Seria longo enumerar todos os aspectos sociaes em que divergem, já neste

momento, os povos brasileiro e português. Não ha, porém, duvida alguma

de que a causa primordial desse facto, que a fatalidade do menor esforço

ha de estender e ampliar de dia para dia, é o espirito americano, que

incorporou, afinal, na consciencia continental, a consciencia

brasileira.

Os povos de toda a America sentem que têm destinos communs no

desenvolvimento da humanidade.

O Brasil não podia deixar de commungar nesse sentimento. Em todas as

manifestações da sua vida actual é facil reconhecel-o:

É o resultado da acção exercida pelos Estados-Unidos, cuja constituição,

«sobre a qual são vasadas _todas_ as constituições politicas dos povos

americanos», creou um direito novo, _sui generis_.

_Sui generis_ é, com effeito. A capacidade juridica da mulher, que na

Europa não é completa nem na Gran-Bretanha, é-o nos Estados-Unidos.

«Póde praticar qualquer acto juridico ou extra-judicial independente da

auctorização do marido», diz Arthur Orlando.

A essa corrente obedeceram, no debate recente de um projecto de lei

regulador da dissolução do vinculo conjugal, alguns dos mais adeantados

legisladores brasileiros.

Á liberdade de testar, principio inherente á formação individualista dos

povos anglo-saxonios, tem de se attribuir o dispositivo da lei

brasileira de 31 de Dezembro de 1907, que confére «ao testador, que

tivér descendente ou ascendente successivel, a faculdade de dispôr de

metade dos seus bens», em vez da terça parte.

É um passo dado para a conquista de mais essa liberdade, á qual, em

grande parte, devem ingleses e _yankees_ a sua iniciativa e, portanto, o

exito na lucta pela vida.

Nós, latinos, avergados ao pavor do principio da auctoridade,

veneradores do estado providencia, picados da tarantula romana das

conquistas e da partilha das presas, revendo na gloria das armas a fórma

ancestral e exclusiva de triumphar--estamos hoje, como ha trezentos

annos, naquella these de que a herança é um dever que os paes cumprem

para com os filhos.

Não é, porém, só isso.

Ao mesmo espirito já era devida a instituição:

1.^o Do _habeas-corpus_, no estatuto basico da Republica, art.^o 72 §

22;

2.^o Da responsabilidade do chefe da nação por meio do _impeachment_ ou

accusação pela camara, art.^{os} 53 e 54;

3.^o Da competencia privativa do poder legislativo para orçar a receita

e fixar a despeza, art.^o 34 § 1.^o, e para resolver definitivamente

sobre os tratados e convenções com as nações estrangeiras, art.^o 34 §

12.^o;

4.^o Da indissolubilidade do Congresso[32], da sua reunião de direito

proprio, e da faculdade privativa de deliberar sobre a prorogação e

adiamento das suas sessões, art.^o 17 e seus §§;

5.^o Da concessão aos estrangeiros de todos os direitos pelo art.^o 72

dados aos nacionaes, entre os quaes a liberdade de cultos e o ensino

publico leigo.

Em Portugal nada disso existe. Como se ha de querer que caminhem

parallelamente povos que divergem tão radicalmente nos seus costumes

politicos e nas suas concepções juridicas?

Pura utopía! Vêde o que contrapômos a esses cinco pontos enumerados

acima:

1.^o Não ha garantias que defendam os cidadãos contra o arbitrio da

auctoridade: o juizo de instrucção criminal--por suspeitas e

denuncias!--prendeu, por quasi tres mezes, quatro homens, para o

inquerito sobre o regicidio;

2.^o A irresponsabilidade do chefe da nação é constitucional; o caso dos

adeantamentos estereotypa o nosso estado em materia de responsabilidades

dos proprios ministros, _responsaveis_, segundo a ficção legal;

3.^o A dictadura financeira é a regra, a que só se foge «quando os ares

andam turvos»: o orçamento, confessaram-no todos os partidos

portugueses, é uma mentira; quanto á competencia do parlamento, em

materia de tratados, basta citar o caso mais recente, o tratado

luso-sul-africano, em que ao poder legislativo... se reservou a nobre

funcção de não o discutir sequer;

