guerreiro derrama em teu rosto, estrela do dia.
«Ubirajara deixou-me por ti; mas foi a Jandira que elle primeiro
escolheu para espoza, quando ainda era joven caçador.
«Nos campos alegres, onde vão os guerreiros quando morrem, elle me
chamará; e o guanumbí virá buscar a minha alma no seio da flôr do manacá
para leval-a a seu amor.
«Mata-me, ou deixa que eu morra para não ver mais tua beleza, e não
ouvir o canto de tua alegria.»
Arací caminhou para Jandira e dezatou-lhe os pulsos.
--O amor do guerreiro não pertence á mulher que seus olhos primeiro
viram; mas áquella que elle escolheu. Apanha teu arco; e morra aquella
que não souber defender seu amor, e merecer o espozo.
Arací disse, e tirou da uiraçaba uma seta. Jandira ficou imovel, com os
pulsos cruzados, como se ainda estivessem prezos:
--A vontade de Ubirajara atou os braços de Jandira; ella rejeita a
liberdade dada por ti. Arací póde ser preferida, porém não será mais
generoza do que a filha de Majé.
VI
O COMBATE NUPCIAL
Chegou o dia em que os noivos de Arací deviam disputar a posse da
formoza virjem.
Era a hora em que o sol transpondo a crista da montanha estende pelo
vale sua arassoia de ouro.
A grande nação tocantim cerca a vasta campina. No centro estão os
anciãos, que formam o grande carbeto.
Em frente aparece Arací, a estrela do dia, que ha de ser o premio da
constancia e fortaleza do mais destro guerreiro.
Jacamim acompanha a filha; nesse momento remoça com a lembrança do dia
em que Itaquê a conquistou, lutando com os mais feros mancebos
tocantins.
De um e outro lado seguem pela ordem da idade os moacaras. Cada um
cerca-se da espoza, das servas e das filhas, que vieram para assistir ao
combate.
É a unica das festas guerreiras, em que o rito de Tupan consente a
prezença das mulheres, porque se trata da sua gloria.
Contemplando o esforço heroico dos mais nobres guerreiros para
conquistar a formozura de uma virjem, as outras virjens aprendem a
prezar a castidade, e as espozas se ufanam de guardar a fé ao primeiro
amor.
Itaquê, o grande chefe dos tocantins, prezide ao combate, orgulhozo pela
valente nação que dirije, como pela formoza virjem de que é pai.
Quando seus olhos admiram a multidão de guerreiros, servos do amor de
Arací, que se preparam a disputar a espoza, o grande chefe ergue a
fronte soberba como o velho ipê da floresta coroado de flôres.
Os noivos distinguem-se dos outros guerreiros pelo bracelete de contas
verdes, que o guerreiro cinje ao pulso da espoza, quando rompe a liga da
virjindade.
Lá caminha Pirajá, o grande pescador, senhor dos peixes do rio, a quem
obedece o manatí e o golfinho.
Junto delle ergue-se Uirassú, que tomou este nome do valente guerreiro
dos ares, pelo ímpeto do assalto.
Vem depois Arariboia, a grande serpente das lagôas; Cauatá, o corredor
das florestas; Corí, o altivo pinheiro; e tantos outros, ainda mancebos,
e já guerreiros de fama.
Entre todos, porém, assoma Jurandir. Sua fronte passa por cima da cabeça
dos outros guerreiros, como o sol quando se ergue entre as cristas da
serrania.
Os muzicos fizeram retroar os borés, anunciando o começo da festa; e os
servos do amor se estenderam em linha pelo meio da campina.
Então os nhengaçáras levantaram o canto nupcial.
«A espoza é a alegria e a força do guerreiro. Ella acende em suas veias
um fogo mais generozo que o do cauim, e prepara para seu corpo o repouzo
da cabana.
«Por isso o primeiro dezejo do mancebo, quando ganha nome de guerra é
conquistar uma espoza.
