Já atraz alludimos á emprêgo-mania É com effeito um dos males que
affligem as sociedades contemporaneas, e nomeadamente a portugueza. Tem
a sua origem immediata na superabundancia de individuos que se dedicam
ás profissões liberaes, abandonando as artes e as industrias exercidas
por seus paes e avós. Em vez de procurarem na instrucção, nos estudos a
que se consagram, elementos salutares e especiaes para desenvolverem e
aperfeiçoarem o trabalho manual ou mechanico, aproveitam o saber que
adquirem como instrumento para d'elle se tornarem independentes e
invadirem de preferencia as posições officiaes. D'esta tendencia cada
vez mais manifesta, apesar das difficuldades creadas com as exigencias
de propinas, de exames, de concursos, tem resultado o excessivo
desenvolvimento do funccionalismo. É esta, sem duvida, uma das causas
geradoras da grande crise economica da actualidade, e provém ainda em
parte do preconceito moral de origem biblica que faz considerar o
trabalho como castigo imposto ao homem, e em parte da tradição herdada
das épochas de conquista em que as artes manuaes eram o apanagio dos
escravos ou dos servos. A liberdade, proclamada pela revolução que deu o
triumpho politico ao terceiro estado, teve por consequencia, não tanto a
rehabilitação ou a dignificação do trabalho, como a abertura das
profissões liberaes aos filhos de todas as classes.
A acção do movimento revolucionario que agitou a França no fim de seculo
passado e d'ahi se extendeu a toda Europa, foi incompleta. Acabou, é
certo, com os privilegios, derribou as barreiras que separavam as
classes, mas não resolveu o problema social e moral; o trabalho manual
continuou a ser depreciado.
Todavia a obra da revolução tem proseguido no nosso seculo. Fourier,
primeiro, com a sua utopia do Falansterio, e Renan, mais tarde, no seu
livro _L'Avenir de la Science_,--para não citar nenhum
outro,--proclamaram a união entre o trabalho intellectual e o trabalho
manual, de modo que um seja como que o complemento do outro. Na mesma
ordem de idéas, o dr. Bernardino Machado advogou entre nós, na sua
conferencia sobre _A Socialisação do Ensino_, realisada no Instituto de
Coimbra, que "a ninguem seja licito seguir um curso de instrucção
secundaria, sem que esteja ao mesmo tempo fazendo o seu tirocinio
officinal, nem se permitta o accesso a uma faculdade ou eschola superior
a quem não seja ainda mestre em alguma profissão."
O socialismo, cujo partido se tem desenvolvido nos ultimos tempos, vê o
problema social e moral, que a revolução franceza não soube resolver, e
da sua solução faz a base fundamental da grande transformação economica.
Essa solução é verdadeiramente a rehabilitação do trabalho manual; é a
sua dignificação, já iniciada em varios paizes, por exemplo, na
Allemanha, com as candidaturas operarias. A entrada dos operarios, dos
trabalhadores, nos parlamentos assignala o primeiro passo para o
levantamento moral dos trabalhos manuaes e constitue o remedio mais
efficaz para corrigir gradualmente o mal resultante da superabundancia
de individuos que invadem as profissões liberaes e alargam os quadros do
funccionalismo.
Sobre a relação entre as profissões liberaes e o trabalho manual,
publicou a _Revista de derecho y de sociologia_(Num. 6, junio de 1895.)
um importante discurso inaugural do sr. C. Gide, eminente professor da
Universidade de Montpellier. N'elle se demonstra que hoje, tanto o
progresso economico, como o progresso moral, conspiram para dar maior
dignidade ao trabalho manual.
Diz o sr. Gide que a primeira causa de darem os homens, em todos os
tempos e em todos os paizes, a preferencia ás profissões liberaes sobre
os trabalhos manuaes "é porque o labor material foi sempre muito mais
penoso e muito mais duro do que o trabalho intellectual, entendendo por
este a somma de trabalho necessario para lograr dignamente uma situação
satisfactoria na vida." As invenções mechanicas teem transformado este
estado de cousas, operando uma verdadeira revolução nas condições do
trabalho manual. "E emtanto que o trabalho material tende a ser cada vez
mais facil, diz o illustre professor, parece que o trabalho intellectual
se torna de momento para momento menos attractivo."
Depois, a lei economica da offerta e da procura tem feito diminuir a
facilidade de encontrar bons honorarios ou bons vencimentos nas
profissões liberaes, havendo, por exemplo, na prefeitura do Sena 21:088
pretendentes inscriptos para 299 logares que se presumia que vagassem, o
na municipalidade de Bruxellas ao logar de porteiro, 75 candidatos, dos
quaes eram 33 licenciados em direito, 17 doutores em medicina, 21
engenheiros, 8 chimicos e 1 astronomo.
A mesma lei economica tem elevado cada vez mais o preço do trabalho
manual, de modo que, "na actualidade, diz ainda o sr. Gide, um operario
distincto ganha decerto mais do que um empregado, do que um agente de
commissões, do que um professor primario, do que um cura de aldeia ou do
que um alferes."
Em todos os tempos, sem excluir os modernos, o trabalho manual foi
sempre menos considerado do que os trabalhos intellectuaes. Contribue
talvez para isso, na actualidade, o facto de que as machinas, ao mesmo
tempo que tiravam ao trabalho manual o seu caracter penoso,
"privavam-n'o da individualidade, da espontaneidade, reduzindo-o á
uniformidade de uma operação mechanica." É de esperar, porém, que em
breve a revolução industrial restabeleça a união entre a arte e os
trabalhos materiaes, fazendo com que estes não sejam simplesmente um
meio do ganhar o pão.
