IV

Já atraz alludimos á emprêgo-mania É com effeito um dos males que

affligem as sociedades contemporaneas, e nomeadamente a portugueza. Tem

a sua origem immediata na superabundancia de individuos que se dedicam

ás profissões liberaes, abandonando as artes e as industrias exercidas

por seus paes e avós. Em vez de procurarem na instrucção, nos estudos a

que se consagram, elementos salutares e especiaes para desenvolverem e

aperfeiçoarem o trabalho manual ou mechanico, aproveitam o saber que

adquirem como instrumento para d'elle se tornarem independentes e

invadirem de preferencia as posições officiaes. D'esta tendencia cada

vez mais manifesta, apesar das difficuldades creadas com as exigencias

de propinas, de exames, de concursos, tem resultado o excessivo

desenvolvimento do funccionalismo. É esta, sem duvida, uma das causas

geradoras da grande crise economica da actualidade, e provém ainda em

parte do preconceito moral de origem biblica que faz considerar o

trabalho como castigo imposto ao homem, e em parte da tradição herdada

das épochas de conquista em que as artes manuaes eram o apanagio dos

escravos ou dos servos. A liberdade, proclamada pela revolução que deu o

triumpho politico ao terceiro estado, teve por consequencia, não tanto a

rehabilitação ou a dignificação do trabalho, como a abertura das

profissões liberaes aos filhos de todas as classes.

A acção do movimento revolucionario que agitou a França no fim de seculo

passado e d'ahi se extendeu a toda Europa, foi incompleta. Acabou, é

certo, com os privilegios, derribou as barreiras que separavam as

classes, mas não resolveu o problema social e moral; o trabalho manual

continuou a ser depreciado.

Todavia a obra da revolução tem proseguido no nosso seculo. Fourier,

primeiro, com a sua utopia do Falansterio, e Renan, mais tarde, no seu

livro _L'Avenir de la Science_,--para não citar nenhum

outro,--proclamaram a união entre o trabalho intellectual e o trabalho

manual, de modo que um seja como que o complemento do outro. Na mesma

ordem de idéas, o dr. Bernardino Machado advogou entre nós, na sua

conferencia sobre _A Socialisação do Ensino_, realisada no Instituto de

Coimbra, que "a ninguem seja licito seguir um curso de instrucção

secundaria, sem que esteja ao mesmo tempo fazendo o seu tirocinio

officinal, nem se permitta o accesso a uma faculdade ou eschola superior

a quem não seja ainda mestre em alguma profissão."

O socialismo, cujo partido se tem desenvolvido nos ultimos tempos, vê o

problema social e moral, que a revolução franceza não soube resolver, e

da sua solução faz a base fundamental da grande transformação economica.

Essa solução é verdadeiramente a rehabilitação do trabalho manual; é a

sua dignificação, já iniciada em varios paizes, por exemplo, na

Allemanha, com as candidaturas operarias. A entrada dos operarios, dos

trabalhadores, nos parlamentos assignala o primeiro passo para o

levantamento moral dos trabalhos manuaes e constitue o remedio mais

efficaz para corrigir gradualmente o mal resultante da superabundancia

de individuos que invadem as profissões liberaes e alargam os quadros do

funccionalismo.

Sobre a relação entre as profissões liberaes e o trabalho manual,

publicou a _Revista de derecho y de sociologia_(Num. 6, junio de 1895.)

um importante discurso inaugural do sr. C. Gide, eminente professor da

Universidade de Montpellier. N'elle se demonstra que hoje, tanto o

progresso economico, como o progresso moral, conspiram para dar maior

dignidade ao trabalho manual.

Diz o sr. Gide que a primeira causa de darem os homens, em todos os

tempos e em todos os paizes, a preferencia ás profissões liberaes sobre

os trabalhos manuaes "é porque o labor material foi sempre muito mais

penoso e muito mais duro do que o trabalho intellectual, entendendo por

este a somma de trabalho necessario para lograr dignamente uma situação

satisfactoria na vida." As invenções mechanicas teem transformado este

estado de cousas, operando uma verdadeira revolução nas condições do

trabalho manual. "E emtanto que o trabalho material tende a ser cada vez

mais facil, diz o illustre professor, parece que o trabalho intellectual

se torna de momento para momento menos attractivo."

Depois, a lei economica da offerta e da procura tem feito diminuir a

facilidade de encontrar bons honorarios ou bons vencimentos nas

profissões liberaes, havendo, por exemplo, na prefeitura do Sena 21:088

pretendentes inscriptos para 299 logares que se presumia que vagassem, o

na municipalidade de Bruxellas ao logar de porteiro, 75 candidatos, dos

quaes eram 33 licenciados em direito, 17 doutores em medicina, 21

engenheiros, 8 chimicos e 1 astronomo.

A mesma lei economica tem elevado cada vez mais o preço do trabalho

manual, de modo que, "na actualidade, diz ainda o sr. Gide, um operario

distincto ganha decerto mais do que um empregado, do que um agente de

commissões, do que um professor primario, do que um cura de aldeia ou do

que um alferes."

Em todos os tempos, sem excluir os modernos, o trabalho manual foi

sempre menos considerado do que os trabalhos intellectuaes. Contribue

talvez para isso, na actualidade, o facto de que as machinas, ao mesmo

tempo que tiravam ao trabalho manual o seu caracter penoso,

"privavam-n'o da individualidade, da espontaneidade, reduzindo-o á

uniformidade de uma operação mechanica." É de esperar, porém, que em

breve a revolução industrial restabeleça a união entre a arte e os

trabalhos materiaes, fazendo com que estes não sejam simplesmente um

meio do ganhar o pão.

