Foi determinado então,

Desterral-a sem porfia,

E n'uma Ilha lançal-a,

Que dentro do mar jazia

Quarenta leguas de terra,

Onde gente não havia;

E que ali de fome e sêde

Sua culpa pagaria,

E comida de animaes,

D'isto não escaparia.

Como a noite foi chegada

Ás horas que anoitecia,

Manda que seja levada

Por dois homens de valia,

Com ella duas mulheres,

Para ir em companhia,

Para que fosse guardada

Sua honra, como devia.

Em um navio veleiro

A Imperatriz se mettia,

Com lagrimas dos seus olhos

Da terra se despedia.

Chegaram á dita Ilha

Á noite do outro dia,

A Princeza deixam em terra

Com grã choro em demazia.

Tornaram-se com o navio,

Porque assim fazer cumpria.

Quando a nobre Imperatriz

Em tal logar só se via,

N'uma Ilha tão deserta,

Onde ninguem não vivia,

Senão bravos animaes,

De que ella manjar seria,

Chorando lagrimas tristes,

D'esta maneira dizia:

«Ó meu nobre Imperador,

Meu bem e minha alegria,

Que pouca é vossa lembrança

De quem tanto vos queria!

Que pouco tempo durou

Vossa doce companhia?

Sempre cuidei de vos ver

Algum tempo ou algum dia;

Agora por meus peccados

Jámais nunca vos veria.

Deos perdôe a vosso irmão,

E a Virgem santa Maria,

Que eu lhe perdôo aqui

Todo o mal, que me fazia.

Oh senhor, e só meu pae,

Principe e rei de Hungria,

Quão triste vida será

A vossa sem alegria,

Em ouvindo tão má fama,

Que em Roma de mim corria?

Mais sinto vosso pezar,

Que minha grande agonia;

Pois morrerei uma vez

Vós morrereis cada dia.

A vossa deshonra sinto,

Que a morte não a temia,

Porque mais hade temer,

Quem tão sem culpa morria.

Estas palavras dizendo,

Mui grande ruido ouvia,

Tão terrivel e espantoso,

Que soffrer-se não podia;

Ouvindo isto a senhora

A força lhe fallecia;

Como era delicada

Em terra logo caía.

Estes eram animaes

De muitos que ali havia,

Que tanto que a sentiram,

Com grã pressa em demazia

Correram para a comerem,

Cada um qual mais podia.

Antes que a ella chegassem

Um resplendor apparecia.

Estiveram todos quedos,

Nenhum ali se movia,

Com temor de uma senhora,

De quem o inferno tremia;

Pois vinha com magestade

A Virgem santa Maria,

Para guardar a limpeza

De quem a ella recorria.

Chegando com grande amor,

Onde a Imperatriz jazia,

Disse-lhe d'esta maneira

Com suave melodia:

«Minha Porcina, não temas,

Que nenhum mal te viria;

Eu sou a Madre de Deos;

A quem serves cada dia,

Que te venho soccorrer

Em tão extrema agonia;

Não temas nenhum perigo

Princeza nobre e mui pia,

Porque Deos será comtigo

Sempre de noite e de dia,

Por muitos bens que fizeste,

De que elle se servia.

D'esta herva colherás,

Que n'este logar nascia,

Sem levar outra mistura

Mais que sómente agua fria,

Na qual cozida será

Quanto te parecia:

E um unguento farás

De grande preço e valia,

Com o qual darás saude

A quem a mister havia,

Em nome do Redemptor,

Rei de toda a monarchia.»

E estas palavras dizendo

A Virgem ao céo subia,

Os animaes que ali estavam

Nenhum mais apparecia.

A Imperatriz ficou

Mui alegre em demazia,

E dando a Deos as graças,

E á sagrada Maria,

Colheu d'aquella herva tanta,

Quanta mister lhe fazia.

Acabando de colher,

Um navio á vela via,

Capiando-lhe com a mão,

A gente á terra sahia,

Mui espantados em vêl-a

Perguntaram que queria,

Ou quem a trouxe ali,

Onde ninguem não vivia.

Respondendo a Imperatriz,

D'esta maneira dizia:

«Que vindo com seu marido

Para Roma sua via,

A grã tormenta do mar

Ali lançado os havia,

E a Nau foi dar á costa

Com a gente que trazia,

E que ella escapara

Sem outra mais companhia:

Quero-vos rogar, irmãos,

Por Deos, e por cortezia,

Me leveis á terra firme,

Que bem vol-o pagaria.

