CAPITULO XLIII

_Dissens„o que a Rainha procurou d'haver entre o Infante D. Pedro e o

Infante D. Anrique_

Sentindo a Rainha que o Infante D. Anrique, com quanto se mostr·ra

sempre a seu serviÁo, seguia acerca do Regimento a parte do Infante D.

Pedro. Por causar entre elles suspeita e differenÁa em sua conformidade.

Ou por ventura e mais certo, por lh'o fazerem assi crÍr. Escreveu

secretamente de sua m„o ao Infante D. Anrique que se n„o fiasse do

Infante D. Pedro. Porque elle para haver com menos impedimento o

Regimento que procurava, e mais soltamente usar d'elle, como era sua

vontade, sabendo que n„o havia no reino de quem esperasse contradiÁ„o,

salvo d'elle, soubesse certo que o queria prender, de que sua vida n„o

estaria muito segura. E ante que a carta d'este aviso fosse dada ao

Infante D. Anrique, que estava em Soure, o Infante D. Pedro, que era em

MontemÛr-o-Velho, por meios secretos que trazia, foi d'ella primeiro

sabedor. E para preservar a vontade do irm„o, que com tamanha falsidade

contra elle em alguma maneira se n„o damnasse, partiu a gram pressa e

mui aforrado, e lhe foi fallar, n„o lhe revelando cousa alguma da carta

que lhe havia de vir; mas acceitando geralmente seu coraÁ„o, com a

firmeza de seu amor e amizade, para os movimentos e desaccordos que se

lhe aparelhavam. Pedindo-lhe, que se contra elle viessem a suas orelhas

algumas cousas, que a isto contrariassem, que as n„o recebesse em seu

juizo, e d'elle cresse que o amava como a si mesmo.

O Infante D. Anrique n„o se saltou muito com aquella vinda; porque lhe

parecia que os tempos e as mudanÁas d'elles o causavam e requeriam. E

porÈm com palavras que em siso e prudencia, e confianÁa n„o desacordaram

das do Infante seu irm„o, lhe respondeu e o despediu.

A dois dias que o Infante D. Pedro se partiu, chegou Martim de Tavora ao

Infante D. Anrique com a carta da Rainha que disse. E como a viu,

maravilhado da sustancia d'ella, se foi logo a Coimbra sÛ, onde j· era o

Infante D. Pedro. Ao qual mostrando-lhe a carta disse:

´VÍde senhor irm„o o que me escreve a Rainha; mas porque vejaes bem o

temor que tenho de vÛs, venho assi percebido e seguro a vossa casa.ª

E o Infante D. Pedro rindo-se, e com mostranÁa de grande amor, o abraÁou

e lhe disse:

´Senhor irm„o, n„o me espanto taes tempos e taes vontades criarem fruita

t„o nova. E porque sabia j· que vos haviam de convidar com ella, sem

vo-lo dizer vos fui falar. C· n„o eram a outro fim as cautellas da

seguranÁa que vos de mim fui dar; porque ainda que sobre tanta raz„o e

firmeza pareciam ent„o escusadas. Sabei que o receio d'este damnamento

as n„o escusou. E porÈm a pris„o que vÛs aqui recebereis ser· a honra e

amor que de mi sempre recebestes, e me vÛs mui bem mereceis.

Chronica de El-Rei D. Affonso V (Vol. I) · 第 66 / 103 题