_Como a Rainha D. Lianor se foi · cÙrte d'El-Rei de Castella, e das
embaixadas que vieram a Portugal_
A Rainha n'esta enganosa confianÁa de sua certa restituiÁ„o se foi ·
cÙrte d'El-Rei de Castella, a que os Infantes d'Arag„o ent„o governavam
de todo; dos quaes logo em sua chegada foi com muita honra e acatamento
recebida e agasalhada. Onde depois de em pessoa recontar suas querellas
e aggravos, com mais graveza por ventura do que foram em effeito, El-Rei
por satisfazer a ella e cumprir a vontade dos Infantes, enviou ao
Infante D. Pedro uma e muitas vezes mui continuas embaixadas, umas
brandas e outras com aspereza, umas mostrando desejar paz, e outras mais
desafiando guerra, apontando sempre taes meios em favor e contentamento
da Rainha, que a sem raz„o e o desserviÁo d'El-Rei de Portugal e o dano
do seu reino, que claramente comsigo traziam, conselhavam que se n„o
acceitassem; especialmente porque em todos se requeria que a criaÁ„o
d'El-Rei e do Principe seu irm„o e irm„s fosse · desposiÁ„o da Rainha,
ou ao menos em poder de dois cavalleiros, quaes a ella prouvesse, que
fossem de todo isentos da juridiÁ„o e mandado do Infante, o que o reino
todo por causas mui evidentes e necessarias sempre contrariou, e muito
mais o Regente, que mostrava haver por singular bem-aventuranÁa e grande
repouso para si e para seus filhos o amor d'El-Rei, de que tinha certa
esperanÁa, pois com tanto amor e perfeiÁ„o o criava, e de que seria
desesperado se fÛra de seu poder, e com seu odio e de muitos outros o
criassem.
E porÈm sempre lhe prouve, e assi o respondia, que · Rainha tornando-se
a estes reinos fossem inteiramente dadas todalas terras e renda que
n'elles tinha, com a criaÁ„o de seus filhos livremente. Ainda que em
umas cÙrtes que n'este anno de mil e quatrocentos e quarenta e dois em
Evora se fizeram, foi por todolos tres estados requerido e concordado
que a Rainha devia por direito ser de todo privada, e que principalmente
n„o devia vir a estes Reinos, assi pela gente estrangeira que como imiga
n'elles metera e os guerreara, como pelos grandes trabalhos e muitas
despezas que com receio de guerra tinham por sua causa padecido, em
especial se houve por mui perigoso inconveniente o odio e m· vontade que
aos principaes do reino j· tinha, de que se esperava ella com El-Rei seu
filho procurar sempre destruiÁıes e cruas vinganÁas, que a muita
lealdade de seus vassallos lhe n„o mereciam.
Os Infantes d'Arag„o confiados no mando da governanÁa de Castella que
possuiam, havendo por seu abatimento n„o se fazerem os feitos da Rainha
sua irm„ · sua vontade, enviaram ao Regente que era em Santarem outra
embaixada, que elles fingiam ser j· derradeira, em que vieram por
embaixadores um Gomez de Benavides, e outro Affonso Fernandes de
Ledesma, doutor em leis, e pessoas de grande estima e auctoridade em
Castella; estes em seus apontamentos seguiram os passados dos outros.
Trazendo logo comsigo arautos e trombetas, como officiaes de desafio
real, para que se ·s cousas tocantes · Rainha n„o respondessem conformes
a seu requerimento, que solemnemente desafiassem logo a guerra de reino
a reino. A qual publicavam mui soltamente, crendo que com medo d'ella
este reino ·cerca do Regimento se mudara de seu primeiro proposito.
E estando estes embaixadores ainda por responder, veiu com uma carta da
m„o d'El-Rei para o Regente, um Custodio, da Ordem de S. Francisco de
Castella, e com o trellado d'ella aos embaixadores, em que
sustancialmente affirmava o que elles mesmos j· requereram. Apontando as
cousas porque devia com ras„o favorecer e ajudar a Rainha. E que por
ellas sem quebrantamento das pazes podia a estes reinos justamente fazer
guerra.