«Não basta ser valente guerreiro para merecer a virjem formoza, filha de
um grande chefe; é precizo a paciencia para sofrer, e a perseverança no
trabalho.
«Arací, a estrela do dia, filha de Itaquê, será a alegria e a gloria do
mais forte e do mais valente.
«Os filhos que ella gerar em seu seio, onde corre o sangue do grande
chefe, serão os maiores guerreiros das nações.»
* * * * *
Itaquê deu sinal; o combate começou.
Pirajá foi o primeiro que saiu a campo, e clamou esgrimindo o tacape:
--Arací, estrela do dia, tu serás espoza do guerreiro Pirajá, que te vai
conquistar pela força de seu braço.
Avançou Uirassú, e disse:
--A virjem formoza ama ao guerreiro Uirassú e ha de pertencer-lhe.
A noiva cantou:
«Arací ama o mais forte e mais valente. Ella pertencerá ao vencedor, que
vencer a bravura dos outros guerreiros, como venceu a vontade da
espoza.»
A voz mavioza da virjem afagou a esperança de todos os campeões; mas
seus olhos ternos só viam o nobre semblante de Jurandir, o escolhido de
sua alma.
Os dois guerreiros travaram a pugna; os tacapes girando nos ares
encontravam-se como dois madeiros arrojados pelo remoinho da cachoeira.
Afinal Pirajá, ameaçado pelo bote do adversario, recuou um passo do
logar em que se postára. Pela lei do combate estava vencido, e teve de
deixar o campo.
Arariboia tomou seu logar; e o combate proseguiu com varia fortuna até
Corí que, expelindo o vencedor, manteve-se firme contra todos que vieram
disputal-o.
Faltava Jurandir. O estranjeiro avançou gravemente, como convinha a um
grande guerreiro da nação araguaia.
Elle queria dar ao vencedor de tantos combates o tempo precizo para
descansar.
A mão do guerreiro arrastava pelo chão o tacape, que desdenhava erguer
para um combate sem gloria.
Quando Jurandir se achou em face do vencedor, levantou a voz e disse:
--Para merecer Arací, a estrela do dia, Jurandir queria vencer a cem
guerreiros, e não combater um guerreiro fatigado.
«Tu empunhas um tacape; toma outro habituado a vencer; elle restituirá a
teu braço a força que perdeu. Basta a Jurandir esta mão, para te
arrebatar todas as tuas vitorias.»
Disse e arremessou a arma aos pés do adversario.
Corí, pensando que seu rival o atacava, desfechou-lhe o golpe. Mas
Jurandir aparou-o na mão firme e arrebatando o tacape que o ameaçava
arrancou o guerreiro do chão.
Assim o pinheiro que o tufão arrebata, antes de partir o tronco,
desprende a raiz da terra, onde nada o abalava.
Jurandir ficou só no campo. Mas todos os noivos se haviam mostrado
valentes guerreiros; talvez nas outras provas saíssem vencedores.
* * * * *
Os muzicos tocaram os borés; e os jovens caçadores trouxeram para o meio
do campo a figura da noiva.
Era um grosso tóro de madeira, no qual a mão destra de um pajé entalhára
com o dente da cotia a cabeça de uma mulher.
Tres caçadores vergavam com o pezo da carga; e foram precizos dez para
trazel-o desde a cabana do pajé até o campo, onde ficou semelhante á uma
mulher sentada.
Na vespera o pajé burnira de novo com a folha da sambaiba o tóro de
madeira, e o esfregára com a banha do teú, para que elle escorregasse da
mão do caçador.
Depois os mancebos guerreiros espalharam pelo campo troncos de arvores
cortadas com as ramas e as folhas, e fincaram cercas de estacas entre os
barrancos da varzea que ia morrer á marjem do rio.
Itaquê deu sinal, e os guerreiros começaram a nova prova, mais dificil
que a primeira.
Era precizo que o guerreiro á disparada levantasse do chão, sem parar, o
tóro de madeira; e se defendesse dos rivais que o assaltavam para
tomal-o.
