos seus rudes
ataques contra a monarchia, o que lhe valeu varias condemnações. Em
1887, durante a epidemia cholerica, que dizimava o sul da Italia,
deu provas de grande dedicação e de altissimo valor. O governo quiz
distinguil-o com a medalha de ouro; mas elle recusou a distincção,
dizendo, «que da monarchia só acceitava a perseguição.»
Algum tempo depois, tendo sido condemnado a dois annos de prisão, por
abuso de liberdade de imprensa, refugiou-se em Malta, d'onde regressou,
em 1892, eleito, ao mesmo tempo, por Catanea e por Palermo.
Foi, em virtude da parte activa e intelligentissima que tomou na
organisação dos _Fasci_, especialmente na Calabria e na Romagna, que o
governo ordenou a sua prisão.
Foram dissolvidos os _Fasci_, sob protexto de attentarem contra as
instituições; mas não morreram as idéas e os principios por elles
representados. Ao contrario, avigoraram-se na lucta. De Felice foi o
glorioso interprete da opinião popular. A consciencia publica estava com
elle e applaudiu-o. Isto basta, para que seja immorredoura a sua obra e
seja glorificado o seu nome, que é o nome de um bravo e o nome de um heróe!
No congresso operario de Bruxellas, em 1891, nem a Italia nem a Suissa
poderam apresentar relatorio: tão escassas eram as forças socialistas
n'aquelles dois paizes. Em dois annos os progressos realisados por elles
são superiores a toda a expectativa e de molde a surprehender todos os
espiritos.
Na Suissa todas as organisações profissionaes se constituiram em
federação. A _federação dos syndicatos profissionaes_ tem progredido
de dia para dia, possuindo uma receita de 28.000 francos, dos quaes
15.800 são reservados a soccorros, em casos de _gréve_. É de cêrca de
15.000 o numero de associados. A _federação operaria suissa_ conta
200.000 adherentes. A sociedade suissa do _Grütli_ comprehende 350
secções, com 15.000 societarios, possuindo um orgão central, o _Grütli_,
que se publica tres vezes por semana.
A estas organisações, convêm ajuntar o _partido democratico socialista
suisso_ que existe, na sua fórma actual, desde 1888, possuindo, em
commum, com a federação dos syndicatos profissionaes um orgão
especial--o _Arbeiterstimme_ (a _Voz do operario_).
No conselho nacional suisso, não contam os socialistas senão um
representante. Mas é certo que o movimento se alastra por todo o paiz, a
passos de gigante. Particularmente, são para registar os progressos
realisados pelo partido na Suissa allemã.
Em Hespanha, o partido socialista contava cêrca de 30 grupos, por
occasião do congresso internacional de Bruxellas; segundo o relatorio,
apresentado ao congresso de Zurich, o partido conta hoje 50, dos quaes 6
pertencem aos trabalhadores agricolas.
Nas ultimas eleições geraes para deputados, obtiveram os socialistas
7:000 votos--2:000 a mais do que os obtidos nas eleições de 1890.
Na Hespanha,--e é este o principal facto a notar--o movimento
socialista, que, não ha muito ainda, comprehendia quasi exclusivamente
os trabalhadores manuaes, tem ganho, pouco a pouco, o professorado,
os jornalistas e os homens de letras; e hoje, pode-se dizer afoitamente
que o socialismo cathedratico está, no visinho paiz, á altura d'aquelles
que, como a Belgica e a França, mais se vangloriam com o progredimento
das novas ideias nas escolas e nas universidades.
Em Portugal continuam os socialistas, n'uma propaganda activa e
utilissima, prégando as vantagens e os beneficios do principio da
associação de classe, reclamando dos poderes publicos leis protectoras
do trabalho, reunindo congressos, publicando jornaes e obras de
propaganda, e tornando-se em tudo dignos dos esforços dos seus irmãos e
camaradas no estrangeiro. O modo firme, serio e correcto por que os
socialistas portuguezes celebraram o primeiro de Maio, no proximo
preterito anno de 1893, bastaria para lhes attrahir as sympathias do
publico, se outros factos os não tivessem já recommendado ao suffragio
popular.