tradicional de um rito, não enxergou senão o zelo do glotão, que engorda
a preza para saboreal-a. Mas essa ridicula supozição nem ao menos se
conforma com o teor da vida selvajem, a qual desconhecia a industria da
criação.
O selvajem comia a caça como a encontrava no mato, gorda logo depois do
inverno, e magra na força da seca. Não se dava ao trabalho de a
engordar. Porque motivo se havia de afastar desse uzo ácerca do homem,
se o homem fosse para elle uma especie de caça?
E por ventura faria parte do processo da engorda do bipede, o acessorio
de uma companheira formoza e na flôr da idade, qual invariavelmente a
davam ao prizioneiro?
É obvio que esse uzo tinha outra razão mui diversa. Não se tratava de
engordar o prizioneiro, mas de fortalecel-o, para que elle morresse com
honra no dia do sacrificio, que devia ser o seu ultimo combate.
Ainda nessa ocazião, os vencedores ostentavam sua gravidade, deixando
que o prizioneiro exaltasse o proprio valor e os afrontasse com seu
desprezo. Só chegado o momento depois de celebrada a ceremonia, o
abatiam com um golpe de tacape.
A ferocidade não se coaduna com a calma e comedimento desse proceder.
Póde-se explicar o sacrificio humano dos tupís por um intenso e profundo
sentimento de vingança; mas não por sanha brutal.
Ferdinand Saint-Denis (_Univers_, _Brésil_, pag. 30) diz com muito
criterio:--_En accomplissant ces sacrifices, les tupinambás
n'obéissaient pas, comme pourraient le croire quelques personnes, à un
goût depravé qui leur aurait fait préférer la chair humaine à toutes les
autres; ils étaient mus avant tout par un esprit de vengeance que se
transmettait de génération en génération, et dont notre civilisation
nous empêche de comprendre la violence_.
Não era, porém, a vingança a verdadeira razão da antropofajia. O
selvajem não comia o corpo do matador de seu pai ou filho, se acontecia
matal-o em combate. Abandonava o cadaver no campo, e apenas cortava-lhe
a cabeça para espetal-a em um poste á entrada da taba, e arrancava-lhe o
dente para troféu.
A vingança, pois, esgotava-se com a morte. O sacrificio humano
significava uma gloria insigne rezervada aos guerreiros ilustres ou
varões egrejios quando caíam prizioneiros. Para honral-os, os matavam no
meio da festa guerreira; e comiam sua carne que devia transmitir-lhes a
pujança e valor do heróe inimigo.
Este pensamento resalta dos mesmos pormenores com que os cronistas
exajeraram o cruento sacrificio.
Morto o inimigo, não era devorado; antes as mulheres tratavam o corpo e
o curavam, moqueando as carnes. Essas eram guardadas; e distribuidas por
todas as tribus, incumbindo-se os que tinham vindo assistir á ceremonia,
de leval-as ás tabas remotas.
Os restos do inimigo tornavam-se, pois, como uma hostia sagrada que
fortalecia os guerreiros; pois ás mulheres e aos mancebos cabia apenas
uma tenue porção. Não era a vingança; mas uma especie de comunhão da
carne, pela qual se operava a transfuzão do heroismo.
Por isso dizia o prizioneiro:--«Esta carne que vêdes não é minha; porém
vossa; ella é feita da carne dos guerreiros que eu sacrifiquei, vossos
pais, filhos e parentes. Comei-a; pois comereis vossa propria carne.»
Deste modo retribuia o vencido a gloria de que os vencedores o cercavam.
O heroismo que lhe reconheciam, elle o referia á sua raça de quem o
recebera por igual comunhão.
Algumas nações tinham outra comunhão, inspirada no mesmo pensamento.
Era a dos ossos dos projenitores que reduziam a pó, e que bebiam
dissolvidos no cauim em festas de comemoração. Este fato, assim como o
sacrificio tremendo da mãi, que devia absorver em si o filho que lhe
nacera morto, bem mostram que por modo algum naceu do espirito de
vingança o chamado canibalismo.
Transportemo-nos agora, não como homens e cristãos, mas como artistas,
ao seio das florestas seculares, ás tabas dos povos guerreiros que
dominavam a patria selvajem; e quem haverá tão severo que negue a fera
nobreza desse barbaro e tremendo sacrificio?
A idéa repugna; mas o banquete selvajem, tem uma grandeza que não se
encontra no festim dos Atridas; e está bem lonje de inspirar o horror
dessa atrocidade que entretanto não foi desdenhada pela muza classica.
