Ambas as cordas brandiram a um tempo. A seta araguaia e a seta tocantim

partiram de novo como duas aguias que par a par remontam ás nuvens.

Quando se calou a pocema do triunfo, Ubirajara caminhou para a filha de

Itaquê:

--Arací, estrela do dia, tu pertences a Ubirajara que te conquistou pela

força de seu braço. Agora que é senhor, elle espera tua vontade.

A formoza virjem rompeu a liga vermelha que lhe cinjia a perna, e atou-a

ao pulso de seu guerreiro.

Ubirajara tomou a espoza aos hombros e levou-a á cabana do cazamento.

O jasmineiro semeava de flôres perfumadas a rêde do amor.

* * * * *

O outro sol rompia, quando os tapuias estenderam pela campina a multidão

de seus guerreiros.

Na frente assomava Agniná, a montanha dos guerreiros, ainda mais feroz

do que o irmão, o terrivel Canicran.

De um lado e do outro seguiam-se os chefes, cada um á frente de seus

guerreiros.

Ubirajara escolheu mil guerreiros araguaias e mil guerreiros tocantins,

com que saiu ao encontro dos tapuias.

Depois que desdobrou sua batalha pela campina, o chefe dos chefes

caminhou só para o inimigo.

Quando chegava a meio do campo, os tapuias levantaram a pocema de

guerra, que atroou os ares, como o estrépito da cachoeira.

Um turbilhão de setas crivou o longo escudo do heróe, que ficou

semelhante ao grosso tronco da jussára, erriçado de espinhos.

Ubirajara embraçou o escudo na altura do hombro, e com o pé brandiu sete

vezes a corda do grande arco gemeo.

As setas vermelhas e amarelas subiram direitas ao céu e se perderam nas

nuvens.

Quando voltaram, Agniná e os chefes que obedeciam a seu arco, tinham

cada um fincado na cabeça o dezafio do formidavel guerreiro.

Enfurecidos mais pelo insulto, do que pela dôr, arremessaram-se contra o

inimigo que os esperava coberto com seu vasto escudo.

Agniná era o primeiro na corrida, e o primeiro na sanha. Após elle

vinham os outros, a dois e dois, lutando na rapidez.

Quando o espozo de Arací viu que elles se estendiam pela campina, como

dois ribeiros que se aproximam para confundir suas aguas, o heróe

empunhou a lança de duas pontas e soltou seu grito de guerra que era

como o bramir do jaguar, senhor da floresta.

Seu pé devorou o espaço; e a lança de duas pontas girou em sua mão, como

a serpente que se enrosca nos ares silvando.

Caiu Agniná do primeiro bote; após elle caíram aos dois os chefes

tapuias, como caem os juncos talhados pelo dente afiado da capivara.

Então o heróe soltou seu grito de triunfo, que era como o rujido do

vento no dezerto:

--Eu sou Ubirajara, o senhor da lança, o guerreiro invencivel que tem

por arma uma serpente.

«Eu sou Ubirajara, o senhor das nações, o chefe dos chefes, que varre a

terra, como o vento do dezerto.»

O heróe estendeu a vista pela campina, e não descobriu mais o inimigo,

que se sumia na poeira.

Ubirajara lançou-lhe seus guerreiros, que tinham fome de vingança; porém

o terror de sua lança dava azas aos fujitivos.

Desde esse dia nunca mais um tapuia pizou as marjens do grande rio.

* * * * *

Ubirajara voltou á cabana, onde o esperava Arací.

A espoza despiu as armas de seu guerreiro, enxugou-lhe o corpo com o

macio cotão da monguba, e cobriu-o do balsamo fragrante da embaiba.

Encheu depois de generozo cauim a taça vermelha feita do côco da

sapucaia; e aplacou a sêde do combate.

Emquanto nas grandes tabas se preparava a festa do triunfo e o heróe

repouzava na rêde, Arací foi ao terreiro, e voltou conduzindo Jandira

pela mão.

