até mesmo a provas de corajem; donde devemos inferir com boa razão, que
não era esse um ato insignificante para os selvajens, a ponto de não o
distinguirem com uma fórmula qualquer, elles que em outros pontos eram
tão ceremoniozos, como na recepção do hospede, na declaração da paz ou
da guerra.
Os cronistas, porém, não se ocuparam disso e todo seu tempo foi pouco
para lamentarem a poligamia dos tupís, tirando logo dalí argumento para
pintarem os selvajens vivendo a modo de cães.
É uma falsidade. Os tupís tinham moralidade conjugal, e até muito
severa. O adulterio era punido de morte; e tambem por isso permitia-se o
divorcio por mutuo consentimento.
A poligamia dos tupís foi da mesma natureza da que existiu entre os
hebreus; era uma poligamia patriarcal, filha das condições da vida
selvajem, e não a poligamia sensual dos turcos e outros povos do
oriente, produzida unicamente pelo requinte da libidinajem.
Compreende-se que no estado selvajem ou primitivo, a mulher, fraca para
rezistir aos perigos que a rodeavam, tinha necessidade de acolher-se ao
amparo e proteção do homem. Por outro lado cada varão, no interesse não
sómente de sua gloria, como de seu poder, carecia rodear-se de uma
familia numeroza, e de gerar do seu proprio sangue, os seus guerreiros.
Entretanto, e é isto que distingue a poligamia patriarcal, a posse de
muitas mulheres não destruia a instituição da familia, bem caracterizada
pela preeminencia da primeira mulher ou a verdadeira espoza; e pela
adoção dos filhos nacidos das outras mulheres, que se tornavam todos
filhos da espoza, ou da verdadeira mãi, _temireco_.
Muita coiza poderia dizer ácerca da educação dos filhos e da condição da
mulher, mas não cabe esse estudo em uma nota. Mais tarde e a propozito é
possivel que o faça.
Para a intelijencia do texto basta saber-se que além da espoza,
_temireco_, mãi da familia, das amantes, _aguaçabas_, que faziam parte
da familia na condição de servas, havia--1.o as virjens, _cunhantem_,
mulheres debalde, que pertenciam á familia, e se destinavam para espozas
dos guerreiros que as obtivessem pelas provas de esforço e denodo; 2.o
as velhas, ou mulheres já privadas de seus maridos, e que ficavam sob a
proteção da comunhão, incumbidas da educação dos orfãos, e dos filhos
anonimos; 3.o as _moças_ ou mulheres que desprezavam o cazamento e
viviam livremente aceitando o amor do guerreiro que lhes agradava, e do
qual tinham filhos, que não pertenciam á familia, mas á tribu; eram
estas as mulheres que ofereciam seu amor como penhor de hospitalidade ao
estranjeiro que chegava á taba; 4.o finalmente, a classe infeliz,
abandonada de todo o sentimento e de todo o pudor, á qual davam o nome
de _morixaba_, literalmente coiza de todos; ou, segundo o testemunho de
Ives d'Evreux, _menondere_, que equivalia a ladra; porquanto entendiam
os selvajens que a mulher roubava seu primeiro amante dando ou vendendo
a outro o amor que lhe pertencia.
Ainda nesta ultima escala, se estão manifestando as leis severas do
recato e fidelidade da união sexual entre os selvajens. Além do
cazamento lejitimo, havia o concubinato, como existiu entre os romanos,
produzindo direito e obrigação reciproca. A mulher que traía a fé
conjugal, ou o concubinato, era uma adultera, isto é, uma ladra e decia
á ultima infamia. O marido tinha o direito de matal-a; o amante
entregava-a ao desprezo da tribu.
Paj. 10
_Jaguarê agradece a Tupan_.--Não achando entre os aborijenes templos e
idolos, ainda que alguns cronistas atestam a existencia dos ultimos,
foram os colonizadores peremptoriamente declarando ateus a esses povos.
Mas logo, com incoerencia flagrante, reconheciam a existencia de uma
superstição, que outra coiza não é a relijião na infancia da humanidade.
Os tupís adoravam uma excelencia superior, Tupan, que se manifestava
pelo raio e pelo trovão; donde se induz o grande poder que atribuiam a
essa divindade. Seu nome de raça aprezenta uma afinidade que faz
prezumir a crença de uma decendencia celeste.
Tambem temiam os tupís o espirito do mal, personificado em Anhanga, o
fantasma, que habitava as trévas, e a quem referiam um poder funesto.
