Ubirajara não deixará a traição na terra hospedeira.
«Arací não deve querer para espozo um guerreiro menos generozo do que
seu pai.»
A virjem emudeceu. Ella sabia que a honra é a primeira lei do guerreiro.
Antes de partir, o chefe consolou a espoza:
--Ubirajara vai pedir ao gavião suas azas para voltar ao seio de Arací.
Elle virá á frente de sua nação, conduzido pela luz de teus olhos.
«As outras mulheres são o premio de um combate entre os servos de seu
amor. Arací terá essa gloria, que ella será o premio da maior guerra que
já viram as florestas.»
O chefe araguaia pôz as mãos nos hombros de Arací; duas vezes uniu o seu
ao rosto della, por uma e outra face, para exprimir que nada os podia
separar.
Quando o guerreiro dezapareceu na floresta, Arací caminhou para a cabana
do espozo, que ficára triste e solitaria.
A virjem fechou a porta; sentou-se na soleira, e cantou sua tristeza.
Dois sóes tinham passado, e viera a noite.
A ultima estrela se apagava no céu, quando Ubirajara pizou os campos dos
araguaias.
Sua mão robusta, vibrando a clava, feriu o trocano. A voz da nação
araguaia derramou-se ao lonje pelo vale, como o estrondo da montanha que
arrebenta.
Com o primeiro raio do sol que subia o pincaro da serra, chegaram á
grande taba os chefes das cem tabas araguaias, com todos seus
guerreiros, convocados á ocara da nação.
Ubirajara mandou que Pojucan, o prizioneiro, viesse á sua prezença:
--Vê o mar dos meus guerreiros que enche a terra, como as aguas do
grande rio quando alaga a varzea. Elles esperam o aceno de Ubirajara
para inundarem teus campos.
«A nação tocantim carece neste momento do braço de seus maiores
guerreiros; vai levar-lhe o socorro de teu valor, para que se aumente a
gloria de Ubirajara, seu vencedor.
«Tu és livre, Pojucan; parte e vôa, que a guerra dos araguaias te segue
os passos.»
O semblante do filho de Itaquê ficou sombrio:
--Pojucan é um chefe ilustre; não merece esta dezhonra. Tu lhe
prometeste a morte dos bravos. Elle exije o combate.
O chefe araguaia contou a maranduba da hospitalidade:
--Ubirajara não sabia que Pojucan era filho de Itaquê; pois elle nunca
pizaria como hospede a cabana de um guerreiro, a quem tivesse decepado
um filho. É precizo que recuperes a liberdade para que não se diga que
Ubirajara surpreendeu a hospitalidade do grande chefe dos tocantins.
Pojucan não respondeu. Elle reconhecera que a honra de seu vencedor
exijia sua volta á taba dos seus.
--Parte. Nós combateremos á frente das nações. Ubirajara pertence a
Itaquê; mas depois delle terás a gloria de ser vencido outra vez por
este braço.
--Ubirajara é um grande chefe e maior guerreiro. Se Tupan não consente
que Pojucan seja vencedor, elle não quer maior gloria do que a de morrer
combatendo Ubirajara.
Pojucan foi á cabana de seu vencedor buscar as armas. Ubirajara
arrimou-se ao tacape, como o rochedo que se apoia ao tronco do ipê, e
meditou.
Quando passou o chefe tocantim que voltava á sua taba, Ubirajara
levantou a cabeça e disse:
--Os olhos de Ubirajara te acompanham; tu és irmão de Arací, e vais para
junto della. Dize á estrela do dia, que seu espozo está com ella.
O conselho dos abarés se reunira para meditar sobre a guerra. O velho
Majé, a quem irritava o dezaparecimento da filha, reparou que sem o voto
do carbeto se convocasse a nação.
Veiu um mensajeiro chamar o grande chefe para o carbeto. Ubirajara
chegou. Antes que falasse a voz dos anciãos, o guerreiro levantou o arco
e disse:
--O conselho dos anciãos governa a taba, e medita nella coizas da paz.