--Arací, tua espoza, é irmã de Jandira. Ubirajara é o chefe dos chefes,

senhor do arco das duas nações. Elle deve repartir seu amor por ellas,

como repartiu sua força.

A virjem araguaia pôz no guerreiro seus olhos de corça.

--Jandira é serva de tua espoza; seu amor a obrigou a querer o que tu

queres. Ella ficará em tua cabana para ensinar a tuas filhas como uma

virjem araguaia ama seu guerreiro.

Ubirajara cinjiu ao peito com um e outro braço, a espoza e a virjem.

--Arací é a espoza do chefe tocantim; Jandira será a espoza do chefe

araguaia; ambas serão as mãis dos filhos de Ubirajara, o chefe dos

chefes, e o senhor das florestas.

* * * * *

As duas nações, dos araguaias e dos tocantins, formaram a grande nação

dos Ubirajaras, que tomou o nome do heróe.

Foi esta poderoza nação que dominou o dezerto.

Mais tarde, quando vieram os caramurús, guerreiros do mar, ella campeava

ainda nas marjens do grande rio.

FIM

NOTAS

ADVERTENCIA

Este livro é irmão de Iracema.

Chamei-lhe de lenda como ao outro. Nenhum titulo responde melhor pela

propriedade, como pela modestia, ás tradições da patria indijena.

Quem por desfastio percorrer estas pajinas, se não tiver estudado com

alma brazileira o berço de nossa nacionalidade, ha de estranhar entre

outras coizas a magnanimidade que resumbra no drama selvajem e lhe fórma

o vigorozo relevo.

Como admitir que barbaros, quais nos pintaram os indijenas, brutos e

canibais, antes féras que homens, fossem sucetiveis desses brios nativos

que realçam a dignidade do rei da creação?

Os historiadores, cronistas e viajantes da primeira época, se não de

todo o periodo colonial, devem ser lidos á luz de uma critica severa. É

indispensavel sobretudo escoimar os fatos comprovados das fabulas a que

serviam de mote, e das apreciações a que os sujeitavam espiritos

acanhados, por demais embuidos de uma intolerancia rispida.

Homens cultos, filhos de uma sociedade velha e curtida por longo trato

de seculos, queriam esses forasteiros achar nos indijenas de um mundo

novo e segregado da civilização universal uma perfeita conformidade de

idéas e costumes. Não se lembravam, ou não sabiam, que elles mesmos

provinham de barbaros ainda mais ferozes e grosseiros do que os

selvajens americanos.

Desta prevenção não escaparam muitas vezes espiritos graves e bastante

ilustrados para escreverem a historia sob um ponto de vista mais largo e

filozofico.

Entre muitos citarei um exemplo. Barloeus referindo as justas que se

faziam entre os selvajens para obterem em premio de seu valor a virjem

mais formoza, não se esqueceu de acrecentar este comento--_finis

spectantium est voluptas_.

Narrados com este pessimismo, as cenas da cavalaria, os torneios e

justas não passariam de manejos inspirados pela sensualidade. Nada

rezistiria á censura ou ao ridiculo.

Por igual teor, senão mais grosseiras, são as apreciações de outros

escritores ácerca dos costumes indijenas. As coizas mais poeticas, os

traços mais generozos e cavalheirescos do carater dos selvajens, os

sentimentos mais nobres desses filhos da natureza, são deturpados por

uma linguajem impropria, quando não acontece lançarem á conta dos

indijenas as extravagancias de uma imajinação desbragada.

Releva ainda notar, que duas classes de homens forneciam informações

ácerca dos indijenas: a dos missionarios e a dos aventureiros. Em luta

uma com outra, ambas se achavam de acôrdo nesse ponto, de figurarem os

selvajens como féras humanas. Os missionarios encareciam assim a

importancia de sua catequese; os aventureiros buscavam justificar-se da

crueldade com que tratavam os indios.

