CAPITULO XIV.

_Do Genio, e costumes Portuguezes._

1 Hum dos pontos mais precisos, e uteis, que se costuma sinalar no

assumpto Geografico, he a informaçaõ, e pintura dos genios, usos, e

inclinações das gentes de qualquer Paiz:[376] por isso depois de ter

dado noticia do material do sitio, qualidade, abundancia, e outras

especies memoraveis do terreno Portuguez, como primeira base do nosso

intento, segue-se expôr as propensões naturaes, e costumes de seus

habitadores.

2 E se nós houveramos de deduzir esta informaçaõ desde a raiz de sua

primeira origem, e segundo a examinou diligentemente Estrabo, (que por

agora omittimos,) com serem os primeiros Portuguezes povos incultos,

e agrestes, nem por isso veriamos as suas condições taõ barbaras, e

intrataveis, que presentemente nos pudessemos envergonhar de serem

elles nossos progenitores.[377] Com a melhor cultura, e Religiaõ se

melhoraraõ alguns abusos, que depois se foraõ alterando com a entrada

de outras nações; mas como os ramos naõ degeneraõ da substancia do

tronco, nenhuma se atreveo até agora a questionarnos o esforço,

espirito, valentia, e gloria militar.

3 Esta primeira prerogativa, e brazaõ, que como herança alcançaraõ

os Portuguezes de pays a filhos sempre com a mesma honra, que os

antepassados, se acha soberanamente acreditada, e expendida nos

Annaes, e Historias do mundo em todos os seculos. Diodoro Siculo

affirmou,[378] que os Lusitanos eraõ os homens entre os Hespanhoes

os mais fortes, e valentes. O mesmo conceito ratificaraõ Vegecio,

Plutarco, Tito Livio, Valerio Maximo, e outros muitos Authores antigos,

e estranhos, com quem os modernos se conformaõ,[379] cujos testimunhos,

e ditos naõ referimos por extenso, por ser este hum ponto de mayor

grandeza, e indubitavel.

4 Só he preciso conhecer que o caracter desta valentia naõ he furor,

que offusca o juizo, mas sim hum valor virtuoso, que obra por impulso

da razaõ. He hum natural movimento, que, segundo a opportunidade das

acções, sabe sempre usar com bizarria. Como todo o Portuguez, só estima

o apreço da honra, despreza qualquer perigo para o conseguir. Este

brio, e alento intrepido faz ser aos Portuguezes homens de ferro para

o trabalho marcial, commettendo, e executando façanhas, que tem mais

de verdadeiras, que de verosimeis, e conforme disse nosso Poeta,[380]

excedem as sonhadas, fantasticas, e fabulosas, que as estranhas Musas

tanto souberaõ engrandecer.

5 A _Lealdade a seus Principes soberanos_ he outra admiravel prenda,

de que só os corações Portuguezes podem blazonar com grande

singularidade. Todas as Chronicas do mundo, se bem repararmos, estaõ

salpicadas do sangue de parricidios, e inconfidencias dos vassallos

para seus Reys; só da naçaõ Portugueza naõ consta que faltassem já

mais à fé promettida de seu verdadeiro Soberano. Foy observaçaõ do

doutissimo Thomás Bosio,[381] natural de Gubio, Cidade de Urbino, e de

outros gravissimos Authores.[382] Ardem os Portuguezes no amor do seu

Rey, e com esta preclara segurança triunfaõ nossos Monarcas de todo o

receyo, podendo-se chamar Reys naõ de vassallos, mas de filhos.[383]

6 Com as dilatadas viagens das Conquistas acabaraõ elles de confirmar,

e appropriarse a virtude desta fiel obediencia, e respeitosa

constancia, sem ser possivel desviallos, ou arrancallos em obsequio

della ainda os immensos trabalhos, e perigos, que padeceraõ, (e

padeceráõ, quando a occasiaõ o peça,) de climas encontrados, e asperos;

de fomes, sedes, frios, e traições malevolas de inimigos. Foy o que

disse Vasco da Gama por boca do nosso famoso Poeta[384] ao Rey de

Melinde:

_Crês tu que se este nosso ajuntamento

De Soldados naõ fora Lusitano,

Que durara elle tanto obediente

Por ventura a seu Rey, e a seu Regente?