Todos foram mui contentes,

Sem curar de mais porfia.

Como foi posta em terra

Com mui grande alegria,

Foi-se direita ao Castello,

Que Alberto se dizia,

Pelo nome do Senhor,

Que sempre n'elle vivia,

O qual tinha sua mulher,

A quem elle muito queria,

Doente de sangue fluxo,

Que grã pena padecia.

Não lhe davam cura os Mestres

Que grande pezar sentia,

A Imperatriz piedosa,

Licença ao marido pedia,

Para curar a mulher,

Que tanto mister havia:

E assim logo entrou dentro

Adonde a mulher jazia,

Untou-lhe todo o seu corpo

Com unguento que trazia,

Pela vontade de Deos

A saude recebia.

Levantou-se logo em pé,

O que d'antes não fazia,

Muito rija e muito inteira,

E com grande melhoria,

Clamando por seu marido,

O qual logo lhe acudia:

Disse-lhe como era sã,

Do gram mal que padecia,

Abraçando a Imperatriz,

Tão leda, que não cabia,

Tomou-lhe tão grande amor

Como a razão o pedia.

Muita gente a vinha vêr,

Espantada do que via;

Que fosse sã tão depressa

Quem tanto mal padecia.

Olhava a Imperatriz

A quem tal bem lhe fazia,

Mui espantados de a vêr

Tão formosa em demasia,

Sarar tal enfermidade

Com sua sabedoria.

Elles a isto assistindo,

Um cego apparecia,

E chegando ao Castello,

Que já dito vos havia,

Quiz elle pedir esmola

Assim como antes sohia.

Vendo-o a Imperatriz,

Movida com a obra pia,

Curou-o em nome do Padre,

Que todas as coisas cria,

Do filho e do Espirito Santo,

Que d'entre ambos procedia;

A Santissima Trindade

Saude lhe concedia.

Como o cego se viu são,

Com grã prazer que sentia,

Pôz-se ante ella de joelhos,

Dando vozes de alegria.

Levantou-o a Imperatriz,

Que tal coisa não queria,

«Irmão, dae graças a Deos,

(Mui humilde lhe dizia),

Que só vos deu a saude

Com a sua sabedoria,

E a infinita bondade,

Que terra e mar enchia.

A fama destes milagres,

Pela terra se estendia;

A Clitaneo os contaram,

E a sua mulher Sophia,

Os quaes foram mui alegres

Pelo que agora diria.

Natão aquelle malvado,

Que arriba se dizia,

Que matou a seu sobrinho,

Do que não se arrependia,

Que offendendo tanto aquella

Que nenhum mal merecia,

Depois de ser desterrada

Antes de passar um dia,

Veiu a fazer-se gafo,

Que nenhum remedio havia,

Senão pagar com a morte

No inferno o que devia.

Era tal sua doença,

Que tudo aborrecia,

E ninguem chegava a elle

Tão fortemente fedia.

Acordou pois Clitaneo

(Porque muito lhe doía)

De logo o levar comsigo,

Adonde Alberto vivia.

Pois que era seu parente,

Grande amigo em demasia,

Disse tambem a mulher,

Que com elle ir queria.

Metteram-no em umas andas

Aonde só ir podia.

Partiram todos de casa

Quando a luz apparecia,

Chegaram ao dito Castello

Á meia noite seria,

No qual o parente Alberto

Mui alegre os recebia.

Ao tempo que ali chegaram,

A Imperatriz dormia,

E não a poderam ver,

Até que foi bem de dia;

Como foi pela manhã,

A recebel-o saía,

Com aquelle acatamento,

Que a humildade devia;

Todos logo a receberam

Com mui grande cortezia,

E quiz nosso Senhor Deos

Que ninguem a conhecia,

O Conde e a Condessa,

Nem a sua companhia.

Todos eram espantados

Do primor, que n'ella havia,

Contou Clitaneo então

A causa que os trazia,

Pela doença do irmão,

Que tal tormento sentia.

Dizendo:--Pois Deos lhe dera

Tal graça e tal valia,

Que lh'o quizesse curar

Como aos outros fazia,

Que se por paga o houvesse

Quanto quizesse daria.

Respondeu a Imperatriz

Mui contente do que via,

Para se manifestar

Como sem culpa vivia;

Que fosse onde elle estava,

Porque ella ver o queria.

