_Recado da Rainha ao Infante D. Pedro quando de Coimbra vinha para
Lisboa ·s cÙrtes_
O Infante D. Pedro partiu de Coimbra para Lisboa, e com elle ·lem dos de
sua casa, Jo„o Gomez da Silva, e D. Fernando de Menezes, e Alvaro
GonÁalves de Tayde, e D. Fadrique de Castro, e Fern„o Coutinho, irm„o do
marechal, e GonÁalo Vaz Coutinho, meirinho mÛr, e Pero de Lemos, e Jo„o
de Tayde, senhor de Pena Cova, e a gente do Bispo de Coimbra, que faziam
numero de mil e oitocentos homens de cavallo, e dois mil e seiscentos de
pÈ, da qual cousa a Rainha foi avisada, e sendo certificada que o
Infante havia de Torres Vedras ir a Alanquer para comsigo segundo diziam
levar logo El-Rei ·s cÙrtes, e receosa de assi ser, pelo desviar de tal
proposito enviou a elle Anrique Pereira, que o topou em Alfazeir„o,
pedindo-lhe ´que na maneira em que ia escusasse sua ida onde El-Rei e
ella e seus filhos estavam, assi porque pareceria desacatamento, estando
elles t„o sÛs, como por a villa n„o ser capaz de seu aposentamento, e
menos bastante para os manter. E que se sua ida assi era necessaria, que
se n„o podia escusar, que quizesse ir muito aforrado.ª
Como o Infante isto ouviu disse:
´Anrique Pereira, vossa vinda sobre tal caso fÙra bem escusada, e
verdadeiramente assi me salteam estes accidentes, que n„o sei que vos
responda, sÛmente dizei · Senhora Rainha, que me doem muito estas
sospeitas, e porÈm saiba que dos que se mais mostram a seu serviÁo, se
deve mais guardar, pois t„o erradamente a aconselham, e mais contra mim
que desejo mais de a servir que a nojar. E que n„o fallo no que cumpre
ao estado e serviÁo d'El-Rei meu Senhor; porque em desejar de o
lealmente servir e amar, n„o darei avantagem a nenhum do mundo.
E com este recado se tornou Anrique Pereira · Rainha.
Seguiu o Infante sua viagem atÈ o Lumiar, onde a petitorio dos da cidade
de Lisboa, que ante de sua entrada quizeram fallar primeiro com elle,
sobre-esteve alguns dias. Aos quaes com palavras de grande
aguardecimento e mercÍs, tendo respondido, despediu a gente que com elle
viera, leixando sÛmente os seus continos e alguns que para as cÙrtes
vinham ordenados.
Lisboa porque seus accordos eram mui difficeis, e para os particulares
n„o havia perfeita auctoridade, deputou doze cidad„os, a que por
consentimento de todos o conselho e deliberaÁ„o de todalas cousas de
peso, que ent„o occorriam foi comettido. Os quaes juntos sustancialmente
accordaram que o Infante fosse logo declarado por Regedor in solido, sem
outra ajuda nem companhia, atÈ El-Rei ser em idade de per si o poder
reger. E este accordo foi publicado a todo o povo no refeitorio de S.
Domingos, onde logo com vozes e signaes de todos foi sem contradiÁ„o
approvado e consentido.
E os cidad„os enviaram logo ao Infante Pero de Serpa, e Martim «apata, e
Ruy Gomez da Gr„, e Jo„o Carreiro a notificar-lhe o accordo passado, e
pedir-lhe que ao outro dia quizesse entrar e ser seu hospede, com
fundamento, que primeiro havia de prometter e jurar que logo sÛ sem
outra companhia nem ajuda comeÁasse uzar do Regimento inteiramente. O
Infante depois de lhes aguardecer sua ida e tenÁ„o, lhes disse:
´Amigos, sabei que n'este caso acordastes mais o que quizestes, que o
que devieis; porque eu n'elle para o que a mim cumpre tambem n„o posso
fazer se n„o o que devo, que È d'este cargo n„o me antremeter assi
absolutamente, sem meus irm„os e sobrinhos, e sem os procuradores dos
tres Estados que para isso s„o chamados. Porque do contrairo, a uns ser·
desacatamento, e a outros causaria escandalo. Pelo qual me parece que a
triganÁa para isso n„o È agora necessaria; mas que deveis sobre-ser atÈ
as cÙrtes que ser„o logo. E o que n'ellas se accordar e determinar, isso
ser· o que se ent„o deve fazer e cumprirª.
´Senhor, disseram elles, essas justificaÁıes de que vossa honestidade se
acautella, bem era que cessem assi; mas ellas para este caso j· s„o
feitas; porque das cidades e villas, que n'elle h„o de dar voz, aqui
temos por suas cartas seus consentimentos. E para o cumprimento de
vossos irm„os, aqui tendes vosso irm„o o Infante D. Jo„o que o requere
assi e ha por bem. E com os outros j· fallastes, que o n„o contradizem.
E por tanto Senhor, vos pedimos que n„o alongueis o que vos t„o justa e
devidamente offerecemos. Nem deis causa que de vossa escusa se sigam
alvoroÁos e desconcertos de povo, que ser„o depois impossiveis, ou mui
trabalhosos de concertar.ª