Esse jogo era o emblema da ajilidade e robustez que o marido devia
possuir para disputar a espoza e protejel-a contra os que ouzassem
dezejal-a.
Na primeira corrida foi Jurandir quem mais rapido chegou. Como o condor
que rebatendo o vôo leva nas garras a tartaruga adormecida, assim o
veloz guerreiro suspendeu a figura da espoza e com ella arremessou-se
pela campina.
Os outros o seguiam ardendo em ímpetos de roubar-lhe a preza. Na
planicie aberta seria vão intento, porque nenhum corria como o
estranjeiro.
Mas Jurandir achava diante de si, para tolher-lhe o passo, as arvores
derrubadas, os barrancos profundos e outros obstaculos de propozito
acumulados.
Não hezitou, porém, o destemido mancebo. Salvou as corcovas, galgou as
caiçaras, e subiu pelos galhos que estrepavam o chão.
Uma vez os guerreiros se aproximaram tanto, que Jurandir sentiu nos
cabelos o sopro da respiração ofegante. Em frente erguia-se a alta
estacada.
Se tentasse subir carregado como estava, os guerreiros com certeza o
alcançariam a tempo de arrancar-lhe a preza.
Então arremessou pelos ares o tóro de madeira, como se fosse o tacape de
um joven caçador; e seguiu após.
Sempre vencedor dos assaltos dos rivais, Jurandir percorreu a vasta
campina, e foi colocar a figura da espoza no meio do carbeto dos
anciãos.
Ali era o termo da correria. O guerreiro que chegava a esse ponto com a
sua carga, saía triunfante da prova.
Elle mostrava como arrebataria a espoza do meio dos inimigos, e a
defenderia contra seus ataques até recolhel-a em um azilo seguro.
De todos os guerreiros só Corí e Uirassú conseguiram ganhar a prova; mas
nenhum com a galhardia de Jurandir.
Corí por vezes foi alcançado, e só á confuzão dos outros deveu
escapar-se. Uirassú recuperou a preza já perdida, porque Pirajá, que a
havia empolgado, falseou na corrida e tombou.
Os tres vencedores entraram de novo em campo para decidir entre si. O
triunfo não se demorou. Jurandir o arrebatou, como o gavião arrebata a
preza que disputam duas serpes.
Soaram os borés; e ao som do canto de triunfo entoado pelos nhengaçáras,
os chefes e os guerreiros saudaram o vencedor dos vencedores.
* * * * *
Quando voltou o silencio, Ogib, o grande pajé dos tocantins, estava em
pé no meio do campo.
Junto delle uma das velhas mãis dos guerreiros segurava o camucim da
constancia, que tinha o bojo pintado de vermelho.
O pajé disse:
--Não basta que o guerreiro seja forte e valente, para merecer a espoza.
«É precizo que tenha a constancia do varão, e não se perturbe com o
sofrimento.
«É precizo que elle tenha a paciencia do tatú, e suporte sereno as
mortificações das mulheres e as importunações das crianças.
«O guerreiro que não tem constancia e paciencia, depressa gasta suas
forças.
«O rio que se derrama pela varzea, nunca verá suas marjens cobertas de
grandes florestas.
«Assim é o guerreiro que não sabe sofrer, e derrama sua alma em
lamentações.
«Nunca elle será pai de uma geração forte e glorioza, nem verá sua
cabana povoar-se dos guerreiros de seu sangue.
«Se queres merecer a filha de Itaquê, mostra, Jurandir, que és varão
ainda maior do que o famozo guerreiro que todos admiram.»
O grande pajé levantou o tampo do camucim, e descobriu uma abertura,
bastante para caber o punho do mais robusto guerreiro.
Jurandir meteu a mão no vazo. O semblante sempre grave do guerreiro
cobriu-se de um sorrizo doce como a luz da alvorada; e seus olhos, mais
contentes que dois saís, pouzaram no rosto de Arací.
O camucim da constancia continha um formigueiro de saúvas, que o pajé
havia fechado ali na ultima lua.