Para conjurar essa divindade malefica, tinham sacerdotes, os pajés, que
buscavam sua força e virtude no fumo da planta sagrada, o tabaco.
Além disso contava a mitologia tupica genios bons e máus, que habitavam
as florestas e os rios, e percorriam as solidões montados em caitetús,
ou transformados em certos animais. Entre estes mencionarei o caipora e
a mãi d'agua, cuja abuzão transmitiu-se á raça conquistadora, e de que
ainda se encontram vestijios entre as populações do norte.
Não ha contestar que aí está uma relijião bem caracterizada. Mas como
faltassem templos e idolos, os decendentes dos barbaros gaulezes, godos,
francos e celtas não podiam admitir na America uma relijião sem culto
regular, qual a tiveram aquelles selvajens europeus.
Entre os viajantes que mais tarde percorreram a America havia espiritos
superiores, dedicados ao estudo da humanidade, que investigavam sem
prevenções a orijem e indole das raças indijenas do novo mundo. Na
primeira plaina destes sabios figura Alexandre de Humboldt.
O eminente naturalista assinalou a cauza dessa auzencia de culto dos
aborijenes do Brazil, quando observou que o antropomorfismo da divindade
se manifesta por dois modos: da terra ao céu, como na Grecia, ou do céu
á terra, como na America. _Voyage au Nouveau Continent_--8.o volume,
paj. 243.
Quando a imajinação do homem personificando a divindade á sua imajem a
faz subir ao céu, como os numes pagãos da Grecia, ella é levada
naturalmente a oferecer-lhe uma constante adoração com que mantêm o
vinculo da creatura ao creador. Daí a necessidade de idolos, que
simbolizem esses numes, e a tenham prezente aos olhos mortais.
Diverso, porém, é quando, concebendo a divindade á sua imajem, o mortal
a humana inteiramente, transportando-a do céu á terra. Então o homem
figura-se não a creatura, mas o decendente, o filho de seu deus.
Dezaparece a necessidade dos idolos, pois a verdadeira reprezentação da
divindade na terra é o mesmo homem que a continúa. Cada um tem o seu
nume em si. A adoração transforma-se naturalmente no culto da propria
individualidade, nessa exajeração prodijioza do estalão humano, que
distingue as idades heroicas.
É pela ostentação da corajem, da força, da grandeza de animo, que o
selvajem se elevava até o deus, seu projenitor; e não pela adoração,
pelas preces e oferendas uzadas no paganismo grego, o qual estava bem
lonje da humildade evanjelica do cristianismo. Os tupís não careciam,
pois, de orações e sacrificios; as façanhas com que se mostravam dignos
de sua orijem celeste eram as melhores oblações do seu culto.
Tal era o respeito que o selvajem professava pela dignidade humana, que
matava as pessoas mais caras quando não se podiam curar da enfermidade.
Essa implacavel sujeição ao mal, abatia e humilhava uma raça forte e
guerreira.
Muitos outros exemplos podia aprezentar dessa elevada conciencia da
individualidade, que distinguia no mais alto ponto o selvajem
brazileiro.
Eis o que não souberam ver os cronistas, quando taxaram de ateus aos
indijenas americanos.
Abstraindo da moral absoluta em que só ha uma verdade, a do
cristianismo, e tomada a questão no ponto de vista da arte, não se póde
recuzar a essa relijião tupí, que nivela o homem á divindade, certo
cunho de grandeza selvajem e um vigorozo sentimento da individualidade.
O paganismo grego lhe fica inferior nesse ponto da dignidade humana; ao
passo que elle tornava a raça de Japeto escrava submissa dos deuzes, e
vitima de seus caprichos e vinganças, na mitolojia americana o homem é o
filho e o emulo da divindade.
Á parte as ficções graciozas do espirito helenico, a mitolojía grega só
tem uma creação que reveste a majestade da relijião tupí; é a creação
dos semi-deuzes, em que se operava o antropomorfismo terrestre da
divindade, qual se deu na America.
Considerando-se divino, o selvajem americano acreditava-se combatido por
um ente malefico, antagonista do deus de quem decendia. Nos achaques e
mizeria que aflijem a humanidade via as manifestações desse poder
funesto. Os sacerdotes o esconjuravam por sortilejios; os heróes, porém,
rezistiam-lhe pela constancia e o afrontavam.