No Brazil é que se tem dezenvolvido da parte de certa gente uma aversão
para o elemento indijena de nossa literatura, a ponto de o eliminarem
absolutamente. Contra essa extravagante pretenção lavra mais um protesto
o presente livro.
Para concluir com este ponto, observaremos que nem todas as nações
selvajens eram antropofagas; e que em minha opinião esse costume, bem
lonje de ser introduzido pela raça tupí, foi por ella recebido dos
Aimorés e outros povos da mesma orijem, que ao tempo do descobrimento
apareceram no Brazil.
Paj. 32
_Espoza do tumulo_.-Este rito selvajem é muito conhecido e dispensa-me
de transcrever o que ácerca delle escreveram os cronistas.
Mais uma prova do carater generozo e bizarro do selvajem brazileiro.
Lonje de torturarem seu prizioneiro, ao contrario se esforçavam em
alegrar-lhes os ultimos dias pelo amor; davam-lhe uma espoza; e tão
grande honra era esta que o vencedor a rezervava para sua filha ou irmã
virjem; e se não a tinha, para a filha de algum dos principais da taba.
Falam alguns autores da _cunhãmembira_, como de uma ceremonia em que se
devorava o filho que por ventura a espoza do tumulo concebia do
prizioneiro morto. Duvido da generalidade desse fato, que me parece
adulterado, e seria especial aos tamoios.
_Cunhãmembira_, dizem esses autores, significa _filho da mulher_; e daí
diz Southey, copiando Lery, tiravam elles uma horrivel consequencia, que
era devorarem a criança.
Ora, _cunhãmembira_ significa saído do ventre da mulher. A lingua tupí
não tinha outro modo de dezignar a maternidade: taíra--isto é, saído do
sangue, diziam do filho ácerca do pai; e _membira_, diziam do filho
ácerca da mãi. Na expressão _cunhãmembira_ não ha senão a antepozição do
substantivo _cunham_ (mulher) que os indios suprimiam por superfluo;
assim como suprimiam na outra palavra dizendo simplesmente _taíra_ e não
_aba-taíra_ saído do sangue do varão.
Se o nome de _cunhãmembira_ indicasse estar a criança destinada ao
suplicio, então todos os nacidos da taba se achariam no mesmo cazo, pois
todos eram em relação ás mais, _membiras_ ou _cunhã membiras_.
Ainda mais, se a criança era condenada ao suplicio pela razão de ser do
sangue inimigo, parece que o nome a ella dado devia exprimir esse fato
importante e derivar-se antes desta fraze: _miauçubtaíra_--o gerado do
sangue do cativo.
A estes filhos dos prizioneiros chamavam os indijenas _marabá_, gerado
da guerra, nome honrozo, que revelava o apreço em que tinham essa prole,
saída de um sangue heroico. E tanto assim era que destinavam para
conceber essa prole o seio da virjem mais ilustre da taba.
Se os selvajens, que nada praticavam sem uma razão justificativa, só
tinham em mira devorar os filhos do cativo, para que dar-lhe uma espoza
ilustre? Mais sagazmente procederiam adjudicando-lhe diversas mulheres
para terem maior criação a matar.
Está-se conhecendo que o tal banquete não passa de um invento de
cronistas, que entenderam as outras palavras dos indios tão bem como a
de _cunhãmembira_ que elles diziam significar filho do inimigo.
_Cunhãmembira_ creio eu ser a festa que se fazia pelo parto da mulher; e
talvez acontecendo nacer morta a criança, se orijinasse a fabula do
sacrificio que então se praticava entre algumas nações de ser a mãi
obrigada a absorver em si esse fruto goro de sua fecundidade.
Paj. 33
_Guainumbí_.--«Persuadem-se os brazilienses haver uma ave, que chamam
colibri, a qual leva e traz noticia do outro mundo.» Santa Rita
Durão--Notas ao Caramurú.
Tambem chamavam os indios esse passaro, _Guaraciaba_--cabelos do sol; e
Arati, ou Arataguaçú segundo Marcgraff, 197. Quanto ao nome de
Guainumbí, ou mais corretamente Guinambí, penso eu que significa o
brinco das flôres. Os selvajens tiraram naturalmente essa dezignação do
modo por que o colibri tremula, como suspenso á flôr para chupar-lhe o
mel, semelhante ao movimento das arrecadas suspensas ás orelhas, e que
elles chamavam _nambípora_.
