_De como se apontou e aprovou n„o ser bem El-Rei se criar em poder da
Rainha_
Estando j· as cÙrtes e despachos d'ellas em conclus„o para os
procuradores se poderem ir, um Jo„o GonÁalvez, procurador da cidade do
Porto, com outro seu parceiro se foram · camara de Lisboa, sendo os
officiaes d'ella em vereaÁ„o. E cuidando os da cidade que iam
despedir-se d'elles, como era de cortesia e custume, Jo„o GonÁalves
disse:
´Senhores, a mim e a meu parceiro parece, que vÛs e todolos outros
nossos irm„os e parceiros, que em nome do reino a estas cortes viemos,
as daes j· por acabadas. E certo muitas cousas, mercÍs a Deus, se
concludiram n'ellas; porque El-Rei nosso Senhor È mui servido, e nÛs
contentes. PorÈm a principal ficou por requerer e fazer. Sem a qual,
todo o que se fez a nosso parecer È nada ou aproveita muito poucoª.
Os cidad„os enleados de sua proposiÁ„o, sabendo que era homem
d'autoridade, cessaram de suas praticas em que estavam, e seguraram os
rostos e as vontades para o ouvir. O qual proseguindo disse:
´Porque concludindo brevemente meu proposito, digo-vos que por se
escusarem muitos danos e grandes inconvenientes que se n„o escusam,
El-Rei n„o deve ficar em poder da Rainha como est·, e alguns apontarei e
os outros mais vÛs por vossa discriÁ„o e saber os entendei.
Primeiramente a criaÁ„o d'El-Rei por ser em poder de mulher, È a elle
mui danosa, e sempre por isso ficar· fraco e feminado. Que para qualquer
homem privado È aleij„o sobre todos, quanto mais para Rei. E se as
comparaÁıes n„o fossem odiosas, e isto n„o fosse t„o claro, por exemplos
bem vo-lo poderia provar. Outrosi de sua creaÁ„o, por tal maneira est·
mui evidente o perigo do Infante D. Pedro Regente, e tambem nosso;
porque segundo a Senhora Rainha, isto que acordamos sente por sua
deshonra e grande quebra de seu estado, como em suas cartas e
protestaÁıes parece claro, n„o È duvidar que criaria El-Rei em odio
contra o Regente e contra nÛs, de que ao diante poderia por isso
commeter uma grande crueldade, em que n„o haveria remedio. Porque como
naturalmente aquellas cousas que os moÁos recebem na tenra edade se lhe
emprantam no coraÁ„o e em sua memoria para sempre, esta principalmente
se lhe emprantaria muito mais, por lhe ser dita t„o a meude, e com
tantas lagrimas. Outro dano È a que se deve atalhar o crecimento de
despezas desordenadas, a que as rendas do reino n„o bast·ram. C· umas
s„o necessarias ao Regente para manter seu estado e do reino, e outras
cumprem de necessidade a El-Rei e a seu irm„o, e outras · Rainha e suas
filhas. Com outros inconvenientes que agora s„o escusados apontarem-seª.
Aos cidad„os pareceu bem o motivo de Jo„o GonÁalves, e fizeram logo
avisar os outros procuradores, que logo · tarde foram hi juntos, onde
depois de havidas algumas praticas e altercaÁıes sobre o caso,
accordaram que El-Rei e seu irm„o deviam todavia ficar em poder do
Infante D. Pedro. Ao qual d'este accordo logo avisaram, pedindo-lhe que
o quizesse assi consultar com os Infantes seus irm„os, com os quaes
ordenasse que se cumprisse.