Toda a nação respeita sua prudencia e sabedoria.
«Mas emquanto Ubirajara brandir o grande arco dos araguaias, tem a
guerra fechada em sua mão.
«Quando elle soltar o grito de combate, a voz que falar da paz emudecerá
para sempre, ainda que venha da cabeça do abaré que a lua já
embranqueceu.
«Quem não quizer assim, venha arrancar da mão de Ubirajara este arco
que elle conquistou por seu valor.»
Os abarés estremeceram. Mas o carbeto meditou, e decidiu que a maior
gloria e sabedoria da nação era ter o seu grande arco de guerra na mão
de um chefe como Ubirajara.
Camacan tratou com os anciãos ácerca da defeza das tabas; e o grande
chefe abriu o caminho da guerra.
* * * * *
Quando Ubirajara desdobrou sua guerra pela marjem do grande rio, elle
viu que uma nação tapuia se preparava para assaltar a taba dos
tocantins.
O grande chefe tocou a inubia, cuja voz chamava o joven Murinhem,
primeiro dos cantores araguaias.
Correu o nhengaçára á prezença do grande chefe, e delle recebeu a
mensajem que devia levar ao campo inimigo.
Os cantores eram respeitados por todas as nações das florestas, como os
filhos da alegria; pelo que serviam de mensajeiros entre as nações em
guerra.
Elles penetravam no campo inimigo, entoando o seu canto de paz; e nenhum
guerreiro ouzava ofender aquelle a quem Tupan concedera a fonte da
alegria.
Murinhem atravessou rapido a campina e aprezentou-se em frente de
Canicran, chefe dos tapuias.
--Ubirajara, o senhor da lança, que empunha o arco da poderoza nação
araguaia, te manda, a ti quem quer que sejas, e a todos quantos te
obedecem, a sua vontade.
O tapuia rujiu; mas seus olhos viam o mar dos guerreiros araguaias que o
cercava, e na frente o grande vulto de Ubirajara, semelhante ao rochedo
sombrio e imovel no meio dos borbotões da cachoeira.
Os guerreiros de Canicran só conhecem a vontade do seu chefe; e Canicran
afronta a cólera de Tupan e das nações que elle gerou. Dize, mensajeiro,
o que pede Ubirajara, ao grande chefe dos tapuias.
--Ubirajara te manda que encostes o tacape da guerra. A nação tocantim
aceitou a sua flecha de dezafio, e elle não consente que ninguem combata
seu inimigo, antes de o ter vencido.
--Torna e dize ao grande chefe araguaia, que Canicran veiu trazido pela
vingança. Pojucan, um dos chefes tocantins penetrou em sua taba e
incendiou a cabana do pajé, que foi devorado pelas chamas.
«Ubirajara é um grande chefe araguaia; elle que diga se o pai da nação
póde sofrer tão dura afronta. Canicran escuta a voz de sua amizade.»
O chefe tapuia tomou uma de suas flechas; arrancou o farpão e deu ao
mensajeiro a haste emplumada com azas negras do anun, que era o emblema
guerreiro de sua nação.
--Toma; entrega ao grande chefe araguaia o penhor da aliança.
Murinhem partiu e foi á taba dos tocantins levar igual mensajem. Itaquê
escutou o que lhe mandava Ubirajara e respondeu:
--Antes que Itaquê trocasse com Ubirajara a seta do dezafio, Pojucan
tinha levado a guerra á taba dos tapuias.
«Canicran veiu trazido pela vingança; e a nação tocantim não póde
recuzar o combate. Mas Itaquê sabe honrar seu nome; se Ubirajara quer,
elle combaterá juntamente os dois inimigos.»
O mensajeiro tornou ao campo dos araguaias com as respostas dos dois
chefes. Ubirajara ouviu e meditou.
--Escuta a vontade de Ubirajara para leval-a aos inimigos. O grande
chefe araguaia não roubará a Canicran a gloria da vingança; elle
respeita a honra da nação tapuia, mas rejeita sua aliança. Restitue o
penhor que recebeste.