Crês tu que já naõ foraõ levantados

Contra seu Capitaõ, se os resistira,

Fazendo-se piratas obrigados

De desesperaçaõ, de fome, de ira?

Grandemente por certo estaõ provados,

Pois que nenhum trabalho grande os tira

Daquella Portugueza alta excellencia

De lealdade firme, e obediencia._

Com termos de grande elogio particularizaõ tudo Authores de grave

authoridade.[385] E posto que a 13 de Janeiro de 1759 vimos no Caes

de Belem desta Cidade lastimosamente punidos por traidores, perfidos,

e parricidas huns miseraveis, que se denominavaõ Portuguezes, foy

bem acordado à suprema Junta da Inconfidencia, antes de sentenciar

o insulto, desnaturalizar aos aggressores; para que em nenhum tempo

servisse de ludibrio a huma Naçaõ taõ fiel ao seu Rey, hum exemplo

taõ indigno, e execrando. A mesma fé, e palavra estipulada na

correspondencia de qualquer negocio, ou com o estrangeiro, ou nacional,

se observa sempre inviolavel.[386]

7 O heroico titulo de _Conquistador_ he huma das excellencias

felicissimas, que particularmente compete tambem ao genio Portuguez.

Desde o feliz reinado delRey D. Joaõ I. pelos annos de 1415 meteraõ os

Portuguezes o braço, e asseguraraõ o pé nas quatro partes do mundo com

inveja gloriosa de todo elle; e se as generosas ousadias conseguem o

brazaõ de grandes já desde o seu primeiro intento, muitos annos antes

da sua execuçaõ residia no sublime peito, e mente Regia de nossos

antigos Principes o mesmo glorioso projecto.[387] Por este meyo se

vio a Monarquia Portugueza augmentada sem diminuir os Reinos alheyos;

fez-se grande sem fazer nenhum pequeno; e com grandeza verdadeiramente

propria até o tempo delRey D. Joaõ III. numerou trinta e dous Reinos

remotos tributarios, e quatrocentas e trinta e tres Praças presidiadas,

com outras muitas Ilhas consideraveis,[388] naõ havendo no mundo

clima, em que as sagradas Quinas Portuguezas naõ se exaltassem

triunfantes.[389]

8 Mas sobre todas as prendas, nenhuma acredita melhor de estimavel o

genio Portuguez, que o zelo, e fervor, com que abraçaraõ, dilataraõ,

e conservaõ a Fé de Christo. Elles foraõ os primeiros, que na Europa

erigiraõ Templos sagrados para o culto da verdadeira Religiaõ: elles

foraõ os que debellaraõ, e expulsaraõ de suas Provincias aos Sarracenos

muitos centos de annos antes que outro algum Reino de Hespanha podesse

livrarse de taõ vil gente: elles foraõ os que depois de limpar as suas

terras da infecta naçaõ Arabe, continuaraõ em perseguilla na Asia, e

Africa, naõ com outro motivo, senaõ para lhes intimar, e propagar a Fé

Catholica. Aos Portuguezes devem todos aquelles dilatados povos do

Oriente o conhecimento da verdade Evangelica, a obediencia aos Summos

Pontifices da Igreja, e a salvaçaõ das suas almas:[390] elles saõ

finalmente os que para gastar no culto Divino tem mais ambiçaõ do que

o mundo todo cubiça para adquirir ouro, e riquezas. Todo este zelo, e

piedade he ponto, que para caber no breve espaço deste nosso Mappa, he

preciso resumillo, e assinallallo com caracteres miudos.