Foram com ella as senhoras

Por lhes fazer companhia,

Tambem todos os senhores,

Para ver o que fazia.

Chegando onde elle estava

Tão fortemente fedia,

Que não podia soffrel-o

Toda a gente que ali ía,

A Imperatriz piedosa,

Com a humildade que havia,

Chegando á sua cama,

D'esta sorte lhe dizia:

«Meu irmão, salve-o Deos,

Que todas as coisas cria;

E vos salve vossa alma,

E ao corpo dê melhoria.

Vós, irmão, quereis ser são?

(Disse-lhe elle que queria.)

Haveis-vos de confessar

Sem cuidar de mais porfia,

Diante d'estes senhores,

Porque assim fazer cumpria:

E se vos não confessaes,

Saude vos não daria

Christo nosso eterno Deos,

Porque d'isto se servia,

Que digaes publicamente

O que a consciencia sentia.

Confessou-se logo á hora

Do tudo quanto sabia,

Mas o que mais relevava,

Calava, que não dizia.

Disse-lhe a Imperatriz,

Como quem o entendia:

«Se tudo não confessaes,

Eu curar-vos não podia,

Porque um grave peccado

Que a Deos muito offendia,

Convem que satisfaçaes

A honra que se perdia

D'aquella, que vós sabeis

Quão innocente vivia.

Como isto ouviu Natão,

Mui fortemente gemia,

Dava tão grandes suspiros

Que a alma se lhe sahia,

Como quem do que fizera

Muito se arrependia.

Disse-lhe então o irmão,

Vendo que tanto temia:

--Como tão grande peccado,

Tendes vós na fantazia,

Que o não quereis confessar

Pois que tanto vos cumpria,

Por haverdes a saude

De quem dar-vol-a podia?

Respondeu logo Natão:

--Senhor, não tenho ousadia,

Se vós me não perdoaes,

E vossa mulher Sophia.

Disse elle, era contente,

E ella, que lhe aprazia.

Ouvindo isto Natão,

Pois tal fazer não podia,

Chorando lagrimas tristes

Com mui grave agonia

Contou logo todo o caso,

De sua grande falsia:

Como matára o sobrinho

Na camara onde dormia,

Porque ella não quizera,

Fazer o que elle pedia;

E de como a commettera,

E o que ella respondia;

Contou tudo sem deixar

Nada, que assim lhe cumpria.

Como isto ouviu a Condessa

Em terra se amortecia,

E seu marido Clitaneo

O mesmo tambem fazia.

Depois que tornou em si

A Condessa assim dizia:

--«Oh malvado! quem cuidara

Tua grande hypocrisia,

Porque te déra o castigo,

Que tal traição merecia!

A amiga maior perdi

Que ninguem nunca perdia,

Minha fiel companheira,

Que a mim tanto me queria.

Não me peza de meu filho,

Em que a carne o requeria,

Porque como pequenino

Mui pouca mingua fazia;

Mas a vós, minha senhora.

Que eu matei com ousadia,

Tenho tão grande pezar,

Que a alma se me saía;

Eu não posso perdoar

Aquillo que não sabia;

E se eu lhe dei perdão,

Em muito me arrependia,

Nem meu senhor e marido

Perdoar-lhe tal devia;

Porque, sendo seu irmão,

Lhe fez tão grande falsia.

A prudente Imperatriz

Muitas coisas lhe dizia,

Porém nada aproveitava,

Que tanto a aborrecia.

Até que esta senhora

A todos se descobria,

Dizendo que ella era

Por quem tanto se doía.

Ouvindo isto a Condessa,

Pelo que em ella via

No resplandor do seu rosto,

E na fala a conhecia,

Porque Deos lhe abriu os olhos

De sua sabedoria:

Foi-se c'os braços abertos,

Que parecia sandia,

Aos seus da Imperatriz,

Que outra vez se esmorecia,

Porque tambem isto faz

A mui sobeja alegria.

E seu marido Clitaneo

De contente não cabia,

Perdoára a seu irmão,

Porque ella lh'o pedia;

E logo quiz dar saude

A quem lh'a não merecia,

Untando-lhe todo o corpo,

E as chagas que n'elle havia,

E tambem a sua bocca

D'onde máo cheiro sahia.

Em nome de Jesus Christo,

Saude lhe concedia,

Mais são, e mais esforçado

Do que antes ser podia.