Paj. 35
_Jussara_.--«Nas povoações feitas em terra têm muitas nações guerreiras
a providencia de as segurarem e munirem com fortes muralhas, não de
pedra, mas de estacas do páu duro como pedra. Outros as fabricam de
palmeira, que chamam jussara, cujos espinhos são tão grandes e duros,
que servem a muitos de agulhas de fazer meias; e as trincheiras feitas
de _jussara_ são mais seguras que as mais bem reguladas fortalezas;
porque de modo nenhum se podem penetrar e romper senão com fogo por
crecerem não só cheias de grandes estrepes ou agudos espinhos, mas tão
enlaçadas e enleadas umas com outras que se fazem impenetraveis.
(Tezouro descoberto no rio Amazonas, Part. 2a, cap. 1o, no 2o vol. da
Rev. do Instituto, paj. 350.)
O nome da palmeira é em tupí _jussara_, de _ju_--espinho e _ara_
dezinencia.
Paj. 36
_Carbeto_.--Assim chamam Ives d'Evreux e Abbeville ao conselho dos
velhos entre os selvajens. Este nome deriva-se naturalmente de
_caraiba_, varão ilustre e _ipê_, logar onde.
Paj. 37
_Hospede_.--A virtude da hospitalidade era uma das mais veneradas entre
os indijenas. Todos os cronistas dão della testemunho; e alguns, como
Lery e Ives d'Evreux, descrevem com particularidade o modo liberal e
generozo por que os selvajens brazileiros a exerciam.
É certo que não escapou tambem á malevolencia dos cronistas, essa
excelencia e nobreza do carater indijena. Gabriel Soares cit. cap. 168
depois de falar do como os tupinambás agazalhavam os hospedes,
acrecenta: «e lançam suas contas se vem de bom titulo ou, não; e se é
seu contrario, de maravilha escapa que o não matem, etc.» Southey cit.
cap. 8o faz coro com essa versão que nos parece suspeita.
É possivel que depois da colonização, os selvajens vitimas das
perfidias dos aventureiros relaxassem suas tradições; mas a
hospitalidade foi sempre entre elles uma coiza sagrada, como atestam em
geral os escritores, que não referem aquella exceção.
Basta refletir sobre o modo por que exerciam os selvajens a
hospitalidade para reconhecer que não é admissivel a suspeita de Gabriel
Soares. Em verdade, aquelles cuja porta estava aberta sempre ao
viajante; que franqueavam o ingresso de sua cabana por tal modo que o
estranjeiro nella entrava como senhor, ainda mesmo na auzencia do dono;
que sem perguntar o nome de quem chegava nem de onde vinha o agazalhavam
com a maior liberalidade; esses que assim acolhiam o hospede, não podiam
ocultar a intenção perfida de o matar, no cazo de ser contrario. Ha uma
tal contradição entre esse desfecho e as circumstancias precedentes, que
não se póde acreditar nelle pelo simples dizer de um cronista, que em
muitas outras inexatidões caiu.
Se ha traço nobre do carater selvajem é essa hospitalidade, que o
estranjeiro não pedia e sim exijia como um direito sagrado, com esta
simples formula--_Vim_; ao que o dono da cabana respondia--_Bem vindo_.
O epizodio da deliberação do conselho sobre o nome do estranjeiro está
justificado pelo trecho seguinte de Ives d'Evreux, cap. 50.
«Aprés ces paroles il vous dit--_Marapé derere_? comment t'appelles-tu?
quel est ton nom? comme veux-tu que nous t'appellions? Quel nom veux-tu
qu'on t'impose? Où faut-il noter que si vous ne vous estes donné et
choisi um nom, lequel vous leur dites alors et desormais estes appellé
par tout le pays de ce nom, les sauvages du village ou vous demeurez
vous en choisiront um pris des choses naturelles, qui sont en leurs pays
et ce le plus convenablement qu'il leur sera possible, selon la
phisionomie qu'ils verront en votre visage, ou selon les humeurs et
façons qu'ils reconnaitront en vous..... Eh bien quel nom donnerons nous
a un tel ton compére? Je ne sais, il faut voir; lors chacun dit son
opinion et le nom qui rencontre le mieux et est reçu de l'assemblée, est
imposé avec son consentement si c'est quelque homme d'honneur.»
Ainda nessa circumstancia se revela a delicadeza da hospitalidade do
selvajem.