4.^o A camara electiva em Portugal foi dissolvida quasi systematicamente

durante o reinado do rei Carlos, já o foi neste e quanto a prorogações e

adiamentos só se não dão os que o governo não quer; as côrtes não se

reunem de direito proprio; é o rei que as convoca;

5.^o Dos direitos do estrangeiro em Portugal avalie-se pela expulsão de

Souza Carneiro, Salmerón e Francisco Ferrer, entre muitos mais; a

liberdade religiosa aquilata-se pelo julgamento recente de um jornalista

republicano em Vizeu; o ensino leigo define-se pela obrigação de recitar

préces catholicas nos actos da Universidade. É verdade que, antes de

jurar defender a Patria, o rei tem de jurar, pela Carta, manter a

religião catholica, apostolica, romana!...

Isto tudo acontece neste paiz de gloriosas tradições, regido por

formulas já esquecidas pela maioria dos povos civilizados.

Será, por acaso, a nossa terra uma das _wasted countries_ (paizes

desperdiçados, não utilizados) a que alludiu, ha annos, sir John

Lubbock?

Será um desses estados para que o patricio e nosso tristemente conhecido

marquez de Salisbury aconselhava a expropriação por utilidade

internacional?

Dir-se-ia Portugal transferido para os trópicos, cuja herança, no dizer

de Kidd, está sendo agora disputada, depois da conquista da terra

habitavel pela raça branca.[33]

XIV

A APPROXIMAÇÃO

Não é facil comprehender como o conjuncto de leis, costumes e pendores,

que acabamos de summariar e indicar á attenção dos homens de

intelligencia e boa vontade, tivesse, em regra, escapado ao espirito dos

conselheiros da nossa terra de doutores.

Não ha, todavia, vestigio algum de que se houvessem apercebido da

realidade os nossos estadistas de pechisbeque nem tampouco os argutos

diplomatas, que sáem do favoritismo cortezão para o desempenho das suas

missões com o cérebro vasio de idéas e até das noções elementares das

mais comesinhas coisas divulgadas pelas bibliothecas populares com que a

limpida intelligencia francesa procura chamar ás cercanias da

civilização as gentes retardatarias.

Que aos cidadãos portugueses, que formam o grosso dos setenta e tantos

por cento que a estatistica declara analphabetos, seja inattingivel o

phenomeno, admitte-se, explica-se e justifica-se.

Mas que, nas proprias classes tidas por cultas e, de facto, dirigentes,

se pense ainda que o Brasil nos fóge das mãos e que o podemos e devemos

segurar, bastando para tanto a vontade de o fazermos; que, nessas

classes, se attribua a animadversão por parte dos governos brasileiros o

que deflue logicamente dos elementos vitaes das sociedades; que, nesses

meios venturosos, se procurem soluções a um problema, que se presume

conhecer mas realmente se desconhece, e não se lembre ninguem de

investigar os seus precisos termos--é symptoma alarmantissimo para todos

aquelles que ainda amam esta nossa patria e aspiram a uma vida nacional

digna e próspera.

Acaso ha quem julgue que perduram no Brasil resentimentos contra a

antiga metrópole?

Acaso toda essa gente graúda e fútil não tem olhos para vêr e ouvidos

para ouvir?

Não chegam á sua intelligencia preguiçosa nem á sua alma embotada pelo

egoismo as provas constantes de intenso affecto que os brasileiros nos

dão?

Não se sente em Portugal que as nossas máguas e as nossas alegrias fazem

pulsar, para lá do Atlantico, milhões de peitos e tremer milhões de

labios em que as primeiras palavras balbuciadas o foram na lingua

commum?

Triste, tristissimo estado da nossa alma, vergonhosa condição da nossa

intelligencia!

Mandemos ao Brasil homens intelligentes, que lhe estudem a vida sob

todos os aspectos e venham esclarecer-nos.

Deixemo-nos de confiar em diplomatas, que sabem elegancias e

pragmaticas, mas ignoram as mais singélas noções dos phenomenos sociaes,

economicos e juridicos.

Os nossos colonos no Brasil, os nossos patricios que lá trabalham em

qualquer esphera da actividade, valem muito mais, para a indicação das

necessidades das relações luso-brasileiras, do que todos os viajantes

que têm saído do Terreiro do Paço, para destinos varios, a curtir

saudades da manga de alpaca e do _Deus guarde a V. Ex.^a_ do papelorio

nacional.

