_Como o castello de Lisboa foi pela cidade tomado e dado ao Infante D.
Jo„o, e o que se n'isso seguiu_
D. Affonso, senhor de Cascaes, e D. Fernando seu filho sostinham a parte
da Rainha; e porque D. Affonso era alcaide mÛr de Lisboa, tanto que
sentiram as voltas da cidade contrairas a sua tenÁ„o se meteram no
castello, e com elles alguns fidalgos seus amigos e outra gente de sua
criaÁ„o: e comeÁaram logo de poer n'elle grandes avisos de guardas de
dia, e vellas e roldas publicas de noite. E os da cidade vendo tal
novidade, e sendo certificados de muitas ameaÁas e palavras deshonestas
que as vellas contra elles diziam, como sentidos d'isso acordaram de ir
combater o castello. Mas o Infante D. Jo„o por evitar escandalos e
damnos que se podiam d'isso seguir, por ent„o os impediu; e tomou o
cargo de assessegar se podesse esta alteraÁ„o, por meio de D. Maria de
Vasconcellos, mulher de D. Affonso, a qual por consentimento, e com
seguridade do povo lhe veiu fallar ·s casas da Moeda. Onde o Infante com
palavras mui honestas e virtuosas lhe apontou, que por assessego de
tantos alvoroÁos e uniıes, quantos na cidade via contra seu marido e
filho, fizesse com elles que lhe entregassem o castello, ou consentissem
por sua seguranÁa, que o Infante pousasse dentro, e elles tivessem suas
forÁas e menagem.
D. Maria com este recado se veiu ao castello, e depois de sobre tudo
haverem suas praticas e conselhos, ella tornou ao Infante com resposta e
determinaÁ„o de seu regimento. A qual brevemente foi elles n„o
entregarem o castello, nem receberem outrem n'elle, nem se sahirem
d'elle.
Verdade È que o pae logo consentira em alguns dos meios apontados; mas o
filho por ser mancebo, em que o sangue e pontos de honra ferviam, o
houve por abatimento e o estorvou, especialmente porque havia o partido
da Rainha que seguiam, por mais esforÁado que o do Infante D. Pedro que
contrariavam; e juntamente com isto D. Maria disse ao Infante D. Jo„o:
´Senhor, se vossa mercÍ tanto desejo tem d'haver este castello, n„o sei
porque o n„o tem d'haver tambem quantos outros ha no reino; pois est· em
vossa m„o, e o podeis fazer, e para certid„o d'isto a Rainha minha
Senhora vos envia por mim dizer, que ella È t„o magoada das sem razıes
que o Infante D. Pedro contra ella tem feitas, e cada dia ordena, que
antes se despoeria a todolos trabalhos e perigos do mundo, que consentir
ser elle Regedor d'estes reinos. E que para verdes que o n„o faz por
ella desejar para si o regimento, È mui contente que o hajaes vÛs. E
para isso renunciar· o direito que n'elle tem; pois sabeis que È todo o
que de raz„o e justiÁa se requere. E mais lhe praz que El-Rei nosso
Senhor seu filho case com D. Isabel vossa filha: e que d'aqui em diante
vos ter· em lugar de padre, para por este respeito e assi por ser j·
mulher d'El-Rei vosso irm„o, que vos tanto amou, olhardes por ella e por
suas cousasª.
O Infante sorrindo-se das derradeiras palavras de D. Maria lhe disse:
´D. Maria, porque vos responda segundo logo comeÁastes, a mim pesa de
vosso marido e filho n„o consentirem em alguma das cousas que lhe por
vÛs enviei apontar; Deus sabe que eu o fazia por seu bem; se lhes d'isso
sobrevier algum mal pesar-me-ha; mas eu sem cargo. E quanto das outras
cousas que da parte da Senhora Rainha me dissestes, dizei a sua Senhoria
que nunca Deus queira nem querer· que entre os filhos d'El-Rei D. Jo„o,
que nas mocidades em tanto amor e concordia se criaram, seja agora
semeada tal cizania, porque se desamem e desconcertem; eu haveria temor
de Deus e vergonha do mundo, n„o digo acceitar, mas sÛmente lembrar-me
d'acceitar o Regimento do reino, em que tivesse dois irm„os mais velhos,
e taes para isso, como s„o o Infante D. Pedro, e o Infante D. Anrique. E
quanto ao casamento d'El-Rei meu Senhor com minha filha n„o sendo o caso
como È, certo seria a maior honra e o mÛr acrecentamento que eu poderia
desejar. De uma cousa sede bem certa, que com melhor vontade e menos
sentimento meu soffreria ve-la no mundo em uma publica dissoluÁ„o, que
Deus n„o queira, que casa-la por tal maneira, contra a honra e vontade
do Infante meu irm„o, que me tem e eu lhe tenho mui verdadeiro amor. C·
n„o sÛmente erraria a elle, por ter j· n'isso entendido e ser cousa mui
razoada, mas ainda desobedeceria · alma e mandado d'El-Rei meu Senhor e
irm„o que Deus haja. Cuja vontade, assi na vida como na morte, sabeis
que foi este casamento d'El-Rei nosso Senhor seu filho, com a filha do
Infante meu irm„o se fazer em toda maneira. E por isso esta È a raz„o
que se faÁa, e n„o se deve contrariar. Mas vÛs dizei · Senhora Rainha,
que sem isto que me por vÛs manda cometer, me tem sua mercÍ por fiel e
certo seu servidor, e lhe peÁo por mercÍ que queira viver como È raz„o,
e n„o curar de cousas que a ella nem ao reino n„o cumprem. E vÛs por seu
bem e assessego, e com vossa discriÁ„o assi lh'o deveis d'aconselharª.
E com isto a despediu.
Os da cidade vendo a contumacia e ousadia de D. Affonso, receosos de
poder ser com algum fundamento que a elles podesse ao diante trazer
damno e perigo, por accordo geral que sobr'isso houveram, foram cercar o
castello e o vallaram d'arredor, e lhe pozeram estancias e guardas para
que de noite nem de dia n„o entrasse nem sahisse d'elle alguma pessoa,
nem os de dentro podessem receber soccorro, aviso, nem mantimentos.
E porque D. Affonso e seu filho com sua gente entr·ram no castello de
subito, sem percebimento de mantimentos, vendo se apertados da
necessidade e perigo, e frouxos de esperanÁa de remedio, leixou o
castello ao Infante D. Jo„o com algumas seguranÁas que requereu, e se
foi para a Rainha.