9 Nas _Sciencias_ supposto que antigamente floreceraõ nellas alguns

Portuguezes, de que faz mençaõ Antonio de Sousa de Macedo,[391]

com tudo naõ era com aquella fertilidade, com que pelos seculos

mais chegados aos nossos deraõ os Portuguezes a conhecer a extensa

capacidade do seu talento, e engenho. A confusaõ, e estrondo das

armas, e das guerras naquelles primeiros tempos taõ continuas,

e o acommettimento de inimigos taõ differentes naõ permittiaõ a

tranquilidade, e socego, que requerem as Musas. Havia mais Portuguezes

valerosos, que letrados. Produzia Portugal Scipiões, Cesares,

Alexandres, e Augustos no valor, mas destituidos do adorno das

sciencias, como lamentou Camões,[392] e Francisco de Sá de Miranda:[393]

_Dizem dos nossos passados

Que os mais naõ sabiaõ ler,

Eraõ bons, eraõ ousados,

Eu naõ gabo o naõ saber._

10 Até o tempo delRey D. Diniz, sexto Rey deste Reino, ainda naõ se

conhecia nelle que cousa eraõ gráos de Doutores, nem de Bachareis,

nem de Mestres: aos que sabiaõ alguma cousa chamavaõ-lhe Escolares,

porque hiaõ estudar fóra do Reino. De sorte, que o primeiro Rey, que

instituio Escolas publicas para se aprenderem as sciencias, foy ElRey

D. Diniz, o qual fundou tambem a insigne Universidade de Coimbra, donde

continuamente se estaõ produzindo Mestres eruditissimos, e formando

infinitos homens prodigiosos em todo o genero scientifico. Tudo cantou

Camões na. 97. do 3.

_Fez primeiro em Coimbra exercitarse

O valeroso officio de Minerva,

E de Helicona as Musas fez passarse

A pizar do Mondego a fertil herva.

Quanto póde de Athenas desejarse,

Tudo o soberbo Apolo aqui reserva:

Aqui as capellas dá tecidas de ouro,

De Baccaro, e do sempre verde louro._

11 Esta habilidade intellectual confirmaremos com provas mais

evidentes, quando mostrarmos o genio, e engenho dos Portuguezes em

toda a faculdade literaria. Passemos a expressar outros predicados.

Na producçaõ de alguns inventos saõ elles naõ só fecundos, mas

utilissimos. Henrique Garcez foy o primeiro, que achou na America o

uso do azougue para purificar o ouro. Portuguezes foraõ os que usaraõ

primeiro que outrem comer sentados em cadeiras. Bartholomeu Dias

descubrio o Cabo da Boa Esperança; e Fernando de Magalhães o Estreito,

a que deu nome. Os famosos Mestres Rodrigo, e Joseph, Medicos delRey

D. Joaõ II. inventaraõ o Astrolabio, instrumento Mathematico, o qual

abrio caminho a taõ estupendas navegações. O Infante D. Henrique

inventou a carta de marear; e em outros muitos raros inventos tiveraõ

nossos nacionaes a primazia, e industria, que largamente mostra Manoel

de Faria.[394]

12 Saõ os Portuguezes commummente pouco inclinados a aprender linguas

estranhas, com a sua se contentaõ, que muito prezaõ. Para as que mais

se dedicaõ alguns, saõ a Latina, Castelhana, Italiana, e Franceza, e

nas duas primeiras fallaõ, e compõem com energia, e elegancia. Parece

que nos reinados gloriosos delRey D. Manoel, e D. Joaõ III. havia

mayor curiosidade em se applicarem os nossos às linguas Orientaes pela

precisa interpretaçaõ conducente a facilitar o commercio daquelles

povos, em cujos idiomas foraõ insignes, além de outros, Pedro da

Covilhã, e Fernaõ Martins, dos quaes se lembraõ Joaõ de Barros, e

Camões.[395]

13 O primor, brio, e bizarria saõ attributos muy proprios da gente

Portuguesa. Naõ emprendem cousa alguma, por difficultosa que seja, que

gloriosamente naõ a consigaõ. Affectaõ muito nas occasiões publicas

ostentarse pomposos com gravidade, mayormente os Nobres, e quando estaõ

fóra do Reino. Daqui nasce serem os Fidalgos Portuguezes reputados

por vãos, presumidos, e soberbos; donde o Criticon de Gracian[396]