Faço estas advertencias para que, ao lerem as palavras textuais dos

cronistas citados nas notas seguintes, não se deixem impressionar por

suas apreciações muitas vezes ridiculas. É indispensavel escoimar o fato

dos comentos de que vem acompanhado, para fazer uma idéa exata dos

costumes e indole dos selvajens.

* * * * *

Paj. 5

_Grande rio_.--Os tupís chamavam assim ao maior rio que existia na

rejião por elles habitada: e daí rezultou ficarem tantos rios com essa

dezignação na lingua orijinal ou traduzida.

O rio grande de que se trata nesta lenda é o Tocantins, em cujas marjens

se passa a ação dramatica.

Paj. 5

_Jaguarê_.--Nome composto de _Jaguar_, a onça e o sufixo _ê_ que na

lingua tupí reforça emfaticamente a palavra a que se liga. _Jaguarê_,

significa, pois, a onça, verdadeiramente onça, digna do nome, por sua

força, corajem e ferocidade.

Paj. 5

_Uiraçaba_.--Nome que davam os tupís á aljava, de _uira_--seta e

_aba_--dezinencia exprimindo o logar, modo e instrumento; literalmente

«o que tem a seta.»

Os selvajens a faziam, ou do tubo de taquarussú, ou da casca de certas

arvores, guarnecida de fios embebidos de rezina, o que as tornava muito

rezistentes.

Paj. 6

_Nome de guerra_.--«Mal nacia a criança logo se lhe punha nome. Hans

Stade achou-se prezente numa dessas ocaziões. Convocou o pai aos mais

proximos vizinhos de dormitorio, pedindo-lhes para o filho um nome viril

e terrivel; não lhe agradando nenhum dos propostos, declarou que ia

escolher o de um de seus quatro antepassados, o que daria fortuna ao

rapaz, e repetindo-o em voz alta, fixou a escolha. Ao chegar á idade de

ir á guerra, dava-se outro nome ao mancebo que aos seus titulos ia

acrecentando um por inimigo que trazia para caza a ser imolado. Tambem a

mulher tomava adicional apelido quando o marido dava uma festa

antropofaga. De objetos viziveis se tirava o cognome, determinando o

orgulho ou a ferocidade a escolha. O epiteto _grande_ frequentemente se

compunha com o nome. Southey, _H. do Brazil_, tom. 1o, cap. 8o, paj.

336.

Póde-se ler tambem a este respeito o que diz Gabriel Soares, cit. no

cap. 160, ácerca do nome que tomava o tupinambá quando matava o

contrario, e no cap. 164 onde acrecenta: «Acontece muitas vezes cativar

um tupinambá a um contrario na guerra, onde o não quiz matar para o

trazer cativo para sua aldêa, onde o faz engordar com as ceremonias já

declaradas para o deixar matar a seu filho quando é moço e não tem idade

para ir á guerra, o qual o mata em terreiro, como fica dito, com as

mesmas ceremonias; mas atam as mãos ao que ha de padecer, _para com isso

o filho tomar nome novo e ficar_ armado cavaleiro e mui estimado de

todos.»

A este trecho de Gabriel Soares é precizo dar o devido desconto ácerca

da engorda do cativo, e do papel insignificante que reprezenta o

mancebo. Devemos crer que entre gente, cuja alma era a guerra, o titulo

de guerreiro não se conferia ao mancebo que não fizesse prova real de

seu esforço e corajem.

