CAPITULO LXXVIII

_Como a Rainha D. Lianor se foi · cÙrte d'El-Rei de Castella, e das

embaixadas que vieram a Portugal_

A Rainha n'esta enganosa confianÁa de sua certa restituiÁ„o se foi ·

cÙrte d'El-Rei de Castella, a que os Infantes d'Arag„o ent„o governavam

de todo; dos quaes logo em sua chegada foi com muita honra e acatamento

recebida e agasalhada. Onde depois de em pessoa recontar suas querellas

e aggravos, com mais graveza por ventura do que foram em effeito, El-Rei

por satisfazer a ella e cumprir a vontade dos Infantes, enviou ao

Infante D. Pedro uma e muitas vezes mui continuas embaixadas, umas

brandas e outras com aspereza, umas mostrando desejar paz, e outras mais

desafiando guerra, apontando sempre taes meios em favor e contentamento

da Rainha, que a sem raz„o e o desserviÁo d'El-Rei de Portugal e o dano

do seu reino, que claramente comsigo traziam, conselhavam que se n„o

acceitassem; especialmente porque em todos se requeria que a criaÁ„o

d'El-Rei e do Principe seu irm„o e irm„s fosse · desposiÁ„o da Rainha,

ou ao menos em poder de dois cavalleiros, quaes a ella prouvesse, que

fossem de todo isentos da juridiÁ„o e mandado do Infante, o que o reino

todo por causas mui evidentes e necessarias sempre contrariou, e muito

mais o Regente, que mostrava haver por singular bem-aventuranÁa e grande

repouso para si e para seus filhos o amor d'El-Rei, de que tinha certa

esperanÁa, pois com tanto amor e perfeiÁ„o o criava, e de que seria

desesperado se fÛra de seu poder, e com seu odio e de muitos outros o

criassem.

E porÈm sempre lhe prouve, e assi o respondia, que · Rainha tornando-se

a estes reinos fossem inteiramente dadas todalas terras e renda que

n'elles tinha, com a criaÁ„o de seus filhos livremente. Ainda que em

umas cÙrtes que n'este anno de mil e quatrocentos e quarenta e dois em

Evora se fizeram, foi por todolos tres estados requerido e concordado

que a Rainha devia por direito ser de todo privada, e que principalmente

n„o devia vir a estes Reinos, assi pela gente estrangeira que como imiga

n'elles metera e os guerreara, como pelos grandes trabalhos e muitas

despezas que com receio de guerra tinham por sua causa padecido, em

especial se houve por mui perigoso inconveniente o odio e m· vontade que

aos principaes do reino j· tinha, de que se esperava ella com El-Rei seu

filho procurar sempre destruiÁıes e cruas vinganÁas, que a muita

lealdade de seus vassallos lhe n„o mereciam.

Os Infantes d'Arag„o confiados no mando da governanÁa de Castella que

possuiam, havendo por seu abatimento n„o se fazerem os feitos da Rainha

sua irm„ · sua vontade, enviaram ao Regente que era em Santarem outra

embaixada, que elles fingiam ser j· derradeira, em que vieram por

embaixadores um Gomez de Benavides, e outro Affonso Fernandes de

Ledesma, doutor em leis, e pessoas de grande estima e auctoridade em

Castella; estes em seus apontamentos seguiram os passados dos outros.

Trazendo logo comsigo arautos e trombetas, como officiaes de desafio

real, para que se ·s cousas tocantes · Rainha n„o respondessem conformes

a seu requerimento, que solemnemente desafiassem logo a guerra de reino

a reino. A qual publicavam mui soltamente, crendo que com medo d'ella

este reino ·cerca do Regimento se mudara de seu primeiro proposito.

E estando estes embaixadores ainda por responder, veiu com uma carta da

m„o d'El-Rei para o Regente, um Custodio, da Ordem de S. Francisco de

Castella, e com o trellado d'ella aos embaixadores, em que

sustancialmente affirmava o que elles mesmos j· requereram. Apontando as

cousas porque devia com ras„o favorecer e ajudar a Rainha. E que por

ellas sem quebrantamento das pazes podia a estes reinos justamente fazer

guerra.

Chronica de El-Rei D. Affonso V (Vol. I) · 第 101 / 103 题