_Como o Infante D. Pedro e o Infante D. Anrique se foram a Lamego para
passarem entre Doiro e Minho. E como o conde de Barcellos se poz em
defesa, e do que se n'isso passou_
E ante de seu apartamento tiveram conselho sobre o que ao diante deviam
fazer, e accordaram que por quanto j· se comeÁara d'entender contra os
que eram reveis e desobedientes a seu Regimento, que o Regente se fosse
· Beira juntar-se com o Infante D. Anrique, para que ambos pela melhor
maneira que o tempo lh'o offerecesse, assessegassem os desmandos e
alvoroÁos em que os fidalgos d'aquella comarca andavam. E assi soubessem
logo se o conde de Barcellos queria estar · sua obediencia e ordenanÁa
como os outros, e se o contradissesse, que procedessem contra elle de
feito e direito, como sua contumacia requeria, pois com ella dava causa
a se fazer em muita parte do reino muito mal, e pouca justiÁa.
Foi-se o Regente a Coimbra, e alli se refez da mais gente que pÙde, e
posta em ordenanÁa e com esperanÁa de guerra se foi a Vizeu, e alli no
Couto se viu com o Infante D. Anrique, que tambem para o caso estava de
gente, armas e mantimentos mui bem percebido, os quaes por assi sentirem
que cumpria se partiram logo para Lamego, onde chegaram com proposito de
assi poderosos passarem o Douro, e o Regente usar inteiramente de seu
officio nas comarcas d'Entre Doiro e Minho, e Tras os Montes.
A Rainha por conselho do conde de Barcellos se partiu d'Albuquerque, com
fundamento de ir ao longo do estremo atÈ atravÈs da comarca de Tras os
Montes, para ir entrar em Portugal pelas terras d'Alvaro Pirez de
Tavora, onde o conde de Barcellos e os de sua opini„o se offereceram de
a irem receber e servir. E de Ledesma a que chegou, enviou seus
messegeiros ao conde para saber sua determinaÁ„o e vontade, e para lh'a
fazer maior e mais forte, lhe enviou novos esforÁos com esperanÁa de
grande honra e acrecentamento seu; os quaes messegeiros foram a elle,
que estava em Guimar„es ao tempo que os Infantes chegaram a Lamego, e
sendo de sua chegada d'elles certificado, e da maneira e tenÁ„o com que
iam, n„o pÙde dessimular a muita tristeza e grande cuidado que por isso
recebeu, e respondeu · Rainha escusando-se com coisas necessarias, a n„o
poder cumprir por ent„o seu requerimento, reprendendo com largas razıes
o pouco cuidado que os Infantes d'Arag„o para sua restituiÁ„o mostravam.
E por se mostrar forte aos que de sua parte j· sentia mui fracos, enviou
dizer ao conde d'Ourem seu filho, que dissesse como disse da sua parte
ao Regente, que escusasse passar o Douro, porque elle lh'o n„o havia de
consentir, de que o Infante mostrou grande sentimento, e com palavras e
contenenÁa n„o livres de sanha, respondeu ao conde por maneira, que
sentindo elle como a honra e estado de seu pae se despunha a grande
perigo, pediu ao Regente por mercÍ que sobre o caso n„o houvesse por mal
que elle mandasse um cavalleiro por messegeiro a seu pae, de que ao
Infante aprouve, e ainda com desejo de mais assessego o obrigava que
para isso elle n„o devia mandar alguem, mas ir em pessoa. E porque Luiz
Alvarez de Sousa, que ao conde foi sobr'isso enviado, n„o lhe abrandou
em nada sua tenÁ„o tornou a elle em pessoa o conde d'Ourem seu filho, o
qual como quer que com palavras de muito amor e razıes de grande
efficacia lhe pedisse que se decesse de sua opini„o, pois o tempo e a
raz„o assi o queriam, nunca o pÙde acabar, e assi assaz triste e anojado
tornou para o Regente sem alguma conclus„o.
