De um Cego e de um Corcovado

Hoje o desafio escrevo;

N'um vou á cega lagarta,

N'outro vou com grande peso.

N'uma palestra se acharam

Os dois a um mesmo tempo,

Um carregado de espaldas,

Outro de colera cego.

Vinha o Corcovado armado

De bacias de barbeiro,

Uma trazia nas costas,

Outra trazia no peito.

Com vir nas conchas metido

Parece vinha com medo,

Pois nas conchas com alongo

Um cágado estava feito.

No Cego vejo a razão,

No Corcovado a não vejo,

Porque é um homem que nunca

Teve avesso nem direito.

Esgrimiu o Cego um pau

E andou com elle tão déstro,

Que em dois angulos obtusos

As pancadas deu correndo.

Descarregou de pancadas

No Corcovado um chuveiro,

Porque os chuveiros nos montes

Dão as pancadas mais cedo.

Dar o Cego a bateria

No Corcovado era certo,

Porque duas eminencias

Tinha por onde batel-o.

Sem haver pé de pessoa

Que a briga estivesse vendo,

Foi o Cego dar com um pau

Em dois vultos não pequenos.

Tropeçou o Cego n'elles,

Que é o tropeçar de cegos;

E deu de cego pancadas

Em dois mui grandes torpeços.

Pôr no Corcovado o pau

Não foi n'este Cego o erro;

Que em casas que tem corcovas

Pôr-lhe pontões é acerto.

Dando na Casa dos Bicos

Eram golpes tão horrendos,

Que lá no Cunhal das Bolas

Soando estavam seus eccos.

Sempre um cego ha mister guia,

Mas eu n'este Cego vejo

Que não ha mister guiado

Pois tanger sabe um camello.

Como os cegos tangem bem,

Este tangeu tão avesso,

Que nas costas de um laúde

Deu bordoadas aos centos.

N'um mesmo tempo brigou,

E acclamou o vencimento,

Pois sempre na briga esteve

Os atabales tangendo.

O Cego teve a victoria

Mas o Corcovado, é certo,

Que nos despojos levou

Os dous alforges bem cheios.

* * * * *

ANONYMO

Romances e cantigas da canonisação de Sam Francisco Xavier

Pérola muy bella

Nos traz Oriente;

Mais resplandecente

Qu'hũa nova Estrella.

Quanto tem valia

Muito áquem lhe fica;

Pérola tam rica

No mar não se cria.

Orvalho dos céos

Gerou tal belleza,

Contra a natureza

Junt'os Pyreneos.

Vêdes quam ditosas

São nossas montanhas,

Pois tem nas entranhas

Pedras preciosas.

Não sei se notaes

Grandeza tão rara,

Pedras de Navarra

Vencem orientaes.

Outra cantiga, que fala com o Piloto da Nau, que é o Sancto

Piloto da Nau ligeira,

Que corre por terra e mar!

A maré é de rosas,

O porto seguro,

As velas mandae tomar.

No meio do coração

Vos darêmos gasalhado,

Que por bem aventurado

Se terá com tal patrão.

Tendes vara de codão

Pera todos cativar.

A maré é de rosas,

O porto seguro, etc.

Enchestes o Oriente

De luz e de piedade;

Visitae esta cidade

Qu'é senhora d'essa gente,

E vereis quão diligente,

Se mostr'em vos festejar.

A maré é de rosas,

O porto seguro, etc.

De drogas celestiaes

Vindes muito carregado,

Vede que sois obrigado

Repartir c'os naturaes:

Amor quero, e nada mais

Por ser pedra de bazar.

A maré é de rosas,

O porto seguro

As velas mandai tomar.

----

Oh Nau que pera a viagem,

Marinheiros não temais,

Pois tal Piloto levaes,

Poderá com segurança

Quem tal Piloto levar,

Ou pollo mar com bonança

Ou por terra navegar.

Espertae a confiança

Que dos céos vereis o caes,

Pois tal Piloto levaes.

Desferi todas as velas,

E botae de foz em fóra,

Pera que possam enchel-as

Ventos galernos emb'ora.

Alegres todos a ellas,

Tempestades não temaes,

Pois tal Piloto levaes.

Assás covarde será

Quem receiar a viagem,

Pois Xavier governará

Que é Piloto de vantagem.