Açuladas pela fome de tantos dias, as formigas vorazes se prepararam
para dilacerar a primeira vitima que lhes caísse nas garras.
A dentada da saúva, que anda solta no campo, dóe como uma braza; quando
são muitas e com fome, queimam como a fogueira.
Todas as vistas se fitaram no semblante do guerreiro, para espreitar-lhe
o minimo gesto de sofrimento.
Mas Jurandir sorria; e seus labios ternos soltaram o canto do amor. De
propozito o guerreiro adoçou a voz, para não parecer que disfarçava o
gemido com o rumor do grito guerreiro.
Assim cantou elle:
«A dôr é que fortalece o varão, assim como o fogo é que enrija o tronco
da crauba, da qual o guerreiro fabríca o arco e o tacape.
«A jussara tem setas agudas: mas Arací, quando atravessa a floresta,
colhe o côco de mel, embora a palmeira lhe espinhe a mão.
«O ferrão da saúva dóe mais do que o espinho da jussara; mas Jurandir
acha o mel dos labios de Arací mais doce do que o côco da palmeira.
«Quando Jurandir era joven caçador, gostava de tirar a cotia da toca,
embora o seu dente agudo lhe sarjasse a carne.
«O ferrão da saúva não dóe como o dente afiado; e Jurandir sabe que o
pelo dourado da cotia, não é tão macio como o colo de Arací.
«Jurandir despreza a dôr. Seus olhos estão bebendo o sorrizo da virjem,
mais suave que o leite do sapotí. Sua mão está sentindo o roçar dos
cabelos da virjem formoza.»
Os anciãos deram sinal para concluir a prova da constancia; mas o
guerreiro continuou seu canto de amor.
«A cumarí arde no labio do guerreiro; mas torna mais gostoza a carne do
veado assada no moquem.
«O cauim queima a boca do guerreiro; mas derrama a alegria dentro da
alma.
«A saúva arde como a cumarí e queima como o cauim; porém torna os beijos
de Arací mais saborozos: e o amor de Jurandir espuma como o vinho
generozo.
«Arací ha de sorrir de felicidade, quando o filho de seu guerreiro lhe
rasgar o seio.
«Jurandir não tem corpo para sofrer, quando o sorrizo de Arací lhe enche
a alma de amor.»
Foi precizo quebrar o camucim para que o guerreiro podesse retirar a
mão, de inflamada que ficára.
O grande pajé esfregou na pele vermelha, o suco de uma herva delle
conhecida; e logo dezapareceu a inchação.
* * * * *
Faltava a ultima prova, chamada a prova da virjem.
As outras serviam para conhecer o valor, a destreza e robustez do
guerreiro, assim como a força de seu amor.
Nesta era que a virjem podia mostrar seu agrado pelo vencedor ou
livrar-se de um espozo, que não soubera ganhar-lhe o afeto.
Os cantores disseram:
«Tupan deu azas á nambú para que ella escape ás garras do carcará.
«Tupan deu lijeireza á virjem, para que ella fuja do guerreiro que não
quer por espozo.
«Mas a nambú, quando ouve o canto do companheiro, espera que elle chegue
para fabricar seu ninho.
«A virjem, quando a segue o guerreiro que ella prefere, pensa na cabana
do espozo, e corre de vagar para chegar depressa.»
Arací deixou a mãi, e avançou até o meio do campo.
O grande pajé colocou Jurandir na distancia de uma mussurana, que cinje
dez vezes a cintura do guerreiro.
Estrela do dia lançou para as espaduas as longas tranças negras que
voaram ao sopro da briza.
Arqueou os braços mimozos, vestidos com franjas de penas, como as azas
brilhantes do arirama; e quando soou o sinal, desferiu a corrida.
Jurandir seguiu-a. Elle conhecia a velocidade do pé gentil de Arací, que
zombava do salto do jaguar.
Nem que podesse alcançal-a, o guerreiro o tentaria; depois de vencedor,
queria dever a espoza ao amor della e não a seu esforço.
