III

Portugal não constitue uma excepção. A decomposição do regimen

capitalista, que tem por symptomas caracteristicos o caso retumbante do

Panamá na republica franceza e uma série infinita de Panamás que se

desenvolveram em quasi todas as nações da Europa e America, extendeu-se

até a sociedade portugueza. Observe-se a depravação a que ella chegou,

desorientada por uma politica immoralissima, na qual se sacrificam os

interesses nacionaes ás inconfessaveis e desvairadas conveniencias do

mais sórdido egoismo. E essa depravação attingiu o seu auge no decurso

da grande crise nacional por que passamos. As proporções espantosas que

tomou no nosso meio a dessoração de um systema social chegado ao periodo

extremo da sua existencia, são tanto mais para admirar, quanto é certo

nunca ter esse regimen de feudalismo industrial, alcançado entre nós o

desenvolvimento que tomou n'outros paizes egualmente contaminados.

A razão d'este phenomeno é simples.

O desenfreado amor do luxo e do prazer que se propagou, no reinado de D.

Luiz, das altas regiões do poder ás classes mais elevadas, d'estas ás

médias e ainda d'estas ás inferiores, perverteu todas as noções da

economia domestica e da dignidade pessoal, antepondo a ostentação e o

enfatuamento ao senso commum e á modestia. A administração publica com

os seus esbanjamentos, espalhando a rôdos desassisadamente os milhares

de libras dos emprestimos extrangeiros e as valiosas receitas das

contribuições, dava o exemplo, deslumbrando e instigando os espiritos

desprovidos de uma sã educação moral.

Todos queriam gosar á larga, todos queriam apparentar aquillo que não

eram. Difficilmente cada um se conformava com a sua sorte. Isto até onde

se extendia o contagio da corrupção que vinha de cima.

Assim se explica tambem o desenvolvimento da emprêgo-mania. As artes e

os officios, o commercio e a industria, as profissões liberaes viram

desertar das suas fileiras muitos dos seus membros que se trabalhassem

diligentemente poderiam ser optimos cidadãos, para se virem alistar nos

exercitos numerosos do funccionalismo. Á mesa do orçamento procuravam

assentar-se todos os que ambicionavam viver regaladamente sem canceiras

e sem trabalhos.

A perversão moral que se traduzia na sêde de gosos e de ostentação,

levava a empregar indifferentemente todos os meios, quaesquer que elles

fôssem, com tanto que com facilidade se pudesse alcançar o ambicionado

fim. Os escrupulos sossobraram deante da fascinação de uma vida

inteiramente de apparencias, já que não podia ser de verdadeiras

riquezas. Para uns o expediente preferido foi o jôgo de bolsa, em que

arriscavam, não a sua fortuna, mas a alheia, ou a exploração de empresas

mirabolantes, ás quaes conseguiam attrahir subscriptores ingenuos ou

incautos. Outros lançaram antes as vistas para os cofres publicos,

abusando da confiança que tinham sabido inspirar ou da posição

respeitavel que occupavam. Outros ainda recorreram a processos não menos

indecorosos, nem menos repugnantes, para se apoderarem de dinheiro, de

valores ou de bens de outrem.

Não é pequena a lista de escandalos que vieram a lume nos ultimos annos.

Os escandalos particulares complicam-se com os publicos, e as ruinas de

companhias e empresas reflectem-se pesadamente no Thesouro.

Em Portugal a dissolução do regimen capitalista casa-se intimamente á

decomposição do systema monarchico constitucional. É por isso em extremo

complexa a situação presente do nosso paiz.

Ao movimento de dissolução espontanea do regimen capitalista uniu-se o

systema de corrupção adoptado como norma de governo e o ideal egoista do

gôso, alimentado imprudentemente pelas altas regiões durante o reinado

de D. Luiz. Hoje estamos soffrendo as consequencias da febre de prazeres

que contaminou a nossa sociedade.

Se são já muitos os escandalos de que a justiça tomou conhecimento, na

sua maioria ainda, se não para sempre, impunes, muitos mais parecem ser

aquelles que permanecem na sombra, envoltos em mysterios e denunciados

apenas na imprensa por allusões mais ou menos claras ou transparentes.

Graves accusações se teem feito por esta forma, nos ultimos annos, a

empregados publicos, a funccionarios superiores do Estado ou a

individuos que teem mantido por vezes relações intimas com o Governo em

negocios financeiros. Graves accusações essas, não só porque os factos

indigitados cahem sob a acção do Codigo Penal, como tambem porque anda a

elles ligado o credito, a honra e a dignidade da nação portugueza. E

essas graves accusações veem por vezes acompanhadas da transcripção de

documentos comprovativos.

A opinião publica crê piamente nos escandalos que d'essa forma lhe são

relatados pela imprensa; e a indifferença das auctoridades que não

submettem os casos aos tribunaes como lhes cumpria, ainda faz augmentar

essa convicção. Não se comprehende, com effeito, que a justiça se

conserve de braços cruzados, quando se fazem publicamente declarações de

crimes praticados contra o Estado por funccionarios publicos no

exercicio das suas funcções ou por individuos que abusaram da confiança

n'elles depositada pelo Governo. A indifferença das auctoridades em taes

casos contribue para augmentar a desmoralisação publica.

Se se pretende arrancar o paiz do estado de depravação em que se

encontra, se se pretende reagir contra a immoralidade que campeia

infrene nos arraiaes politicos, extendendo-se á vida particular, é

indispensavel iniciar uma completa e geral liquidação de

responsabilidades. Será este o ponto de partida para a reforma dos

costumes que o amor do luxo e do prazer, conjuntamente com a politica de

corrupção, alteraram e viciaram de cima a baixo. Não basta prender e

punir os culpados menores que se deixaram desvairar por aquella ordem de

seducções illusorias; é precioso prender e punir tambem os grandes, mais

criminosos ainda que os outros, quer por occuparem uma posição social

mais elevada, quer por terem em regra maior illustração, ou ainda porque

pelos seus exemplos contribuiram perniciosamente para que aquelles se

desviassem da mesma forma, ainda que por differentes processos, do

caminho da honra e do dever. Emquanto os grandes potentados ou os

grandes funccionarios que delinquiram, gosarem da impunidade dos seus

crimes, escusado será esperar que se comece a sério a obra da

regeneração moral de que o nosso paiz tanto carece.

A dissolução do regimen capitalista · 第 8 / 17 题