«Itaquê póde aceitar o combate que Pojucan foi buscar; Ubirajara não
ofende o nome de um guerreiro, ainda mais de um morubixaba, e do pai de
Arací.
«O chefe dos araguaias não carece de auxilio para triunfar de seus
inimigos: dezeja que a nação tocantim derrote aos tapuias, para ter elle
a gloria de vencer ao vencedor.
«Se Itaquê não póde repelir os tapuias, Ubirajara toma a si castigar os
barbaros; e depois de varrel-os das florestas, combaterão as duas
nações.
«Se os tocantins necessitam de aliados para rezistir ao ímpeto dos
araguaias, Ubirajara espera que Itaquê os chame e que elles venham.
«Murinhem falará assim a um e outro chefe; a ambos dirá que a cabana
onde estiver Arací fica sob a guarda de Ubirajara; quem nella penetrar
como inimigo, sofrerá a morte vil do cobarde.»
O guerreiro deixou a voz do chefe e falou com a voz de espozo:
--A Arací levarás o canto de amor de Ubirajara. Tu lhe dirás que arme a
rêde nupcial, e não deixe nossa cabana, emquanto Ubirajara não a fôr
buscar.
«Conta-lhe tambem que o canitar que ella teceu, ainda não deixou a
cabeça de seu guerreiro e ha de acompanhal-o sempre.»
VIII
A BATALHA
A um lado da imensa campina move-se a multidão dos guerreiros tocantins,
do outro lado a multidão dos guerreiros tapuias.
As duas nações se estendem como dois lagos formados pelas grandes
chuvas, que se transformam em rios e atravessam o vale.
De um e outro campo levantou-se a pocema guerreira; e os dois povos
arremetendo travaram a batalha.
Itaquê achou-se em frente de Canicran. Ambos se buscavam; dez vezes
tinham combatido; vencedores ambos, nenhum fôra vencido.
Emquanto viverem os formidaveis guerreiros, não é possivel quebrar a
flecha da paz entre as duas nações.
Era precizo que um delles morresse, para que o vencedor encostasse o
tacape do combate, e désse repouzo á sua nação para reparar os estragos
da guerra.
Quando os dois chefes se encontraram, os guerreiros de um e outro campo
ficaram imoveis, contemplando o pavorozo combate.
Ubirajara, de lonje, apoiado em seu grande arco, admirava os dois
guerreiros, e pensava qual não seria o seu orgulho em vencel-os a ambos.
Durára a peleja o espaço de uma sombra. Em torno dos chefes lastravam o
chão os tacapes e escudos que se tinham espedaçado aos golpes de cada
um.
Imoveis no mesmo logar, só ajitavam a cabeça e os braços, semelhantes a
dois condores que, de garras prezas aos pincaros do rochedo, se
dilaceram com o bico adunco.
Um rujido espantoso atroou pela campina, que estremeceu a batalha e
rolou pelas profundezas da floresta.
Paan, a seta, era o ultimo filho de Canicran. Ainda corumim, pelejava ao
lado do irmão, o guerreiro Creban, cujo hombro mal alcançava com o
braço.
Elle tinha nos olhos a vista da gaivota, e nas setas de seu arco, feitas
de espinhos de ouriço, a velocidade e a certeza do vôo do guanumbí.
Quando caçava na floresta, divertia-se em matar as motuças
traspassando-as com suas flechas, que voavam mais rapidas e certeiras
que as vespas venenozas.
Paan saltára sobre os hombros do guerreiro Creban para assistir ao
combate. Admirando o valor de Canicran, teve orgulho e inveja do pai.
Itaquê desfechára tão formidavel golpe, que o tacape e escudo de
Canicran se espedaçaram em suas mãos, deixando-o á mercê do inimigo.
O chefe tocantim arrojou-se, e já sua mão decia sobre a espadua do
tapuia para fazel-o prizioneiro.
O arco de Paan sibilou duas vezes. Os olhos de Itaquê, os olhos do varão
forte que nunca humedecera uma lagrima, choraram sangue.