Paj. 38
_Artes da paz_.--É ainda de Ives d'Evreux, cap. 18, esta curioza
informação. «Je raconterai ici une jolie histoire. Un jour je m'allois
visiter le grand Theon, principal des Pierres Vertes Tabaiares: comme je
fus en sa loge et que je l'eus demandé, une des ses femmes me conduit
soubs une belle arbre qui estoit au bout de sa loge, qui la couvrait du
soleil; lá-dessous il avait dressé son mestier pour testre des licts de
coton et travaillait après forte soigneusement; je m'étonnai beaucoup de
voir ce grand capitaine, vieil colonel de sa nation, ennobli de
plusieurs coups de mousquets, s'amuser à faire ce mestier et je ne peus
me taire que je ne sçusse la raison espérant apprendre quelque chose de
nouveau en ce spectacle si particulier. Je luy fist demander par le
truchement qui estoit avec moy, à quelle fin il s'amusait à cela? il me
fit response: «Les jeunes gens considérent mes actions et selon que je
fais ils font; si je demeurais sur mon lit à me branler et humer le
petim, ils ne voudraient faire autre chose; mais quand ils me voient
aller au bois, la hache sur l'épaule et la serpe en main, ou qu'ils me
voient travailler à faire des licts, ils sont honteux de rien faire,
etc.»
Paj. 38
_Lançadeira_.--Os indijenas tinham um tear que é descrito por Lery, cap.
18. Uzavam tambem de um fuzo comprido e grosso, que as mulheres faziam
girar entre os dedos, atirando ao ar, como ainda agora fazem as velhas
fiandeiras do sertão.
Paj. 43
_Jurandir_.--Contração da fraze _Ajur-rendipira_--o que veiu trazido
pela luz.
Paj. 45
_Jabotí_.--Contou-me o Dr. Coutinho que o jabotí para os indios do
Amazonas é o simbolo da gravidade, prudencia e sabedoria, e prometeu-me
dar um apologo, em que elles celebram essas virtudes, contando a
historia de um jabotí, que venceu na lijeireza ao veado, na força á onça
e assim aos mais animais.
Paj. 45
_Tetivas_.--Os Tetivas habitam nos olhos das palmeiras e de outras
arvores: põem-lhes terra e acendem fogo. Humboldt cit., paj. 283.
Paj. 46
_Mulheres guerreiras_.--Aluzão ás Amazonas cuja existencia é tão
controvertida. Eu acredito na sua existencia, embora reconheça que houve
exajeração de Orellana.
Não é este o momento de elucidar este ponto da historia, ou antes
mitolojia do Brazil selvajem. Proponho-me a fazel-o quando publicar uma
lenda que tenho esboçada ácerca do assunto. Nessa ocazião direi o que
entendo ácerca da memoria do Dr. Gonçalves Dias, publicada na _Revista
do Instituto_.
Paj. 46
_Senhoras de seu corpo_.--Metafora tupí. No varão a parte nobre era o
sangue; pelo que elle dizia do filho--_taíra_, o filho do meu sangue; e
para indicar a independencia diziam _taíguara_, que os dicionarios
traduzem _livre_, mas que literalmente significa, _senhor do seu
sangue_.
A mulher que dizia do filho _membira_--o gerado de meu ventre, devia
pela mesma razão uzar de expressão analoga para exprimir sua liberdade,
e dizer _membijara_--senhora de seu ventre, que eu por elegancia traduzo
menos literalmente, _senhora de seu corpo_.
Paj. 47
_Pará sem fim_.--Par, diz Humboldt cit. paj. 285, é uma radical guaraní
e exprime agua. Pará creio eu que significou a grande abundancia de
agua, e foi primitivamente empregado para dezignar os lagos e por
ventura as vastas inundações do vale do Amazonas. Mais tarde os
selvajens acrecentaram-lhe o verbo _nhane_ correr, e disseram
_pará-nhanhe_--donde _paranãn_ para dezignar as grandes massas de agua
corrente, isto é, os rios caudalozos.
Os dois maiores rios da America do Sul, o Amazonas e o Prata, ambos se
chamavam _Paranãn_, assim como outros muitos do Brazil. O mesmo radical
se encontra já composto em Paraíba, Parnaíba, Paranapanema, etc.
Foi a substituição do _p_ pela analoga _m_ que produziu o nome de
_Maranhão_, ácerca de cuja etimolojia se inventaram tantas
extravagancias.
Paj. 48
_Guerreiros do mar_.--Tradução da palavra tupí _caramurú_ com que os
tupinambás da Baía dezignaram Diogo Alvares Correia.
