_Dissens„o que a Rainha procurou d'haver entre o Infante D. Pedro e o
Infante D. Anrique_
Sentindo a Rainha que o Infante D. Anrique, com quanto se mostr·ra
sempre a seu serviÁo, seguia acerca do Regimento a parte do Infante D.
Pedro. Por causar entre elles suspeita e differenÁa em sua conformidade.
Ou por ventura e mais certo, por lh'o fazerem assi crÍr. Escreveu
secretamente de sua m„o ao Infante D. Anrique que se n„o fiasse do
Infante D. Pedro. Porque elle para haver com menos impedimento o
Regimento que procurava, e mais soltamente usar d'elle, como era sua
vontade, sabendo que n„o havia no reino de quem esperasse contradiÁ„o,
salvo d'elle, soubesse certo que o queria prender, de que sua vida n„o
estaria muito segura. E ante que a carta d'este aviso fosse dada ao
Infante D. Anrique, que estava em Soure, o Infante D. Pedro, que era em
MontemÛr-o-Velho, por meios secretos que trazia, foi d'ella primeiro
sabedor. E para preservar a vontade do irm„o, que com tamanha falsidade
contra elle em alguma maneira se n„o damnasse, partiu a gram pressa e
mui aforrado, e lhe foi fallar, n„o lhe revelando cousa alguma da carta
que lhe havia de vir; mas acceitando geralmente seu coraÁ„o, com a
firmeza de seu amor e amizade, para os movimentos e desaccordos que se
lhe aparelhavam. Pedindo-lhe, que se contra elle viessem a suas orelhas
algumas cousas, que a isto contrariassem, que as n„o recebesse em seu
juizo, e d'elle cresse que o amava como a si mesmo.
O Infante D. Anrique n„o se saltou muito com aquella vinda; porque lhe
parecia que os tempos e as mudanÁas d'elles o causavam e requeriam. E
porÈm com palavras que em siso e prudencia, e confianÁa n„o desacordaram
das do Infante seu irm„o, lhe respondeu e o despediu.
A dois dias que o Infante D. Pedro se partiu, chegou Martim de Tavora ao
Infante D. Anrique com a carta da Rainha que disse. E como a viu,
maravilhado da sustancia d'ella, se foi logo a Coimbra sÛ, onde j· era o
Infante D. Pedro. Ao qual mostrando-lhe a carta disse:
´VÍde senhor irm„o o que me escreve a Rainha; mas porque vejaes bem o
temor que tenho de vÛs, venho assi percebido e seguro a vossa casa.ª
E o Infante D. Pedro rindo-se, e com mostranÁa de grande amor, o abraÁou
e lhe disse:
´Senhor irm„o, n„o me espanto taes tempos e taes vontades criarem fruita
t„o nova. E porque sabia j· que vos haviam de convidar com ella, sem
vo-lo dizer vos fui falar. C· n„o eram a outro fim as cautellas da
seguranÁa que vos de mim fui dar; porque ainda que sobre tanta raz„o e
firmeza pareciam ent„o escusadas. Sabei que o receio d'este damnamento
as n„o escusou. E porÈm a pris„o que vÛs aqui recebereis ser· a honra e
amor que de mi sempre recebestes, e me vÛs mui bem mereceis.