Desta desidia collectiva, em que o menos culpado e o mais sacrificado é

o povo laborioso e honesto, resultou a absurda situação em que nos

encontramos.

Reconhecemos--dir-se-ia que de subito!--que, no fim de contas, o

português encontra concorrentes nas outras raças que contribuem para o

povoamento do Brasil...

Não foi sem tempo; mas, infelizmente, não atinamos com o caminho que nos

convém! Serão as leis inflexiveis da historia que hão de nos encarreirar

para essa senda.

Por nossa vontade ou contra o nosso querer, havemos de lá ir ter.

Basta que assim seja para que presintamos, no anceio geral por estreitar

os laços que prendem os povos de lingua portuguesa, promessas de que vem

perto o dia da redempção desta terra em que os homens livres parecem

escravizados, em que tudo transuda o bafio de remoto passado e tudo é

bolôr, caruncho e poeira.

Com que então queremos approximar-nos do Brasil e mais intimamente

conviver com elle?

Vamos, pois, procurar «unificar ou pelo menos harmonizar a legislação

civil e commercial» dos dois paizes?

Ora, ainda bem! Aos republicanos portugueses sorri essa idéa. Já o

dissémos na introducção a estas paginas.

E sorri porque traria a Republica, se nós a não pudéssemos fazer num

impeto dignificante; porque só a Republica póde levar Portugal a

entender-se, de qualquer modo, com o Brasil republicano.

A legislação commercial e civil! Como conciliar os dois povos, sob esses

aspectos do direito, se emquanto lá no Brasil tudo tende a amoldar-se ao

regimen politico e ás instituições sociaes e juridicas do

continente--como deixámos exposto--cá em Porttugal nada caminha para a

democracia, tudo retrocéde para o absolutismo de ha um século?

Ide pedir a um cidadão affeito á garantia do _habeas-corpus_ que se

despoje della e acceite as delicias do inquisitorial Juizo de Instrucção

Criminal, alli á Parreirinha...

Chamae os lavradores de um paiz em que existe o credito real e o credito

agricola, a mobilisação do valor da terra e do valor da producção, e

perguntae-lhes se lhes apraz voltar á condição dos agricultores do nosso

Alémtejo...

Invertei, porém, os papeis e vereis como o alémtejano corre febril e

esperançado a abraçar as instituições que florescem nos paizes da

America e como o lisboeta acolhe com enthusiasmo o _habeas-corpus_...

Mas os factos affirmam que dependemos economicamente do Brasil, que

convém ao Brasil o colono português e que, além da lingua, ha poderosos

vinculos, principalmente de ordem affectiva e psychica, entre os dois

paizes.

Queremos, lá e cá, viver como uma só familia. Não haverá, para isso,

razões de conveniencia e de interesse, mas ha razões de sentimento, a

que os homens nunca se furtam.

O exemplo anglo-americano é caracteristico. Quando foi da famosa nota

comminatoria do gabinete de Washington ao de Londres, a proposito de

Venezuela e no tempo de Grover Cleveland, pareceu que o resfriamento ia

abrir éra nova.

Puro engano!

Os Estados-Unidos e a Gran-Bretanha cada vez se ligaram mais intimamente

e a influencia que, sobre esta, exerce aquella nação é tal que fôra

loucura negal-a.

A propria crise dos _lords_ que vem a ser senão o surto da opinião

democratica _yankee_ dentro da democracia inglesa, socialmente congénere

da americana?

Que querem os liberaes, os radicaes, os socialistas do _Labour

Party_[34] e todos os que acompanham Asquith, senão realizar a idéa

americana do senado electivo e fazer prevalecer, no tocante á iniciativa

orçamentaria e tributaria, a doutrina que determinou a independencia dos

Estados Unidos?[35]

E tamanha é a influencia _yankee_ na vida inglesa que homens da estatura

de William Stead e de Westlake já falaram na americanização da

Gran-Bretanha...