Á essa relijião simples e sem aparato, como devia ser uma relijião das
florestas, professada por povos caçadores e guerreiros, coroava a crença
profunda e inalteravel da imortalidade da alma, revelada pela veneração
ás cinzas dos mortos, e pelas ceremonias da inhumação.
Os indijenas encerravam suas mumias em tumulos especiais, a que davam o
nome de _Camucins_; e as acompanhavam não só das armas e objetos de uzo
proprio, como de alimentos para a viajem aos campos alegres, onde iam
reviver os guerreiros e suas mulheres.
Basta este rapido esboço para dar idéa da relijião dos tupís, e avaliar
o criterio daquelles que os consideravam estranhos a qualquer noção da
divindade.
Um povo que mantinha as tradições a que aludimos, não era certamente um
acervo de brutos, dignos do desprezo com que foram tratados pelos
conquistadores. E quando, através de suas falsas apreciações, a verdade
pôde chegar até nossos tempos, o que não seria, se espiritos
despreocupados e de vistas menos estreitas, vivendo entre essas nações
primitivas, se aplicassem ao estudo de suas crenças, tradições e
costumes?
Os jezuitas, que podiam melhor realizar esse estudo, eram induzidos a
exajerar a ferocidade e ignorancia dos selvajens, no interesse de tornar
indispensavel sua catequeze. Já imbuidos da intolerancia relijioza, a
politica exajerava ainda mais sua suspeição.
Paj. 11
_Ubiratan_.--Páu-ferro; literalmente _ubira_--madeira, e _atan_--duro.
_Atan_ não é senão a palavra _ita_ com a terminação _ana_, que na lingua
tupí servia para a formação dos adjetivos. _Itana_, o que tem a natureza
de pedra. Assim, de pedra fizemos nós pedregozo. Rigorozamente
_ubiratan_ é _páu-pedra_; pois que os indijenas não conheciam o ferro.
Era dessa madeira que faziam os tacapes.
Paj. 13
_O chefe tocantim_.--Os autores empregam em geral os termos maioral,
principal, para dezignar o cabeça de uma tribu ou nação indijena.
Alguns, como Southey, serviram-se do termo cacique adotado dos
Araucanos; Barloeus chamou-os classicamente de reis.
Neste livro, como em _Iracema_, preferi traduzir o termo indijena
_tuxaba_, por _chefe_; e fui levado pela razão de ser, além de muito
apropriado e vulgar, um termo nobre e sucetivel de entrar no estílo o
mais elevado, sem laivos de afetação. Ao _morubixaba_ pela mesma razão
chamei chefe dos chefes.
Paj. 14
_Calcou a mão sobre o hombro esquerdo_.--Ácerca desse modo simbolico de
assegurar o vencedor seu imperio sobre o cativo, é curiozo o que referiu
e notou _Ives d'Evreux_, cap. XIV.
«Então eu soube que era uma ceremonia de guerra praticada entre essas
nações, que quando um prizioneiro cae na mão de algum, aquelle que o
toma, bate-lhe com a mão na espadua dizendo-lhe: «Eu te faço meu
escravo»; e desde então esse pobre cativo, por maior que seja entre os
seus, se reconhece escravo e vencido, segue o vitoriozo, o serve
fielmente, sem que seu senhor se importe com elle; tem liberdade de
andar por onde lhe pareça, não faz senão o que quer e ordinariamente
espóza a filha ou irmã de seu senhor, até o dia em que deve ser, morto e
comido.»
Depois o missionario lembra as palavras de Isaías cap. 9--_Factus est
principatus super humerum ejus_--e cap. XXII--_Dabo clavem dominis David
super humerum ejus_; e mostra a conformidade desse rito dos tupís com as
tradições dos hebreus e outros povos primitivos.
Paj. 15
_Ubirajara_--senhor da lança, de _ubira_--vara e _jara_--senhor;
aportuguezando o sentido, vem a ser lanceíro.
Com este nome existia ao tempo do descobrimento, nas cabeceiras do rio
S. Francisco uma nação de que fala Gabriel Soares--Roteiro do Brazil,
cap. 182.
«A peleja dos Ubirajaras, diz esse escritor, é a mais notavel do mundo,
como fica dito, porque a fazem com uns páus tostados muito agudos, de
comprimento de tres palmos pouco mais ou menos cada um, e tão agudos, de
ambas as pontas, com os quais atiram a seus contrarios como com punhais,
e são tão certos com elles que não erram tiro, com o que têm grande
chegada; e desta maneira matam tambem a caça que, se lhe espera o tiro,
não lhe escapa; os quais com estas armas se defendem de seus contrarios
tão valorozamente como seus vizinhos com arcos e flexas, etc.»
