CAPITULO LXXIV

_Como em se accordando o cÍrco do Crato soube o Regente que a Rainha D.

Lianor era partida do Crato para Castella, e como todavia seguiu, e do

que se fez_

Chegou o Regente a Aviz, onde de muitas partes lhe accudiu muita gente,

para a qual com quanto no reino havia grande careza de mantimentos,

houve porÈm d'elles alli muita abastanÁa. E sendo certificado que o

Infante D. Jo„o seria com elle bespora de Natal, lhe leixou a villa para

seu aposentamento. E na ribeira de Seda se foi alojar no campo, onde os

Infantes e conde d'Ourem e conde d'Arrayollos, com outros senhores e

fidalgos do conselho se viram. E logo todos consultaram ·cÍrca do que

fariam, em que depois de muitos debates, finalmente se accordaram com o

Infante D. Jo„o, que disse:

´Que ante de tudo · Rainha por uma pessoa honrada fosse primeiro pedido

e requerido que se tornasse para suas terras, ou para outro qualquer

logar que ella quizesse n„o sendo sospeito, com todalas seguranÁas que

ella pedisse, e que elles todos iriam por ella e a serviriam e acatariam

como ella merecia, por ser mulher e madre de dois seus naturaes Reis e

Senhores, e que se ella o quizesse fazer, todo seu trabalho o houvessem

n'isso por bem empregado; porque com isso o menos ficaria por acabar, e

que quando ella esto n„o houvesse por bem, que ent„o fossem cercar e

combater o Crato atÈ o tomarem por forÁa, ou como melhor podessem,

guardando sempre qualquer casa ou torre em que a Rainha e a Infante

estivessem, por acatamento e reverenÁa de sua real pessoa e estado, c·

era raz„o apagar-se logo aquella pequena brasa; porque d'ella se n„o

seguisse ao reino outro incendio e dano maior.ª

A Rainha como foi certificada que os Infantes determinavam ir cerca-la,

vendo que o conde de Barcellos e os outros fidalgos se escusavam de ir

por ella e a servir como ficaram, quizera-se logo partir do Crato para

Castella; mas foi aconselhada que por agravar mais seu caso n„o o

fizesse atÈ os Infantes serem j· em caminho contra ella; porque ent„o

pareceria raz„o faze-lo; pois poderiam dizer que com temor de a n„o

prenderem ou deshonrarem o fazia, pelo qual tanto que soube que elles

moviam seu arraial da Ribeira de Seda contra o Crato, ella na noite em

que amanheceu dia de S. Thom·s, que vem a XXIX de Dezembro, de mil e

quatrocentos e quarenta e um, se partiu para Albuquerque, e foram

principaes em sua companhia o Priol do Crato e D. Affonso Anriquez, e D.

Affonso, senhor de Cascaes, e D. Fernando, seu filho, e alguns outros;

porque a mais gente ficou no castello do Crato com GonÁalo da Silveira e

Vasco da Silveira, filhos de Nuno Martins da Silveira, a que a guarda de

todo ficou encomendada. E estes acabaram depois em serviÁo da Rainha

suas vidas em Castella, e assi os ditos D. Affonso e D. Fernando, e o

Priol do Crato, que no Agosto seguinte falleceram em «amora.

Alguns moradores do Crato e principaes, comquanto alli estavam sobjeitos

ao Priol, eram porÈm servidores secretos do Regente. E como sentiram a

partida da Rainha, fizeram logo dois avisos, um ao Regente do caso como

passara, e outro a Garcia Rodriguez de Siqueira, Comendador MÛr d'Aviz,

que era capit„o em Alter, para que fosse logo como foi por meio e

engenho d'elles cobrar a villa, e depois de se bem apoderar d'ella e a

segurar com fortes palanques do dano que os do castello lhe poderiam

fazer, o notificou logo aos Infantes, que acordaram enviar logo a

GonÁalo da Silveira, e a Vasco da Silveira, Vasco Martins de Mello, por

ser casado com uma sua irm„, filha tambem de Nuno Martinz da Silveira,

para que os aconselhasse como o tempo e raz„o requeria e que sem mais

resistencia entregassem o castello. Mas GonÁallo da Silveira, sobre quem

a defens„o principalmente pendia, se escusou da entrega, como fidalgo em

que pareceu que havia bondade, lealdade e discriÁ„o, e o coraÁ„o lhe n„o

fallecia.