Elle franquêa a passagem,

Iça, iça, mais e mais,

Pois tal Piloto levaes.

----

Xavier ao leme,

Anjos a cantar,

Larguemos a vela

Pera navegar.

É sabio o Patrão

Que assi manda a via,

Vêm ao Galeão

Todos á porfia.

Ledos e contentes

Pera embarcar,

E tudo está lestes

Pera se navegar.

Galeão fermoso

E bem artelhado,

Em tudo lustroso,

Em partes dourado.

Quem póde temer,

Ou arreceiar?

Já se faz á vela

Pera navegar.

Pois não teme guerra

Na terra ou no mar;

Por mar e por terra

Pode caminhar.

Vae esta Nau bella

Ao Céo demandar,

Larga, larga a vela

Pera bolinar.

Dourado pharol,

Dourada bandeira,

Francisco é o sol,

Norte de carreira.

É Nau de alto bordo,

Não póde remar,

Tende logo acordo

Pera velejar.

Xavier ao leme

Anjos a cantar,

Larguemos a vela,

Pera navegar.

Relaçam das Festas que a religiam da Companhia de Jesus fez em a Cidade

de Lisboa, na beatificação do Beato S. Francisco Xavier, segundo

Padroeiro da mesma Companhia, e Primeiro apostolo dos reinos de Japão,

em Dezembro de 1620, recolhidas pelo Padre Diogo Marques Salgueiro, etc.

Lisboa, por João Rodrigues, 1621.

* * * * *

Cantiga de Abel

Doloroso gado

De tanto primor,

Dôa-te o fado

Do triste pastor.

Lembrae-vos, cordeiros,

Da minha tristura,

Ovelhas, carneiros

Que pastaes verdura.

Abel sem ventura

De vós apartado,

Meu gado amado,

De mim com amor,

Dôa-te o fado

Do triste pastor.

Doei-vos de quem

De vós se doía;

Lembrae-vos tambem

Minha companhia,

De quem ser sohia

Sou outro tornado,

Ficaes só deixado.

Sem ter guardador

Doei-vos do fado

Do triste pastor.

_Auto do Dia do juizo_;--Folha volante de 1659.

* * * * *

FRANCISCO LOPES

Romance de Santo Antonio e a Princeza

Estava el-rei de Leão

Casado com uma princeza

De portugueza nação,

Devota, por portugueza,

De Antonio, santo varão.

Tinha morta esta rainha

Uma filha já mulher;

A qual não pode soffrer

Que enterrem, como convinha,

Pelo muito que lhe quer.

El-rei e toda a mais corte

Para a sepultura se ajunta,

Mas era o amor tão forte,

Que, tendo a filha defunta,

Não crê a rainha a morte.

Trez dias chegou a estar

A mãe em continuo pranto

E a filha sem sepultar,

Com grande fé no seu santo,

Que lh'a hade ressuscitar.

Erguendo o rosto choroso

Ao céo com fé verdadeira

Ao seu Santo glorioso,

Tão santo e tão poderoso,

Orava d'esta maneira:

«Já que sois universal

Nos milagres que fazeis

Por todo o mundo em geral,

O remedio não negueis

A esta vossa natural.

E se é justo que sintaes

Esta ausencia tão esquiva,

Porque a vida lhe negaes,

Dae-me minha filha viva,

Pois tantos ressuscitaes.»

Inda a rainha não tinha

Dita a sua oração santa,

Quando Deos ouve a rainha,

E Antonio põe a mésinha,

Com que a moça se levanta.

Porém a infanta amada,

Que tornou cá a esta vida

Lá da angelica morada,

Anojada e offendida

Contra a mãe responde irada:

--Perdôe-vos Deos, senhora,

Que me tirastes dos céos,

Aonde eu estava agora,

Porque santo Antonio fôra

O que isto pedira a Deos.

E Deos como o ama tanto,

Porque tanto a Deos amou,

Por aplacar vosso pranto,

D'entre as virgens me tirou

Do côro celeste e santo.

Porém a bondade immensa

Que tudo move e governa,

Quinze dias só dispensa

Que esteja em vossa presença

E que torne á vida eterna.--

Como o divino recado

Deu a ditosa menina

Do que Deos tinha ordenado,

Sendo este tempo acabado

Subiu á patria divina.