Não é, porém, isolado o facto. A rapida democratização italiana que os

nossos liberaes das duzias attribuem ao, aliás, unico principe

intelligente que reina em nossos dias--não passa, no criterio dos mais

eminentes sociólogos italianos, de inevitavel consequencia da emigração

para a America republicana, progressiva e trabalhadora. _Fare l'America_

ha de redundar num novo _fare da se_, desta vez proferido pelo povo ao

conquistar a posse dos seus destinos!

Todos os convivios prolongados e intimos de povos differentes os

conduzem ao nivelamento de cultura. É o facto sociologico correspondente

ao physico do equilibrio dos liquidos em vasos communicantes.

As necessidades do progresso humano e as exigencias da ordem social são

os unicos indicadores do sentido que esse nivelamento tem de tomar.

Caso typico é o da alliança franco-russa: ella não podia, como os

energumenos realistas suppuzeram, levar a França á monarchia, mas tinha

de arrastar o imperio de Nicoláo para o systema representativo, que,

afinal, reconheceu a existencia do povo e o seu direito a intervir na

gestão da sociedade, que o seu trabalho alimenta e enriquece.

Deante da nação brasileira, cuja cultura já não podemos pôr em duvida,

cuja expansão alenta o nosso organismo economico e cujo consumo é uma

das melhores garantias effectivas da nossa producção, estamos nas

condições que acabamos de referir.

É uma verdadeira dependencia material. O sr. Consiglieri Pedroso com

razão a reconhece nos seus considerandos quando diz que «a economia

nacional portuguesa só ao contacto intimo da exuberante seiva brasileira

pode robustecer-se e tonificar-se».

Accresce a esse facto o de uma absoluta interdependencia dos dois

paizes, sob o ponto de vista moral e affectivo. Julgamos tel-o deixado

claramente deduzido; e se tal não fosse verdade, todo o nosso esforço e

todo o esforço brasileiro para realizar a desejada approximação

redundariam em pura perda.

É, porém, certo que os laços que ligam Portugal ao Brasil assim como a

Hespanha ás republicas hispano-americanas não apresentam indicios de

enfraquecimento, apezar das divergencias antes apontadas.

O erro, por parte dos povos da peninsula iberica é o mesmo: portugueses

e hespanhóes persistem, pelo seu ferrenho conservantismo, que a

ignorancia tutéla e couraça contra todas as conquistas do progresso, em

vêr as coisas de hoje com os olhos com que viam as dos tempos do seu

poderío...

Ambos esses paizes esquecem que se lhes foram, de longa data, as

colonias americanas e que, lá, onde as tinham, existem hoje florescentes

estados e povos trabalhados por uma nova civilização...

Supino erro de apreciação: porque o facto de terem os povos americanos

de origem ibérica evolvido em sentido differente do adoptado até agora

pelos ibéricos não implica necessariamente definitivo divorcio ou

rompimento.

Dil-o o simples bom-senso. Effectivamente, _apezar das divergencias

verificadas, e incontestaveis_, tem de se reconhecer, de ambos os lados

do Oceano, que perduram as intimas relações e a consciencia de que ellas

se hão de estreitar ainda mais entre os dois ramos de cada uma dessas

familias.

O que é evidente é que os americanos, do sul, do centro e do norte, só

podem proseguir no caminho encetado.

Nem é admissivel o capricho em materia desta natureza. Os povos têm os

seus destinos prescriptos pelas condições do meio em que se desenvolvem.

Meio physico, meio psychico, meio politico, meio social, meio

internacional--é claro.

Esse complexo meio impõe aos povos da America destinos americanos.

Dir-se-á que tambem as mesmas causas impõem á peninsula ibérica destinos

não americanos.

Nada o prova.

Antes de tudo, o que se vê é que existe, tanto em Portugal como na

Hespanha, a consciencia collectiva de que é indispensável refazer a

antiga vitalidade com a _seiva_ das ex-colonias. É a consciencia de um

destino...

Depois, com que povos, com que culturas da Europa, formam os dois povos

e as duas culturas da Ibéria um systema que se contraponha ao da

America, ao pan-americanismo?

E, finalmente, não se sente, pela Europa inteira, o sopro revivificador

do individualismo americano? Não se percebe, nas mais insignificantes

coisas, o influxo dessa poderosa alma americana, que revoluciona as

sciencias, as industrias e as artes? Não se vêem legiões de homens

intelligentes acudindo á America a haurir, nas suas coisas novas, nos

seus processos novos e nas suas instituições novas, a energia que falece

á Europa e a esperança, que fugiu das suas velhas nações?