disse: _Que serian famosos, si non fuessen fumosos_; porém naõ póde

deixar de haver muito fumo, onde ha muito fogo: e como bem observou o

eruditissimo Feijó,[397] toda esta jactancia da Fidalguia Portugueza

naõ he mais que hum chiste, garbo, e dasafogo da vivacidade do seu

espirito. A urbanidade, cortezania, e attençaõ, com que trataõ a todos,

he incompativel com a soberba, e orgulhosa arrogancia, e inchaçaõ,

que se lhes attribue. Saõ muito amigos de valer a quem busca o seu

patrocinio; e nas acções de piedade excedem a todo o mundo, dispendendo

com maõ generosa, e liberal. _Para mi tengo colegido que los Nobles de

Portugal, es gente cuerda en lo que hacen, y agudos en lo que dizen_:

disse D. Antonio de Guevara em huma das suas Cartas.

14 Com desconfianca nos reputaõ os estrangeiros[398] por naçaõ

extremosamente aferrada às maximas, e costumes nacionaes, que só

estimamos, e encarecemos por vantajosos. Póde ser que se assim fora

em todos esta constancia, naõ nos levariaõ elles muita parte da

honestidade, verdade, compostura, modestia, honra, e desinteresse, que

nossos antepassados professaraõ, e que em lugar destas boas prendas nos

não vissemos agora cheyos de cautella, ambiçaõ, ociosidade, soltura,

brindes, banquetes, e outras desordens, que as Nações estrangeiras

nos introduziraõ;[399] porém este conceito naõ se compadece com o que

ordinariamente estamos vendo, que he o nimio apreço, que quasi todos

fazem das acções, modas, e costumes estrangeiros, desamparando com

aleivosia aquelles, em que foraõ criados, sem mais razaõ que por serem

os outros estranhos. Este vicio nacional foy reprehendido por hum dos

nossos Poetas antigos,[400] dizendo:

_Se hum estranho à terra vem,

Dizeis todos em geral:

Nunca aqui chegou ninguem;

E do vosso natural

Nada vos parece bem._

_Em fim que por natureza,

E constelaçaõ do clima,

Esta naçaõ Portugueza

O nada estrangeiro estima,

O muito dos seuss despreza._

Imitou-lhe o conceito, e a sentença com igual graça o grande Francisco

Rodrigues Lobo no fim da _Egloga 1._

_Ouvir qualquer estrangeiro

Fallar de seus naturaes,

Dá delles taõ bons sinaes,

Que o naõ tem por verdadeiro.

Falem-vos n’um natural,

Dizeis faltas que naõ tem;

Mente o outro para bem,

Nós mentimos para mal._

15 Quanto ao traje, e modo de vestir, naõ se póde dizer que o temos

proprio: as invenções dos estrangeiros saõ os modélos, ou moldes dos

nossos habitos. Até o tempo delRey D. Joaõ III. pouca alteraçaõ, e

mudança houve no modo de trajar. Naquelle feliz seculo delRey D.

Manoel, em que o Reino nadava em ouro, trajavaõ os Principes vestidos,

que hoje desprezariaõ os filhos de qualquer mecanico humilde. ElRey D.

Joaõ III. sendo ainda moço, e vendo em differentes occasiões variar de

traje, nunca deixou o Portuguez, dizendo, que nenhuma cousa havia de

ser bastante a fazello parecer estranho em sua patria.[401] Neste mesmo

reinado, e pelos annos de 1530 he que em Portugal começaraõ a entrar

as galas de Castella, e as delicias Asiaticas, que nos corromperaõ

a modestia, e parsimonia antiga, de que tanto se lamentou Sá de

Miranda.[402] Concorreo depois a communicaçaõ das gentes de outros

paizes, que com suas extravagantes invenções nos tem feito servos dos

seus caprichos, e por imitar o alheyo perdemos o proprio. Bem o disse,

e deplorou Simaõ Machado.[403]

_Vellos-heis, disse, à Franceza,

Depois disso à Castelhana,

Hoje andaõ à Bolonheza,

Á manhã à Sevilhana,

E já nunca à Portugueza._

Confirma-o Francisco Rodrigues Lobo na Egloga 4.

_Por isso qualquer profano_

Nos toma para entremez,

Porque fazemos cada anno

Té no traje Portuguez

Mais mudanças que hum cigano.