_Santo Antonio_, Milagre XXXVI.--Vide Rom. Ger. n.º 44; Rom. de Aravias,

n.º 72. Legitima assimilação popular, de 1620.

* * * * *

ROMANCES

DA

HISTORIA DE PORTUGAL

TIRADOS

DAS COLLECÇÕES HESPANHOLAS

* * * * *

1

Romance del Conde Alfonso Enriquez

(anonymo)

Cuando el Conde Alfonso Enriquez,

Primer rey de Portugal,

Hijo del conde Borbon,

De Borgoña natural,

Despues que en campo de Ourique

A muy duro pelear

Venció siete reyes moros

Y los trujo á su mandar,

Y despues que por sus hechos

Le vino Dios á premiar,

Dándole sus cinco llagas

Por armas y por señal;

Ya que ganó á Santaren

Con mucha guerra y afan,

Y puso á Lisboa cerco

Por la tierra y por la mar,

Salió de dentro elRey d'ella,

Llamado Venalmazar;

Pide al Conde franca entrada,

El cual se la mandó dar.

--Habrás de saber, le dice,

Que ha que tengo en herdad

A la ciudad de Lisboa

Treinta y siete años y mas;

My padre cuarenta y tres

En quieta y segura paz;

Mi abuelo la tuvo treinta

Con guerras e mucho afan.

Al fin la habemos gozado

En feliz securidad

Desde que el-rey Don Rodrigo

La perdió con Portugal;

Y que aquesta noche estando

En mi casa á mi folgar,

Vi venir una doncella

Al parecer celestial,

La cual hoy me dijo

Ser su entera voluntad

Que sin guerra te entregasse

Mi reino y esta ciudad,

Y que me torne Cristiano

Para mi alma salvar,

Y tu que te apartes luego,

Buen Conde, de mas peccar.--

El Conde quedó espantado

De lo que al moro oyo hablar;

Inclinadas las rodillas

Comenzó de razonar:

--Mil gracias le doy á Dios

Por la merced que me hace,

Y pues que d'esto se sirve,

Cúmpla-se su voluntad.--

En esto luego se entraron

Los dos dentro la ciudad,

Do al moro hicieron Cristiano

Y al Conde rey natural.

_Romanceiro general_, de Duran, t. II, pag. 215.

* * * * *

2

Romance de Don Egas Moniz

(De Juan de la Cueva)

La villa de Guimaraes

Don Alonso habia cercado,

Oitavo rey de Castilla,

Conmovido y alterado

Contra Don Alonso Enriquez,

Su infante y su mayorazgo,

Que no obedeciendo al Rey

Contra su edicto y su mando,

Teniéndole en menosprecio,

No acudiendo á su llamado,

Ni á las cortes de Castilla,

Aunque era á ellas citado,

Como tenia obligacion,

Y debe cualquier vasallo,

Cual el era de Castilla

Con juramento obligado,

Y no acudia á sus cosas,

Ni d'ellas tenia cuidado.

O fuese por querer suyo,

O por mal aconsejado,

Al fin estimaba en poco

Ser de Castilla llamado.

D'esto el Rey ardiendo en ira

Contra el Infante indignado,

Le comenzó á combatir

Teniéndole ya cercado,

Dàndole por todas partes

Fieros y duros asaltos,

Perseverando en su intento,

Prometiendo y protestando

Que hade igualar por el suelo

Su muro reedificado,

De donde los portuguezes

Se defienden aunque en vano,

Porque la porfia del Rey

En un tiempo ya tan largo

Los tenia tan estrechos,

Tan sin fuerzas y gastados,

Faltos de mantenimientos

E de vituallas faltos,

Costreñidos de la suerte

Que estaban determinados

A rendirse, pues se vian

Sin remedio en tal estado,

Y entregar al Rey la villa

Por no recebir mas daño.

Todo el pueblo en este acuerdo

La ocasion anda trazando,

Viendo que el Rey persevera

Que su intento lleve al cabo,

Sin desistir de su intento

Ni alzar del cerco la mano,

Y para que venga á efecto,

Un dia andaba mirando

El sitio, el lugar y assiento,

Por uno e por otro cabo,

Y por d'onde el dia siguiente

Pueda el pueblo ser entrado

Con mayor facilidad,

Pues casi estaba arruinado.

