_Como o Regente por meio do conde de Barcellos procurou de se concordar
com a Rainha D. Lianor, e das cousas por que ella n„o quiz_
O Infante D. Pedro de se assi concordar com o conde de Barcellos mostrou
que recebia prazer e descanso, crendo que para tranquillidade do reino
que procurava, tinha a mais aspera difficuldade passada. E para temperar
e vencer a outra da Rainha que sobre tudo desejava, ante de partir de
Lamego fallou com o conde seu irm„o, e lhe pediu que para ambos se
concordarem, como sempre desejara, quizesse entre a Rainha e elle ser
medeaneiro; porque elle tinha raz„o de n'isso a servir, e ella de o
querer.
Mostrou o conde que d'isso lhe prazia muito, e enviou logo a ella que
era j· em Madagal, Alvaro Pirez de Tavora, de que muito fiava,
encommendando-lhe muito com razıes e causas mui evidentes o concerto da
Rainha com o Infante, e assi sua desculpa pela n„o servir na fÛrma que
com ella tinha assentado.
A Rainha n„o ouviu esta embaixada com boa vontade, nem a acceitou como
se confiava. Assi por haver j· por suspeito o conde, pela concordia
feita entre elle e o Regente, em que Alvaro Pirez tambem entrara; como
porque lhe parecia, segundo os Infantes seus irm„os estavam ent„o
apoderados de Castella e Arag„o e Navarra, que com as gentes e poder
d'estes reinos apremariam e guerreariam o Regente por maneira que de
necessidade lhe conviesse leixar a ella livremente o Regimento, como
requeria e desejava. E este esforÁo e presunÁ„o tomava ella porque
n'este tempo os Infantes seus irm„os e o Principe D. Anrique, com odio
que tinham ao conde e Condestabre se concordaram e cercaram El-Rei em
Medina del Campo, e o entraram por forÁa, e recolheram sua pessoa
d'El-Rei a seu poder, e lanÁaram fÛra fugidos e destroÁados o
Condestabre e o Mestre d'Alcantara, e outros que eram dentro em ajuda e
defens„o d'El-Rei. E n'esta sombra de prosperidade em que a Rainha via
seus irm„os em Castella, tomou tanta confianÁa para seu recurso, que n„o
quiz haver por bom nenhum meio que de Portugal sem o Regimento e criaÁ„o
d'El-Rei lhe fosse cometido. Antes para mais apressar sua destruiÁ„o e
proveza, foi como n„o devia aconselhada, que para em seu caso obrigar
mais seus irm„os, quando os fosse vÍr devia levar e dar-lhe para sua
ajuda alguma gente d'armas, de que em suas revoltas tinham a necessidade
que sabiam, o que · Rainha pareceu bem, e para prover aos seus e a
outros que para isso tomou, de cavallo armas e soldo, vendeu e apenhou a
mÛr parte de quanta prata e joias tinha. E camanho erro n'isso fez, ella
em suas minguas sem longa tardanÁa o sentiu, porque finalmente o amparo
e soccorro que em suas fadigas houve de seus irm„os, com quanto eram
tamanhos Senhores, se tornou sÛmente em fortunas dobradas, e claros
enganos em que a trouxeram, e com que acabaram de lhe levar todo o que
para repairo seu e dos seus lhe ficava.