CAPITULO LXXVII

_Como o Regente por meio do conde de Barcellos procurou de se concordar

com a Rainha D. Lianor, e das cousas por que ella n„o quiz_

O Infante D. Pedro de se assi concordar com o conde de Barcellos mostrou

que recebia prazer e descanso, crendo que para tranquillidade do reino

que procurava, tinha a mais aspera difficuldade passada. E para temperar

e vencer a outra da Rainha que sobre tudo desejava, ante de partir de

Lamego fallou com o conde seu irm„o, e lhe pediu que para ambos se

concordarem, como sempre desejara, quizesse entre a Rainha e elle ser

medeaneiro; porque elle tinha raz„o de n'isso a servir, e ella de o

querer.

Mostrou o conde que d'isso lhe prazia muito, e enviou logo a ella que

era j· em Madagal, Alvaro Pirez de Tavora, de que muito fiava,

encommendando-lhe muito com razıes e causas mui evidentes o concerto da

Rainha com o Infante, e assi sua desculpa pela n„o servir na fÛrma que

com ella tinha assentado.

A Rainha n„o ouviu esta embaixada com boa vontade, nem a acceitou como

se confiava. Assi por haver j· por suspeito o conde, pela concordia

feita entre elle e o Regente, em que Alvaro Pirez tambem entrara; como

porque lhe parecia, segundo os Infantes seus irm„os estavam ent„o

apoderados de Castella e Arag„o e Navarra, que com as gentes e poder

d'estes reinos apremariam e guerreariam o Regente por maneira que de

necessidade lhe conviesse leixar a ella livremente o Regimento, como

requeria e desejava. E este esforÁo e presunÁ„o tomava ella porque

n'este tempo os Infantes seus irm„os e o Principe D. Anrique, com odio

que tinham ao conde e Condestabre se concordaram e cercaram El-Rei em

Medina del Campo, e o entraram por forÁa, e recolheram sua pessoa

d'El-Rei a seu poder, e lanÁaram fÛra fugidos e destroÁados o

Condestabre e o Mestre d'Alcantara, e outros que eram dentro em ajuda e

defens„o d'El-Rei. E n'esta sombra de prosperidade em que a Rainha via

seus irm„os em Castella, tomou tanta confianÁa para seu recurso, que n„o

quiz haver por bom nenhum meio que de Portugal sem o Regimento e criaÁ„o

d'El-Rei lhe fosse cometido. Antes para mais apressar sua destruiÁ„o e

proveza, foi como n„o devia aconselhada, que para em seu caso obrigar

mais seus irm„os, quando os fosse vÍr devia levar e dar-lhe para sua

ajuda alguma gente d'armas, de que em suas revoltas tinham a necessidade

que sabiam, o que · Rainha pareceu bem, e para prover aos seus e a

outros que para isso tomou, de cavallo armas e soldo, vendeu e apenhou a

mÛr parte de quanta prata e joias tinha. E camanho erro n'isso fez, ella

em suas minguas sem longa tardanÁa o sentiu, porque finalmente o amparo

e soccorro que em suas fadigas houve de seus irm„os, com quanto eram

tamanhos Senhores, se tornou sÛmente em fortunas dobradas, e claros

enganos em que a trouxeram, e com que acabaram de lhe levar todo o que

para repairo seu e dos seus lhe ficava.

Chronica de El-Rei D. Affonso V (Vol. I) · 第 100 / 103 题