CAPITULO XLIV

_Embaixada dos Infantes · Rainha_

Alli estiveram os Infantes alguns dias, e com elles o conde de Barcellos

seu irm„o. E para com mais repouso e menos torvaÁ„o proverem as cousas

do reino, se foram ao logar da Pereira, onde accordaram que o conde de

Barcellos fosse · Rainha requerer-lhe com razıes ass·s justas e

necessarias, que fosse ·s cÙrtes de Lisboa que haviam de ser o

derradeiro dia de Novembro. E que se para sua ida e dos seus quizesse

alguma seguranÁa, ainda que n„o fosse necessaria, lh'a dariam na fÛrma

que apontasse.

Partiu o conde de Barcellos para Alanquer, e por seu aviso, no dia que

chegou foi ahi com elle seu filho o conde d'Arrayollos, que estando

comendo se ajuntaram em sua casa por modo de visitaÁ„o as pessoas

principaes que hi eram. O conde lhes estranhou logo com palavras

honestas e razıes mui efficazes, os alvoroÁos que na villa faziam de

vellas e roldas, e tomamento d'armas aos vassallos, que pareciam comeÁos

de guerra, e como cousa feita por errado conselho a fez amansar, e

tornar todo a estado pacifico. Foi logo o conde fallar · Rainha, e lhe

disse:

´Senhora, os Senhores Infantes meus irm„os e eu, acordamos de eu vir a

vÛs para sustancialmente saberdes que para concordia e bom assento dos

grandes movimentos e negocios, que ora s„o n'estes reinos, assi do

Regimento d'elles, como da cisma dos Papas e livramento do Infante D.

Fernando, È mui necessario fazer-se cÙrtes geraes ante do saimento, ·s

quaes È bem que El-Rei nosso Senhor e vÛs vades. E elles e eu assi vo-lo

pedimos que o queiraes fazer.

´A mim prazera, respondeu a Rainha ir ·s cÙrtes como requereis, se ante

d'ellas as cidades e villas do reino revogarem a enleiÁ„o do Regimento

que tem feita ao Infante D. Pedro, e elle a renunciar. E mais por quanto

alguns fidalgos e outras pessoas por juramento s„o obrigados, assi a mim

como a elle, de sosterem a parte que seguirmos, È bem que tudo isto se

revogue, para uns e outros poderem livremente dizer e conselhar o que

lhes parecer serviÁo de Deus e d'El-Eei meu filho Senhor, e bem de seus

reinos. E se isto primeiro assi se n„o faz, eu por alguma maneira n„o

irei ·s cÙrtes.ª

Com esta resposta assignada pela Rainha se partiu o conde para Coimbra,

onde achou sÛmente o Infante D. Pedro. O qual depois de a vÍr, disse:

´A inclinaÁ„o que os povos sem mim e meu requerimento acordaram, elles

pois tem o poder se o assi houverem por bem a revoguem. E para isso È

mais raz„o e mÛr necessidade que a Rainha v· ·s cÙrtes, onde por ella e

por aquelles que seguem sua vontade se poder· acerca d'isso requerer o

que lhes parecer direito e justiÁa, e eu o n„o contradirei. C· em caso

que quizesse, hi haver· taes pessoas para sostimento de tamanha justiÁa

e honestidade, que minha resistencia aproveitaria pouco. E quanto ao

juramento de que aponta que releve os que seguem minha parte, seja certa

que com verdade nunca se achar· um sÛ, que para tal obrigaÁ„o me seja

obrigado, e se alguns o s„o, n„o È por semelhante forÁa, nem contra suas

vontades, mas sÛmente por criaÁ„o ou bemfeitoria que de mim tem

recebido.ª

O conde de Barcellos se foi logo a Guimar„es, onde fez ajuntar D.

Sancho, e o Arcebispo de Braga, e Vasco Fernandes, e Martim Vaz da

Cunha, e Pero Gomez d'Abreu, e Lionel de Lima, e Alvaro Pirez de Tavora,

e Luiz Alvarez de Souza, que segundo geral opini„o seguiam todos a parte

da Rainha, e com elles concertou que escusassem sua ida ·s cÙrtes, posto

que elle fosse, e que em qualquer forma que a qualquer parte ficasse o

Regimento, sempre seria com seguranÁa de suas honras, e esperanÁa de

mais seu acrecentamento.

Chronica de El-Rei D. Affonso V (Vol. I) · 第 67 / 103 题