_Entrada d'El-Rei em Lisboa para as cÙrtes_
Veiu El-Rei por agua atÈ Lisboa e foi recebido · Porta d'Oura, e d'alli
levado · SÈ e aos PaÁos d'AlcaÁova. Indo El-Rei e seu irm„o e os
Infantes sÛmente a cavallo, e os condes e outros senhores foram todos
ante elles, e esse recebimento foi com tantas cerimonias d'acatamento,
obediencia e alegrias assi celebrado, que em qualquer parte do mundo
onde mui altamente recebimentos se costumassem fazer, este fÙra mui
muito louvado, e o Infante D. Pedro foi sÛ o que poz El-Rei a cavallo e
o deceu. O que n„o sÛmente fez aquelle dia, com assignado acatamento e
leal obediencia e grande reverencia, mas sempre depois o continuou e
acrecentou, em dez annos que por elle regeu seus Reinos. C· por si o
serviu e fez aos outros servir com tamanho cumprimento de seu estado e
serviÁo que se n„o pÛde dizer que outro algum Principe fosse melhor
criado no mundo, nem ensinado.
Mandou logo o Infante D. Pedro a Ruy GonÁalves de Castel-Branco, vÈdor
que fÙra d'El-Rei D. Duarte, que fizesse nos paÁos correger em grande
perfeiÁ„o a salla em que El-Rei havia d'estar nas cÙrtes. E concordado o
dia, que foi aos dez dias de Dezembro de quatro centos e XXXIX, e
assentado El-Rei em sua cadeira, e acompanhado de senhores e officiaes,
como para auto t„o real convinha e se acostumava, o doutor Diogo Affonso
Mangancha propoz a arenga em nome d'El-Rei ao povo, cuja principal
sustancia foi: ´aprovar e confirmar a enleiÁ„o por elles feita de o
Infante D. Pedro para por elle reger, e agardecer-lhes e prometer-lhes
mercÍs, honras e liberdades pela assi fazerem, e assi encommendar ao
Infante que o fizesse assi bem e direitamente, como d'elle confiava, e
mandar a todos que lh'obedecessem, como · sua propria pessÙaª.
E em acabando o doutor, o Infante D. Pedro com os giolhos em terra
beijou a m„o a El-Rei, e sua Senhoria lhe entregou logo um p·o em que
estava atado o sello secreto, em signal e nome de poderio. E como se deu
fim a estas cousas, foi logo El-Rei tornado · Rainha sua madre, segando
pelos Infantes lhe fÙra prometido.
O Infante D. Pedro na casa das cÙrtes fez logo ajuntar os do povo e
alguns do conselho, e sendo entre elles em pÈ, lhes disse com muita
gravidade:--´que pelo grande cargo do Regimento que lhe fÙra
encommendado, era necessario elle fazer de si outro homemª.--Pelo qual
lhe fez alguns avisados amoestamentos, em signal de sua grande bondade e
muita prudencia, para os que bem e direitamente vivessem esperassem
d'elle em nome d'El-Rei seu Senhor, bem e mercÍ, e assi pena e castigo
aos que o contrairo fizessem, encommendando-lhes outrosi que o amassem e
lhe obedecessem, e quizessem ajuda-lo e deffende-lo com seus corpos e
fazendas, assi como elle faria a elles mesmos quando lhes cumprisse. E
principalmente que confiassem d'elle que todo o que fizesse seria afim
de bem e justiÁa, em caso que lhes parecesse o contrairo. ¡s quaes
cousas lhe foi por um deputado respondido, conforme a sua tenÁ„o e
petitorio, e o Infante descobrindo sua cabeÁa lh'o agardeceu.
O conde de Barcellos mostrava d'este feito n„o ser contente, e desejoso
de haver para si alguma parte do Regimento, e por enfraquecer ao Infante
seu poder fez e ordenou certos capitulos em fÛrma de Regimento, que o
Infante havia de ter em sua governanÁa. Pelos quaes todolos feitos
principaes tirava de seu juizo e os remetia ·s cÙrtes, que cada anno
apontava que se fizessem. O qual Regimento mostrado aos procuradores dos
povos, houveram por escusado ennovar-se mais do que tinham acordado, e
El-Rei aprovado. De que o conde mostrou ser ass·z descontente, e comeÁou
logo de requerer a restituiÁ„o da posse do Arcebispado ao Arcebispo D.
Pedro seu cunhado; e porque n„o podia ser sem prazer e consentimento dos
cidad„os, que d'elle tinham apellado para Roma, o Infante D. Pedro por
contentar e assessegar vontades contrairas, e tirar inconvenientes e
torvaÁıas a seu regimento, e assi tambem o Infante D. Jo„o, entenderam e
trabalharam n'isto muito com diligencias, que pareciam verdadeiras e n„o
fingidas. E em fim a cidade por Pero de Serpa seu cidad„o, se escusou de
o consentir com muitas razıes, em que pareceu que n„o fallecia serviÁo
de Deus, honestidade e muita justiÁa. Afirmando, que todavia haviam de
seguir sua appellaÁ„o, durando a qual seria o Arcebispo suspenso, e
trabalhariam porque fosse privado, e por esta dureza que os infantes
acharam nos cidad„os, pela mais n„o agravar, houveram por bem leixar por
ent„o este requerimento, esperando que depois se faria melhor, como fez.
De que o conde de Barcellos n„o sÛmente contra os cidad„os, mas contra o
Infante principalmente, mostrou grande sentimento, parecendo-lhe que por
sua conjuntura e prazer a cidade tinha aquelle esforÁo de resistir.
A estas cÙrtes entre as outras graÁas e liberdades que o Infante D.
Pedro em nome d'El Rei outorgou ao povo, foi que n„o houvesse
aposentadoria em Lisboa, fazendo estados e casas, em que se El-Rei e sua
cÙrte podessem alojar; e depois se deu assi a Evora e Santarem.