Ives d'Evreux, cap. XXI, trata minuciozamente da graduação que a idade

estabelecia entre os tupís. Havia para os guerreiros seis classes: 1o

das crianças até dois anos, _mitanga_, que significa chupador ou

mamador; 2o _curumim mirim_, isto é o pequeno que balbucia; compreendia

os meninos até sete anos; 3o _curumim_ simplesmente, correspondia á

segunda infancia de 7 a 15 anos; 4o _curumim-guassú_, era a

adolecencia, em que os rapazes se empregavam na caça e na pesca; 5o

_aba_--o homem, indicava o principio da virilidade, o qual logo que se

cazava tornava-se apiaba, o varão, ou como diz d'Evreux, _mendarama_, o

cazado; 6o _tijubaê_, o ancião ou veterano, o homem de experiencia,

guerreiro consumado.

Paj. 6

_Jandira_.--O nome é _jandaíra_, de uma abelha que fabrica excelente

mel; Jandira é uma contração mais eufonica daquelle nome, que tambem por

sua vez é contração de _Jemonhaíra_, que fabrica mel.

Paj. 6

_Aratuba_.--Palavra que se compõe de _ara_--o sol e _tuba_--infinito do

verbo _ajub_--estar deitado. Vem a ser a significação _leito do sol_,

aplicada pelos indios á montanha do poente, onde o sol se esconde no seu

ocazo.

Paj. 6

_Lança_.--O uzo da lança não era comum aos selvajens, que empregavam de

preferencia o arco, o tacape, a macana, e a igarapema, especie de remo,

que fazia as vezes de partazana. Outros escrevem _iverapema_; mas o nome

é aquelle de _igara-pema_, espada da canôa; basta ver-lhe a fórma para

compreender seu duplo destino.

Paj. 6

_Craúba_.-É a mesma _carabiuba_ dos indios, assim contraída pelo uzo dos

nossos sertanejos. Madeira roxa, excessivamente rija, que não cede ao

páu-ferro no pezo e na dureza.

Paj. 7

_A liga vermelha_.--Era este um dos mais curiozos e interessantes ritos

dos tupís.

Quando a menina atinjia a puberdade, depois de sua purificação, da qual

tratam os autores, especialmente Orbigny e Thevet, a mãi punha-lhe nas

pernas, abaixo do joelho, uma liga de fio de algodão tinta de vermelho,

de tres dedos de largura, e tecida no proprio logar de modo que uma vez

fechada, não era mais possivel tiral-a. Vide Gabriel Soares, cap. 153.

A essa liga chamavam _tapacora_, e não a podia trazer senão a virjem, de

modo que se acontecesse quebrar a castidade havia de rompel-a, para que

todos conhecessem sua falta. Eis como Gabriel Soares se exprime a este

respeito no cap. 152: «E como o marido lhe leva a flôr, é obrigada a

noiva a quebrar estes fios para que seja notorio que é feita dona; e

ainda que uma moça destas seja deflorada por quem não seja seu marido,

ainda que seja em segredo, ha de romper os fios de sua virjindade, que

de outra maneira cuidará que a leva o diabo, os quais dezastres lhes

acontecem muitas vezes, etc.»

Este simples traço é bastante para dar uma idéa da moralidade dos tupís,

e vingal-a contra os embustes dos cronistas, que por não compreenderem

seus costumes, foram-lhes emprestando gratuitamente, quanto inventavam

exploradores mal informados e prevenidos.

Em que sociedade civilizada se observa tão profundo respeito pela união

conjugal, a ponto de não consentir-se que a mulher decaída conserve o

segredo de sua falta, e iluda o homem que a busque para espoza?

A rezignação com que a moça culpada rompia a liga da virjindade, e fazia

confissão publica de seu erro, é um exemplo da lealdade do carater tupí

e da veneração que inspiravam os ritos de sua relijião.

Nega Southey, cap. VIII, que a liga vermelha e o respeito que ella

inspirava indicassem guarda da castidade, porquanto a castidade como a

caridade é virtude da civilização; do mesmo modo considera o amor uma

delicadeza da vida civilizada. São paradoxos de escritor. Sentimentos

naturais á creatura humana, dezenvolvem-se nella em qualquer estado e

condições.