As setas do corumim tinham vazado as pupilas do fero guerreiro cuja
vista era raio. Assim a jandaia rôe o grelo do procero coqueiro.
Foi então que Itaquê soltou o rujido pavorozo que fez tremer a terra.
Mas o grito de espanto sossobrou no peito dos guerreiros, e rompeu em
um grito de horror.
Itaquê estendera os braços, hirtos como duas garras de condor.
A mão direita abarcou o penacho e a cabeleira de Canicran, a esquerda
entrou pela boca do tapuia e travou-lhe o queixo.
Separaram-se os braços do guerreiro cégo, e a cabeça de Canicran
abriu-se como um côco que se fende pelo meio.
Ajitando no ar o craneo sangrento como um maracá de guerra, Itaquê
arrojou-se contra os inimigos, buscando a morte que lhe fujia.
Quando o sol entrou, não havia na campina a sombra de um tapuia.
O velho heróe voltou á cabana conduzido por Pojucan:
--Tupan viu que Itaquê não podia ser vencido pela mão dos homens, e quiz
vencel-o elle mesmo pela mão de um menino.
Quando Ubirajara viu o exito do combate, lamentou que dos dois grandes
guerreiros não restasse nenhum, para que elle o vencesse.
Seus olhos descobriram Paan que fujia no meio dos destroços de sua
nação. Ergueu a mão, mas não chegou a retezar a seta.
A aguia não persegue a andorinha. Era indigno de um guerreiro, quanto
mais de um chefe, empregar seu valor contra um menino.
O chefe chamou á sua prezença Tubim, um dos jovens caçadores que tinham
acompanhado a guerra para prover o alimento.
--Tubim tem as azas da abelha; se elle alcançar o corumim tapuia que eu
estou olhando, Ubirajara lhe dará o nome de Abeguar.
O joven caçador seguiu o olhar do chefe, e sumiu-se num turbilhão de
poeira. Quando os vagalumes começaram a luzir no escuro da mata, elle
estava de volta no campo dos araguaias e trazia o corumim fechado nos
braços.
Nessa mesma noite Tubim recebeu o nome de Abeguar, senhor do vôo, em
honra da façanha que tinha realizado.
Os cantores entoaram seu louvor; e o joven caçador teve a gloria de
receber os aplauzos dos moacaras de sua nação, e de um chefe como
Ubirajara.
Ao raiar da manhã, Murinhem foi á taba dos tocantins, acompanhado por
vinte guerreiros que conduziam o corumim.
Quando chegou em frente á cabana do grande chefe, o cantor viu Itaquê no
terreiro sentado em uma sapopema.
O guerreiro fitava os olhos no céu, onde o calor lhe dizia que estava o
sol. Mas não encontrava a luz que para sempre o abandonára.
Então o velho guerreiro abaixava os olhos para terra, como se buscasse o
logar do repouzo.
Quando soaram lonje os passos dos estranjeiros, o chefe alongou a fronte
para ver pelo ouvido o que os olhos lhe recuzavam.
Murinhem chegou e disse:
--Ubirajara envia a Itaquê o resto da vingança. Este é Paan, o filho de
Canicran. Elle te roubou a vista; mas não salvou o pai de tua mão
terrivel. Faze do corumim tapuia um mancebo tocantim; e elle será a luz
de teus olhos e caminhará na frente do grande chefe para abrir-lhe o
caminho da guerra.
Paan avançou:
--O filho de Canicran jámais será escravo; naceu tapuia e tapuia
morrerá, como o grande chefe que o gerou. Emquanto o ouriço viver nas
florestas, elle roubará seus espinhos para furar os olhos dos tucanos.
Itaquê pouzou a palma da mão na cabeça do menino:
--O corumim que ama seu pai é filho de Itaquê. Tu és livre, Paan; vai
caçar o ouriço. Quando fôres um guerreiro, acharás cem mancebos do
sangue de Itaquê para castigarem tua audacia.