Desta arma e da destreza com que a manejavam proveiu o nome de
_bilreiros_ que lhe deram os sertanistas, significando assim que tanjiam
suas lanças com ajilidade e sutileza igual á da rendeira ao trocar os
bilros.
Paj. 15
_Preciza de um prizioneiro_.--Era entre os selvajens maior honra
conduzir da guerra um prizioneiro, para ornar o seu triunfo e a festa de
vitoria, do que matal-o em combate. Veja Gabriel Soares--cit. na nota
4a.
Paj. 15
_Chamas de alegria_.--Metafora tupí. Chamavam a alegria e a festa
_toríba_, literalmente, grande quantidade de fogueiras.
Paj. 17
_Historia de guerra_.--Os tupís para exprimirem historia, ou narrativa,
diziam _maranduba_, conto de guerra, de _mara_--guerra--_nheng_--falar e
_tuba_--muito; falar muito de guerra.
Depois aplicaram os indijenas essa palavra a toda narrativa, se é que
não crearam para as outras historias o termo analogo de _poranduba_,
composto de _poro_, _nheng_, e _tuba_--falar muito da gente.
Os indios eram muito apaixonados dessas narrações, em que mostravam sua
natural eloquencia. Informa-me o Dr. Coutinho, incansavel explorador do
vale do Amazonas, que ainda hoje nenhum indio chega de viajem, que não
diga a sua maranduba, que é o recito circumstanciado de quanto viu e lhe
aconteceu em caminho.
Ás vezes traduzo o termo; outras o emprego orijinal para mais incutir no
livro o espirito indijena. Do mesmo modo procedi ácerca de outros termos
eufonicos tais como _tuxaba_, _moribixaba_, _moacara_, _nhengaçara_,
_etc_.
Paj. 21
_Os cantores_.--Os tupís eram muito dados á muzica e á dansa.
Lery fala com entuziasmo da doçura de seus cantos; e Ferdinand Denis,
paj. 21, afirma, não sei com que fundamento, que a imitação dos Chataws
da America do Norte, certas nações do Brazil gozavam do privilejio de
fornecer poetas e musicos aos outros povos, como sucedia com os tamoios
entre os tupís.
Gabriel Soares--cap. 162--descreve os cantos, improvizos e dansas dos
tupinambás, concluindo com estas palavras:
«Entre este gentio, os muzicos são muito estimados e por onde quer que
vão, são bem agazalhados e muitos atravessaram já o sertão por entre
seus contrarios, sem lhes fazerem mal.»
Paj. 24
_Como chefe pertence-lhe a virjem_, etc, Barloeus--2.a edic. paj.
483.--Quotquot luta, hastarum concursu ac venatu proecellunt,
eminentiores habentur et ut hoeroum numero, qui ob virtutis
fortitudinisque excellentiam ab ipsis virginibus ambire moerentur, cum
meliores ex melioribus nasci opinentur, nec vanum esse nobilitatis
nomen, sed cum sanguine transfundi.»--Quantos disputam em jogos de lança
e caça; os eminentes são tidos no numero dos heróes; os quais pela
excelencia da virtude e fortaleza merecem possuir as mesmas virjens; por
quanto pensam que os melhores nacem dos melhores; nem é vão nome a
nobreza, pois se comunica pela transfuzão do sangue.
Paj. 25
_Purifica o corpo_.--Os selvajens distinguiam-se pelo apurado asseio.
Ives d'Evreux diz a este respeito: «Ils sont fort soigneux de tenir leur
corps net de toute ordure: ils se lavent fort souvent tout le corps et
ne se passe jour qu'ils ne jettent sur eux force eau et se frottent avec
les mains de tous côtés et en toutes les parts, pour oster la poudre et
autres ordures. Les femmes ne manquent de se peigner souvent.»
Pag. 25
_Urú_.--Tinham os indijenas varias especies de moveis para guardar
objetos. O _urú_ era um cesto aberto. _Panacum_ era um cesto maior com
tampa. _Samburá_ era cesto com orelha, corrupção de _nambi_ e _urú_,
literalmente cesto de orelha. Tinham ainda os selvajens o _patiguá_ ou
_patuâ_, que era uma caixa de palha ou couro; e o _mocô_, pequeno surrão
da pele felpuda do coelho. Todos estes nomes ainda são uzados no norte
para dezignar os mesmos objetos, produtos da industria indijena,
aproveitada pelos colonizadores.