Los de dentro temerosos,

El presto fin aguardando,

Viendo que él solicitaba

Su total miseria y daño,

Un caballero animoso,

Que era Egas Nuñez llamado,

Viendo el peligroso apierto

Del cerco en que estan cercados,

Temiendo ver que se entregue

El pueblo ya acobardado,

Que viendo al Rey junto al muro

Todos estaban temblando;

Mas él con ánimo fuerte

Y corazon levantado,

Determina de morir

O que su pueblo sea salvo;

Y asi con firme braveza

Armado subió á caballo

Y sale á do estaba el Rey,

Y ante el puesto, asi ha hablado:

--¿Qué razon hay que tu Alteza

Con ánimo tan airado

Asi quiera destruirnos,

Y en ello ponga el cuidado,

Siendo razon mas urgente

Que mires por tus vassallos,

Que no hacerles tal guerra,

En la cual no acobardados

Hallarás los corazones,

Que nada les pone espanto,

Ni les forzará á que hagan

Por fuerza tu real mandado,

Pues pueden sufrir el cerco

Y darte guerra diez años,

Sin que les falte comida,

Ni cosa para este caso?

Mas una razon los vence,

Y es esta quien me ha forzado

Que venga á pedir que quieras

Que esto acabe, el cerco alzando,

Pues la fe que en ti tenemos

Nos da esfuerzo en el quebranto,

Que aceptarás nuestro ruego

Cual te ha sido suplicado.

A esto vengo como tio

Del Infante, y su vasallo,

Por el cual te doy la fe,

Como noble hijo-dalgo,

Que en todo cuanto mandares

Seguirá tu real mandado;

Y acabe ya esta contienda

De cristianos á cristianos,

Y vamos contra los moros

Que nos hacen tanto daño,

Entrandose por Castilla,

Tu poder menospreciando;

Que en lo que toca á nosotros

Por la fe que ya te he dado,

Juro en nombre del Infante

Como deudo mas cercano,

Que el y todos te obedezcan

Como leales vasallos.--

Esto oido por el Rey,

Luego el cerco levantando,

Egas Nuñez dió la vuelta

El libre, y su pueblo salvo.

Fuése el Rey, ordenó Cortes,

Todo aquesto ya pasado,

Citan al Infante á ellas

Por edicto señalado,

Responde que él no hade ir

A ellas, siendo forzado.

Oyendo Egas Nuñez esto,

Y habiendole al Rey jurado

Que el Infante cumpliria

Lo que dél fuese mandado,

Visto que el enganó al Rey,

Y que él era el obligado

A cumplir el juramento

Que hizo como hijo-dalgo,

Con su mujer e sus hijos,

Dispuesto y aparejado

A lo que dél sucediese,

Para el Rey siguió su paso

Vestido de peregrino,

Y de aquel modo llegado

A la presencia del Rey,

Le dice ante el humillado:

--Gran senor, yo me presento

Ante ti, en ti confiado,

Que mirarás con clemencia

La culpa en que soy culpado.

Yo soy aquel caballero

Con quien hablaste en tu campo,

Cuando sobre Guimarães

Lo tenias asentado.

Fingiendo-me que era tio

Del Infante, fuete dado

Seguro de mi palabra

Que vendria a tu llamado,

Esto sin mas facultad

De la que yo hube tomado,

Pues no es mi deudo el Infante,

Cual de mi te fue afirmado;

Mas es mi rey y señor

Y yo, como su vassallo

Viendo el peligro y aprieto

En que lo tenias cercado,

Quise por aquesta via

Ser remedio de su daño:

Y asi pues yo me obligué,

Y por mi fueste engañado,

Yó, mis hijos y mujer

Paguemos este peccado.--

Esto diciendo Egas Nuñez

Cruzó en el pecho los brazos,

Y hincado de rodillas

Como estaba se ha quedado.

