Teixeira Bastos

LISBOA

SECÇÃO EDITORIAL DA COMPANHIA NACIONAL EDITORA

Administrador--JUSTINO GUEDES

50, Largo do Conde Barão, Lisboa

AGENCIAS

Porto, Largo dos Loyos, 47, 1.º

38, Rua da Quitanda, Rio de Janeiro

1897

I

Ninguem hoje contesta que o homem tem direito á vida. A legislação

punindo o abôrto, reconhece-lhe esse direito ainda antes mesmo de

nascer. O direito á vida subentende o direito ao trabalho, porque é o

trabalho o meio legitimo de obter recursos para viver, isto é, de

occorrer ás necessidades inilludiveis e primeiras do homem--a

alimentação, o alojamento e o vestuario.

Na sociedade actual, pode o homem exercer sempre o trabalho de maneira

que satisfaça a essas necessidades?

Digam-no os factos.

Um pavoroso incendio, em novembro de 1895, devastou em poucas horas as

principaes officinas da Companhia Real dos Caminhos de Ferro

Portuguezes, reduzindo á miseria cêrca de 600 operarios, que n'ellas

trabalhavam quotidianamente e que de repente, por esse motivo, ficaram

sem trabalho, e até sem ferramenta aquelles que a tinham sua.

A companhia tinha os valores, que o incendio destruiu, devidamente

garantidos por meio de seguros contra o risco de fogo. Mas os operarios?

Esses, coitados, não tinham o seu trabalho garantido, nem sequer as suas

ferramentas no seguro. Foram portanto estes as verdadeiras e unicas

victimas do espantoso incendio.

Ora 600 operarios sem trabalho representam 600 familias na miseria, ou

pouco menos. Verdade é que o conselho administrativo ou fiscal da

companhia procurou attenuar o mal proveniente d'essa terrivel situação;

deliberando licenciar os operarios, abriu uma inscripção para todos

elles, afim de os readmittir á proporção que as officinas se fôssem

reconstruindo; e pagando aos operarios licenciados, até o fim d'aquelle

anno, na razão de 50 por cento dos seus salarios normaes.

Mas se esta providencia melhorou um pouco a situação a que pelo incendio

ficaram reduzidas perto de 600 familias operarias, não era sufficiente

para que essas familias pudessem viver até a re-admissão dos operarios

licenciados, já não diremos medianamente, mas simplesmente como viviam

antes do fatal incendio.

Em regra, a féria do operario, qualquer que seja a arte ou o officio que

exerce, não excede um minimo com que difficilmente pode occorrer ás

despesas de alimentação, alojamento e vestuario. Se difficilmente pode

occorrer a essas tres despesas de absoluta necessidade, sendo só, o que

não acontece tendo familia? E é exactamente este o maior numero de

casos. A mulher e os filhos umas vezes, e outras os paes

impossibilitados de trabalhar pela edade ou pela doença sobrecarregam o

pobre operario, que com elles tem de repartir quotidianamente o producto

do seu parco salario.

Se a mulher ou alguns dos filhos concorrem tambem para as despesas da

casa com as suas respectivas férias, não o fazem com partes eguaes ás do

operario chefe de familia porque as férias das mulheres e dos menores

são excessivamente arrastadas. A exploração capitalista exerce-se com

mais fôrça sobre as mulheres e os menores. E no emtanto as mulheres e os

menores para satisfacção das suas necessidades recebem proporcionalmente

mais da casa commum do que a parte com que para ella contribuem.

N'estas circumstancias as 600 familias de operarios, ou pouco menos,

vendo reduzido a metade o salario do chefe de familia, a unica ou a

principal fonte do todas as despesas domesticas, haviam de sentir a

miseria entrar-lhes pela porta dentro com todas as suas lamentaveis e

horrorosas consequencias.

De um dia para o outro ficaram 600 operarios sem trabalho e perto de 600

familias na miseria, e isto sem que por forma nenhuma tivessem

contribuido com a sua conducta para essa ruina. Mas soffreram todas as

consequencias da destruição que não prepararam nem puderam evitar.

É um exemplo; poderiamos citar tambem o caso frequente de fabricas que

fecham temporariamente ou diminuem aos operarios os dias de trabalho,

porque teem os seus depositos abarrotados de productos sem extracção.

Denunciam todos esses casos, como tantos outros que todos os dias

acontecem, em menor escala, que a actual sociedade assenta em bases

falsas: o regimen capitalista dá origem a uma série interminavel de

injustiças, que victimam a população operaria; as classes productoras

por excellencia, tão mediocremente remuneradas.

A questão social surge espontaneamente de factos desta natureza.

Desde que a sociedade, como se acha organisada, pode recusar ao homem o

exercicio do trabalho,--pois outra cousa não é impedir-lhe ou

embaraçar-lhe de qualquer modo esse exercicio normal,--pondo-se em

flagrante contradicção com o principio fundamental, admittido nas

legislações, do direito á vida, é evidente, que são falsas as bases em

que assenta, e portanto que atravessa verdadeiramente uma phase de

transição.

A sociedade capitalista com o seu feudalismo industrial tende já a

dissolver-se. Aponta esta tendencia o dr. Léon Winiarski n'um bello

artigo sobre o _Materialismo economico e a psychologia social_.(_La

Revue Socialiste_ n.º 132, Decembre 1895.)

Diz elle: "Se este estado de cousas persiste até o presente e se foi

necessario no interesse da productividade, já encerra comtudo os germens

da dissolução.

"O desenvolvimento do machinismo cresce de dia para dia, tornando

superflua uma parte cada vez maior da população.

"O desenvolvimento inaudito da productividade do trabalho está em

antagonismo com a lei economica que condemna o maior numero á exclusiva

satisfacção das necessidades estrictamente indispensaveis. N'estas

condições, a producção excede periodicamente o consumo, o que causa no

mercado uma accumulação de fazendas que não encontram compradores: é uma

crise. Este estado de cousas ameaça a sociedade nos seus fundamentos.

Mas o mal contém em si mesmo um remedio: a producção concentra-se sem

cessar: ella organisa os operarios em um partido socialista que

transformará a producção dando-lhe novas bases, adaptando-a ás novas

necessidades da sociedade.

"Terá isto por consequencia uma transformação nos dominios da moral, do

direito, da politica, etc., os quaes tomarão por alvo a emancipação

inteira do individuo."

A tendencia verificada pelo dr. Léon Winiarski observa-se em todos os

paizes. Na Allemanha, na Inglaterra, na França, na Belgica, por toda

parte emfim, o partido socialista está adquirindo novas forças e uma

influencia directa sobre a marcha das cousas publicas cada vez mais

accentuada.

Correlativamente não é difficil observar uma decadencia gradual, mas de

dia para dia mais palpavel, no interesse que despertam as questões da

politica metaphysica e, pelo contrario, uma invasão progressiva das

questões concernentes á economia social.

Entre nós, onde o proletariado não tem comtudo a importancia numerica

que tem n'outros paizes, não deixa de se sentir a corrente socialista

que agita as sociedades contemporaneas; não será até difficil observar

symptomas indubitaveis de que tambem já em Portugal começou a decadencia

ou a dissolução do regimen capitalista.

A dissolução do regimen capitalista · 第 6 / 17 题