CAPITULO LI

_Como a Rainha teve pratica com os seus principaes sobre a ida dos

Infantes a ella e como se foi a Cintra e leixou El-Rei e seu irm„o_

Partidos os Infantes, a Rainha a esses principaes que com ella eram

notificou logo os apontamentos de sua vinda. E assi a conclus„o com que

ficara, e quiz d'elles saber o que lhes parecia, dizendo:

´N„o pode ser mÛr angustia da que meu coraÁ„o tem n'este caso. C· de uma

parte o sentimento e nojo que tenho do Infante D. Pedro me faz desejar

n„o haver cousa no mundo para o poder vÍr, e d'outra segundo o que

sinto, isto È j· quasi privarem-me de meus filhos. Cuja natural piedade

e grande amor que lhes tenho, me constrange n„o os leixar. Especialmente

me obriga muito parecer-me que segurarei com a graÁa de Deus suas

pessoas, de que teria mÛr esperanÁa, e com menos receios, que de andarem

sem mim em poder do Infante D. Pedro. O qual segundo j· descobre sua

grande cubica para reinar, quem duvidaria que para o fazer mais

livremente, n„o lhes encurtara mais cedo as vidas. E n'elle ha muitas

dessimulaÁıes e hipocresias com que tudo saber· mui bem encobrir. Assi

que n'estes dois tamanhos extremos n„o sei qual meio tome, ou ter meus

filhos e andar com elles por sua seguranÁa, e ir com o Infante · melhor

parte sem outro encarrego, ou leixa-los de todo · disposiÁ„o de Deus que

os guarde, e da fortuna boa ou m· que lhes pode vir. O primeiro d'estes

bem sinto que È um bom desejo da alma, a que por ventura consirando tudo

sem paix„o eu devia ser mais conforme. O segundo È apetito do corpo e da

honra, em que sinto tamanhas forÁas, que me inclinam a elle de todo, e

n'esta tamanha diferenÁa e torvaÁ„o a que meu juizo n„o abasta, quero

saber de vÛs o que vos parece.ª.

Os quaes responderam, dizendo:

´Senhora, esta derradeira È a melhor determinaÁ„o que podeis ter, e o

vosso coraÁ„o para qu„o real È, n„o deve soffrer andar sobjeita em poder

de um homem vosso imigo, e que segundo o desamor que vos tem, vos far·

cada dia mil nojos e abatimentos, e a nÛs outros que vos servimos, como

desesperados d'elle em todo bem e mercÍ, ser· raz„o que nÛs vamos ·s

judarias ou fÛra do reino, pois havemos ser d'elle pior tratados que

judeus. O que n„o deveis haver por pequena dÙr e vituperio vosso, e com

isto bem sabeis que ha n'elle praticas e cautellas, para com todo

mostrar ao povo que o faz muito pelo contrairo; porque elle n„o ha mais

mester que favor de vill„os que o tem por idolo. Pelo qual nosso

conselho È, o com que despedistes os Infantes, n„o aceitardes a criaÁ„o

de vossos filhos sem governardes toda a fazenda, e que pois haveis de

ser agravada, que o sejaes de todo, principalmente pois sabeis que a

emmenda d'isto se apressa, e n„o pode j· tardar muito. E pelo que ora

vossos irm„os vos escrevem de Castella, e assi de Portugal o Priol do

Crato e o Marechal, e os outros fidalgos que defendem vossa querella, o

podeis mais claramente vÍr e afirmar, e para seguranÁa de vossos filhos,

sob reverenÁa de vosso juizo, È muito pelo contrairo. C· para o Infante

D. Pedro cumprir seu m·o proposito, se o tem de acabar vossos filhos,

sabei que vossa presenÁa È mais azo, e a melhor encuberta que para isso

pode ter. E por ventura o far· mais levemente, e com menos temor em

vosso poder que no seu. E nas enculcas e espias que j· agora traz

comvosco, de que sabe aqui n„o sÛmente o que fallaes, mas o que cuidaes,

podereis conjecturar se para tal caso achar· ministros. Assi que

leixai-lhe todo o Regimento, e os filhos juntamente atÈ que Deus

queiraª.

N'este conselho contrariou com razıes mui vivas Pero LourenÁo d'Almeida,

AlmotacÈ MÛr do reino, que era presente, desfazendo · Rainha e aos

outros conselheiros com fundamentos mui claros as esperanÁas que tinham

de seus irm„os em Castella, e assim dos fidalgos de Portugal.

Pedindo-lhe que quizesse acceitar o meio que os Infantes lhe tinham

apontado, que segundo a disposiÁ„o do tempo houve por bom. Mas como a

vontade da Rainha, e assi a dos outros estavam para o contrairo

determinadas, n„o aprovaram o conselho de Pero LourenÁo, reputando-lhe

n„o a siso mas a fraqueza por se n„o sahir de sua casa e boa fazenda que

tinha em Lisboa. Pelo qual a Rainha determinou partir-se e leixar seus

filhos, e levar sÛmente as filhas comsigo.

Isto se passou em Santo Antonio a um sabbado, e logo ao domingo a Rainha

mandou chamar secretamente alguns seus de Lisboa, que vieram hi dormir.

E passada a meia noite ouviu missa, e fez alevantar os filhos da cama, e

tomou El-Rei nos braÁos, e com muitas lagrimas lhe disse:

´Filho e Senhor, praza a Deus por sua piedade que vos guarde e vos dÍ

vida, e a mim n„o leixe viva e desamparada de vÛs, como o sou d'El-Rei

meu Senhor vosso padre.ª

E com isto se despediu com tamanho pranto seu e de todos, como se os

leixaram soterrados para os nunca mais vÍr.

El-Rei salteou-se com tamanha novidade, e posto que para isso n„o teve

edade de que se esperasse tamanho accordo, n„o lhe falleceu natural

prudencia e discriÁ„o com que n'aquella hora, com grande repouso e

seguranÁa, e por palavras doces e avisadas, soube confortar a Rainha sua

madre, que se partiu para Cintra, de que o aviso foi logo a Lisboa, e o

Infante D. Anrique como o soube se partiu a gram pressa pela alcanÁar no

caminho, e j· n„o pÙde sen„o no logar d'onde a n„o pÙde mover de seu

proposito, e o Infante D. Pedro e o Infante D. Jo„o foram logo a Santo

Antonio e trouxeram El-Rei e o Principe seu irm„o a Lisboa, onde a cada

um deram casa com seus officiaes apartados, porque atÈ alli se serviam

ambos juntamente, e n'estes movimentos foi tanta a prudencia e resguardo

d'El-Rei, que sendo de t„o pequena edade, e tendo tanto amor e affeiÁ„o

· Rainha sua madre, como era raz„o, nunca por se vÍr d'ella apartado foi

ninguem que n'elle contra o Infante podesse conhecer algum signal de m·

vontade. Nem que reprendesse ou louvasse os feitos de um nem do outro,

nem com seu escandalo.

Chronica de El-Rei D. Affonso V (Vol. I) · 第 74 / 103 题