El Rey de oir la extrañeza

Aunque de ira incitado,

Se admiro, y mirando á Egas

Le dijo, asiendole el brazo:

--Levanta, que tu lealtad

Te hace libre, y tu engaño

Alabo, pues me engañaste

Por hacer a tu rey salvo;

Y asi llevarás el premio

Digno de un hecho tan alto,

Mandóle dar muchos dones,

Aderezos e caballos

Para volver-se a su tierra,

Do vuelto, fué mui loado

De todos, y del Infante

Conforme al hecho estimado.

_Coro Febeo de romances historiades_. Ed. 1687.

* * * * *

3

Romance del rey don Alfonso quando libertó del tributo al reino

de Portugal.

(Lorenzo Sepulveda)

En Sevilla estava Alfonso

Sabio por todos llamado,

El rey que ganara a Murcia

Antes que oviesse el reynado;

El infante don Dionis

A Sevilla avia llegado,

Hijo del rey don Alfonso

De Portugal el reynado,

Del rey Alfonso era nieto

El infante ya nombrado.

Gran plazer tomó su abuelo

Quando lo vido a su lado,

De edad era pequeño,

A quinze años no ha llegado,

Pedio por merced al rey

Cavallero lo aya armado

Con otros sus cavalleros

Que vienem a acompañarlo.

Concedierale el buen rey

Lo que le fue demandado,

Cavallero era el infante

A su abuelo se ha humillado,

Deixole:--Rey, mi señor,

Pues que soys tan señalado

Entre los reyes del mundo

De rey liberal y franco,

Concedeme lo que os pido

Seraas mucho loado,

Y es que quiteys de tributo

A Portugal mi reynado,

Y que no vengan sus reyes

A cortes siendo llamados,

Ne les pidays gentes darmas

Como hasta oy se os han dado.

El rey respondio al infante:

Quel solo por si en su cabo

No podia responder

Ni le dá lo demandado

Hasta llamar los infantes

Y los grandes de su estado,

Que estavan alli con el

Que a cortes se avien juntado,

Y que si ellos lo han por bien

El no se lo avia negado.

Otro dia al rey Alfonso

Sus grandes avie llegado,

Declaro delante todos

Lo qu'el nieto ha demandado,

Pidio que le den consejo

Si lo hara o sera negado.

Todos callaran gran pieça,

Ninguno no avia hablado,

El rey se enojo de todos

Por que no le han replicado,

Mas contra aquesse don Nuño

La saña mas ha mostrado.

Don Nuño se puso en pie

Con el rostro demudado

Dixo: «Al rey mi señor

Mi hablar fuera escusado,

Estando aqui presentes

Los infantes vuestros hermanos,

Y don Estevan con ellos,

Y don Lope Diaz de Haro,

Que son mas sabios que yo

Para tal consejo daros;

Pero quereys mi consejo

Daros lo he yo de buen grado,

Y es que hagades mucha honra

Mucho bien y mucho algo

Al infante don Dionis

Que sera bien empleado,

Por el deudo que le aveys

A esto soys le obligado,

Y por que era cavallero

Armado por vuestra mano,

Y si ajuda ha manester

Tenido soys a ayudarlo

Como a qualquier hijo vuestro

De los que teneys amado;

Mas quitar de la corona

De aqueste vuestro reynado

El tributo que los reyes

De Portugal han pagado

A este reyno de Castilla

Yo no os lo avre consejado.»

Y en diziendo estas palabras

Salido se ha del palacio.

No le plugo al rey Alfonso

De lo que Nuño ha hablado,

El infante don Manuel

Y otros han deliberado

Haga lo que don Dionis

Le pidio y a suplicado

Pues el tributo era poco

Que no se lo aya negado.

El rey que lo ha en voluntad

Otorgolo de buen grado,

Sus cartas le dio de quito

Y a Portugal se ha tornado

Muy pagado de su abuelo

Que su reyno ha libertado.

_Romances sacados de historias_, fl. 203.--Anvers, 1551.

* * * * *

4

Romances de D. Pedro 1.º de Portugal y Dona Inez de Castro.--I

(De Gabriel Lobo Laso de la Vega)

El valeroso Don Pedro,

Gran principe lusitano,

Hijo del Rey Don Alonso,

Sucesor en sus estados,

De una doncella en Galicia,

Dicha Doña Inez de Castro

Y Valladares, fue preso

De su hermosura forzado,

Cuya recta descendencia

Fue del tronco claro y alto

De los antiguos de Lémos

Que resplandecen hoy tanto,

Hija bastarda que fué

De Pedro Hernandez de Castro,

Un valiente caballero

Del Principe primo hermano.