Naõ tomamos isto em grosso,

Vestimos por tantos modos

Cada hora, que dizer posso,

Que naõ temos traje nosso,

Porque o tomamos de todos._

16 O que tem mais permanecido, he na gente Civil a capa, e volta, e

na plebe o uso do capote, de que os estrangeiros naõ gostaõ, porque

dizem ser contrario à boa politica, por causa de servir de grande

rebuço às pessoas mal intencionadas;[404] porém a boa commodidade, que

este habito faz no Inverno, e ainda às vezes no tempo calido, póde

justificar o seu uso, e dissimular a indifferença da má intençaõ, que

se lhe attribue. As espadas antigamente se traziaõ debaixo do braço sem

a prizaõ do boldrié: os Italianos he que inventaraõ, e nos introduziraõ

a moda do talim; donde Camões nos seus chamados Disparates veyo a picar

esta introducçaõ.

_Vereis mancebinhos de arte

Com espada em talabarte,

Naõ ha mais Italiano, etc._

Tambem se costumavaõ adagas, que hoje estaõ prohibidas; e até o

adereço das espadas já tem degenerado em espadim, e cotós. As barbas

compridas até à cintura se foraõ diminuindo no tempo delRey D. Joaõ

IV. em que ainda se usavaõ bigodes: depois no governo do Senhor Rey D.

Pedro II. se extinguiraõ, e entrou o uso das cabelleiras já agora taõ

domesticado, que se faz reparavel o que naõ usa dellas; e ainda neste

genero de compostura ha cada dia differentes novidades.

17 Entre todas as nações do mundo he só a Portugueza naturalmente

conhecida por namorada. Perguntou a Madre Soror Maria de la Antiga em

certa occasiaõ a Christo, se era Portuguez? O Senhor lhe respondeo:

_Sim filha, que tudo que diz amor, e mais amor está em mim; e essa

parte dos Portuguezes saõ de natural mais nobre; e por certa natureza

que naquelle Ceo influem os Planetas, saã commummente alli as gentes

dessas qualidades._[405] Derretidos de amor nos chamaõ os Castelhanos;

mas este affecto foy, e he sempre exercitado por aquelle teor, e modo,

que aperfeiçoa as pessoas, e as incita a acções decorosamente galantes.

As venerações, e cultos do amor candido saõ taõ antigos em Portugal,

que já em tempo dos Cartaginezes havia templo em Villa Viçosa dedicado

a Cupido, a cujo idolo, que era de prata, e chamavaõ _Endovelico_,

hiaõ em romaria os Portuguezes fazer os seus sacrificios, offerecendo

no principio de cada mez por victima hum cordeiro branco,[406] para

mostrarem o sincero, e racionavel exercicio da mais poderosa paixaõ da

alma. Daqui se infere, que na chamma do amor Portuguez naõ ha fumo de

torpeza: por isso Valerio Maximo reprehendeo asperamente a Q. Metelo

Pio por delinquir nos excessos de Venus dentro da Provincia Lusitana,

que só amava os furores de Marte.[407] Assim o deraõ a entender tambem

aquelles Cavalleiros da Ordem Militar dos Namorados, que na celebre

batalha de Algibarrota obraraõ tantas maravilhas em pura, e honesta

contemplaçaõ das suas Damas;[408] e por desafronta de outras passaraõ

a Londres no anno de 1390 os doze celebrados Portuguezes, que com

gloria, e lustre da patria ficaraõ vencedores.[409] Foraõ finalmente

os Palacios dos Reys sempre escolas universaes da fina galantaria.