O chefe voltou-se para o cantor:
--Tupan tirou a luz dos olhos de Itaquê; mas aumentou a força de seu
braço. Ubirajara terá para combatel-o um inimigo digno de seu valor.
Murinhem tornou ao chefe araguaia com esta resposta.
* * * * *
Quando partia o cantor, chegaram á cabana de Itaquê os abarés da nação
tocantim.
Os anciãos sentaram-se em torno do guerreiro cégo; e bebendo a fumaça da
sabedoria, formaram o carbeto.
Falou Guaribú:
--O grande arco da nação carece de uma mão robusta para brandir sua
corda, e de um olho seguro para dirijir sua seta. Itaquê é o maior
guerreiro das florestas; seu nome faz tremer aos mais valentes dos
inimigos; seu braço fere como o raio. Mas a luz fujiu de seus olhos e
elle não póde mais abrir o caminho da guerra.
O velho chefe ergueu-se com o passo trôpego. Alcançando o grande arco
dos tocantins abraçou-se com elle e falou-lhe.
--Quando Itaquê te recebeu da mão do grande Javarí elle pensava que só a
morte o separaria de ti, para transmitir-te a um guerreiro de seu
sangue. Mas Itaquê ficou na terra, como um tronco levado pela corrente,
que não sabe onde vai.
Um esguicho de sangue saltou dos buracos, onde o velho tivera os olhos.
Era a lagrima que a desgraça lhe deixára.
Os abarés meditaram. Guaribú falou de novo:
--O grande arco da nação que tu recebeste do grande Javarí, teu pai, não
te abandonará. Elle fica em tua mão invencivel; haverá outro arco na mão
do mais valente guerreiro, que abrirá o caminho da guerra. Mas emquanto
Itaquê viver, sua voz governará a nação que elle defendeu com seu braço.
O semblante do velho chefe cobriu-se de um sorrizo como o negro rochedo
sobre o qual desliza um raio do luar.
--Pais da sabedoria, abarés, olhai aquelle jatobá que se levanta no meio
da campina, e que eu só posso ver agora na sombra de minha alma.
«Elle tem muitas raizes que o sustentam nos ares; tem muitos galhos que
o cercam e estendem ao lonje a sua rama. Mas o tronco é um só.
«As grossas raizes são os abarés que sustentam o chefe com o seu
conselho. Os galhos fortes são os moacaras que cercam o chefe e geram a
multidão de guerreiros mais numeroza que as folhas das arvores. O tronco
é o chefe da nação; se elle se dividir, o jatobá não subirá ás nuvens
nem terá forças para rezistir ao tufão.
«O logar de Itaquê é no conselho. O ultimo dente de seu colar de guerra
foi o que elle arrancou da boca de Canicran. Convocai os guerreiros, e o
que fôr mais forte e mais valente empunhe o grande arco da nação.
O trocano chamou a nação ao carbeto. Vieram os moacaras, conduzindo suas
tribus.
O velho Itaquê contava pelos passos os guerreiros que chegavam. O grande
arco da nação, que elle segurava direito, parecia um dos esteios da
cabana, e tinha a corda tão grossa como a da rêde do chefe.
Os mais famozos guerreiros tocantins se aprezentaram para disputar o
grande arco; muitos conseguiram vergal-o; mas a seta não partiu.
Itaquê escutava com o ouvido atento: o som delle conhecido não feriu os
ares.
--Onde está Pojucan? perguntou o velho chefe.
O valente guerreiro do sangue de Itaquê estava de parte, grave e
taciturno. Algum motivo o separava do arco chefe, que elle devia ser o
primeiro a disputar.
--Teu filho te escuta, respondeu.
--Empunha o arco chefe; se ha um guerreiro tocantim que possa
conquistal-o esse deve ser do sangue de Itaquê.
Pojucan recebeu o arco. Fincando nelle os pés, o guerreiro arrojou-se
para traz como a giboia quando se enrista para armar o bote.
A seta partiu, e foi cravar a cabeça de um chefe tapuia, fincada na
estaca, á entrada da taba.