É o eixo da civilização superior e guiadora que se desloca...

É a America que herda a hegemonia do planeta, como, nesse papel, a

Europa succedêra á Asia.

E, se ha quarenta annos se assistiu ao inicio da prodigiosa

«occidentalização» do Japão, que á Europa veiu buscar uma cultura, que

nem por ser exótica e antagónica com as suas tradições deixou de ser

aproveitada no que era «aproveitavel á condição» do seu povo--por que

havemos de reluctar em conceber que Portugal terá de ir, além do

Atlantico, procurar, na cultura brasileira, que lhe é affim, elementos

de reforma e de regeneração?

Acaso pretendemos, desprovidos de tudo, reatar, na modalidade hodierna,

a acção directora da phase do nosso esplendor?

Porventura aspiramos ao que a Gran-Bretanha sabe imposivel--á anullação

da obra do espirito americano?

Não nos illudamos. O eixo da civilização--perdõem-nos o chavão em que

insistimos pelo expressivo da fórmula--está-se a deslocar, está mesmo a

mais de meio caminho da sua deslocação para a America.

Ponhamos, frente a frente, os dois paizes de lingua portuguesa:

Um, pujante de _seiva_, ávido de progresso, confiante na acção, audaz na

iniciativa, próspero e rico! É o Brasil...

Outro... Bem o conhecemos: largos tratos incultos, aldeias despovoadas

pela miseria, desalento, glorias passadas, deficits, emprestimos em

agiotas, povo faminto sob o azorrague de iniqua tributação! É

Portugal...

Reunamol-os, esquecendo que são dois povos e lembrando apenas que são

uma familia unica, vivendo em tamanha amizade que não recusem coisa

alguma um ao outro.

É a approximação, tudo quanto se possa pedir como estreitamento de

relações.

Pois bem: no dia em que um conjuncto de circumstancias de pura fantasia

tivésse realizado esse amplexo, que vae além da aspiração da hora

presente, o que havia de acontecer, em obediencia a todas as leis

sociaes, era fatal e irremediavelmente a adaptação portuguesa á

civilização brasileira.

A monarchia de Portugal estaria nesse dia com a sua sentença de morte

lavrada, com as suas horas contadas!

A Republica Portuguesa resultaria, irresistivelmente e sem demora, da

acção, tornada mais intima e portanto mais efficaz, da democracia

brasileira em todas as suas formas de actividade e em todos os seus

modos de ser.

Não! A monarchia que, para viver, nos reduziu a todos nós á condição de

escravos e de selvagens e nos condemnou ao obscurantismo, não se

abalançará a esse passo.

Seria o suicidio. E a monarchia quer viver visto que se arma todos os

dias para se defender...

Não! A monarchia é o crime, mas não é a estupidez. E estupidez seria

encaminhar-se para a morte. A não ser que se désse, dentro da monarchia,

um caso de loucura collectiva...

XV

CONCLUSÃO

A approximação luso-brasileira é fatal, apesar de implicar a queda das

instituições politicas que reduziram Portugal ao deploravel estado de

ruina em que se debate entre as oligarchias, que o exploram, e o povo,

que olha ancioso para o despontar dessa vida nova, que só homens novos,

de idéas novas e sentimentos novos, serão capazes de crear.

O Brasil e Portugal hão de harmonizar os seus interesses e as suas

aspirações.

Quando?

Quando esse _desideratum_ não exigir o impossivel. Porque é tão

impossivel que a monarchia portuguesa se transforme a ponto de poder

adoptar os principios e sentimentos da democracia brasileira quanto é

impossivel que esta retroceda ao que era o Brasil de ha cincoenta annos,

sómente pelo capricho de estreitar as suas relações com o reino do sr.

D. Manuel de Orléans e Bragança--o unico representante coroado das duas

casas que o acto emancipador de 15 de novembro de 1889 depoz do throno

exótico de uma nação da livre America...

Diz o professor Arthur Orlando, a cujo fulgurante espirito são

familiares as questões americanas, que na America «existe um meio social

superior que paira acima da vida nacional».