Caramurú é composto de _cara_, alteração de Pará--mar e _moro_, gente;
homem do mar. Os selvajens acreditavam que as aguas eram habitadas, e
daí naceu a lenda da mãi d'agua, que se transmitiu á raça invazora. Nada
mais natural do que chamarem ao primeiro homem branco, que lhe apareceu
surjindo do oceano, Caramurú--o guerreiro do mar.
Paj. 48
_Rezina cheiroza_.--É o ambar, que os tupís chamavam _Piraoçurepoti_, e
de que ao tempo do descobrimento abundavam as ribeiras do mar, nas
provincias do norte.
Paj. 49
_Moças_.--É dificil, senão impossivel, determinar atualmente, e pelas
informações tão falhas quão malignas dos cronistas, a condição da mulher
entre os selvajens.
Do que tenho lido coliji as idéas, a que no texto se alude mui
lijeiramente, e a que em outro logar démos maior dezenvolvimento.
Paj. 51
_Para servir a Itaquê_.--«E quando o principal não é o maior da aldeia
dos indios das outras cazas, o que tem mais filhas é o mais rico e
estimado e mais honrado de todos, porque são as filhas mui requestadas
dos mancebos que as namoram; os quais servem os pais das damas dois e
tres anos primeiro que lh'as deem por mulheres e não as dão senão aos
que melhor os servem, a quem os namoradores fazem a roça e vão pescar e
caçar para os sogros que dezejam de ter, e lhes trazem a lenha do mato,
etc.» G. Soares, cit. cap. 152.
Aí está a lenda biblica de Jacob servindo a Labam 7 anos para obter por
espoza a Sara. Não consta, porém, que os selvajens uzassem da esperteza
do pai de Lia, para descartar-se de uma filha defeituoza; se tal
acontecesse entre os tupís, de que ridiculas indignações não se
encheriam os cronistas?
Paj. 52
_Manatí_.--È o peixe-boi, de cujo couro mais forte que o do touro os
indios fazem escudos. Anunciam a chuva, saltando acima d'agua.
Gumilha--Orenoco ilustrado, paj. 276.
Paj. 52
_Biaribí_.--Um dos modos porque os indios assavam a caça, e consistia em
enterral-a envolta em folhas de banana, e acender em cima o fogo, cujo
calor penetrando no chão cozia a carne, concentrando-lhe o sabor.
_Moquem_ era simplesmente o assado envolto em folha e feito sobre a
braza; daí vem _moqueca_ de que tirámos os verbos moquear e amoquecar.
_Bucan_, supõem alguns que seja alteração de _moquem_; mas eu o
considero termo distinto que exprimia apenas a operação de secar a carne
ao fumeiro para conserval-a. Neste sentido é que Lery e Ives de Evreux
empregam constantemente o termo francez _boucaner_, derivado da palavra
tupí.
Paj. 54
_Pela mão da mulher_. Refere Gumilla, cap. 45, que estranhando aos
indios sobrecarregarem as mulheres com os trabalhos agricolas, elles
retorquiram que as mulheres sabem dar fruto, o que não sabem os homens,
e por isso na mão dellas as sementes naciam e se multiplicavam.
Paj. 56
_Pirijá_.--Uma especie de palmeira chamada palmeira real; é espinhoza e
tem frutos semelhantes ao pecego. Humboldt cit., paj. 257 e 262.
Paj. 58
_Nunca Jandira ofereceria sua rêde de espoza_, etc.--Arací reprezenta o
amor da virjem tupí, segundo o costume tradicional de sua nação, que
admitia a comunidade e partilha do amor, como um privilejio do guerreiro
ilustre. Ser amada excluzivamente, significava para a mulher selvajem,
ser amada por um guerreiro obscuro.
Jandira reprezenta o excluzivismo do amor, que muitas vezes devia lutar
com a lei tradicional; porque é um impulso da natureza, a qual não é
dado ao homem aniquilar embora muitas vezes a sopite.
Paj. 61
_O combate nupcial_.--Este rito, de ser a virjem requestada o premio do
valor e da corajem, é atestado por grande numero de escritores.
Barloeus, paj. 420:--«Lucta et hastarum concursu decertare gloriosum,
finis spectanctium voluptas est, presertim amantium foemina de cujusque
fortitudine et victoria pronuntiat, sic in proximo pignora, pugnandi
irritamenta sunt fortitudinis præcones, ciborum administræ.»