Não é possivel negar a castidade da mulher tupí; além desse recato da

virjindade, prova-a de modo cabal a continencia que homens e mulheres

guardavam em certas circumstancias. Assim, nenhum homem tinha relações

com a mulher inubil, nem ella o consentia; o proprio marido não violava

essa lei, embora tivesse a espoza em seu poder. Gabriel Soares cit.

Durante a gravidez e a amamentação interrompia-se absolutamente o

ajuntamento conjugal. (Barloeus 2a edic.)

Onde está a sociedade civilizada, que observe leis tão rigorozas, e

refreie os instintos sensuais com a severidade uzada pelos tupís?

Poderiamos fazer muitas outras observações que rezervamos para um estudo

especial ácerca dos selvajens brazileiros.

Paj. 7

_Tocantim_.--Compõe-se de _tocano_ e _tim_; literalmente o nariz, o

rostro do tucano. Nome que tomou um guerreiro por trazer na cabeça o

despojo de um tucano com o grande bico da ave; e que transmitido a uma

nação selvajem, ficou dezignando o rio a cujas marjens vivia.

Paj. 7

_Taarí_.--Rio que despeja no Tocantins, pouco depois da confluencia do

Araguaia. Indica o logar da cena.

Paj. 7

_Araguaia_.--O nome é araguara, de _ara_ e _guara_, literalmente, os

guerreiros das araras, porque uzavam nos seus ornatos das penas

encarnadas daquellas aves. Conservei a versão que ficou no nome do rio.

Paj. 8

_Arací_.--Esta palavra tupí compõe-se de _ara_, dia, e _ceí_ ou _cejí_,

grande estrela. Este ultimo nome davam os indijenas ás pleiades, que

lhes serviam para contar os anos.

Paj. 8

_Cem dos melhores guerreiros_.--Nesta e outras frazes identicas, os

numerais cem ou mil não reprezentam algarismo exato, que não os tinham

os tupís para exprimir numero tão elevado. Traduzem apenas esses termos

a dezinencia _tiba_, com que os tupís dezignavam cópia e multidão.

Paj. 9

_Canitar_.--Enfeite de cabeça. Adotei esta dezignação empregada pelos

autores sob a autoridade de Hans Stade por me parecer mais eufonica. A

exata lição pede _acanga atara_.

Paj. 9

_As duas nações não estão em guerra_.--As nações tupís não viviam em um

estado perene de guerra, como propalaram alguns escritores. A guerra era

frequente; mas não constante. As nações faziam a paz e nella se

mantinham até que sobrevinha alguma cauza de rompimento. Então não

começavam as hostilidades senão depois de anunciada a guerra ao inimigo,

o que se fazia lançando-lhe uma flecha na taba, ou levando-lhe um

guerreiro o dezafio.

É uma prova do carater leal dos selvajens. Foi depois da colonização,

que os portuguezes, assaltando-os como a feras, e caçando-os a dente de

cão, ensinaram-lhes a traição que elles não conheciam.

Paj. 10

_Pojucan_.--Contração de uma fraze tupica._I-pojuca_;--significa: eu

mato gente. Essas contrações não são arbitrarias; ellas eram da indole

da lingua e conformes ao seu sistema de aglutinação. Todas as vezes que

os indijenas compunham uma palavra, cerceavam as sílabas dos vocabulos

que entravam na compozição, para ligal-as mais eufonicamente.

Lemos em Alfred Maury _La Terre et l'homme_, cap. VIII, o seguinte

trecho:

«Nas linguas americanas, não é sómente uma sinteze que concentra em uma

palavra todos os elementos da idéa mais complexa; ha ainda engrazamento

(enchevêtrement) das palavras umas nas outras; é o que M. F. Lieber

chama _incapsulação_, comparando a maneira por que as palavras entram na

fraze a uma caixa na qual se conteria outra que a seu turno conteria

terceira, esta uma quarta, e assim por diante. A incorporação das

palavras é por vezes levada á extrema exajeração nesses idiomas, o que

produz a mutilação dos vocabulos incorporados.»