Celebravaõ-se saráos, e festins entre Damas, e galantes nas vodas,

nascimentos de Principes, e vindas de Embaixadores, e a este exemplo o

faziaõ os particulares com toda a modestia. Hoje está muy sincopada,

ou, para melhor dizer, extincta a galantaria;[410] donde o grande Sá de

Miranda[411] dizia já no seu tempo:

_Traspozeraõ os amores,

E deixaraõ o Paço às cegas._

18 Este amor, e estimaçaõ para com o bello sexo faz ser aos Portuguezes

mais ciosos de suas mulheres, do que merece a sua grande honestidade,

e por conta dos zelos praticaõ cautelas bem escusadas, de que os

estrangeiros naõ costumados a semelhantes precauções bastantemente

se admiraõ, e estranhaõ. As mulheres civis raras vezes sahem de

casa; e quando chega a occasiaõ, que he no Domingo, ou dia Santo, vaõ

acompanhadas de suas criadas, e cubertas com hum manto de seda preta,

mas com tal ar, e garbo, que os mesmos estrangeiros reconhecem especial

genero de attractivo na sua grave compostura, e meneyo. Antigamente

usavaõ de guardinfantes: pouco ha se extinguiraõ os donaires: hoje

todo o luxo anda pelos pés, e de rastos; bom final para se acabar. Na

formosura, talento, e sagacidade excedem as Portuguezas às mulheres de

todo o mundo: parece todavia que com a prenda natural da formosura naõ

vivem algumas com toda a satisfaçaõ, obrigando-as a sua mal fundada

desconfiança, ou ambiçaõ de parecer melhor, a pôr no rosto alguns

unguentos, e certos sinaes, ou retalhinhos redondos de tafetá negro;

porque imaginaõ se fazem daquelle modo mais bellas, e que realçaõ muito

a alvura da cara, de cujo accidente nem todas participaõ, porque de

ordinario as mais delas saõ de cor algum tanto morena, porém o cabello,

e olhos pretos com graça, e viveza.

19 Nos casamentos usavaõ as antigas Portuguezas da Provincia do Minho

naõ sahirem de casa de seus pays para as de seus esposos, senaõ como

violentadas: os seus parentes faziaõ a ceremonia de puxarem por ellas

para fóra da porta arrebatadamente, e indo no meyo de dous padrinhos,

adiantava-se a toda a comitiva hum moço, que levava a roca cheya de

linho, e o fuso. No tempo do Doutor Joaõ de Barros, que floreceo pelos

annos de 1549, ainda permanecia quasi este costume; porque a noiva,

quando sahia da casa de seus pays, diz elle na Descripçaõ do Minho,

chorava muito, dando assim a entender saudosa, que se apartava da sua

companhia contra vontade. Tambem costumavaõ, quando sabiaõ que alguma

moça estava contratada para casar, juntarem-se as visinhas, e parentas

della, e fiarem todas à porfia huma noite até pela manhã, a que chamaõ

fazer seraõ; e como ordinariamente todas as mulheres desta Provincia

saõ grandes fiandeiras, chegavaõ em semelhante empreza a fiar muitas

varas de panno para o enxoval da noiva.[412] Desta sorte ajudaõ huns

aos outros para o dote das filhas, e no dia da voda fazem grandes

festas, e banquetes.

20 No livro dos costumes antigos de Béja se acha escrito, que os

moradores desta povoaçaõ se queixarão a ElRey D. Diniz no anno de 1339,

dizendo: que os Fidalgos, e poderosos, quando casavaõ seus filhos,

e parentes, rogavaõ ao Alcaide mór, Alvazis, (isto he, Vereador)

Fidalgos, e homens bons da terra, com os Alcaides das Aldeas, e que com

toda esta companhia hiaõ pelos montes pedir carneiros, gallinhas, e

outras cousas, que lhe naõ podiaõ negar em abundancia com vergonha do

acompanhamento que levavaõ. Este excesso remediou ElRey, mandando que

dalli por diante naõ houvesse acompanhamentos semelhantes, permittindo

que só o noivo com hum companheiro fosse recolher a voluntaria offerta

de seus paizanos. Assim o refere Fr. Francisco Brandaõ na _Monarquia

Lusitana liv. 18. cap. 30._ accrescentando: que este costume que agora

pareceria incivil, e pouco decente para os noivos, que sempre haõ de

ostentar grandezas, e naõ indigencia, conforme o costume moderno cheyo

de fausto, e ostentaçaõ, julgava a singeleza advertida daquella boa

idade por decorosa correspondencia dos novos casados, gratificando

nesta parte do estado da Republica, que pelo Matrimonio se amplia.

