_Partida do Arcebispo D. Pedro fÛra do reino_
D. Pedro, Arcebispo de Lisboa, era na Alhandra anojado pela privaÁ„o dos
cubellos da cidade, como j· disse; onde fallando com um Affonso Martins,
ourives, que da cidade sobre cousas de suas rendas fÙra com elle
negociar, tocou os accordos e movimentos da cidade com palavras de
doesto dos cidad„os e povos d'ella; ameaÁando-os com cerco poderoso de
gentes estrangeiras, e com outros muitos males e deshonras, de que os em
pessoa d'aquello logo certificava, e que n„o tardariam muito,
congeiturando de sua confianÁa e favorecendo sua ameaÁa em alguns do
reino e em outros muitos de fÛra d'elle, que eram os infantes d'Arag„o e
sua valÌa. A qual cousa o ourives respondeu bem e avisadamente,
esforÁando se em lhe n„o parecer direito de sua verdadeira vontade;
porque d'elle n„o era de crÍr cousa que tanto contrariava a seu sangue e
habito, e na bemfeitoria e mercÍ que d'El-Rei D. Jo„o e de seus reinos
tinha recebido.
Com o sentimento e juizo que o ourives tomou da tenÁ„o do Arcebispo, se
tornou · cidade, onde o logo fez saber na camara d'ella. E por isso, e
por se provar em uma inquiriÁ„o que se contra o Arcebispo tirou, que
brasfemara do Senhor que o fizera, a cidade com sua cleresia appellaram
d'elle e o suspenderam de suas rendas e dinidade; e se enviaram queixar
d'elle · SÈ Apostolica por um Jo„o LourenÁo Farinha, cidad„o e pessoa de
saber e auctoridade, com supplicatorias em nome d'El-Rei e dos Infantes.
Pelo qual o Arcebispo se quizera colher a Obidos, e os da villa com sua
suspeita o n„o quizeram n'ella receber.
E elle vendo que os feitos se inclinavam j· contrairos de seu proposito
e desejo, se partiu para Castella, d'onde depois foi retornado como se
dir·.
A Rainha sendo j· certificada da determinaÁ„o em que o povo estava de
lhe tirar o Regimento e da-lo ao Infante, sendo assi aconselhada por
aquelles que a serviam, escreveu aos fidalgos que sostinham sua parte
que n„o viessem ·s cÙrtes, e se escusassem como melhor vissem; e
enviassem a ella procuraÁıes abastantes com suas protestaÁıes de n„o
outorgarem nem obedecerem em cousa que se n'ellas accordasse. E elles
assi o fizeram, os quaes eram o Arcebispo de Braga, o Priol do Crato, o
marechal D. Duarte, senhor de BraganÁa, D. Duarte de Menezes, Fern„o
Coutinho, GonÁallo Pereira de Riba-Vizella, Alvaro Pirez de Tavora,
Diogo Soarez d'Albergaria, Fern„o Soarez, Ruy Vaz Pereira, Luiz Alvares
de Sousa, Pero Gomes d'Abreu, Lyonel de Lima, Gomes Freire, Lopo Vaz de
Castel-Branco, Martim Affonso de Mello, Diogo Lopes Lobo, Fern„o de S·,
Jo„o de GouvÍa, D. Sancho de Noronha, e alguns filhos d'estes, e outras
algumas pessoas d'outra condiÁ„o.
Mas como quer que estes n„o viessem ·s cÙrtes, posto que fossem t„o
grandes pessoas, ellas n„o se leixaram de fazer, nem elles recusaram
obedecer inteiramente ·s determinaÁıes d'ellas. Que por aquelle tempo,
ainda que os fidalgos muito valessem, n„o era seu valor para contrariar
a vontade dos filhos e netos d'El-Rei D. Jo„o, com que o reino e todalas
cousas d'elle, por amor e raz„o logo pendiam.