Os symptomas caracteristicos da decomposição do regimen capitalista
accentuam-se com mais ou menos fôrça em todos os paizes.
Citemos factos.
Um grande industrial de Bochum, importante e rica cidade da Westphalia,
foi accusado não só de uma falsificação prejudicial para o Thesouro,
como da responsabilidade de muitas mortes, occasionadas em accidentes de
caminhos de ferro, para os quaes fornecêra rails de uma composição
voluntariamente imperfeita. Este industrial, que defraudava a nação e
punha em risco imminente a vida dos viajantes que circulam nos caminhos
de ferro do Estado, M. Baare, era, segundo noticiava _Le Temps_ de 8 de
fevereiro de 1892, "um dos homens de confiança do principe de Bismarck
nas questões economicas, um dos iniciadores do systema proteccionista,
membro do conselho d'Estado e do conselho de administração dos caminhos
de ferro do Estado, conselheiro intimo do commercio, presidente da
camara de Commercio de Bochum, director de um dos maiores
estabelecimentos industriaes da Allemanha, e condecorado com enorme
quantidade de venéras!" Sobre esta alta personagem do imperio germanico
pesou a esmagadora accusação, comprovada por um jornalista, de se ter
prestado, durante longos annos, á falsificação systematica dos puncções
applicados aos productos das suas officinas.
Corria ha muito tempo em Westphalia o boato de fraudes gigantescas, de
que era victima a Fazenda publica, praticadas sem o minimo escrupulo
pelos principaes contribuintes de Bochum. A _Gazeta do Povo_ tornou-se
écho d'esses rumores, e M. Fussangel, redactor d'este jornal, procedeu
pessoalmente a um inquerito, procurando a justificação das vagas
accusações que andavam em todas as bôccas. A investigação feita pelo
jornalista de Westphalia teve fecundos resultados, e a _Gazeta do Povo_
pôde não só certificar a existencia de falsas declarações, prestadas
pelos maiores contribuintes, relativamente aos respectivos rendimentos
sobre que havia de incidir o imposto; mas, o que era muito mais grave,
denunciar uma série de delictos condemnaveis no duplo ponto de vista da
segurança publica e da moralidade commercial. A opinião publica
agitava-se com taes revelações e as auctoridades viram-se forçadas a
proceder a um inquerito administrativo. Do inquerito official resultou,
com effeito, a certeza de que o fisco era prejudicado pelas falsas
declarações do oitenta e um dos maiores contribuintes de Bochum em
600:000 marcos, isto é, mais de 59 por cento do seu rendimento, e que
entre os culpados se contavam M. Baare e mais dezesete membros da
municipalidade.
Apesar d'esta assombrosa confirmação de uma parte da denuncia, o
arrojado jornalista M. Fussangel foi condemnado a alguns mezes de cadeia
por gratuitas imputações quanto á falsificação attribuida a Baare. Mas
embora condemnado, o redactor da _Gazeta do Povo_ não desanimou.
Refugiou-se por algum tempo, antes de cumprir a pena, e proseguindo no
inquerito particular, conseguiu publicar uma série de documentos
irrefragaveis, que demonstravam a realidade das falsificações e a sua
distribuição n'um periodo de dezeseis annos, de 1876 a 1892!
O triumpho obtido por M. Fussangel foi esmagador para o grande
industrial. A opinião publica condemnou o delapidador e o falsificador
que privava com as sumidades do imperio; mas por uma anomalia
escandalosa, a justiça não ousou pedir contas ao principal auctor dos
actos criminosos; limitou-se a instaurar um processo contra os seus
cumplices, fautores secundarios, ou antes seus instrumentos passivos.
Mais retumbante do que este, e não menos significativo, foi o escandalo
do Panamá.
A questão do Panamá não foi um mal originado pelas instituições
republicanas por que se rege a França; affirmal-o, se não é uma prova de
má fé do facciosismo monarchico, demonstra pelo menos completa
ignorancia das sciencias sociaes. Esse escandalo representa apenas um
apostema no estado de decomposição a que chegou o feudalismo
capitalista. Deu-se em França, não por causa da republica, mas apesar da
republica; e deu-se unicamente porque a nação franceza, como todas as
outras nações civilisadas, atravessa uma profunda crise, d'onde ha de
sahir um novo regimen social. Esta é que é a verdade. E tanto assim,
que, ao percorrermos a imprensa de todos os paizes, vimos denunciar logo
com a designação cosmopolita de _Panamás_ a infinita série de escandalos
similares que mancham o mundo financeiro nas differentes nações europêas
e americanas. Por toda parte a mesma sêde de vida de gosos, a mesma
audacia da captação de riquezas, o mesmo desvergonhamento na compra e na
venda das consciencias; por toda parte o mesmo ideal do
capitalismo:--viver á larga sem trabalhar!