Com este recado tornou Vasco Martinz aos Infantes, que n„o leixaram de

seguir seu caminho atÈ serem sobre o logar; porque receiaram que a

Rainha com gente e mantimentos de Castella bastecesse os logares, pois

n'elles com essa esperanÁa leixava sua gente.

O conde d'Ourem com a gente de Lisboa se aposentou dentro na villa, e os

Infantes fÛra em torno do castello, onde em chegando fizeram publico

alardo com toda a gente, em que se acharam doze mil homens de peleja com

muita artilharia, que logo foi assentada em ordenanÁa de combate, de que

os mais do castello tom·ram grande desmaio; e porÈm ante d'algum

cometimento, o Regente mandou outra vez por o dito Vasco Martinz

requerer GonÁallo da Silveira que entregasse o castello e se tornasse

para El-Rei que lhe faria muita mercÍ, e serviria seu officio d'escriv„o

da Puridade como o fÙra seu pae, e que seu irm„o seria acrecentado com

outras abastanÁas e razıes, de que GonÁalo da Silveira algum tanto

vencido com prazer dos Infantes, tomou assento que o n„o combatessem por

X dias, dentro dos quaes se a Rainha depois de ser requerida por elle,

lhe n„o desse soccorro e ajuda com que bem se podessem defender que elle

entregaria a fortaleza, e que se lh'o desse, que elle aquelle trabalho e

outro maior soffreria atÈ, morrer por seu serviÁo.

Foi logo a Rainha de todo esto avisada por GonÁalo Annes, criado do

Priol e alcaide do Crato, que como prudente messegeiro, lhe disse mui

largamente as difficuldades que havia na defens„o do castello, por ser

tamanho e contra tal e tanta gente, e enfraquentou muito com vivas

razıes a esperanÁa que a Rainha lhe dava, e tinha em uns oitocentos

homens d'armas que a Rainha de Castella sua irm„ lhe mandara para isso

offerecer, dizendo-lhe ´que estes n„o eram pagos nem juntos, e estavam

ainda em Castella por suas casas. E que por tantos favores de p„es, de

que os Infantes seus irm„os enganosamente a basteciam, n„o abastavam

para tal tempo e tamanha necessidade, e que em caso que esta gente e

outra mais os quizesse soccorrer, que pois n„o podia ser pelo cÈo, menos

seria pela terra em que por todalas partes havia tanta e t„o forte

resistencia, que era impossivel ou assignada sandice fazer-se.ª

E emfim a Rainha com o Priol visto todo, accordaram que o castello se

entregasse, para que logo mandou Pero de Goes seu filho, que com

seguranÁa dos castellos o leixou livre, e o Regente o entregou logo ao

Infante D. Jo„o, e deu em nome d'El-Rei o Priorado do Crato a D. Anrique

de Castro, filho de D. Fernando de Castro, e depois a D. Jo„o d'Atayde,

por cuja morte o houve tambem D. Vasco d'Atayde seu irm„o. E depois de

despedir com mercÍs e mui graciosas palavras aquellas pessoas que n'esta

jornada o vieram servir, e que por ent„o n„o houve mester, se partiu

caminho d'Abrantes, e com elle o conde d'Ourem. E o Infante D. Jo„o se

tornou para a cidade d'Evora.

Chronica de El-Rei D. Affonso V (Vol. I) · 第 97 / 103 题