CAPITULO XXXIX

_NotificaÁ„o do dito accordo · Rainha, que o contrariou, e assi aos

Infantes e ao reino_

Concordado e assignado este accordo, a cidade o notificou logo · Rainha

com fundamentos e causas justas e honestas, e com palavras do mÛr

acatamento seu, que no caso cabiam. A qual lhes respondeu com uma

notavel justificaÁ„o, desfazendo e anichilando particularmente todalas

cousas do acordo, denegando-lhe em todo a auctoridade para tal poderem

fazer, sem ajuntamento e concordia dos tres Estados do Reino,

encomendando-lhes a revogaÁ„o do accordo com algumas protestaÁıes e

cautellas dos damnos, se sobr'isso viessem.

N„o sÛmente a cidade de Lisboa notificou este accordo · Rainha, mas logo

aos Infantes D. Pedro e D. Anrique, e condes; e assi ·s cidades e villas

do reino. E o Infante D. Pedro lhes respondeu agardecendo-lhes com

palavras mui graciosas seu proposito, e offerecendo-se com outras de

muito peso e discriÁ„o, aceitar o Regimento e seguir jurar e manter as

condiÁıes do acordo. No qual isso mesmo as cidades e villas do reino

sustancialmente consentiram. E principalmente a cidade do Porto por ter

aquello mesmo dias havia determinado.

Mas o Infante D. Anrique na resposta que sobr'isso enviou, n„o mostrou

ser do accordo contente, n„o por erro da sustancia d'elle, mas no modo

que tiveram, por tomarem em tal caso a autoridade e poder que aos tres

Estados do Reino em cÙrtes era sÛmente reservado, conforme ao que a

Rainha apont·ra, concludindo em remeter seu acordo e tenÁ„o para as

cÙrtes que se logo esperavam, onde tudo bem visto e consirado se faria o

que fosse mais serviÁo de Deus e d'El-Rei, e bem de seus reinos,

amoestando-os finalmente para paz e assessego, poendo-lhes os

inconvenientes da divis„o. E mais de si mesmo justificando tudo com

palavras e razıes de tanta autoridade, que bem pareciam dinas de tal

Principe. E que sobretudo iria a Coimbra fallar ao Infante D. Pedro, e

ao conde de Barcellos seus irm„os, e a conclus„o que tomassem lhes faria

logo saber.

D'esta resposta do Infante D. Anrique n„o foram os da cidade contentes;

e muito menos o Infante D. Jo„o que n'ella era presente, o qual tomou

cargo de responder, como respondeu por ella a seu irm„o, em que lhe

afirmou o acordo se fazer e divulgar com sua autoridade, justificando

com vivas razıes todolos passos d'elle, tocando mui verdadeiramente para

assi ser as necessidades em que o reino estava e danos que recebia por a

multid„o e divis„o dos Regedores; e quanto um era mais necessario e

proveitoso, o qual n„o podia nem devia ser, salvo o Infante D. Pedro seu

irm„o, por as calidades que n'elle para isso havia, que logo apontou

dinas d'outro Regimento maior. Pedindo emfim, que com elle quizesse

dizer:--_Confirmat hoc Deus, quod operatus est in nobis._--

D'este acordo de Lisboa pesou muito ao conde de Barcellos; e comquanto

era assaz discreto e avisado, em recebendo a acta da cidade, n„o pÙde

dessimullar o desprazer e sentimento que por isso recebia. E n„o era por

singular affeiÁ„o que tivesse · Rainha, nem por sentir que em ser o

Infante D. Pedro Regedor era perda ou damno do reino; mas sÛmente

segundo juizo commum e especiaes, que se depois seguiram, era com

respeitos de seu interesse particular; de que porventura lhe dava mais

esperanÁa a brandura da Rainha governando, que o rigor e justiÁa do

Infante regendo.

Chronica de El-Rei D. Affonso V (Vol. I) · 第 62 / 103 题