Disputaria Arací não só a todos os guerreiros das nações, como a todas
as nações das florestas; só á vontade da propria virjem não a
disputaria, pois a queria rendida, e não vencida.
Mas sua gloria mandava que elle, o chefe de uma grande nação, se
mostrasse digno da formoza virjem, que o aceitasse por espozo.
Arací voava pela campina. Ás vezes trançava a corrida como o colibri que
adeja de flôr em flôr, outras vezes fujia mais rapida do que a seta
emplumada de seu arco.
Quando mostrou a todos que Jurandir não a alcançaria nunca, se ella
quizesse fujir-lhe, reclinou a cabeça para esconder o rubor.
Jurandir abriu os braços e recebeu a espoza que se entregava a seu amor.
O guerreiro suspendeu a virjem formoza ao colo; e levou-a á cabana do
amor que elle construira á marjem do rio.
* * * * *
As ramas de jasmineiro e do craviri vestiam a cabana, e matizavam o chão
de flôres.
Arací foi buscar a rêde nupcial, que ella tecera de penas de tucano e
arara; e Jurandir conduziu os utensilios da cabana.
Então o estranjeiro sentou-se com a virjem no terreiro, e antes de
passar a soleira da porta, revelou a Arací quem era o guerreiro que ella
aceitára por espozo.
--Arací pertence ao grande chefe da nação araguaia. Ella teve a gloria
de vencer ao maior guerreiro das florestas. Ella será mãi dos filhos de
Ubirajara; e terá por servas as virjens mais belas, filhas dos chefes
poderozos.
«A palmeira é formoza quando se cobre de flôres e o vento ajita as suas
folhas verdes, que murmuram; mais formoza, porém, é quando as flôres se
mudam em frutos, e ella se enfeita com seus cachos vermelhos.
«Arací tambem ficará mais formoza quando de seu sorrizo saírem os frutos
do amor, e quando o leite encher seus peitos mimozos, para que ella
suspenda ao colo os filhos de Ubirajara.»
Arací ouviu as palavras do guerreiro, palpitante como a corça; e ornou a
fronte do espozo com o cocar de plumas vermelhas, que tecera em segredo.
Depois, sentindo os olhos de Ubirajara que bebiam a sua formozura, ella
vestiu o aimará mais alvo do que a pena da garça.
A tunica de algodão entretecida de penas de beija-flôr dece das espaduas
até á curva da perna, cinjida pela liga da virjindade.
Quando Arací passava entre os guerreiros que admiravam sua beleza, ella
não córava, porque sua castidade a vestia, como a flôr á sapucaia.
Mas agora em prezença do guerreiro a quem ama e para quem guardou a sua
virjindade, tem pejo, e esconde sua formozura ás vistas de Ubirajara.
--Os olhos do espozo são como o sol, disse o guerreiro: elles queimam a
flôr do corpo de Arací.
--Arací tem medo que os olhos do espozo não a achem digna de seu amor; e
vestiu seus enfeites.
«Arací queria ser como a jurití, e ter no corpo uma penugem macia, que
só a deixasse ver em sua formozura.
«Foi por isso que tua espoza se cobriu com o seu aimará. Os olhos de
Ubirajara não lhe queimarão mais a flôr de seu corpo.
O guerreiro respondeu:
--A flôr do igapê é mais formoza quando abre e se tinje de vermelho aos
beijos do sol, do que fechada em botão e coberta de folhas verdes.
Ubirajara tomou nos braços a espoza, e pôz o pé na soleira da porta.
Nesse momento soou um clamor; chegaram os guerreiros que vinham chamar o
vencedor á prezença de Itaquê.
O carbeto dos anciãos tinha decidido que o vencedor antes de receber a
espoza, devia declarar quem era; pois fôra recebido como estranjeiro, e
ninguem na taba o conhecia.
VII
A GUERRA
Itaquê esperava sentado na cabana, e cercado do carbeto dos anciãos.