O illustre professor da Universidade de Montpellier, prognosticando a
rehabilitação do trabalho manual, como Fourier e Renan, fechou o seu
brilhante discurso inaugural com estas palavras: "Sim; no dia em que o
trabalho intellectual e o trabalho manual se hajam reconciliado,
abraçado, desposado, terá dado o genero humano um grande passo _para a
felicidade_, para a felicidade moral, que seguramente produzirá o
sentimento de solidariedade com os nossos semelhantes, realizado n'um
commum trabalho e n'um commum destino, e para a felicidade physica
tambem, que ha de resultar da harmonia das funcções o da plenitude da
vida."
V
Estamos em plena decadencia. A sociedade industrial-capitalista que se
fundou sobre as ruinas da sociedade catholico-feudal, submettendo as
doutrinas revolucionarias ao egoismo individualista, agonisa actualmente
em decomposição espontanea. Os abusos provenientes da sua propria
organização subvertem-n'a. A crise moral, caracteristica de todas as
épochas de dissolução, manifesta-se no seu maior auge pela fraqueza dos
caracteres, pela venalidade das consciencias, pelas torpezas de toda
ordem que mancham muitos homens em evidencia, pela indifferença ou
desprezo com que a maioria do publico encara os negocios do Estado e
pelo utilitarismo egoista que inspira hoje quasi todos os actos humanos.
Mas a crise moral, a dissolução dos costumes publicos e privados, que
caracterisa sempre os fins dos periodos historicos, é, em geral,
acompanhada logo de um comêço de reacção que se manifesta no riso, na
sátira, na ironia pungente, isto é, no castigo pelo ridiculo. Este
comêço de reacção moral não corrige os costumes, mas pode ter
consequencias salutares por apressar a decomposição espontanea e
facilitar com as suas irreverencias o advento das novas doutrinas.
Quando a grandeza dos Romanos se submergiu nas orgias do imperio,
Juvenal fustigou com as suas sátiras a sociedade em decadencia. Com
ellas contribuiu inconscientemente para dispôr os espiritos descrentes
do polytheismo á acceitação da moral christã.
No declinar do periodo catholico-feudal, quando a alma cavalheiresca foi
tocada pela corrupção, Rabelais com o seu prodigioso _Gargantua_ e
Cervantes com o seu immortal _Don Quixote_ castigaram pelo riso e pelo
ridiculo os costumes dissolutos da épocha e prepararam o inicio dos
tempos modernos.
A França, cabeça da civilisação Occidental, sentia o agonisar de um
largo periodo historico sob as magnificencias do rei-Sol; á devassidão
da côrte correspondia a miseria crescente do povo Voltaire com a sua
fina ironia ateava o incendio que depois se chamou revolução.
Beaumarchais lançou-lhe os ultimos combustiveis.
Mais tarde ainda, em França, a bacchanal do segundo imperio que cahiu
humilhado em Sedan, encontrou a sátira dilacerante de Victor Hugo, a
audacia firme de Rochefort e, sobretudo, a irreverente musica de
Offenback.
Em Portugal a dissolução dos costumes publicos e privados, instigada
desde 1852 pela corrupção adoptada como norma do governo, encontrou
tambem a reacção do riso, do sarcasmo, do ridiculo. Durante o reinado de
D. Luiz não faltaram as folhas satiricas, os pamphletos virulentos em
prosa ou verso, as revistas do anno em que os homens e as cousas
publicas eram cruamente achincalhados, as caricaturas com as quaes o
talento do artista fixava em dois traços na memoria do povo as feições
dos caricaturados, sempre em situações comicas ou burlescas. A acção
dissolvente attingiu taes proporções que, ao terminar o reinado, se
ergueu em grande parte da imprensa um brado energico contra a brandura
dos nossos costumes.
Depois da ascenção ao throno do sr. D. Carlos, pretendeu o poder
executivo reprimir com violencia a mordacidade iconoclasta, tanto do
jornalismo como do theatro; e, com effeito, conseguiu cohibir alguns
desmandos de linguagem ou de nudez de copia; mas o que não pôde abafar
foi o espirito de reacção pelo riso, que proseguiu na sua tarefa
demolidora, apontando ao publico os ridiculos da nossa épocha de
decadencia e de desmoralisação. Basta citar o extraordinario poema
satirico de Guerra Junqueiro--_Patria_.
Mas a decadencia, a desmoralisação lavra tão fundo que a reacção pelo
riso encontrou espontaneamente novas formas para se manifestar. Como se
a obra dissolvente dos artistas, dos escriptores e dos jornalistas já
não bastasse para reagir contra a corrupção geral que procura
occultar-se sob vãs ostentações de fôrça, surgem manifestações
collectivas na praça publica.
O caso, occorrido em maio de 1895, dos estudantes da Eschola-Medica de
Lisboa, parodiando, com o concurso da mocidade academica de outras
escholas, um acto celebrado, dias antes, pelos poderes constituidos, é
altamente caracteristico. A sua significação não pode ser alterada, e é
realmente muito séria sob as suas apparencias folgazãs, sobretudo por
ser uma manifestação da classe academica, isto é, dos homens que hão de
ser amanhã parte integrante do nosso meio dirigente. São elles, os
homens do futuro, que protestam pelo riso contra a dissolução que mina a
sociedade portugueza.