Digo pues que como fuese

Este Principe casado

Dió grandes muestras de estar

D'esta Doña Inez prendado,

A quien con sola la vista

Iba su mal declarando,

No gozando aun toda veces

D'esto, que a nadie es negado.

Que de amor cualquier afecto

Ofende a un intento casto.

Hizo muchas diligencias

De hablarla, y todas en vano,

Que la bella Doña Inez

Da a su pretension de mano,

Viendo que el mejor suceso

Tiene de ser en su daño;

Mas como és vispera el bien

Del acaecimiento malo,

Sucedio pués que murió

La Princeza en esto estado.

Hallóse Don Pedro libre,

Ya su mal medio buscando,

Se caso con Doña Inez

En Berganza con recato;

En la cual tuvo trez hijos,

De que fue el Rey avisado,

A quien peso por extremo;

Y de trez malos vasallos

Fué inducido con instancia

A hacer un hecho villano,

Que prosiguiendo adelanto

Se dirá el suceso infausto.

_Romancero y tragedias_, etc.

* * * * *

5

Don Pedro 1.º de Portugal y Dona Inez de Castro.--II

(De Gabriel Lobo Laso de la Vega)

Contento con Doña Inez

Está Don Pedro en Coimbra:

No en tanto el futuro cetro

Como el poseerla estima,

Y le paga Doña Inez

Con esta voluntad misma;

Y como en el buen estado

La constancia está abscondida,

Ofreciosele a Don Pedro

Una ausencia hacer precisa,

Cosa que el que bien amare

Sabra bien cuanto lastima.

Sabiendo el Rey Don Alonso

De su hijo la partida,

Con lo trez crueles vasallos

Que al mal, mal le persuadian

Do está Doña Inez de Castro

Con gran secreto camina,

Confuso atemorisado

Porque los trez le decian

Que seria el casamiento

Del reino total ruina,

Y que el morir Doña Inez

Era lo que convenia,

Hirosele duro al Rey

Su inocente culpa vista

De que los trez indignados,

Con suprema justicia

Que eran del reyno, tomaron

Sobre si aquesta malicia,

Finalmente, Doña Ines

Rindió a sus dagas la vida

Cuya lastimosa muerte

Por el Principe sabida

Mueve guerra contra el padre,

El cual morio en pocos dias

De pesadumbre, y los trez

Se huyeron para Castilla.

Coronose el Portuguez,

Segun su fuero en Coimbra,

Coronando juntamente

Por reina e mujer legitima

Los huesos de Doña Ines,

Que desenterrar hacia,

Funestas bodas y exequias

Celebrando un mismo dia;

Y de los trez, dós cogiendo

Hizo d'ellos cruel justicia.

_Romancero y tragedias_, etc.

* * * * *

6

Don Pedro e Dona Ines de Castro.--III

(ANONYMO.)

Don Pedro, a quien los crueles

Llaman sin razon Cruel

Desde Coimbra a Alcobaza

Cien mil hachas hizo arder.

Todas arden, mas que todas

Arde el corazon del Rey,

Lo que va de amôr á luces

Y de cera al querer bien.

Sentose a su lado y luego

Los fidalgos y la plee

Y el reino besó en cenizas

La mano que nieve fué.

Para obrar tan gran fineza

No le falto a Amor ser rey,

Sin juntarse con las armas

Del monarca portuguez.

El sol desconose el dia

Cuando por tierra la vê

En la noche de sus luces

Todo el firmamiento en pié.

La muerte que solo es fenix,

Este bodes supo hacer,

Donde en la vida e la muerte

Reinan marido y mujer.

Los clarines y clamores

Dan pésame y parabien,

Al vivo de su firmeza,

Y al cadaver, de su fé.

Lo que sobro del sepulcro

Cubre funesto dosel;

Tálamo y tumulo cubren

A Don Pedro y Doña Ines.

_Romances de varios e differentes auctores._

* * * * *

7

Dona Inez de Castro, Cuello de Garsa, de Portugal.--IV

(ANONYMO)

Floresta de varios romances · 第 8 / 10 段