Paj. 65
_A figura da noiva_.--Esta prova de destreza era muito uzada pelos
selvajens. Marcgraff descreve a especie de torneio que elles faziam
divididos em duas turmas, a ver qual levava mais depressa o seu tóro ao
logar destinado para acampamento. Naturalis Historia Brazilia, liv. 8o,
cap. 12.
Conclue com estas palavras:-«qui deinceps tempus terunt hastilibus
certando, luctando, currendo; quibus certaminibus duæ fæminæ ad id
selectoe proesident et judicant de singulorum virtute et victoribus.
Estes certamens guerreiros, esses jogos de luta, combate e carreira,
prezididos por mulheres que julgavam do valor dos campeões e conferiam
premio aos vencedores, não cedem em galanteria aos torneios da
cavalaria.
Ácerca da prova a que acima nos referimos, escreveu o Dr. Gonçalves
Dias--_Brazil_ e _Oceania_, cap. 10, _Revista do Instituto_, tom. 30,
parte 2a, paj. 153:--Um tóro de barrigudo em um cabo delgado e de facil
preensão, semelhante aos soquetes ou massetes de que ainda entre nós se
uza em muitas partes para bater a terra das sepulturas, posto que mais
poderozo que este, ou um grande pedaço de tronco de palmeira, era
colocado no meio do terreiro. Vinha o guerreiro correndo, tomava o
tronco, continuava a carreira, saltava fossos, subia elevações,
arrojava-se ás vezes ao rio com elle e quem chegava primeiro e levava
mais lonje a carga, esse ganhava a palma e a mulher que tinha de ser
espozada. Explicou-se esse costume, de que trata Barloeus, Marcgraff e
outros, e que ainda conservam algumas tribus do Piauí, pela necessidade
que tinha o guerreiro de defender a mulher, e para que em ocazião de
perigo a podesse salvar fujindo.»
Paj. 67
_O camucim da constancia_.--Lê-se no _Tezouro do Amazonas_, cit. tom. 3
da _Revista do Instituto_, paj. 169. «O 5o predicado que tambem, como
muitas outras nações conservam os Arapiuns, é a prova da valentia quando
cazam; é um exame prévio ou o primeiro principio, como se diz nas
Universidades, a suas bodas, e uma experiencia ou tentativa de seu valor
para mostrarem que posto cazem não é por afeminados, mas por valentes.
Ha diversos generos dessa prova de valentia; mas uma mui ordinaria nos
indios Arapiuns é encherem uns grandes e compridos cabaços das formigas
que chamam saugas (_saúvas_) grandes e mui bravas; ferram na carne com
tanta ou mais valentia que os cães de fila, com proporção á grandeza
destes e pequenez daquellas; porque os cães assim vêm a largar; mas as
saugas não largam ainda que as matem e antes perderão a cabeça ficando
com as troquezes cravadas na carne do que soltarem ellas preza; por isso
uzam dellas alguns cirurjiões quando querem cozer alguma cicatriz com
segurança, sem uzarem pontos, como adiante dizemos. Cheios, pois, os
cabaços de saugas, não só famintas, mas quando estão com fome talvez de
dias ... e sobre isso bem enraivadas com sacudidelas, prezentes todos os
velhos e graves da missão, sae a terreiro o noivo examinando,
destapam-se os cabaços nos quais intrepido mete os braços, a que logo
acodem as filas, já para saciar a fome, já para dezabafar a ira, e já
para provar e castigar o bacharel, o qual posto que as dôres o façam
mudar de côres, torcer a boca, tremer o corpo, levantar as sobrancelhas
e arrebentar as lagrimas, tenha paciencia, que se quer, ha de aturar a
bucha, emquanto os examinadores já bebendo-lhe á saude e já dando voltas
em bailes se vão regalando á sua custa, etc.
Paj. 73
_Igapê_.--É o nenufar na lingua tupí, de _Ig_, _ipe_ e _potira_--flôr
d'agua. Os portuguezes corromperam essa palavra transformando-a em
_aguapé_, nome por que é vulgarmente conhecida. Penso eu, porém, que
devemos restaurar o nome indijena, até mesmo porque _aguapé_ tem diversa
significação em portuguez.
Uma dessas nímféas, a rainha das flôres, a que os indios chamavam milho
d'agua, ou a flôr jaçanan, por servir de ninho a essas aves paludais,
nace branca e com a luz do sol vai rozeando até se tornar escarlate.