_Como a Rainha teve pratica com os seus principaes sobre a ida dos
Infantes a ella e como se foi a Cintra e leixou El-Rei e seu irm„o_
Partidos os Infantes, a Rainha a esses principaes que com ella eram
notificou logo os apontamentos de sua vinda. E assi a conclus„o com que
ficara, e quiz d'elles saber o que lhes parecia, dizendo:
´N„o pode ser mÛr angustia da que meu coraÁ„o tem n'este caso. C· de uma
parte o sentimento e nojo que tenho do Infante D. Pedro me faz desejar
n„o haver cousa no mundo para o poder vÍr, e d'outra segundo o que
sinto, isto È j· quasi privarem-me de meus filhos. Cuja natural piedade
e grande amor que lhes tenho, me constrange n„o os leixar. Especialmente
me obriga muito parecer-me que segurarei com a graÁa de Deus suas
pessoas, de que teria mÛr esperanÁa, e com menos receios, que de andarem
sem mim em poder do Infante D. Pedro. O qual segundo j· descobre sua
grande cubica para reinar, quem duvidaria que para o fazer mais
livremente, n„o lhes encurtara mais cedo as vidas. E n'elle ha muitas
dessimulaÁıes e hipocresias com que tudo saber· mui bem encobrir. Assi
que n'estes dois tamanhos extremos n„o sei qual meio tome, ou ter meus
filhos e andar com elles por sua seguranÁa, e ir com o Infante · melhor
parte sem outro encarrego, ou leixa-los de todo · disposiÁ„o de Deus que
os guarde, e da fortuna boa ou m· que lhes pode vir. O primeiro d'estes
bem sinto que È um bom desejo da alma, a que por ventura consirando tudo
sem paix„o eu devia ser mais conforme. O segundo È apetito do corpo e da
honra, em que sinto tamanhas forÁas, que me inclinam a elle de todo, e
n'esta tamanha diferenÁa e torvaÁ„o a que meu juizo n„o abasta, quero
saber de vÛs o que vos parece.ª.
Os quaes responderam, dizendo:
´Senhora, esta derradeira È a melhor determinaÁ„o que podeis ter, e o
vosso coraÁ„o para qu„o real È, n„o deve soffrer andar sobjeita em poder
de um homem vosso imigo, e que segundo o desamor que vos tem, vos far·
cada dia mil nojos e abatimentos, e a nÛs outros que vos servimos, como
desesperados d'elle em todo bem e mercÍ, ser· raz„o que nÛs vamos ·s
judarias ou fÛra do reino, pois havemos ser d'elle pior tratados que
judeus. O que n„o deveis haver por pequena dÙr e vituperio vosso, e com
isto bem sabeis que ha n'elle praticas e cautellas, para com todo
mostrar ao povo que o faz muito pelo contrairo; porque elle n„o ha mais
mester que favor de vill„os que o tem por idolo. Pelo qual nosso
conselho È, o com que despedistes os Infantes, n„o aceitardes a criaÁ„o
de vossos filhos sem governardes toda a fazenda, e que pois haveis de
ser agravada, que o sejaes de todo, principalmente pois sabeis que a
emmenda d'isto se apressa, e n„o pode j· tardar muito. E pelo que ora
vossos irm„os vos escrevem de Castella, e assi de Portugal o Priol do
Crato e o Marechal, e os outros fidalgos que defendem vossa querella, o
podeis mais claramente vÍr e afirmar, e para seguranÁa de vossos filhos,
sob reverenÁa de vosso juizo, È muito pelo contrairo. C· para o Infante
D. Pedro cumprir seu m·o proposito, se o tem de acabar vossos filhos,
sabei que vossa presenÁa È mais azo, e a melhor encuberta que para isso
pode ter. E por ventura o far· mais levemente, e com menos temor em
vosso poder que no seu. E nas enculcas e espias que j· agora traz
comvosco, de que sabe aqui n„o sÛmente o que fallaes, mas o que cuidaes,
podereis conjecturar se para tal caso achar· ministros. Assi que
leixai-lhe todo o Regimento, e os filhos juntamente atÈ que Deus
queiraª.
N'este conselho contrariou com razıes mui vivas Pero LourenÁo d'Almeida,
AlmotacÈ MÛr do reino, que era presente, desfazendo · Rainha e aos
outros conselheiros com fundamentos mui claros as esperanÁas que tinham
de seus irm„os em Castella, e assim dos fidalgos de Portugal.
Pedindo-lhe que quizesse acceitar o meio que os Infantes lhe tinham
apontado, que segundo a disposiÁ„o do tempo houve por bom. Mas como a
vontade da Rainha, e assi a dos outros estavam para o contrairo
determinadas, n„o aprovaram o conselho de Pero LourenÁo, reputando-lhe
n„o a siso mas a fraqueza por se n„o sahir de sua casa e boa fazenda que
tinha em Lisboa. Pelo qual a Rainha determinou partir-se e leixar seus
filhos, e levar sÛmente as filhas comsigo.
Isto se passou em Santo Antonio a um sabbado, e logo ao domingo a Rainha
mandou chamar secretamente alguns seus de Lisboa, que vieram hi dormir.
E passada a meia noite ouviu missa, e fez alevantar os filhos da cama, e
tomou El-Rei nos braÁos, e com muitas lagrimas lhe disse:
´Filho e Senhor, praza a Deus por sua piedade que vos guarde e vos dÍ
vida, e a mim n„o leixe viva e desamparada de vÛs, como o sou d'El-Rei
meu Senhor vosso padre.ª
E com isto se despediu com tamanho pranto seu e de todos, como se os
leixaram soterrados para os nunca mais vÍr.
El-Rei salteou-se com tamanha novidade, e posto que para isso n„o teve
edade de que se esperasse tamanho accordo, n„o lhe falleceu natural
prudencia e discriÁ„o com que n'aquella hora, com grande repouso e
seguranÁa, e por palavras doces e avisadas, soube confortar a Rainha sua
madre, que se partiu para Cintra, de que o aviso foi logo a Lisboa, e o
Infante D. Anrique como o soube se partiu a gram pressa pela alcanÁar no
caminho, e j· n„o pÙde sen„o no logar d'onde a n„o pÙde mover de seu
proposito, e o Infante D. Pedro e o Infante D. Jo„o foram logo a Santo
Antonio e trouxeram El-Rei e o Principe seu irm„o a Lisboa, onde a cada
um deram casa com seus officiaes apartados, porque atÈ alli se serviam
ambos juntamente, e n'estes movimentos foi tanta a prudencia e resguardo
d'El-Rei, que sendo de t„o pequena edade, e tendo tanto amor e affeiÁ„o
· Rainha sua madre, como era raz„o, nunca por se vÍr d'ella apartado foi
ninguem que n'elle contra o Infante podesse conhecer algum signal de m·
vontade. Nem que reprendesse ou louvasse os feitos de um nem do outro,
nem com seu escandalo.