Itaquê curvára a cabeça. Elle ouviu brandir a arma; não era, porém,
aquelle o zunido da corda do arco, quando o vergava sua mão possante.
Pojucan depôz o arco chefe aos pés de Itaquê e disse:
--Pojucan mostrou que em suas veias corre o sangue generozo de Itaquê.
Mas o grande arco peza em sua mão. Só ha um guerreiro na terra que o
possa brandir como Itaquê: e esse não cinje a fronte com o cocar das
penas de tucano.
--Pojucan negou a Itaquê esta ultima consolação. O arco invencivel do
grande Tocantim que foi o pai da nação, vai sair de sua geração.
Tocantim o transmitiu a seu filho Javarí, que me gerou; mas eu não sube
gerar com seu sangue um guerreiro digno delles.
IX
UNIÃO DOS ARCOS
Os tapuias voltaram; e com elles vinha Agniná á frente de sua nação,
para vingar a morte de Canicran, seu irmão.
Era grande a multidão dos guerreiros; e maior a tornavam a sanha da
vingança e a fama do chefe que a conduzia.
Não eram tantos os tocantins; mas bastaria seu valor para igualal-os, se
não lhes faltasse a cabeça, que reje o corpo.
A poderoza nação estava como o bando de caitetús que perdeu o pai, e
desgarra-se pela floresta, correndo sem rumo.
Os mais valentes moacaras, chefes das tribus, esperavam pelo grande
chefe da nação para abrir-lhes o caminho da guerra.
Os abarés meditaram. Elles não podiam inventar um guerreiro capaz de
suceder a Itaquê; mas não se rezignavam a abater a gloria da nação,
trocando o arco invencivel do grande Tocantim por outro arco mais leve,
que Pojucan manejasse.
Tambem Pojucan anunciára, que não podendo brandir o arco de Itaquê,
jámais empunharia outro arco chefe, menos gloriozo do que o do grande
Tocantim.
Abarés, chefes, moacaras, guerreiros, toda a nação se reuniu em torno do
heróe cégo.
Daquelle que durante tantas luas defendera a nação com a força de seu
braço, e a protejera com o terror de seu nome, esperavam ainda a
salvação.
O velho ouviu a voz dos abarés, a voz dos chefes, a voz dos moacaras, a
voz dos guerreiros, e disse:
--Itaquê ainda póde combater e morrer por sua nação; mas sem a luz do
céu, elle não póde mais abrir a seus filhos o caminho da vitoria.
«O braço de Itaquê defendeu sempre a nação tocantim; quer ella ser
defendida agora pela palavra daquelle, que não tem mais para dar-lhe
senão a experiencia de sua velhice?
«Pensem os abarés, os chefes, os moacaras e os guerreiros.»
Guaribú respondeu:
--A nação pensou. Fala e todos obedecerão á tua palavra, como obedeciam
ao braço de Itaquê.
--A voz do coração diz ao neto de Tocantim, que a gloria da nação que
elle gerou, não se póde extinguir. O sangue de Itaquê, passando pelo
seio de Arací, se unirá a outro sangue generozo para brotar maior e mais
ilustre.
«Assim a terra onde naceu uma floresta de acajás recebe o limo do rio e
gera nova floresta mais frondoza que a outra.
«Jacamim, chama Arací, a filha de nossa velhice. E vós, abarés, chefes,
moacaras e guerreiros, seguí-me.»
O velho heróe atravessou a taba guiado por Arací.
A nação o seguia em silencio.
Quando o guerreiro cégo passava com a mão no hombro da virjem formoza
que dirijia o seu passo incerto, os guerreiros lembravam-se do tronco já
morto que a rama do maracujá ainda sustenta de pé junto ao penedo.
Os cantores iam adiante, e entoavam um canto de paz.
* * * * *
Um mensajeiro de Itaquê o precedera no campo dos araguaias.
Ubirajara, cercado de seus abarés, chefes, moacaras e guerreiros, veiu
ao encontro do morubixaba dos tocantins.