Como isto viu Natão,

Mui contente em demazia,

Foi-se a fazer penitencia,

Onde mais não parecia.

Toda a gente que ali estava,

Tanta honra lhe fazia;

Como se todos souberam

Sua grande senhoria.

Nunca d'ella se apartava

A sua amiga Sophia,

Tambem a mulher de Alberto,

Que em extremo lhe queria.

Vinham de todas as partes

Ali enfermos cada dia,

Aos quaes ella curava,

Sem nenhuma fantazia,

E a todos dava saude,

Porque Deos o permittia.

Como a fama era ligeira,

Por todo o mundo corria,

Disse-se ao Imperador

Que em Roma residia,

O qual foi mui contente,

Quando taes cousas ouvia,

Porque tinha seu irmão,

De que acima dito havia;

Doente em cama, mui gafo,

Que já viver não podia,

Mui peior do que Natão,

Porque em taes casas fedia;

Sua carne tão malvada

De bichos já se comia;

Ninguem o podia ver,

Porque logo adoecia,

Que tanto era o fedor,

Que de seu corpo saía.

Como lhe certificassem

Ser de mui grande valia,

Um Duque manda por ella,

De quem muito se confia,

Dizendo que lh'a trouxesse

Antes do terceiro dia,

Porque não viesse a morte

A quem tanto lhe doía.

Vendo o Duque seu mandado

A grã pressa se partia,

Chegando ao dito Castello

Clitaneo o conhecia:

Logo o foi a receber

Com mui grande cortezia,

Fazendo-lhe aquella honra,

Que tal senhor merecia.

Como tão pouca detença

O Duque fazer cumpria,

Perguntou pela senhora,

Que tantas coisas fazia.

Como lhe fosse mostrada,

Grande espanto recebia,

De ver sua formosura

Mais que todas quanto via,

Lembrando-lhe a havia visto,

Mas aonde lhe esquecia,

Muito fóra de cuidar,

Que a Imperatriz seria.

A mui nobre Imperatriz,

Que mui bem o conhecia,

Seu rosto maravilhoso

D'elle sempre escondia,

De que causa se assombram

Porque a todos se encobria.

O Duque sem mais deter-se,

Sua vinda lhe dizia,

Contando-lhe como Albano

Cruel pena padecia;

E que o Imperador

Lhe rogava e lhe pedia

Que logo o fosse curar,

Pois tanto mister o havia,

E que se o désse são,

Que elle lhe promettia,

Fazel-a tão grã senhora,

Como ella bem veria.

Foi a Imperatriz contente,

Sem cuidar de mais porfia,

Determinou ir com ella

A sua amada Sophia;

Tambem a mulher de Albano

Disse que não ficaria,

Assim que ambos os maridos

Lhe fizeram companhia,

Porque tambem desejavam

De ir a Roma em romaria.

Partiram com tanta pressa,

Que chegando ao outro dia

Á grã cidade de Roma,

Quando o sol claro saía,

Era tanta pelas ruas

A gente que a seguia,

Que quando chegaram ao paço

Caber n'elle não podia.

O Imperador Lodonio

Tão alegre a recebia,

Que todos se assombravam

De sua grande alegria.

Foi ella beijar-lhe a mão,

Mas elle o não consentia;

Ia c'o rosto coberto,

Que pouco lhe apparecia.

Como ella se viu diante

De quem mais que a si queria,

Não podia ter-se em pé,

Do grão prazer, que sentia.

O Imperador fez honra

A todos quantos trazia,

Maiormente a Clitaneo,

Por sua grande valia;

Sentou-os todos á mesa,

Com todos juntos comia.

Em quanto durou o comer,

Os seus olhos não desvia

De sua amada mulher,

Que elle reconhecia;

Mas o coração lhe dava

Sobresaltos de alegria.

A prudente Imperatriz

O mesmo tambem fazia.

Acabando de comer

A seu marido dizia:

«Clarissimo Imperador,

Rei de toda a monarchia,

A quem devem sujeição

Todos os que a terra cria;

Eu, como serva menor

De quantos no mundo havia,

Conhecendo o grão pesar

Que tendes em demasia,

Pela doença do irmão,

Que tanto mal padecia,

Venho aqui para o curar

Como quem em Deos confia,

Como elle lhe dará saude

Por sua clemencia pia;

Portanto eu quero vel-o

Se o Senhor m'o concedia.