Paj. 26
_Coqueiros_.--Ao que disse em nota de Iracema ácerca do indijenismo
desta planta acrecentarei a noticia que della nos deixou Guilherme
Piso--_Historiæ Rerum Naturalium Brasiliæ_, Liv. 8o, p. 138.
«_Inaiá Guacuiba_ cujus fructus _inaiaguacu_ brasiliensibus; in congo
vocatus _Ejaquiambutu_ et fructus _Quetiniga quiambutu_: Palma nucifera,
lusitanis _coqueiro_ et fructus illius _coco_; qui tribus suis
foraminulis lavam representat. Arbor caudice raro recto, sed plerumque
incurvato, quatuor, quinque sex aut etiam septem pedes crasso, triginta,
quadraginta et interdum quinquaginta pedes alto.»
É esta mesma palmeira que os Mexicanos chamavam _Cogolli_. Piso viu em
1640 na cidade Mauricéa (Recife) transplantarem-se pés que tinham mais
de 24 anos.
Paj. 28
_Cabelos_.--Pelos cabelos costumavam distinguirem-se as diversas nações
indijenas. Southey--I, cap. 8o. Das mulheres diz Barloeus:--_Foeminis
coma promissa nisi per luctus tempora aut absens marito_.--paj. 36.
Traziam as mulheres a madeixa longa, salvo no tempo do luto ou auzencia
do marido.
Mais um traço do carater e costumes indijenas. Durante a auzencia do
marido, a mulher trazia uma especie de luto, ou mostra de tristeza e
saudade, que era simbolizada pelo sacrificio das longas tranças dos
cabelos.
Paj. 28
_Braços que tu querias para tua cintura_.--Metafora da lingua tupí, que
exprime o amor; _aguaçaba_, a amante, literalmente, o que se tem á
cintura.
Paj. 31
_Escravo_.--Acerca das leis do cativeiro entre os indios leiam-se os
dois capitulos XV e XVI, que a este assunto consagrou Ives d'Evreux,
citado.
Os cativos viviam em plena liberdade na taba de seus senhores, e era
muito raro que fujissem, porque se consideravam ligados por um vinculo
desde o momento em que o vencedor lhes calcava a mão sobre a espadua.
Quebrar esse vinculo, era por elles considerado uma dezhonra.
Até os prizioneiros destinados ao suplicio, preferiam a morte glorioza
a se rebaixarem pela fuga no conceito de seus inimigos. «Muitas vezes as
mulheres tomavam substancias que provocavam o aborto, não querendo
passar pela mizeria de verem trucidada a prole; não raro favoreciam a
fuga dos tristes maridos de alguns dias pondo-lhes comida nos bosques e
até escapulindo-se com elles. Frequentemente sucedeu isto a prizioneiros
portuguezes; os indios brazileiros, porém, julgavam dezhonroza a fuga,
nem era facil persuadil-os a tomal-a.» Southey--cap. VII onde
cita--Noticias do Brazil, II, 69 e Herrera 4, 3, 13.
Abbeville ainda é mais explicito:--Et bien que estant desliez et libres
comme ils sont, ils puissent fuir et se sauver, si est ce que ils ne
font jamais encore qu'ils soient assurez de estre tuez et mangez au bout
de quelques temps. Car si quelqu'un des prisionniers s'etait eschapé
pour retourner em son pays, non seulement il serai tenu pour un _couaen
eum_, c'est a dire poltron et lasche de courage; mais aussi ceux de sa
nation mesme ne manqueroient de le tuer avec mille reproches de ce qu'il
n'aurait pas eu le courage d'endurer la mort parmi ses ennemis, comme si
ses parents et tous ses semblables n'etaient assez puissants por venger
sa mort, etc. pag. 290.
As leis da cavalaria no tempo em que ella floreceu em Europa não
excediam por certo em pundonor e brios a bizarria dos selvajens
brazileiros. Jámais o ponto de honra foi respeitado como entre estes
barbaros, que não eram menos galhardos e nobres do que esses outros
barbaros, godos e arabes, que fundaram a cavalaria.
Alí está uma pedra de toque para aferir-se o carater do selvajem
brazileiro, tão deprimido por cronistas e noveleiros, avidos de
inventarem monstruozidades para impinjil-as ao leitor. Nem isso lhes
custava; pois a raça invazora buscava justificar suas cruezas rebaixando
os aborijenes á condição de féras, que era forçozo montear.
