Os Portuguezes sempre tiveraõ pouca duvida nos grandes casos.[416]

Lastíma muito mais aos Portuguezes o louvor alheyo, que o esquecimento

do seu proprio.[417]

Tem o Portuguez por disfavor usado com elle o favor, que vê usar com o

seu companheiro.[418]

He muito proprio de Cavalheiros Portuguezes com a inveja da primeira

gloria estorvarem-se a si o logro da segunda, querendo mais ficar sem

alguma, que ver a outrem com vantagem.[419]

Cada hum dos Portuguezes da primeira grandeza tudo querem para si, e

todos nada para alguem.[420]

Cada hum dos Portuguezes presume que se lhe deve tudo; e assim qualquer

cousa, que se dá aos outros, cuida que se lhe rouba.

Sempre o animo Portuguez esteve alegre nos perigos, e ainda nos

tormentos.

Amou sempre mais hum Portuguez a fidelidade, que a fortuna.

Nenhuma cousa logrou a mayor antiguidade, que a naõ lograsse a gente

Portugueza.

A gente Portugueza para com seus desejados Principes mil vezes

substituio a adoraçaõ pelo decoro.

Naõ se sujeitou já mais a gente Portugueza sem alguma soberania.

Nunca a espada Portugueza deveo triunfos à multidaõ dos exercitos,

senaõ à grandeza dos corações.

Mil vezes tem sido a confiança natural cutello da Naçaõ Portugueza.

Na gente Portugueza desde os fundamentos está de posse encommendar ao

espirito o que outras Nações à copia.

A Nação Portugueza sempre se prezou mais de ser acredora da voz da

fama, que de sujeita a seus favores.

A gente Portugueza sempre foy affectadora de estimações, e decoros pela

ostentaçaõ do pomposo, e do grave, e ainda do vaõ.

Mais cabem no mundo os Portuguezes, que elle nelles.

Ao coraçaõ Portuguez ainda hum mundo lhe vem estreito.

Com a gente Portugueza nunca pode tanto o furor da guerra, como a

affabilidade dos Principes.

Os Portuguezes saõ como o mar, muy serenos no socego, e na colera

insoportaveis.

As mulheres Portuguezas em seguindo o caminho da modestia, saõ unicas

nella; e tambem unicas em liberdades, se tomaõ o caminho de livres.

Naõ poucas vezes as matronas Portuguezas depozeraõ a roca pela espada,

fiando vidas assim como linho.

Todo o zelo he mal soffrido, mas o zelo Portuguez mais impaciente que

todos.

He natureza, ou má condiçaõ da nossa Lusitania naõ poder consentir que

luzaõ os que nascem nella.

He timbre da nossa Naçaõ, tanto que sahe à luz quem póde luzir,

tragallo logo, para que naõ luza.

Os Portuguezes deraõ fundo com as ancoras, onde Santo Agostinho naõ

achou fundo com o entendimento.

Nenhum golpe deu a espada dos Portuguezes, que naõ accrescentasse mais

huma pedra à fabrica da Igreja.

Os Portuguezes para os infieis tem a espada, para os Catholicos tem o

escudo.

Os Portuguezes primeiro se chamaraõ Mundanos, e depois Lusitanos, para

trazerem no nome a luz do mundo.

Os Portugueses sempre descobriraõ Imperios para si, e cubiças para

outros.

O mayor louvor da nossa Naçaõ he chegarem os Portuguezes com a espada,

onde Santo Agostinho naõ chegou com o entendimento.

Em Portugal esteve sempre certo o descuido com quem mereceo cuidado.

A Naçaõ Portugueza mais se préza de fazer, que de dizer.

Quem quizer inteirarse mais do genio Portuguez, e sem a desconfiança

de ser informado por algum nacional, póde ver entre os estranhos

sem suspeita aos Authores abaixo citados,[421] e outros, que allega

Hoffman,[422] porque nós concluimos com o que promette aos Portuguezes

o grande Camões em hum dos seus Cantos.

_Por mais que da fortuna andem as rodas

Naõ vos haõ de faltar, (gente famosa)

Honra, valor, e fama gloriosa._

Mappa de Portugal antigo, e moderno, tomo 1 (of 3): Parte I, II · 第 87 / 163 题