Jurandir entrou; Arací ficou na porta, orgulhoza do espozo que a
conquistára e da admiração que elle ia inspirar aos guerreiros da sua
nação.
Itaquê falou:
--Quando o estranjeiro chegou á cabana de Itaquê, ninguem lhe perguntou
quem era e donde vinha. O hospede é senhor.
«Mas agora o estranjeiro saiu vencedor do combate do cazamento e
conquistou uma espoza na taba dos tocantins.
«É precizo que elle se faça conhecer; porque a filha de Itaquê, o pai da
nação dos tocantins, jámais entrará como espoza na taba onde habite quem
tenha ofendido a um só de seus guerreiros.»
O estranjeiro disse:
--Morubixaba, abarés, moacaras e guerreiros da valente nação tocantim,
vós tendes prezente o chefe dos chefes da grande nação araguaia.
«Eu sou Ubirajara, o senhor da lança; e o maior guerreiro depois do
grande Camacan, cujo sangue me gerou. Se quereis saber porque tomei este
nome, ouvi a minha maranduba de guerra.»
Ubirajara contou o seu encontro com Pojucan; o combate em que o venceu,
e a festa do triunfo, até o momento em que deixou a taba dos araguaias.
Terminou dizendo que no seguinte sol partiria, para assistir ao combate
da morte, como prometera ao prizioneiro.
Ninguem interrompeu a maranduba de guerra. Ubirajara ouviu um gemido;
mas não soube que rompera do seio de Arací.
Itaquê arquejou como o rio ao pezo da borrasca.
--Tu és Ubirajara, senhor da lança. Eu sou Itaquê, pai de Pojucan. Tenho
em face o matador de meu filho; mas elle é meu hospede!
«Chefe dos araguaias, tu és um joven guerreiro; pergunta a Camacan que
te gerou, qual deve ser a dôr do pai, que não póde vingar a morte do
filho.»
O grande chefe vergou a cabeça ao peito, como o cedro altaneiro batido
pelo tufão.
Pojucan tinha sua taba mais lonje, na outra marjem do rio. Elle partira
na ultima lua para rastejar a marcha dos tapuias; e voltava senhor do
caminho da guerra quando encontrou Ubirajara.
Seu pai e os guerreiros de sua taba pensavam que elle buscava na
floresta o caminho da guerra. Mal sabiam que a essa hora esperava
prizioneiro na taba dos araguaias o combate da morte.
Anciãos e guerreiros emudeceram. Todos respeitavam a dôr do pai, e não
ouzavam perturbal-a.
Jacamim, a mãi de Pojucan, aproximára-se. O grande chefe ouviu seu
gemido.
--A espoza de Itaquê não chora na prezença do matador de seu filho.
Á voz do espozo, a mãi teve força para esconder no seio sua tristeza, e
mostrar-se digna do grande chefe dos tocantins.
Ubirajara falou:
--A vingança é a gloria do guerreiro; Tupan a deu aos valentes.
Ubirajara venceu Pojucan em combate leal, e aceita o dezafio de Itaquê e
de todos os chefes tocantins.
--Tu és meu hospede; emquanto Itaquê brandir o grande arco da nação
tocantim, ninguem ofenderá o amigo de Tupan na taba de seus guerreiros.
Dizendo assim, o grande chefe ergueu-se e trocou com o estranjeiro a
fumaça da despedida.
--Parte. O sol que viu o estranjeiro na cabana hospedeira o acompanhará
amigo; mas com a sombra da noite, mil guerreiros, mais velozes que o
nandú, partirão para levar-te a morte.
Ubirajara tomou suas armas e disse:
--O hospede vai deixar tua cabana, chefe dos tocantins; tu verás chegar
o guerreiro inimigo.
* * * * *
Itaquê seguiu o estranjeiro até o terreiro; em torno delle se reuniram
os abarés, os moacaras e os guerreiros para assistirem á partida.
Ubirajara caminhou com o passo lento e grave até o fim da taba.
