Mui valente e esforçado,

Reinaldos de Montalvão,

Vós sejaes tambem chegado,

Como a sombra no verão.

Muito estou maravilhado,

Invencivel e mui forte,

De ver-vos assim armado,

Sabendo que em minha côrte,

Nunca fostes mal tratado.

Reinaldos:

Senhor, não seja espantado

De vêr-me assim d'esta sorte,

Porque com todo o cuidado,

Ganalão vosso cunhado

Sempre me procura a morte.

Bem sabeis que sem rasão

Com vontade mui malina,

Fez matar com gram traição,

A Tiranes, e Erocina,

E ao feito Salião,

E a mim já quiz matar

Muitas vezes com maldade;

E para mais me danar,

Fez á sua magestade,

Mil vezes me desterrar.

O grande mal que me quer

De todo o mundo é sabido,

E por isso quiz trazer

Armas para offender,

Antes que ser offendido.

Mas deixando isto assim

Guardado p'ra seu logar

Onde se hade vingar,

Vos quero, senhor, contar:

Notorio a todo o christão

É o pesar lastimeiro

Do Marquez Danes Ogeiro,

Que tem com justa rasão

Pela morte do herdeiro.

N'esta nobre côrte estão

Muitos mui nobres senhores,

Que sabem que Dom Beltrão

E o nobre Duque Amão

Foram seus embaixadores:

Tambem este é sabedor

Das respostas que lhe déstes,

E mais de como prendestes

Vosso filho successor.

Do qual está mui contente

De tel-o posto em prisão,

E tem mui grande rasão,

Porque na carta presente

Á qual fez da sua mão,

Confessa toda a traição,

E um pagem a levava

Para o Conde Dom Roldão,

Que na cidade de Boava

Faz a sua habitação.

E como não ha falsia,

Que se possa esconder,

Tinha o Marquez espia,

Porque queria saber

O que Dom Roldão faria.

Esse pagem embuçado,

Sem suspeita, sem revez

Ia mui determinado,

Onde logo foi tomado,

E levado ao Marquez.

Lendo a carta Dom Guarinos,

N'ella contava a tenção,

Porque o matára á traição.

Isto é, senhor, a verdade,

O que vos manda dizer:

Se o que digo é falsidade,

(Que por isso a quiz trazer,)

A letra é bom conhecer,

Que é este o seu sinal.

Pois, quem fez tão grande mal,

Bem merece padecer

Morte justa corporal.

Imperador:

Se tal a carta disser,

Não se ha mister mais provar,

Nem mais certeza fazer,

Senão logo executar

A pena que merecer.

E por tanto sem deter,

Lea-se publicamente

Ante esta nobre gente;

Porque todos possam ver

Vossa verdade evidente.

Carta de Dom Carloto a Dom Roldão.

«Caudilho de gram poder,

Capitão da christandade,

Esta vos quiz escrever,

Para vos fazer saber

Minha gram necessidade.

Porque o verdadeiro amigo,

Hade ser no coração,

Assim como fiel irmão

E não hade temer p'rigo,

Por salvar quem tem rasão.

Porque sabereis, senhor,

Que me sinto mui culpado,

Como quem foi matador;

E temo ser condemnado

De meu padre Imperador.

Eu confesso que pequei,

Pois com vontade damnosa

A Valdevinos matei.

Amor me fez com que errei,

E o primor de sua esposa.

O Imperador, meu padre

Me mandou prezo guardar,

E nunca quiz attentar

Os rogos da minha madre.

A ninguem quer escutar,

E o Marquez tem jurado

De não vestir, nem calçar,

Nem entrar em povoado,

Até me vêr justiçar.

Tendo por accusadores,

Reinaldos de Montalvão,

E seu padre o Duque Amão,

E muitos grandes senhores:

O Gram Duque de Milão

Com o forte Montesinos,

Que é primo de Valdevinos.

Assim que todos me são

Accusadores continos.

Pois tantos contra mim são,

Eu vos rogo como amigo,

Que vós queiraes ser commigo;

Porque tendo Dom Roldão,

Não temo nenhum perigo.»

Imperador:

Antes que algum mal cresça,

Façamos o que devemos:

Pois o sinal conhecemos,

E pois vemos que confessa,

De mais prova não curemos,

Nem vós façaes mais detença:

E pois já tendes licença,

Podeis dizer ao Marquez

Que venha ouvir a sentença.

(Ir-se-ha Dom Reinaldos, e vem a Imperatriz vestida de dó)

Imperador:

Senhora, já não dirão

Que fui eu mal informado,

Nem que o prendo sem rasão,

Pois por sua confissão,

Vosso filho é condemnado.

Vêdes a carta presente,

Que foi feita da sua mão,

Para o Conde Dom Roldão;

A qual muito largamente,

Declara toda a traição.

Imperatriz:

Eu muito me maravilho

Do que, senhor, me ha contado;

Pois que elle ha confessado,

Melhor é morrer o filho

Que deshonrar o estado.

Mas a dôr do coração

Sempre me hade ficar...

Peço-lhe com affeição,

Que lhe busque salvação,

E que o queira escutar.

Imperador:

Melhor é que o successor

Padeça morte sentida,

Que ficar o pae traidor,

Que será trocar honor

Pela deshonra nascida.