21 Muitas vezes acontece escolherem as filhas o marido contra a vontade

dos pays, e para obviar esta opposiçaõ na eleiçaõ livre do seu estado,

e de seu esposo, consentem que estes as tirem por justiça. Vaõ logo

ser depositadas pelo Meirinho Ecclesiastico em alguma casa de pessoa

honesta; e procedendo a perguntas, se persistem na mesma vontade, se

recebem, ficando os pays da noiva obrigados a contribuir com o dote

proporcionado aos bens, que lhe competem.

22 O divertimento da caça he generico em todo o Portugal. Os Gregos,

quando vieraõ a Lisboa,[413] introduziraõ o da altenaria, que se

pratica com açores, falcões, e gaviões, de que compoz huma excellente

Arte Diogo Fernandes Ferreira; porém este exercicio nobre foy mais

proprio dos nossos Principes, e muito usado até o tempo delRey D.

Sebastiaõ. Permanecem hoje os outros generos de caça mais laboriosos

em grande risco das mais ligeiras aves, que se naõ livraõ da destreza

dos tiros para abonarem à custa da sua vida o primor, e acerto da

espingarda Portugueza. Offerecem igualmente hum admiravel passatempo

as muitas ribeiras, e rios com a pescaria de seus peixes. Os jogos da

péla, tabolas, bola, e cartas entertem a muitos ociosos, e às vezes

passa a occupaçaõ cheya de damnos, e perigos. Nas academias, ou casas

publicas destes jogos he costume dar barato, ou alguma porçaõ do lucro

aquelle, que tiver ganhado, aos que estaõ em roda vendo.

23 Sobre todos os divertimentos, o mais celebre, e plausivel he o

combate dos touros, ou seja de pé, ou de cavallo: festa que traz origem

do Gentilismo, para o qual todos concorrem com grande gosto, e se fazem

com muito apparato, e magnificencia.[414] Esta he só a occasiaõ em

que os estrangeiros dizem[415] que podem à sua vontade ver as Damas

Portuguezas ornadas com todos os seus enfeites; mas todavia he este

genero de espectaculo taõ perigoso, que só o costume lhe podia tirar o

horror, e que justamente reprova nosso D. Francisco Botelho em huma das

suas Satyras latinas. Mais vistosas saõ as outras festas, que às vezes

fazem os Cavalleiros Portuguezes, chamadas Justas, Torneyos, Alcancias,

e Cavalhadas, onde se vê a destreza, brio, e desembaraço de andar a

cavallo, em que algumas pessoas de qualidade saõ insignes.

24 Amaõ os Portuguezes com especial affecto a Poezia, e a Musica. Hoje

anda muito em moda no applauso de qualquer acçaõ meritoria transferir

o Parnaso para o sitio do elogiado, e alli glosando motes, e compondo

versos de improviso, mostraõ as Portuguezas Musas nestes oiteiros

laudatorios, que naõ tem inveja de Apollo no seu aprazivel monte de

Acaya. O instrumento musico, a que chamaõ _Viola_, he propriamente

Portuguez, e que serve em todos os festejos domesticos, e publicos,

a cujo som entoaõ ordinariamente motetes, e cantigas pateticas com

aquella variedade, que pede a intençaõ do divertimento. O grave aspecto

da compleiçaõ nacional parece que insinúa pouca familiaridade entre

huns, e outros compatriotas: daqui vem serem raras as pessoas, que

convidaõ a seus amigos para jantar com elles; mas quando o fazem, he

com mesa farta, limpa, e saborosa, e as mais das vezes ostentando

grandeza, vaidade, e desperdicio.

25 Outros muitos costumes omittimos, naõ só porque seria preciso hum

grande volume, se houvessemos de descrevellos pontualmente, mas porque

estas extensas narrações saõ mais proprias para a Historia, que para a

Geografia. Com tudo antes de clausular este Capitulo, diremos alguns

sentenciosos attributos dos Portuguezes para mayor conhecimento do seu

genio, segundo a discreta observaçaõ, e experiencia de alguns Authores

nossos.

Mappa de Portugal antigo, e moderno, tomo 1 (of 3): Parte I, II · 第 86 / 163 题