Esta observação é da maior justeza e conforma-se de todo o ponto com a

indole da lingua, como se vê nas seguintes palavras--_A-por-u_--como

gente--_A-poro-tim_--enterro gente--_A-po-çub_--vizito a gente. (Vide

Figueira, _Gramatica da lingua do Brazil_, paj. 51.)

Paj. 10

_Tapuia_.--de _taba_ e _puir_, o que foje das tabas. Davam os indijenas

esse nome a povos mais barbaros e de lingua diversa. Segundo as ultimas

investigações etnolojicas, pertenciam esses povos a uma raça diversa da

tupí, e muito aproximada, senão conjenere do tipo mongolico. Entretanto

Orbigny, _L'Homme Américain_, sustenta a identidade das duas raças,

tapuia e tupí.

Paj. 10

_Tacape_.--Davam os tupís o nome de _apem_, a um corpo alongado de fórma

analoga á espada, e como ella cortante. Daí vinha chamarem a

unha--_po-apem_, espada do dedo; e á raiz que surje da terra e se eleva

como um galho--_sapopema_--raiz espada.

Á sua principal arma de guerra chamavam _ita-ca-apem_, espada de

páu-pedra; ou _ita-qui-apem_, machado comprido de pedra, por ter sido

dessa materia que primeiro o fabricaram, antes de aprenderem a lavrar a

madeira.

Ácerca da força dessa arma e da destreza com que a manejavam, diz Lery

que um tupinambá com ella armado daria que fazer a dois soldados de

espada.

Paj. 10

_Guerreiro chefe_.--Para compreender-se bem a força dessa dezignação,

diremos alguma coiza ácerca da hierarquia selvajem.

Como a relijião, era simples o governo dos tupís; mas não careciam

delle, segundo inculcam os cronistas: antes o tinham, e bem regulado

para o seu estado de civilização.

Podemos distinguir na taba selvajem uma sociedade civil e uma sociedade

politica; a primeira reduzida á familia, e a segunda excluziva á

subzistencia, defeza e guerra.

A sociedade civil era constituida pela _oca_, a caza, onde o varão,

_aba_, morava com suas mulheres, sua prole, os servos que trabalhavam

para granjear as filhas em cazamento, os cativos que fazia na guerra, e

os parentes que agregava a si.

O dono da caza, ou literalmente o que fazia a caza, _moacara_, era a

perfeita imajem do patriarca. Elle governava a sua gente; e formava uma

sociedade independente, no seio da grande sociedade politica, de que era

membro e para cuja defeza concorria não só por interesse proprio, mas

pela honra da nação.

_Moacara_ nos dicionarios significa fidalgo. A tradução resente-se da

preocupação do homem civilizado; mas havia realmente uma distinção entre

o _moacara_, chefe da oca, pai de muitos guerreiros, e o simples

individuo que ainda não possuia uma familia.

A sociedade politica, _taba_, era a reunião das ocas. Essa denominação

vem de _tama_, a patria, o berço, a terra natal, e _aba_ dezinencia que

indica o logar, modo, instrumento da coiza. Assim, _taba_ significa

literalmente onde ou o que faz a patria, isto é, aldeia natal.

O governo da _taba_, essencialmente democratico, rezidia no conselho dos

_moacaras_, entre os quais predominava a experiencia dos anciãos, que se

chamavam _abarés_ ou _abaetês_; isto é, varões egrejios.

Nações essencialmente guerreiras, tinham um chefe para governal-as nas

jornadas e batalhas. A estes davam o nome de _tuxava_, ou _tauxaba_, o

dono da taba, _morubixaba_, o que governa o povo; de _moro_, gente, e

_aba_, dezinencia.