O benigno Imperador

Muito lh'o agradecia;

Foram postos muitos cheiros

Na cama d'onde dormia,

Porque de outra maneira

Ninguem lá entrar queria.

Foram todos juntamente,

Que ninguem ficar queria,

Á camara onde estava

Quem tanto mal padecia.

Tinha tão grandes tormentos

Que a alma se lhe saía.

A humilde Imperatriz,

Por fazer o que devia,

A rogos do seu irmão,

A quem tanto amor havia,

Chegando-se á sua cama,

Salvando-o como sohia,

A fazer que o curava,

Como quem seu mal sentia:

Albano lhe torna graças,

Muito alegre em demasia,

Disse-lhe a Imperatriz

Com mui grande cortezia;

«Convém de se confessar

Logo vossa senhoria,

Diante do Imperador,

E esta nobre companhia,

De todos os seus peccados,

Que contra Deos commettia,

Se um só ficar por dizer,

Saral-o não me atrevia.

Respondeu logo Albano,

Como quem já se temia:

Que elle os seus peccados

Ao Sacerdote os diria,

E que de outra maneira

Confessar-se não podia.

«Será logo por demais,

(A Imperatriz dizia,)

Minha vinda a este logar,

Pois nada aproveitaria.

O Imperador agastado,

A seu irmão respondia:

--Quem agora vos curasse,

Tam grã milagre fazia,

Como resurgir um morto,

Que já come a terra fria;

E pois por tal vos contamos,

Porque vos falta ousadia

De dizer vossos peccados

Ante esta tal companhia?

Dizei-nos, por Deos, irmão,

Não cuideis de mais porfia,

Se vós não confessaes,

Grã pezar receberia.

Disse-lhe então Albano,

Que pois isto elle queria,

Que logo lhe perdoasse

Um grã mal, que feito havia;

O qual era de tal sorte

Que perdão não merecia,

E se lhe não perdoava,

Que não se confessaria.

Respondeu-lhe o Imperador

Que mil lhe perdoaria,

E pois era seu irmão,

Porque d'elle se temia?

Respondeu então Albano,

Com grã pezar, que sentia:

==Bem sei que sereis lembrado

D'aquelle tam triste dia,

Quando d'aqui vós partistes

Para ir á romaria?

Por Governador deixastes,

Como a razão pedia,

A mim e á Imperatriz,

Que eu matei com grã falsia.

Contou-lhe todo o successo,

Porque nada lhe mentia.

Ouvindo o Imperador

Bem vereis o que diria:

--Piedoso Jesus Christo,

Eterna sabedoria,

Tam altos são teus mysterios,

Que ninguem os entendia:

Quem cuidara que um irmão

Tão grã traição me faria?

Eu fui mui pouco discreto,

Pois fiz o que não devia,

Sem primeiro me informar

De quem o caso sabia.

Oh minha amada mulher,

Claro sol, e luz do dia,

Minha saborosa lembrança,

Espelho em que me via!

Como partiste queixosa

De uma tão penosa via,

De mim mais, que do cunhado,

Porque eu o merecia

Em vos matar tão sem culpa,

Sem olhar o que fazia.

Porque devera olhar

O que por razão seria,

Que quem tem fiel amor,

Nunca mudar se podia.

Pelejem os elementos,

E abra-se a terra fria,

Para que consumma em si

Quem tanto a Deos offendia?

Escureça o sol, e a lua

Que todo o mundo allumia,

Porque ajudem a meu pranto,

Como a razão o pedia.

Estas palavras dizendo,

Com a dôr se amortecia,

Era por morto julgado

Da gente que assim o via.

Vem logo todos os Mestres,

Cada um como podia,

Os quaes sabendo a verdade,

Com muita grande agonia,

Tantas cousas lhe fizeram

Com sua sabedoria,

Até que em si o tornaram,

Como de antes sohia.

Não quiz mais a Imperatriz

Encobrir o que sentia,

Descobriu seu lindo rosto,

E a seu marido dizia:

«Oh meu bem tam desejado,

Minha doce companhia,

Eu sou a que com razão

Devo de ter alegria;

Pois Deos me deixou ver-vos

Como sempre lhe pedia:

Se agora viesse a morte

Mui leda a receberia;

Eu sou a vossa mulher

Filha do grão Rei de Hungria,

Que vós mandaste matar,

Pelo que não merecia:

Quiz-me guardar Jesus Christo

E a Virgem santa Maria,

Por guardar fidelidade

A quem tanto me queria.

