_Como em se accordando o cÍrco do Crato soube o Regente que a Rainha D.
Lianor era partida do Crato para Castella, e como todavia seguiu, e do
que se fez_
Chegou o Regente a Aviz, onde de muitas partes lhe accudiu muita gente,
para a qual com quanto no reino havia grande careza de mantimentos,
houve porÈm d'elles alli muita abastanÁa. E sendo certificado que o
Infante D. Jo„o seria com elle bespora de Natal, lhe leixou a villa para
seu aposentamento. E na ribeira de Seda se foi alojar no campo, onde os
Infantes e conde d'Ourem e conde d'Arrayollos, com outros senhores e
fidalgos do conselho se viram. E logo todos consultaram ·cÍrca do que
fariam, em que depois de muitos debates, finalmente se accordaram com o
Infante D. Jo„o, que disse:
´Que ante de tudo · Rainha por uma pessoa honrada fosse primeiro pedido
e requerido que se tornasse para suas terras, ou para outro qualquer
logar que ella quizesse n„o sendo sospeito, com todalas seguranÁas que
ella pedisse, e que elles todos iriam por ella e a serviriam e acatariam
como ella merecia, por ser mulher e madre de dois seus naturaes Reis e
Senhores, e que se ella o quizesse fazer, todo seu trabalho o houvessem
n'isso por bem empregado; porque com isso o menos ficaria por acabar, e
que quando ella esto n„o houvesse por bem, que ent„o fossem cercar e
combater o Crato atÈ o tomarem por forÁa, ou como melhor podessem,
guardando sempre qualquer casa ou torre em que a Rainha e a Infante
estivessem, por acatamento e reverenÁa de sua real pessoa e estado, c·
era raz„o apagar-se logo aquella pequena brasa; porque d'ella se n„o
seguisse ao reino outro incendio e dano maior.ª
A Rainha como foi certificada que os Infantes determinavam ir cerca-la,
vendo que o conde de Barcellos e os outros fidalgos se escusavam de ir
por ella e a servir como ficaram, quizera-se logo partir do Crato para
Castella; mas foi aconselhada que por agravar mais seu caso n„o o
fizesse atÈ os Infantes serem j· em caminho contra ella; porque ent„o
pareceria raz„o faze-lo; pois poderiam dizer que com temor de a n„o
prenderem ou deshonrarem o fazia, pelo qual tanto que soube que elles
moviam seu arraial da Ribeira de Seda contra o Crato, ella na noite em
que amanheceu dia de S. Thom·s, que vem a XXIX de Dezembro, de mil e
quatrocentos e quarenta e um, se partiu para Albuquerque, e foram
principaes em sua companhia o Priol do Crato e D. Affonso Anriquez, e D.
Affonso, senhor de Cascaes, e D. Fernando, seu filho, e alguns outros;
porque a mais gente ficou no castello do Crato com GonÁalo da Silveira e
Vasco da Silveira, filhos de Nuno Martins da Silveira, a que a guarda de
todo ficou encomendada. E estes acabaram depois em serviÁo da Rainha
suas vidas em Castella, e assi os ditos D. Affonso e D. Fernando, e o
Priol do Crato, que no Agosto seguinte falleceram em «amora.
Alguns moradores do Crato e principaes, comquanto alli estavam sobjeitos
ao Priol, eram porÈm servidores secretos do Regente. E como sentiram a
partida da Rainha, fizeram logo dois avisos, um ao Regente do caso como
passara, e outro a Garcia Rodriguez de Siqueira, Comendador MÛr d'Aviz,
que era capit„o em Alter, para que fosse logo como foi por meio e
engenho d'elles cobrar a villa, e depois de se bem apoderar d'ella e a
segurar com fortes palanques do dano que os do castello lhe poderiam
fazer, o notificou logo aos Infantes, que acordaram enviar logo a
GonÁalo da Silveira, e a Vasco da Silveira, Vasco Martins de Mello, por
ser casado com uma sua irm„, filha tambem de Nuno Martinz da Silveira,
para que os aconselhasse como o tempo e raz„o requeria e que sem mais
resistencia entregassem o castello. Mas GonÁallo da Silveira, sobre quem
a defens„o principalmente pendia, se escusou da entrega, como fidalgo em
que pareceu que havia bondade, lealdade e discriÁ„o, e o coraÁ„o lhe n„o
fallecia.
Com este recado tornou Vasco Martinz aos Infantes, que n„o leixaram de
seguir seu caminho atÈ serem sobre o logar; porque receiaram que a
Rainha com gente e mantimentos de Castella bastecesse os logares, pois
n'elles com essa esperanÁa leixava sua gente.
O conde d'Ourem com a gente de Lisboa se aposentou dentro na villa, e os
Infantes fÛra em torno do castello, onde em chegando fizeram publico
alardo com toda a gente, em que se acharam doze mil homens de peleja com
muita artilharia, que logo foi assentada em ordenanÁa de combate, de que
os mais do castello tom·ram grande desmaio; e porÈm ante d'algum
cometimento, o Regente mandou outra vez por o dito Vasco Martinz
requerer GonÁallo da Silveira que entregasse o castello e se tornasse
para El-Rei que lhe faria muita mercÍ, e serviria seu officio d'escriv„o
da Puridade como o fÙra seu pae, e que seu irm„o seria acrecentado com
outras abastanÁas e razıes, de que GonÁalo da Silveira algum tanto
vencido com prazer dos Infantes, tomou assento que o n„o combatessem por
X dias, dentro dos quaes se a Rainha depois de ser requerida por elle,
lhe n„o desse soccorro e ajuda com que bem se podessem defender que elle
entregaria a fortaleza, e que se lh'o desse, que elle aquelle trabalho e
outro maior soffreria atÈ, morrer por seu serviÁo.
Foi logo a Rainha de todo esto avisada por GonÁalo Annes, criado do
Priol e alcaide do Crato, que como prudente messegeiro, lhe disse mui
largamente as difficuldades que havia na defens„o do castello, por ser
tamanho e contra tal e tanta gente, e enfraquentou muito com vivas
razıes a esperanÁa que a Rainha lhe dava, e tinha em uns oitocentos
homens d'armas que a Rainha de Castella sua irm„ lhe mandara para isso
offerecer, dizendo-lhe ´que estes n„o eram pagos nem juntos, e estavam
ainda em Castella por suas casas. E que por tantos favores de p„es, de
que os Infantes seus irm„os enganosamente a basteciam, n„o abastavam
para tal tempo e tamanha necessidade, e que em caso que esta gente e
outra mais os quizesse soccorrer, que pois n„o podia ser pelo cÈo, menos
seria pela terra em que por todalas partes havia tanta e t„o forte
resistencia, que era impossivel ou assignada sandice fazer-se.ª
E emfim a Rainha com o Priol visto todo, accordaram que o castello se
entregasse, para que logo mandou Pero de Goes seu filho, que com
seguranÁa dos castellos o leixou livre, e o Regente o entregou logo ao
Infante D. Jo„o, e deu em nome d'El-Rei o Priorado do Crato a D. Anrique
de Castro, filho de D. Fernando de Castro, e depois a D. Jo„o d'Atayde,
por cuja morte o houve tambem D. Vasco d'Atayde seu irm„o. E depois de
despedir com mercÍs e mui graciosas palavras aquellas pessoas que n'esta
jornada o vieram servir, e que por ent„o n„o houve mester, se partiu
caminho d'Abrantes, e com elle o conde d'Ourem. E o Infante D. Jo„o se
tornou para a cidade d'Evora.