Chegado ali, tornou rapido á entrada da cabana, e retrocedeu apagando no
chão o vestijio de seus passos.
A nação tocantim o observava imovel.
Por fim o estranjeiro postou-se no centro da ocara e com o formidavel
tacape vibrou no largo escudo um golpe que repercutiu pela taba como o
estrondo da montanha.
--O hospede passou o lumiar da cabana que o tinha acolhido, e apagou seu
rasto na taba dos tocantins.
«Quem está aqui é um guerreiro armado, que piza senhor a taba de seus
inimigos.
«Itaquê, morubixaba dos tocantins, Ubirajara, o senhor da lança, grande
chefe dos araguaias, te envia a guerra na ponta de sua seta.»
Quando o guerreiro acabou de proferir estas palavras, Itaquê levantou os
olhos e viu cravada na figura do tucano, que era o simbolo da nação, a
seta de Ubirajara.
Mil arcos se ergueram, mil tacapes brandiram. A voz possante de Itaquê
abateu as armas de seus guerreiros.
Disse o morubixaba:
--A lei de hospitalidade é sagrada. A cólera do estranjeiro não deve
perturbar a serenidade do varão tocantim.
Depois voltou-se para o inimigo:
--Ubirajara, grande chefe dos araguaias: Itaquê, o pai da poderoza nação
tocantim aceita a guerra que tu lhe enviaste. Recebe em teu escudo o
penhor do combate.
A corda do grande arco da nação tocantim brandiu, e a seta de Itaquê
mordeu o escudo de Ubirajara.
--Vai buscar teus guerreiros e nós combateremos á frente das nações.
--Ubirajara combaterá até que lhe restituas a espoza; assim como elle a
conquistou a seus rivais, saberá conquistal-a a ti e á tua nação.
O chefe araguaia partiu. No seio da floresta encontrou Arací que o
esperava.
A formoza virjem fôra á cabana do cazamento buscar a rêde nupcial e
preparar-se para acompanhar o espozo.
--Ubirajara parte; mas antes de cinco sóes elle estará aqui para te
conquistar á tua nação.
--A espoza te acompanha. Teu braço valente já a conquistou; e ella
entregou-se a seu senhor. Arací te pertence; deves leval-a.
A virjem tocantim dezejava seguir Ubirajara á taba dos araguaias. Falava
em sua alma a ternura da espoza e da irmã.
Partindo, ella unia-se para sempre a seu guerreiro, e esperava que o
amor o moveria a salvar Pojucan.
Ubirajara pensou e disse:
--Se Ubirajara tivesse rompido a liga de Arací, ella era sua espoza, e
ninguem a arrebataria de seus braços. Mas a virjem tocantim não póde
abandonar a cabana onde naceu sem a vontade de seu pai.
Arací suspirou:
--Ubirajara vai deixar a lembrança de Arací nos campos dos tocantins.
Jandira o espera na taba dos araguaias, e lhe guarda o seu sorrizo de
mel.
--A luz de teus olhos, Arací, estrela do dia, foi buscar Ubirajara na
taba dos seus, onde resoavam os cantos de seu triunfo, e o trouxe á tua
cabana.
«Quando elle partiu encontrou Jandira, e para que a filha de Majé não o
acompanhasse a deu a Pojucan, como espoza do tumulo.»
--O goaná do lago vôa lonje, para banhar-se nas aguas da chuva que
alagaram a varzea; mas logo volta ao seu ninho, e não se lembra mais da
moita onde dormiu.
--Ubirajara é um guerreiro; elle não aprende com o goaná do lago, que
foje do perigo, mas com o gavião, grande chefe dos guerreiros do ar, que
nunca mais abandona o rochedo onde assentou a sua oca.
--Se Ubirajara amasse a espoza, tambem não a abandonaria. Os braços de
Arací já cinjiram o colo de seu guerreiro. O tronco não desprende de si
a baunilha que se entrelaçou em seus galhos.
Ubirajara calcou a mão sobre a cabeça de Arací: