CAPITULO L

_De como se apontou e aprovou n„o ser bem El-Rei se criar em poder da

Rainha_

Estando j· as cÙrtes e despachos d'ellas em conclus„o para os

procuradores se poderem ir, um Jo„o GonÁalvez, procurador da cidade do

Porto, com outro seu parceiro se foram · camara de Lisboa, sendo os

officiaes d'ella em vereaÁ„o. E cuidando os da cidade que iam

despedir-se d'elles, como era de cortesia e custume, Jo„o GonÁalves

disse:

´Senhores, a mim e a meu parceiro parece, que vÛs e todolos outros

nossos irm„os e parceiros, que em nome do reino a estas cortes viemos,

as daes j· por acabadas. E certo muitas cousas, mercÍs a Deus, se

concludiram n'ellas; porque El-Rei nosso Senhor È mui servido, e nÛs

contentes. PorÈm a principal ficou por requerer e fazer. Sem a qual,

todo o que se fez a nosso parecer È nada ou aproveita muito poucoª.

Os cidad„os enleados de sua proposiÁ„o, sabendo que era homem

d'autoridade, cessaram de suas praticas em que estavam, e seguraram os

rostos e as vontades para o ouvir. O qual proseguindo disse:

´Porque concludindo brevemente meu proposito, digo-vos que por se

escusarem muitos danos e grandes inconvenientes que se n„o escusam,

El-Rei n„o deve ficar em poder da Rainha como est·, e alguns apontarei e

os outros mais vÛs por vossa discriÁ„o e saber os entendei.

Primeiramente a criaÁ„o d'El-Rei por ser em poder de mulher, È a elle

mui danosa, e sempre por isso ficar· fraco e feminado. Que para qualquer

homem privado È aleij„o sobre todos, quanto mais para Rei. E se as

comparaÁıes n„o fossem odiosas, e isto n„o fosse t„o claro, por exemplos

bem vo-lo poderia provar. Outrosi de sua creaÁ„o, por tal maneira est·

mui evidente o perigo do Infante D. Pedro Regente, e tambem nosso;

porque segundo a Senhora Rainha, isto que acordamos sente por sua

deshonra e grande quebra de seu estado, como em suas cartas e

protestaÁıes parece claro, n„o È duvidar que criaria El-Rei em odio

contra o Regente e contra nÛs, de que ao diante poderia por isso

commeter uma grande crueldade, em que n„o haveria remedio. Porque como

naturalmente aquellas cousas que os moÁos recebem na tenra edade se lhe

emprantam no coraÁ„o e em sua memoria para sempre, esta principalmente

se lhe emprantaria muito mais, por lhe ser dita t„o a meude, e com

tantas lagrimas. Outro dano È a que se deve atalhar o crecimento de

despezas desordenadas, a que as rendas do reino n„o bast·ram. C· umas

s„o necessarias ao Regente para manter seu estado e do reino, e outras

cumprem de necessidade a El-Rei e a seu irm„o, e outras · Rainha e suas

filhas. Com outros inconvenientes que agora s„o escusados apontarem-seª.

Aos cidad„os pareceu bem o motivo de Jo„o GonÁalves, e fizeram logo

avisar os outros procuradores, que logo · tarde foram hi juntos, onde

depois de havidas algumas praticas e altercaÁıes sobre o caso,

accordaram que El-Rei e seu irm„o deviam todavia ficar em poder do

Infante D. Pedro. Ao qual d'este accordo logo avisaram, pedindo-lhe que

o quizesse assi consultar com os Infantes seus irm„os, com os quaes

ordenasse que se cumprisse.

O Regente depois de ouvir dois cidad„os que a elle sobr'isso foram, lhes

respondeu:

´Dizei aos cidad„os e procuradores, que lhes rogo muito que cessem

d'este movimento, e n„o me daria persumir-se que eu n'elle cabia por

principal, se fÙsse devido e necessario; mas eu o digo assi, porque na

verdade ei por muito melhor ficar El-Rei meu Senhor e seu irm„o em poder

de sua madre, que no meu. Assi por satisfazer a sua consolaÁ„o e

contentamento como È raz„o e est· concordado, como tambem por mais minha

seguranÁa e descargo, e sua Senhoria moÁo È, e sujeito como todos a

enfermidades e casos mortaes, de que fallecendo, o que nosso Senhor n„o

queira e o defenda, È certo que seria com grande minha tristeza e muita

pena, e a mim poderiam dar a culpa de sua morte, e d'hi ·vante eu com

este cargo tenho tantas cousas em que entender, que a essa n„o poderia

satisfazer como a ella requere e È raz„o; e que podesse, sabei que

queria fugir aos odios dos aios, que eu com tal cargo n„o posso escusar,

especialmente refreando El-Rei e seu irm„o em cousas a que sua mocidade

os inclinar·, em que por ventura mereceram mais emmenda e reprens„o que

louvor.ª

Os cidad„os lhe replicaram:

´Senhor, quem vos bem conhece e vosso justo juizo e grande saber, sem

errar vos pÛde dizer que d'outra maneira o entendeis, do que o fallaes.

E por tanto isto que vos propozemos È assi em nÛs todos t„o determinado

para se cumprir, como o mais que fizemos. C· se o passado foi

proveitoso, n'isto ha proveito e necessidade; porque n„o È raz„o, nem

queira Deus que um t„o alto Principe como È El-Rei nosso Senhor, e que

em t„o pequenos dias nos d· de si tantas esperanÁas de bem entendido e

virtuoso, seja assi creado em tanto aleij„o, como È a criaÁ„o em poder

de mulheres. Antes pois em vÛs para isso ha tantas razıes, È raz„o que o

crieis e faÁaes ensinar em letras e reaes costumes, e o leveis ao monte

e · caÁa, e lhe mostreis por vÛs o exercicio das armas, e por exemplos e

doutrina, e merecimentos da cavallaria. E assi as outras cerimonias,

manhas, e cousas que ao estado de um tal Principe convÈm, assi para os

tempos publicos, como secretos, e com isto elle È de t„o s„o e perfeito

entender, que conhecer· que o servis bem e lealmente. E por isso vos

amar· e far· aquelle acrecentamento e mercÍ, que lhe prazendo a Deus

merecereis.ª

O Regente acalÁado n'este caso da necessidade e raz„o de que se n„o

sabia escusar, disse: ´que se fallasse aos Infantes seus irm„os, e o que

elles accordassem por melhor, elle o seguiria.ª Aos quaes por os

procuradores foi logo fallado, e assi aos condes e ·s outras pessoas

d'estima que eram na cÙrte. E por todos finalmente foi accordado: ´que

pospostas todalas cousas e assento passado, El-Rei ficasse em poder do

Regenteª. O que em pessoa lhe foi logo assi notificado. O qual disse:

´Certo n„o por resistir a vosso conselho e determinaÁ„o, a que folgarei

sempre de obedecer. Mas a mim parece que n'este caso o melhor ser· que a

Senhora Rainha e eu andemos pelo reino juntamente, de que se seguir· que

sua Senhoria criar· El-Rei meu Senhor seu filho, e eu vÍ-lo-hei e

servirei nas cousas que apontaes, quando fÙr necessario. E prazendo a

Deus, eu o farei por maneira, e com tanto prazer e contentamento d'ella,

que sua Senhoria ter· raz„o de conhecer de mim a verdade de que sempre

duvidou, e perder· com isso alguns queixumes e escandalos que sem causa

lhe fizeram ter contra mim.ª

E louvando todos aquelle parecer, se foram com elle · Rainha, que ainda

era em Santo Antonio, · qual pelo Infante D. Pedro e por os outros

Infantes foram mui verdadeiramente ditas todalas cousas e razıes que no

caso havia para o haver de seguir. Mas ella finalmente n„o quiz, salvo

que lhe ficasse a governanÁa da fazenda juntamente com a criaÁ„o de seus

filhos, referindo-se ao accordo das primeiras cÙrtes. E que se das

rendas para serviÁo d'El-Rei se houvesse alguma cousa despender, que

fosse por sua autoridade e mandado. E como quer que pelos Infantes lhe

fossem apontados muitos pejos e inconvenientes para assi n„o poder ser,

e lhe pedissem que quizesse haver por bem o que accord·ram, a ella n„o

prouve. E os Infantes vendo sua determinaÁ„o, se despediram d'ella para

ainda consultarem se se acharia algum bom meio com que ella ficasse

contente.

Chronica de El-Rei D. Affonso V (Vol. I) · 第 73 / 103 题