O Regente depois de ouvir dois cidad„os que a elle sobr'isso foram, lhes
respondeu:
´Dizei aos cidad„os e procuradores, que lhes rogo muito que cessem
d'este movimento, e n„o me daria persumir-se que eu n'elle cabia por
principal, se fÙsse devido e necessario; mas eu o digo assi, porque na
verdade ei por muito melhor ficar El-Rei meu Senhor e seu irm„o em poder
de sua madre, que no meu. Assi por satisfazer a sua consolaÁ„o e
contentamento como È raz„o e est· concordado, como tambem por mais minha
seguranÁa e descargo, e sua Senhoria moÁo È, e sujeito como todos a
enfermidades e casos mortaes, de que fallecendo, o que nosso Senhor n„o
queira e o defenda, È certo que seria com grande minha tristeza e muita
pena, e a mim poderiam dar a culpa de sua morte, e d'hi ·vante eu com
este cargo tenho tantas cousas em que entender, que a essa n„o poderia
satisfazer como a ella requere e È raz„o; e que podesse, sabei que
queria fugir aos odios dos aios, que eu com tal cargo n„o posso escusar,
especialmente refreando El-Rei e seu irm„o em cousas a que sua mocidade
os inclinar·, em que por ventura mereceram mais emmenda e reprens„o que
louvor.ª
Os cidad„os lhe replicaram:
´Senhor, quem vos bem conhece e vosso justo juizo e grande saber, sem
errar vos pÛde dizer que d'outra maneira o entendeis, do que o fallaes.
E por tanto isto que vos propozemos È assi em nÛs todos t„o determinado
para se cumprir, como o mais que fizemos. C· se o passado foi
proveitoso, n'isto ha proveito e necessidade; porque n„o È raz„o, nem
queira Deus que um t„o alto Principe como È El-Rei nosso Senhor, e que
em t„o pequenos dias nos d· de si tantas esperanÁas de bem entendido e
virtuoso, seja assi creado em tanto aleij„o, como È a criaÁ„o em poder
de mulheres. Antes pois em vÛs para isso ha tantas razıes, È raz„o que o
crieis e faÁaes ensinar em letras e reaes costumes, e o leveis ao monte
e · caÁa, e lhe mostreis por vÛs o exercicio das armas, e por exemplos e
doutrina, e merecimentos da cavallaria. E assi as outras cerimonias,
manhas, e cousas que ao estado de um tal Principe convÈm, assi para os
tempos publicos, como secretos, e com isto elle È de t„o s„o e perfeito
entender, que conhecer· que o servis bem e lealmente. E por isso vos
amar· e far· aquelle acrecentamento e mercÍ, que lhe prazendo a Deus
merecereis.ª
O Regente acalÁado n'este caso da necessidade e raz„o de que se n„o
sabia escusar, disse: ´que se fallasse aos Infantes seus irm„os, e o que
elles accordassem por melhor, elle o seguiria.ª Aos quaes por os
procuradores foi logo fallado, e assi aos condes e ·s outras pessoas
d'estima que eram na cÙrte. E por todos finalmente foi accordado: ´que
pospostas todalas cousas e assento passado, El-Rei ficasse em poder do
Regenteª. O que em pessoa lhe foi logo assi notificado. O qual disse:
´Certo n„o por resistir a vosso conselho e determinaÁ„o, a que folgarei
sempre de obedecer. Mas a mim parece que n'este caso o melhor ser· que a
Senhora Rainha e eu andemos pelo reino juntamente, de que se seguir· que
sua Senhoria criar· El-Rei meu Senhor seu filho, e eu vÍ-lo-hei e
servirei nas cousas que apontaes, quando fÙr necessario. E prazendo a
Deus, eu o farei por maneira, e com tanto prazer e contentamento d'ella,
que sua Senhoria ter· raz„o de conhecer de mim a verdade de que sempre
duvidou, e perder· com isso alguns queixumes e escandalos que sem causa
lhe fizeram ter contra mim.ª
E louvando todos aquelle parecer, se foram com elle · Rainha, que ainda
era em Santo Antonio, · qual pelo Infante D. Pedro e por os outros
Infantes foram mui verdadeiramente ditas todalas cousas e razıes que no
caso havia para o haver de seguir. Mas ella finalmente n„o quiz, salvo
que lhe ficasse a governanÁa da fazenda juntamente com a criaÁ„o de seus
filhos, referindo-se ao accordo das primeiras cÙrtes. E que se das
rendas para serviÁo d'El-Rei se houvesse alguma cousa despender, que
fosse por sua autoridade e mandado. E como quer que pelos Infantes lhe
fossem apontados muitos pejos e inconvenientes para assi n„o poder ser,
e lhe pedissem que quizesse haver por bem o que accord·ram, a ella n„o
prouve. E os Infantes vendo sua determinaÁ„o, se despediram d'ella para
ainda consultarem se se acharia algum bom meio com que ella ficasse
contente.