O conde de Barcellos moveu de Guimar„es com mostranÁa de ao Infante
defender por forÁa a passagem. E assentou-se com sua gente em auto de
guerra em Meisanfrio, que È logar sobre o Douro duas leguas de Lamego. E
mandou alagar e metter de sob a agua todalas barcas e bateis do rio,
pelo qual o Infante aceso j· em desejo de vinganÁa para que os desprezos
e porfia do conde o moviam, determinou logo de passar contra elle, e
para isso ordenou que no Douro sobre toneis se fizesse uma ponte porque
a gente e cavallos podessem em breve e mui seguramente passar, e assi se
fez prestes do mais que para rompimento e peleja cumpria. As quaes
cousas vendo o conde d'Ourem aparelhadas com tal triganÁa para
destruiÁ„o de seu pae, ajuntou comsigo para sua ajuda alguns principaes,
perante quem fallou ao Regente. E com palavras de grande prudencia e
muita piedade, e com outras de n„o menos obrigaÁ„o, lhe pediu que
sobrestivesse em sua passagem e lhe desse logar que volvesse a seu pae;
porque esperava de o tornar · sua obediencia e serviÁo prouve d'isso ao
Infante, e lhe louvou muito a dÙr e cuidado que para remedio de seu pae
a todos mostrava. Porque entre as outras virtudes muitas que no Infante
havia, esta era n'elle de grande perfeiÁ„o, ser para as execuÁıes de sua
sanha mui temperado, e mui ligeiro de mover por rogos e intercessıes dos
bons.
O conde d'Ourem foi logo a seu pae, e t„o evidentes lhe mostrou os erros
de sua dureza e os principios que se ordenavam para sua quÈda, que
vencido do evidente perigo que via, mais que de sua propria vontade, lhe
prouve vir como veiu a Lamego falar aos Infantes. Os quaes como souberam
de sua vinda sahiram a recebe-lo fÛra da cidade acompanhados de muita e
mui nobre gente.
E posto que entre o conde e o Regente havia odios mui verdadeiros, porÈm
n'aquella hora que se viram houve entre elles palavras fingidas de tanto
amor e cortezia, e se abraÁavam a cada passo com tanta alegria, que
pareceu que um n„o estimava nem desejava mais bem que a vista do outro,
sem alguma lembranÁa de roturas passadas, e nas contenenÁas do povo que
os assi viam, bem parecia que todos haviam d'isso grande prazer.
Era hi presente o Arcebispo de Braga D. Fernando, que com vozes altas
comeÁou de cantar o principio do salmo _Ecce quam bonum & quam jucundum
habitare fratres in unum_; como a quem parecia que na concordia d'estes
Senhores se segurava de todo a paz e descanÁo do Reino. Os quaes como
foram na cidade fallaram entre si suas cousas, e assi nos desvairos
passados, e o Regente recebeu com bem na cara as desculpas do conde, que
ficou de todo · sua obediencia, approvando em todo o seu Regimento, e
prometteu de mais n„o servir nem seguir a Rainha, salvo n'aquellas
cousas em que os mesmos Infantes a servissem, e assi concludiram que o
casamento d'El-Rei de necessidade se fizesse logo com a filha do
Infante, ao menos com recebimento simples; porque ao tomar de sua casa,
se fariam depois suas festas solenes e reaes, como a sua honra e estado
cumpria. E assi prouve ao Regente a requerimento do conde que seu
cunhado D. Pedro, o Arcebispo de Lisboa, que andava em Castella
desterrado, fosse como foi · sua dinidade restituido, e lhe outorgou
para si e para os seus outras muitas graÁas e mercÍs, a que depois seu
agardecimento n„o respondeu com egual balanÁa.
E concordado assi todo se despediram uns dos outros: o Regente e o conde
d'Ourem para Lisboa, e o Infante D. Anrique para suas terras, e o conde
de Barcellos tornou-se d'onde viera; e isto foi no fim de Fevereiro do
anno de mil e quatrocentos e quarenta e um.