Benoit Malon, o notavel pensador prematuramente fallecido, a proposito
do escandalo do Panamá, disse que todas as nações, quer sejam governadas
pela monarchia, quer pela republica, teem presentemente as suas chagas:
"Todas as coisas eguaes, escrevia o auctor do _Socialismo integral_, a
unica differença quando ha alguma n'esse caso, entre a monarchia e a
republica, é que na primeira abafa-se o escandalo, emtanto que na
segunda faz-se a luz e os prevaricadores teem pelo menos a punição da
deshonra publica.
"Mas, ainda uma vez, n'estas desgraças publicas, não é da forma politica
do governo, mas do systema social, que se trata. Vemos mais uma prova
d'isso no facto de que, os que receberam cheques ou commissões do
Panamá, são talvez mais numerosos e mais ávidos do lado monarchico.
Saibamos ver com equidade; o mal resulta da furia do ganho individual
alimentado pela forma capitalista da producção e attrahido pela febre do
jôgo, que n'este tempo de anarchia economica e de iniquidades sociaes,
desanima o trabalho, corrompe todas as formas da troca e transforma os
mercados financeiros em cavernas dos quarenta ladrões."(_Une
protestation motivée--Revue Socialiste_ n.º 96, Decembre, 1892.) Na
verdade, nem a monarchia, nem a republica se compromettem com os
escandalos do mundo financeiro, se os poderes constituidos não extendem
sobre os criminosos a capa da misericordia, nem exercem em favor d'elles
a benevolencia ou a protecção.
A França republicana teve o bom senso de não se comprometter, como
succederia se cobrisse paternalmente os politicos prevaricadores. O
parlamento, de todas as vezes que se tem agitado a questão, mostra
sempre desejar que a luz incida sobre o escuro caso.
Mas o grande escandalo, o verdadeiro escandalo do Panamá, está no
desapparecimento de _mil e trezentos milhões de francos_, cobrados pelo
conselho de administração da companhia. Os _cinco_ ou _dez milhões_,
consumidos na corrupção dos homens politicos, figuram como um minimo
relativamente insignificante: É isto um incidente escandaloso, mas muito
secundario, no conjunto do escandalo monumental.
Como se sumiram _mil e trezentos milhões de francos_ n'uma obra ainda
apenas começada; quando, ao lançarem a idéa, os promotores do canal do
Panamá asseveravam que uma somma de _seiscentos milhões de francos_ era
sufficiente para o rompimento completo do isthmo? Aqui é que está o
grande escandalo, como observou Gustave Ronanet na introdução ao seu
livro--_La verité sur le Panamá._
E o total das emissões ainda subiu acima de mil e trezentos milhões de
francos; tudo se subverteu n'esse immenso desastre. Essa somma enorme,
mais de 234:000 contos da nossa moeda, ao par, representava as economias
de innumeras familias da França, o producto do trabalho accumulado,
durante annos e annos, por individuos das classes laboriosas, que
incitados pelo principio da previdencia juntavam um pequeno capital para
a velhice ou para a doença. Tudo desappareceu n'esse insondavel
sorvedouro chamado Companhia do Panamá.
A avidez dos legisladores, n'esta vergonhosa e repugnante questão, ficou
como uma miseravel insignificancia ao lado da perversão moral de outras
classes de individuos. Charles de Lesseps, na commissão de inquerito,
declarou que "não foi tanto no mundo politico como no mundo dos salões,
que encontrou ávidas exigencias, que teve de dar sommas importantes,
numerosas participações de garantias, para alcançar o favor dos que
preparam a opinião mundana." Logo que se annunciava uma emissão, os
escriptorios da companhia eram invadidos por uma multidão,
principalmente da alta sociedade, que reclamava a sua inclusão no
syndicato. E d'entre as pessoas do mundo elegante, quanto mais
distinctos, quanto mais elevados em posição social, tanto mais avultada
era a somma exigida, tanto mais consideravel a participação reclamada.
Os exploradores dos capitaes do Panamá descobrem-se até no alto clero,
até mesmo no Vaticano. Os parochos recommendavam aos seus freguezes a
collocação das economias em acções do Panamá; as folhas clericaes faziam
uma activa propaganda a favor da companhia, e até, na expressão
pinturesca de um jornalista francez, _au temps glorieux où les finances
du Vatican valsaient sous l'archet de Mgr. Folchi, on joua sur Panamá_.
Um extraordinario delirio!
Depois d'este, escusado será mencionar os escandalos similares que nos
ultimos tempos teem vindo a publico na Allemanha, na Italia, na
Hespanha, no Brazil, por toda a parte emfim, e que representam a
dessoração de um systema social chegado ao ultimo periodo da sua
existencia.