Quando as nações eram grandes e não cabiam numa taba, destacavam-se

alguns _moacaras_ com suas familias e formavam novas tabas, sujeitas á

taba mãi. Daí se orijinaria a diferença das duas dezignações, vindo

então _tauxaba_ a dezignar o simples chefe de uma taba; e _morubixaba_ o

chefe da taba primitiva, ou da nação, _moro_.

Tambem acontecia que muitas vezes um _moacara_ poderozo separava-se de

sua nação por cauza de alguma dissenção intestina, e constituia-se

independente com seus decendentes, e os guerreiros a elle sujeitos pelo

parentesco. Essa _oca_ independente, chamava-se _moroca_, isto é, oca de

gente, de tribu e não mais de familia. O termo _moloca_ tão frequente

nos cronistas não é senão corruptela daquelle, e póde corresponder ao de

tribu ou horda.

A nomeação do chefe participava da natureza dessa sociedade democratica

e guerreira. O mais audaz e o mais forte impunha-se: a permanencia de

sua autoridade, bem como sua extensão, dependia do respeito que elle

conseguia infundir a seus guerreiros.

No momento em que surjia outro ambiciozo a disputar o poder, este

tornava-se o premio do mais valente. Acontecia então que o vencido com

seus sectarios revoltava-se; e daí as frequentes guerras intestinas, que

aniquilaram a raça indijena, ainda mais talvez do que a crueldade dos

europeus.

Na morte do _morubixaba_ ocorria igual pleito. O filho apossava-se do

poder pelo direito de herança; e o conservava se não aparecia algum

emulo mais poderozo que lh'o arrebatasse.

Falando com as nossas teorias da civilização, podemos dizer que a baze

desse poder executivo era, como nas republicas, o sufragio universal.

Mas era o sufragio sempre ativo e vijilante, pronto a inclinar-se ao

merecimento superior, onde elle se revelasse.

Entre o chefe guerreiro (poder executivo), e o conselho dos _moacaras_

(poder lejislativo) os conflitos eram inevitaveis. Morubixaba haveria,

como o celebre Cunhanbebe, que era um verdadeiro despota. O tacape de

muito heróe tupí ha de ter governado tão absolutamente como a espada de

Cezar ou de Napoleão.

Outros conflitos tambem se deviam dar frequentemente entre a influencia

dos _pajés_ e o poder do chefe ou dos anciãos. Aquelles sacerdotes,

cercados do respeito dos guerreiros, fortes pelo prestijio de seus

augurios e sortilejios, tentariam insuflados pela ambição governar a

taba, ou pelo menos fomentar a rezistencia ao chefe.

Eis em escorço as paixões que deviam ajitar aquella sociedade politica,

depois da guerra que era a maior preocupação.

Além das ocas, ou familias, havia na taba uma especie de oca mais vasta

e comum. Nessa parece que moravam aquellas pessoas, que já não tinham

oca, e estavam a cargo da nação; tais eram as _velhas_, e por este nome

devem-se entender as mulheres sem companhia de marido, nem parentes; os

orfãos, aos cuidados daquellas mãis emprestadas; e finalmente as moças

que não faziam vida conjugal.

Vejamos agora a sociedade civil, tal como a podemos induzir dos

acanhados esclarecimentos que nos deixaram os cronistas.

O cazamento, baze da familia, devia ter alguma ceremonia simbolica,

ainda que não passasse da simples entrega da noiva ao varão. Essa minha

supozição funda-se no fato de haver entre esses povos um cazamento bem

caracterizado, e não simples coito.

A mulher lejitima distinguia-se pelo nome. O marido a chamava

_temireco_, isto é, a verdadeira mãi de meus filhos; emquanto que ás

outras mulheres, suas amantes, chamava _aguaçaba_. O marido tinha tambem

um nome especial _menda_, que o distinguia do simples amante.

Ubirajara: Lenda Tupi · 第 5 / 8 段