VI

Se das classes dirigentes, da sociedade capitalista, voltamos os olhos

para a grande massa da população, formada pelas classes trabalhadoras, o

que vêmos?

A concomitancia da crise nacional que data de 1890, com a crise geral

contemporanea que ha mais tempo se faz sentir em todos os paizes da

Europa e da America, com maior ou menor intensidade, tem tornado de dia

para dia mais difficil a situação do nosso operariado, tanto das cidades

como dos campos.

A diminuição dos dias de trabalho para os operarios das fabricas e das

officinas, a completa falta de trabalho para muitos dos operarios das

construcções civis, e o abaixamento dos salarios como consequencia da

abundancia de braços disponiveis para o trabalho, foram os primeiros

effeitos naturaes do mal-estar economico de que padeçe a nossa

sociedade. A repercussão d'esses effeitos, tornados por seu turno

causas, produziu o augmento da miseria publica, e correlativamente

provocou o desenvolvimento da mendicidade, da criminalidade, dos

suicidios, da mortalidade em geral, das doenças e da emigração. Não

foram publicados ainda os dados estatisticos dos phenomenos sociaes

posteriores ao anno de 1890, e por isso não podemos corroborar com a

demonstração incontestavel dos numeros, a intima concordancia d'aquellas

várias manifestações da vida social com a marcha persistente da nossa

grande crise.

N'estes ultimos tempos, por vezes, os factores de ordem cosmica,

sobrepondo-se aos de ordem social, aggravaram ainda a situação do

operariado. Referimo-nos ás vigorosas invernias e á prolongada estiagem

que alternadamente açoutaram todo o nosso paiz, multiplicando a miseria

publica e extendendo-a á população dos campos e á classe piscatoria. A

extrema complexidade dos phenomenos sociaes faz tambem refluir sobre o

operariado das cidades as consequencias d'esses males pela carestia das

subsistencias. A fome que visita os trabalhadores agricolas, victimas da

esterilidade quer dos campos alagados, quer das terriveis seccas, e os

pobres pescadores, que em razão de ininterruptos temporaes não podem

sahir ao mar no exercicio da sua profissão, tão incerta como arriscada,

assenta ao mesmo tempo arraiaes nas habitações dos operarios urbanos.

É uma lei economica a correlação entre a baixa dos salarios, devida á

excessiva offerta de braços, e a depreciação geral das mercadorias. Mas,

nos casos a que nos referimos, nota-se uma excepção, especialmente

quanto aos generos de primeira necessidade, e essa excepção ainda é mais

perniciosa para o operariado. A baixa dos salarios coincide com a alta

dos preços das substancias alimenticias. Esta coincidencia anormal

resulta de que a alta dos preços é motivada pela falta de generos de

primeira necessidade, isto é, a lei economica foi alterada pela

intervenção de um factor extranho, de ordem cosmica. Todas as classes

sociaes soffrem as consequencias d'essa alteração, mas o operariado mais

do que nenhuma outra.

A crise do trabalho tem, por várias vezes, n'estes ultimos annos,

obrigado o poder executivo a abrir obras extraordinarias. É um

palliativo que attenua, mas não resolve a crise. E se allivia por

instantes a crise operaria, aggrava a situação do Thesouro. As finanças

publicas peoram com o peso de novos encargos. Mas acceitando o facto

como uma imposição de ordem social, em vez de inventar obras para dar

que fazer aos operarios sem trabalho, seria preferivel que o Governo

tivesse sempre de reserva, para mandar executar, um plano de obras

necessarias, mas não urgentes, afim de fornecer trabalho nos periodos

mais agudos e depressivos da crise operaria. Foi pelo menos o que em

Inglaterra recommendou ás auctoridades publicas a maioria d'uma

commissão real de inquerito ao trabalho nomeada em 1891.

Em Portugal, com o fim de dar trabalho aos operarios desoccupados,

malbaratam-se infelizmente todos os annos consideraveis sommas de

dinheiro, em reparos inuteis e modificações desnecessarias, mandadas

fazer em edificios do Estado.

A situação do operariado, de dia para dia mais aggravada, ha de forçar o

poder executivo a lançar mão, cada vez com mais frequencia e em maior

escala, d'esse expediente contrario aos interesses do Thesouro.

Seria de boa administração publica utilisar, ao menos, convenientemente

o trabalho dos operarios que recorrem ao auxilio do Governo.

O poder executivo, assim como não cuida, ao vêr-se obrigado pela fôrça

das circumstancias a conceder trabalho aos operarios desoccupados, de

aproveitar da forma mais vantajosa para o Estado o supplemento de

salarios que tem de dispender, tambem não pensa em melhorar as condições

do operariado em geral pelo estabelecimento de instituições protectoras.

Na Inglaterra, na Allemanha, na Austria, na França, na Belgica e

n'outros paizes, os governos encaram a sério a situação do operariado.

Na primeira d'aquellas nações, por exemplo, merecem tanto interesse as

questões operarias que a commissão real de inquerito ao trabalho, a que

já alludimos, apresentou ao Governo um relatorio official que abrange

mais de 65 _livros azues_, e gastou nas suas investigações e estudos a

somma gigantesca de 50:000 libras esterlinas. Esta commissão tinha por

fim "inquirir das questões que dizem respeito ás relações entre patrões

e operarios; das collisões entre patrões e entre operarios; das

condições do trabalho que surgiram no Reino-Unido durante as recentes

contestações operarias; e examinar se a legislação pode ser empregada

com vantagem em remedíar os males que o inquerito conseguir descobrir,

e, n'este caso, indicar os meios."

N'este momento historico, quando em Portugal as classes trabalhadoras

atravessam uma crise angustiosa, de caracter permanente, resultante de

várias causas que mutuamente se aggravam, quando a miseria se alastra

das cidades aos campos e ás aldeias, quando a fome ruge por vezes

ameaçadora e sinistra, urge prestar cuidadosa attenção ás questões

sociaes e diligenciar estabelecer em beneficio do proletariado leis

protectoras e previdentes, destinadas a facilitar e fomentar os seus

melhoramentos materiaes, moraes e intellectuaes.

A crise economica que o mundo civilisado atravessa, tem tomado cada vez

mais o caracter de crise social. É preciso não esquecer este facto,

symptoma evidente da decomposição do regimen capitalista, pois que a

actual situação do operariado entre nós é fundamentalmente uma

manifestação d'essa crise, aggravada sem duvida por factores de várias

ordens, mas não uma simples consequencia d'estes.

A dissolução do regimen capitalista · 第 10 / 17 题