Poz-se ante d'elle de joelhos

Ainda que o não merecia,

Por força lhe beija as mãos,

Mas elle o não consentia;

Antes quando a conheceu

Tão grã prazer recebia,

Que abraçando-a docemente

Todo o sentido perdia.

Não ha ninguem que escreva

O que cada um dizia,

Nem papel onde caber

O que escrever se podia.

Em extremo se assombraram

Clitaneo, e mais Sophia,

Vendo a Imperatriz

De tão grande Senhoria,

Aquella que em sua casa,

Como escrava os servia;

Que mandaram desterrar

Por culpa que não havia,

Temendo-se que agora

Algum grã mal lhes viria,

As mãos postas, de joelhos,

Mui tristes em demazia,

Chorando pedem perdão,

Que logo lh'o concedia,

Fazendo-os levantar

Com mui grande cortezia;

A ambos os dois abraçou,

Chorando com alegria,

Contando ao Imperador

O muito que lhes devia.

Que se por elles não fôra,

Sua honra se perdia;

E do grande agasalhado,

Que cada um lhe fazia

E que a vida, e a honra

A elles ambos devia.

O Imperador mui ledo,

Quando estas cousas ouvia,

A Deos dava muitas graças,

E á Virgem sancta Maria,

Promettendo a Clitaneo

Que elle lh'o pagaria,

Com fazel-o grã o Senhor

De todos quantos havia.

Tomou a Imperatriz

A sua amada Sophia,

Por sua camareira mór,

Pelo bem que lhe queria.

Tudo quanto ella mandava

No imperio se fazia;

Determinou o Imperador

Por fazer o que devia,

Queimar a seu irmão vivo

Doente como jazia,

Dizendo:--que mais merece

Quem tal traição commettia?

A Imperatriz piedosa

De joelhos lhe pedia,

Lhe quisesse dar a vida.

Ainda que não merecia,

Dizendo que bem bastava

A pena que padecia.

Outorgou o Imperador,

Porque mui chorosa a via,

Porque a sua nobreza,

A muito mais se estendia.

Levantou-se d'onde estava

A que n'elle se veria,

E se foi deitar á cama

Em que morrendo vivia.

E untando-o com ungento

A saude recebia:

Ficou muito forte e disposto,

O qual d'antes não fazia;

Conheceu o Imperador

Sua virtude e valia,

Que era ainda muito mais

Do que elle cuidar podia.

Seu irmão, por nome Albano,

Que muito se arrependia,

Fez mui grande penitencia,

Porque bem se arrependia.

O Imperador Lodonio,

Mandou fazer cada dia

Muitas grandes procissões

A Deos e sancta Maria,

Dando-lhe infinitas graças

Pelos bens que lhe fazia.

Fizeram por toda Roma

Muitas festas de alegria,

Os pobres se alegravam,

E toda a gente dizia:

Viva a nossa Imperatriz

Que tanto bem nos fazia;

Iam-na todos a ver,

Como vem á romaria,

A todos benignamente

A Senhora recebia,

Fazendo-lhes mais esmolas,

Do que ella d'antes fazia.

O Imperador Lodonio

Tambem com vontade pia

Fazia mui grandes bens,

A todos grã bem fazia:

Foram bemaventurados,

Segundo a historia dizia.

_Folha volante_, de 1660

* * * * *

DOM FRANCISCO MANOEL DE MELLO

Romance picaresco, intitulado «Debuxo de Pena,»

Que em portuguez a retrate

Me rogou Dona Breitís;

Porque tem nojo das côres

Dos poetas de Madril.

Eil-a vae, escutae, vede,

Pois logo vereis se ouvís;

Que se não vae para vêr,

Vae, ao menos, para ouvir.

O _cabello_ é pino de ouro

Tanto mais que o Potosy,

Que ao pino do meio dia

Faz cada dia o sol crís.

Apodara-lhe eu a _testa_

A um pedaço de marfil;

Mas ella diz d'esse apodo

Que m'o deixa para mim.

Os _olhos_ são dois soldados

Da fronteira ou do Brazil;

A quem amor por valentes

Deu o habito de Aviz.

Trez _meninas_ tem travessas

Com as duas que lhe vi,

Pois brincando ella com ellas

São trez meninas, emfim.

Porque são arcos de flores,

Me jurou Maria Gil,

Lhe comprára para a dança

As sobrancelhas sutís.

