_Embaixada dos Infantes · Rainha_
Alli estiveram os Infantes alguns dias, e com elles o conde de Barcellos
seu irm„o. E para com mais repouso e menos torvaÁ„o proverem as cousas
do reino, se foram ao logar da Pereira, onde accordaram que o conde de
Barcellos fosse · Rainha requerer-lhe com razıes ass·s justas e
necessarias, que fosse ·s cÙrtes de Lisboa que haviam de ser o
derradeiro dia de Novembro. E que se para sua ida e dos seus quizesse
alguma seguranÁa, ainda que n„o fosse necessaria, lh'a dariam na fÛrma
que apontasse.
Partiu o conde de Barcellos para Alanquer, e por seu aviso, no dia que
chegou foi ahi com elle seu filho o conde d'Arrayollos, que estando
comendo se ajuntaram em sua casa por modo de visitaÁ„o as pessoas
principaes que hi eram. O conde lhes estranhou logo com palavras
honestas e razıes mui efficazes, os alvoroÁos que na villa faziam de
vellas e roldas, e tomamento d'armas aos vassallos, que pareciam comeÁos
de guerra, e como cousa feita por errado conselho a fez amansar, e
tornar todo a estado pacifico. Foi logo o conde fallar · Rainha, e lhe
disse:
´Senhora, os Senhores Infantes meus irm„os e eu, acordamos de eu vir a
vÛs para sustancialmente saberdes que para concordia e bom assento dos
grandes movimentos e negocios, que ora s„o n'estes reinos, assi do
Regimento d'elles, como da cisma dos Papas e livramento do Infante D.
Fernando, È mui necessario fazer-se cÙrtes geraes ante do saimento, ·s
quaes È bem que El-Rei nosso Senhor e vÛs vades. E elles e eu assi vo-lo
pedimos que o queiraes fazer.
´A mim prazera, respondeu a Rainha ir ·s cÙrtes como requereis, se ante
d'ellas as cidades e villas do reino revogarem a enleiÁ„o do Regimento
que tem feita ao Infante D. Pedro, e elle a renunciar. E mais por quanto
alguns fidalgos e outras pessoas por juramento s„o obrigados, assi a mim
como a elle, de sosterem a parte que seguirmos, È bem que tudo isto se
revogue, para uns e outros poderem livremente dizer e conselhar o que
lhes parecer serviÁo de Deus e d'El-Eei meu filho Senhor, e bem de seus
reinos. E se isto primeiro assi se n„o faz, eu por alguma maneira n„o
irei ·s cÙrtes.ª
Com esta resposta assignada pela Rainha se partiu o conde para Coimbra,
onde achou sÛmente o Infante D. Pedro. O qual depois de a vÍr, disse:
´A inclinaÁ„o que os povos sem mim e meu requerimento acordaram, elles
pois tem o poder se o assi houverem por bem a revoguem. E para isso È
mais raz„o e mÛr necessidade que a Rainha v· ·s cÙrtes, onde por ella e
por aquelles que seguem sua vontade se poder· acerca d'isso requerer o
que lhes parecer direito e justiÁa, e eu o n„o contradirei. C· em caso
que quizesse, hi haver· taes pessoas para sostimento de tamanha justiÁa
e honestidade, que minha resistencia aproveitaria pouco. E quanto ao
juramento de que aponta que releve os que seguem minha parte, seja certa
que com verdade nunca se achar· um sÛ, que para tal obrigaÁ„o me seja
obrigado, e se alguns o s„o, n„o È por semelhante forÁa, nem contra suas
vontades, mas sÛmente por criaÁ„o ou bemfeitoria que de mim tem
recebido.ª
O conde de Barcellos se foi logo a Guimar„es, onde fez ajuntar D.
Sancho, e o Arcebispo de Braga, e Vasco Fernandes, e Martim Vaz da
Cunha, e Pero Gomez d'Abreu, e Lionel de Lima, e Alvaro Pirez de Tavora,
e Luiz Alvarez de Souza, que segundo geral opini„o seguiam todos a parte
da Rainha, e com elles concertou que escusassem sua ida ·s cÙrtes, posto
que elle fosse, e que em qualquer forma que a qualquer parte ficasse o
Regimento, sempre seria com seguranÁa de suas honras, e esperanÁa de
mais seu acrecentamento.