O illustre professor da Universidade de Montpellier, prognosticando a

rehabilitação do trabalho manual, como Fourier e Renan, fechou o seu

brilhante discurso inaugural com estas palavras: "Sim; no dia em que o

trabalho intellectual e o trabalho manual se hajam reconciliado,

abraçado, desposado, terá dado o genero humano um grande passo _para a

felicidade_, para a felicidade moral, que seguramente produzirá o

sentimento de solidariedade com os nossos semelhantes, realizado n'um

commum trabalho e n'um commum destino, e para a felicidade physica

tambem, que ha de resultar da harmonia das funcções o da plenitude da

vida."

V

Estamos em plena decadencia. A sociedade industrial-capitalista que se

fundou sobre as ruinas da sociedade catholico-feudal, submettendo as

doutrinas revolucionarias ao egoismo individualista, agonisa actualmente

em decomposição espontanea. Os abusos provenientes da sua propria

organização subvertem-n'a. A crise moral, caracteristica de todas as

épochas de dissolução, manifesta-se no seu maior auge pela fraqueza dos

caracteres, pela venalidade das consciencias, pelas torpezas de toda

ordem que mancham muitos homens em evidencia, pela indifferença ou

desprezo com que a maioria do publico encara os negocios do Estado e

pelo utilitarismo egoista que inspira hoje quasi todos os actos humanos.

Mas a crise moral, a dissolução dos costumes publicos e privados, que

caracterisa sempre os fins dos periodos historicos, é, em geral,

acompanhada logo de um comêço de reacção que se manifesta no riso, na

sátira, na ironia pungente, isto é, no castigo pelo ridiculo. Este

comêço de reacção moral não corrige os costumes, mas pode ter

consequencias salutares por apressar a decomposição espontanea e

facilitar com as suas irreverencias o advento das novas doutrinas.

Quando a grandeza dos Romanos se submergiu nas orgias do imperio,

Juvenal fustigou com as suas sátiras a sociedade em decadencia. Com

ellas contribuiu inconscientemente para dispôr os espiritos descrentes

do polytheismo á acceitação da moral christã.

No declinar do periodo catholico-feudal, quando a alma cavalheiresca foi

tocada pela corrupção, Rabelais com o seu prodigioso _Gargantua_ e

Cervantes com o seu immortal _Don Quixote_ castigaram pelo riso e pelo

ridiculo os costumes dissolutos da épocha e prepararam o inicio dos

tempos modernos.

A França, cabeça da civilisação Occidental, sentia o agonisar de um

largo periodo historico sob as magnificencias do rei-Sol; á devassidão

da côrte correspondia a miseria crescente do povo Voltaire com a sua

fina ironia ateava o incendio que depois se chamou revolução.

Beaumarchais lançou-lhe os ultimos combustiveis.

Mais tarde ainda, em França, a bacchanal do segundo imperio que cahiu

humilhado em Sedan, encontrou a sátira dilacerante de Victor Hugo, a

audacia firme de Rochefort e, sobretudo, a irreverente musica de

Offenback.

Em Portugal a dissolução dos costumes publicos e privados, instigada

desde 1852 pela corrupção adoptada como norma do governo, encontrou

tambem a reacção do riso, do sarcasmo, do ridiculo. Durante o reinado de

D. Luiz não faltaram as folhas satiricas, os pamphletos virulentos em

prosa ou verso, as revistas do anno em que os homens e as cousas

publicas eram cruamente achincalhados, as caricaturas com as quaes o

talento do artista fixava em dois traços na memoria do povo as feições

dos caricaturados, sempre em situações comicas ou burlescas. A acção

dissolvente attingiu taes proporções que, ao terminar o reinado, se

ergueu em grande parte da imprensa um brado energico contra a brandura

dos nossos costumes.

Depois da ascenção ao throno do sr. D. Carlos, pretendeu o poder

executivo reprimir com violencia a mordacidade iconoclasta, tanto do

jornalismo como do theatro; e, com effeito, conseguiu cohibir alguns

desmandos de linguagem ou de nudez de copia; mas o que não pôde abafar

foi o espirito de reacção pelo riso, que proseguiu na sua tarefa

demolidora, apontando ao publico os ridiculos da nossa épocha de

decadencia e de desmoralisação. Basta citar o extraordinario poema

satirico de Guerra Junqueiro--_Patria_.

Mas a decadencia, a desmoralisação lavra tão fundo que a reacção pelo

riso encontrou espontaneamente novas formas para se manifestar. Como se

a obra dissolvente dos artistas, dos escriptores e dos jornalistas já

não bastasse para reagir contra a corrupção geral que procura

occultar-se sob vãs ostentações de fôrça, surgem manifestações

collectivas na praça publica.

O caso, occorrido em maio de 1895, dos estudantes da Eschola-Medica de

Lisboa, parodiando, com o concurso da mocidade academica de outras

escholas, um acto celebrado, dias antes, pelos poderes constituidos, é

altamente caracteristico. A sua significação não pode ser alterada, e é

realmente muito séria sob as suas apparencias folgazãs, sobretudo por

ser uma manifestação da classe academica, isto é, dos homens que hão de

ser amanhã parte integrante do nosso meio dirigente. São elles, os

homens do futuro, que protestam pelo riso contra a dissolução que mina a

sociedade portugueza.

A dissolução do regimen capitalista · 第 9 / 17 题