_Pestanas_ tem, não queimadas

Por lhe não servir assi,

Para uns olhos tão dormidos

As pestanas são dormir.

Ambas as _faces_ parecem

De obra de agulha gentil,

Bainha de ambas as faces

Em lenço feito em Cochim.

Não falemos no do meio

Ramalhete de jasmins,

Que segundo é lindo, e cheira

É ramalhete ou _nariz_.

O carão limpo e luzente

Uma pessa é do sitim,

Não picado, que picado

É só quem tal carão vir.

O _rostro_ livro é de caixa

Cujas partidas gentís

Não viu o Infante Dom Pedro

Emquanto andou por ahi.

As _orelhas_ fogem ás dores

Porque as não querem sentir,

Orelhas de mercador

Vendendo mais dor assim.

A _boca_ d'esta fidalga,

Se não vem como se diz

A pedir de boca, é boca

Que nunca vem a pedir.

Que pouco direi dos _dentes_.

Bem que muito dizer quiz;

Mas cada _dente_ tem dente

Contra a musa mais subtil.

Se tomal-a pelo _beiço_

Quer o cravo e o rubi,

Ella pelo o beiço toma

Mil cravos e mil rubis.

Sem falta a moça não come

Outro pão, que de ambar gris,

Segundo vem perfumados

Seus nãos, quanto mais seus sins.

Na _garganta_ me deu susto

Quando fui e quando vim;

Porque co'alma na garganta

Sempre a verá quem a vir.

O _talho_ de muito inteiro

É feito tão sobre si,

Que tal me depare Deos

No meu feito o meu juiz.

Conforme que prende e mata

Com _olhar_ e com _sorrir_,

A senhora traz no gesto,

Um algoz e um beleguim.

Se trez foram como duas

Que são duas flores de liz,

Lhe tomára as _mãos_ por armas

De França o mesmo Delphim.

Ouvi que lhe pediu Venus

Para pôr nos seus jardins

Os _pés_, que postos em terra

Prendem quaes pés de jasmins.

Quando pisa, o cravo cheiro,

D'onde já disse Merlim,

Que _pés_ que assim pisam cravo

São _pés_ mãos de almofariz.

Senhora Breitís, agora

Comvosco vos conferí;

Que se este retrato é pouco

Far-vos-hei d'estes cem mil;

Porque só pinto o que vejo,

Não lanço adiante o gis,

Senão, dae-me mais que vêr

Que eu vos darei mais que rir.

Quando empunhando o rifão

Faça crêr, como eu o crí,

Que a Breitís sempre é das moças

Qual das aves a perdiz.

_Obras metricas_, t. II, p. 219. Edição de 1665.

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M. QUINTANA DE VASCONCELLOS

Romance da Claridea ao som da harpa da Torre

Todas as vezes que canto

Por aliviar minha pena,

Segue o pensamente a voz

Té chegar á causa d'ella.

Lá entre mil alegrias,

Que a memoria representa,

Tão triste me considero,

Que me converto em tristeza.

Ser alivio de um mal grande

Qualquer gosto, ninguem creia,

Que augmente ao contrario ás forças

Uma debil resistencia.

Rouba o tempo ao mesmo tempo,

A musica o animo alegra,

E é tão querida de amor,

Que amando o mais rudo adestra.

Tema do seu doce effeito

Prodigiosas experiencias,

Nas aves de que é seguida,

Nos animaes que deleita.

Eu só me afflijo cantando,

E todo o bem me atormenta,

Que perder vida e memoria

São os remedios da auzencia.

Tem por mór mal o da morte

Nossa fragil natureza;

Mas, maior mal ha na vida

Se ha memorias, o soffrel-a.

Aqui só n'esta prizão,

E em meu cuidado mais preza,

Estam tão longe de mim,

Que nada sei de mim mesma.

Lagrimas me tem comsigo

Quando a suspirar-me leva,

Do que fui tenho saudade,

E de ser quem sou me pesa.

Viver co'a dôr que padeço

Deve ser ventura alheia,

Inda que dão desventuras

Forças da nossa fraqueza.

Mas quem desespera auzente

Do bem que amando deseja,

Já não tem dor que sentir,

E embalde outra morte espera.

Novella da _Paciencia Constante_.

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ANTONIO SERRÃO DE CASTRO

Romance da briga de um cego e um corcovado

Floresta de varios romances · 第 7 / 10 段