Paj. 32
_O suplicio_.--Outro ponto em que se assopra a ridicula indignação dos
cronistas é ácerca da antropofagia dos selvajens americanos.
Ninguem póde seguramente abster-se de um sentimento de horror ante essa
idéa do homem devorado pelo homem. Ao nosso espirito civilizado, ella
repugna não só á moral, como ao decoro que deve revestir os costumes de
uma sociedade cristã.
Mas antes de tudo cumpre investigar a causa que produziu entre algumas,
não entre todas as nações indijenas, o costume da antropofagia.
Disso é que não curaram os cronistas. Alguns atribuem o costume á
ferocidade, que transformava os selvajens em verdadeiros carniceiros, e
tornava-os como a tigres sedentos de sangue. A ser assim não faziam mais
do que reproduzir os costumes citas, que sugavam o sangue do inimigo
ferido,--quem primum interemerunt, ipsis é vulneribus ebibere. Pomponius
Moela. Descrip. da Terra.--Liv. 2o cap. 1o.
Outros lançam a antropofajia dos americanos á conta da gula, pintando-os
igual á horda bretã das Gallias, os Aticotes, dos quais diz S. Jeronimo
que se nutriam de carne humana, regalando-se com o ubere das mulheres e
a fevera dos pastores. (_S. Hieronimo IV.--paj. 201, adv. Jovin.--Liv.
2o_.)
O canibalismo americano não era produzido, nem por uma nem por outra
dessas cauzas.
É ponto averiguado, pela geral conformidade dos autores mais dignos de
credito, que o selvajem americano só devorava o inimigo, vencido e
cativo na guerra. Era esse ato um perfeito sacrificio, celebrado com
pompa, e precedido por um combate real ou simulado que punha termo á
existencia do prizioneiro.
Simão de Vasconcelos, Cronica da companhia, 1 § 49, alude a uma velha
que sentia entojos por não ter a mãozinha de um rapaz tapuia para
chupar-lhe os ossinhos: e Hans Stade, paj. 4, cap. 43 e seg., conta a
historia de dois individuos moqueados pelos tupinambás, e guardados para
um banquete.
Não exajeremos, porém, esses fatos izolados, alguns dos quais podem não
passar de caraminholas, impinjidas ao pio leitor. Os costumes de um povo
não se aferem por acidentes, mas pela pratica uniforme que elle observa
em seus atos.
Se os tupís fossem excitados pelo apetite da carne humana, elles
aproveitariam os corpos dos inimigos mortos no combate, e que ficavam no
campo da batalha. A guerra se tornaria em caçada; e em vez de montear as
antas e os veados, os selvajens se devorariam entre si.
Não ha, porém, escritor sério que deixasse noticia de fatos daquella
natureza; e não me recordo de nenhum que referisse exemplos de serem
devoradas mulheres e meninos; salvo quanto aos ultimos, o filho do
prizioneiro de guerra (Not. do Brazil.--II, 69), do que tenho razão para
duvidar.
Parece-nos, pois, que a idéa da gula deve ser repelida sem hezitação. Se
em algumas tribus ou malocas se propagou o apetite depravado, essa
dejeneração foi por ventura devida ao contajio dos Aimorés, cuja invazão
é posterior ao descobrimento. Em todo o cazo é uma exceção que não póde
preterir o rito da relijião tupica.
Tambem pela contraprova, havemos de excluir a ferocidade, como razão do
canibalismo americano.
Se o instinto carniceiro dominasse o tupí, elle se lançaria sobre o
inimigo como o cita, ou o sarraceno de que fala Am. Marcellinus, para
sugar-lhe o sangue da ferida, e trincar-lhe as carnes ainda vivas e
palpitantes.
Mas, ao contrario, vemos que o guerreiro tupí tinha por maior bizarria
cativar seu inimigo no combate, e trazel-o prizioneiro, do que matal-o.
Chegado á taba, em vez de o torturar dava-lhe por espoza uma das virjens
mais formozas, a qual tinha a seu cargo nutril-o e tornar-lhe agradavel
o cativeiro.
Releva notar que a idéa da antropofajia já era comum na Europa, antes do
descobrimento da America; não só pelas tradições dos barbaros, como
pelas crendices da média idade, nas quais figuravam gigantes e bruxas,
papões de meninos. Que tema inexgotavel para a imajinação popular não
veiu a ser a primeira noticia, senão conjetura, sobre o canibalismo do
selvajem brazileiro?