Esse meio social chegaria para contrabalançar todo o problematico

esforço que os nossos hypotheticos estadistas monarchicos fizessem no

sentido de determinar--se não fosse absurdo--a evolução regressiva do

Brasil.

O mesmo escriptor explica o atrazo do povo português, de modo implicito,

ao explicar o atrazo da raça latina: «Elles (os individuos dessa raça,

que não têm iniciativa e não contam senão com a collectividade) não se

decidem por si, mas pelo meio familiar, politico e religioso, de que

fazem parte.»

Falta-nos a iniciativa; appellamos para a collectividade, como se ella

fosse mais do que a integração das iniciativas individuaes.

É por isso que não comprehendemos ainda aquella doutrina da Declaração

da Independencia Americana em que a propria independencia era

considerada «um acto de soberania immanente praticado pelo povo e

resultante do seu direito de mudar a fórma de governo e instituir

governo novo, sempre que o entender necessario á sua felicidade e

segurança».

Quando o comprehendermos estaremos senhores dos nossos destinos e

poderemos ter uma politica nossa, portuguesa, nas relações com outros

povos, em vez de uma politica dynastica, que subordina os interesses

nacionaes até aos casos mais intimos e pessoaes da vida dos reis e dos

seus conselheiros, guias ou inspiradores.

Até lá, esperemos, se não soubermos antes cumprir o nosso dever cívico.

Reconhecem os proprios monarchicos que temos de conviver com o Brasil,

que precisamos do Brasil. Lentamente, o Brasil ha de nos enviar, com os

cheques e as libras trazidas pelo retorno da emigração e nas formas

multiplas do convivio internacional, as suas idéas e as suas

instituições, a lição do seu progresso e o exemplo da sua prosperidade.

E, assim, como dissémos na introducção a este trabalho, o Brasil

acabaria por levar o povo português á Republica.

Mas já este povo dá signaes evidentes de vitalidade nas suas camadas

profundas. A democracia transpoz os limites das povoações urbanas e

invadiu, impetuosa, as villas, as aldeias, os casaes...

A monarchia não resolverá o problema das relações de Portugal com o

Brasil. Falhará mais esta tentativa em que o sr. Consiglieri

Pedroso--partindo de um falso perigo de desnacionalização do Brasil e de

uma supposta possibilidade de Portugal evitar esse perigo, se elle

existisse--levou o escrupulo da imparcialidade com que preside á

Sociedade de Geographia até pôr de parte as divergencias essenciaes que,

sob a monarchia que S. Ex.^a combateu toda a vida, se oppõem á obra

pan-portuguesa da qual a sua proposta pareceu, a tantos enthusiastas

«por indole e por disposição da lei», preciosissima pedra fundamental.

A monarchia não é, todavia, indispensavel a Portugal.

Portugal ha de sobreviver a esse regimen.

Então os portugueses resolverão os problemas nacionaes.

Por agora, é escusado pensar em tal coisa. Assim é que, apezar de todas

as adhesões e de todos os applausos, não será, desta vez ainda,

realizada a approximação luso-brasileira.

Só a Republica, fecunda geradora de patrias, creadora de consciencias

livres e de cidadãos, nos armará para todas as victorias.

Só a Republica, com a qual em breve ha de resurgir a energia viril da

antiga e heroica patria, saberá e poderá reirmanar as duas

nacionalidades em que se fala a forte e rude, a dôce e plangente lingua

em que, ou fôsse sobre o tumulo da nacionalidade ou no arco triumphal da

sua resurreição, se teria de lêr o episodio do Adamastor e o episodio de

Ignez.

INDICE

Pag.^a

Introducção 6

I--A proposta Consiglieri Pedroso 11

II--O problema luso-brasileiro 17

III--O supposto perigo 23

IV--Os estrangeiros no Brasil 29

V--O povoamento e a nacionalidade 35

VI--A immigração portuguesa 41

VII--A permuta commercial 47

VIII--A situação real 55

IX--A nossa raça «at work» 61

X--Medidas propostas 69

XI--A evolução brasileira 77

XII--O Brasil e o americanismo 83

XIII--As divergencias 93

XIV--A approximação 103

XV--Conclusão 113

Indice 117

As relações luso-brasileiras a immigração e a «desnacionalização» do Brasil · 第 5 / 6 段