A alma do grande chefe araguaia encheu-se da alegria de ver Arací; mas
elle retirou os olhos da espoza, para que o amor não perturbasse a
serenidade do varão.
--Ubirajara está em face de Itaquê; para combatel-o se trouxe a guerra,
para abraçal-o se trouxe a paz.
--Nunca Itaquê pediu a paz ao inimigo que lhe trouxe a guerra, antes de
o vencer; nem teria vivido tanto para cometer essa fraqueza. Elle vem
trazer-te a vitoria para que tu a repartas com seu povo.
O velho heróe avançou o passo:
--Chefe dos araguaias, tu levaste a guerra á taba dos tocantins para
conquistar Arací, a filha de minha velhice.
«Por teu heroismo, e ainda mais pela nobreza com que restituiste a
liberdade a Pojucan, tu merecias uma espoza do sangue tocantim.
«Mas desde que tu ameaçaste tomal-a pela força de teu braço, Itaquê não
podia mais conceder-te a filha de sua velhice, senão depois que abatesse
teu orgulho.
«Elle preparava-se para te combater, e á tua nação; mas fujiu-lhe dos
olhos a luz que dirije a seta da guerra; e não ha entre seus guerreiros
um que possa brandir o arco do grande Tocantim.»
Quando pronunciou estas palavras, a voz do velho guerreiro sossobrou-lhe
no peito:
--O arco de Itaquê é como o gavião que perdeu as azas e não póde mais
levar a morte ao inimigo. As andorinhas zombam de suas garras.
«Empunha o arco de Itaquê, chefe dos araguaias, e tu conquistarás por
teu heroismo uma espoza e uma nação.
«Á espoza farás mãi de cem guerreiros como Itaquê; e á nação conservarás
a gloria que ella conquistou quando o filho de Javarí a conduzia á
guerra.
«Tupan dará a teu braço esta força para que o sangue de Itaquê brote
mais vigorozo e os netos de Tocantim dominem as florestas.»
Ubirajara sorriu:
--Chefe dos tocantins, teus olhos não podem ver o grande arco da nação
araguaia; mas pergunta á tua mão, se o arco que Camacan brandia
invencivel e agora empunha Ubirajara, cede ao arco de Itaquê.
O velho heróe palpou o arco chefe dos araguaias e vergou-lhe a ponta ao
hombro, como se a haste fosse de taquarí.
Ubirajara travou do arco de Itaquê e desdenhando fincal-o no chão,
elevou-o acima da fronte. A flecha ornada de penas de tucano partiu.
O semblante de Itaquê remoçou, ouvindo o zunido que lhe recordava o
tempo de seu vigor. Era assim que elle brandia o arco outr'ora, quando
as luas creciam aumentando a força de seu braço.
O velho inclinou a fronte para escutar o sibilo de sua flecha que
talhava o azul do céu. Os cantores não tinham para elle mais doce
harmonia do que essa.
Ubirajara largou o arco de Itaquê para tomar o arco de Camacan. A flecha
araguaia tambem partiu e foi atravessar nos ares a outra que tornava á
terra.
As duas setas deceram trespassadas uma pela outra como os braços do
guerreiro quando se cruzam ao peito para exprimir a amizade.
Ubirajara apanhou-as no ar:
--Este é o emblema da união. Ubirajara fará a nação tocantim tão
poderoza como a nação araguaia. Ambas serão irmãs na gloria e formarão
uma só, que ha de ser a grande nação de Ubirajara, senhora dos rios,
montes e florestas.
O chefe dos chefes ordenou que tres guerreiros araguaias e tres
guerreiros tocantins, ligassem com o fio do crautá as hastes dos dois
arcos.
Quando o arco de Camacan e o arco de Itaquê não fizeram mais que um,
Ubirajara o empunhou na mão possante e mostrou-o ás nações:
--Abarés, chefes, moacaras e guerreiros de minhas nações, aqui está o
arco de Ubirajara, o chefe dos grandes chefes. Suas flechas são gemeas,
como as duas nações, e voam juntas.