Tambem eu padeço dôr,

Tambem eu sinto paixão,

Tambem eu lhe tenho amor,

Mas antes quero rasão,

Que amisade sem favor.

Imperatriz:

Pois que não póde escapar,

Eu não consinto, nem quero,

Que vós o hajaes de julgar,

Porque vos podem chamar

Muito mais peior que Nero.

Imperador:

Não vivaes em tal engano,

Que tambem foram caudilhos

O gram Torcato, o Trajano,

E quizeram com gram dano

Ambos justiçar seus filhos.

Pois que menos farei eu

Tendo tão grande estado?

Quem é com rasão culpado

Em maior caso que o seu?

E por tanto eu vos rogo

Que não tomeis tal pesar,

Porque com vos enojar

Dá-se gram tristeza ao povo.

Imperatriz:

Eu cumprirei seu mandado,

Porque vejo que é rasão;

Mas sempre meu coração

Terá tristeza e cuidado

E grande tribulação.

(Aqui se vae a Imperatriz, e vem o Marquez de Mantua vestido de dó)

Marquez:

Bem parece, alto senhor,

Que vos fez Deos sem segundo,

E de todos superior,

Dos maiores o melhor,

Rei e monarcha do mundo.

Porque vós, senhor, sois tal,

Que com rasão e verdade

Sustentaes a christandade

Em justiça universal,

A qual para salvação

Vos é muito necessaria,

Porque convem ao christão

Que use mais de rasão,

Que da affeição voluntaria:

Como faz vossa grandeza

Com seu filho successor

Assim que digo, senhor,

Que estima mais a nobreza

Que amisade, nem favor.

Imperador:

Não curemos de falar

Em cousa tão conhecida;

Porque n'esta breve vida

Havemos de procurar

Pela eterna e comprida.

Para sentir gram pesar,

Vós tendes rasão infinda,

E tambem de vos vingar,

Pois foi justa vossa vinda.

Bem vimos vossa embaixada,

E a causa d'ella proposta

Foi de nós mui bem olhada,

E não menos foi mandada

Mui convencivel reposta:

E vimos vossa tenção,

E soubemos vosso voto,

E vemos tendes rasão,

Pela grande informação

Do principe Dom Carloto.

E vimos a confissão

De Dom Carloto tambem,

E soubemos a traição

Como na carta contém,

Que mandava a Dom Roldão.

De tudo certificado,

Eu condemno a Dom Carloto

Tudo o que hei mandado.

(Vem um Pagem da Imperatriz)

Pagem:

A Imperatriz, senhor,

Está tão amortecida

De grande paixão e dôr,

Que não tem pulso nem côr,

Nem nenhum sinal de vida.

Nenhum remedio lhe vemos;

Está n'esse padecer,

Sem lhe podermos valer:

E segundo n'ella cremos

Mui pouco hade viver.

Imperador:

Eu muito me maravilho

De sua gram discrição;

Mais sinto sua paixão,

Que a morte de meu filho...

Não te quero mais dizer,

Quero-a ir consolar,

Pois tanto lhe faz mister.

Não sei porque é enojar,

Por se justiça fazer.

(Aqui se vae o Imperador, e virá Reinaldos com o Algoz, o qual traz a

cabeça de Dom Carloto)

Reinaldos:

Já agora, senhor Marquez,

Vos podeis chamar vingado,

Porque assás é castigado

O que tanto mal vos fez,

Pois que morreu degolado.

Fazei por vos alegrar,

Dae graças ao redemptor,

Pois assim vos quiz vingar,

Sem nenhum de nós p'rigar,

E com mais vosso valor.

_Folha volante_ de 1665.

* * * * *

Historia da Imperatriz Porcina, mulher do Imperador Lodonio de Roma.

No tempo do Imperador,

Que Lodonio se dizia,

Que a grã cidade de Roma,

E seu Imperio regia,

Casado com a Imperatriz

Que Porcina nome havia,

Por suas muitas virtudes,

Formosura, e valia

Como princeza que era

Filha do grão rei da Hungria:

Tinha este Imperador

Comsigo em companhia

Um irmão por nome Albano

Que elle muito queria,

Em rasão do parentesco,

O melhor que ser podia.

Este nobre Imperador

Bem dois annos estaria

Com sua amada mulher,

Sem haver filho, nem filha,

Certamente mui contente

Pois Deos assim o queria,

E d'isso era servido,

Por muitos bens que fazia:

As viuvas amparava,

E os pobres soccorria.

As orfãs todas casava,

Quantas na cidade havia.

As obras de misericordia

Com grã vontade cumpria,

Por amor de Jesus Christo,

E da sagrada Maria.

Tinha este Imperador

Promettido em romaria,

Visitar a terra santa,

Que Jerusalem se dizia;

E ver os santos logares,

Todos os que n'ella havia,

Nos quaes havia de estar

Um anno que assim cumpria.

Antes de sua partida

Quiz fazer o que devia,

Deixou por govornadores

A sua nobre Porcina,

E tambem a seu irmão,

Que o povo assim o pedia.

Como isto foi acceitado,

O povo ajuntar fazia:

Manifestou-lhe a partida,

Que escusar-se não podia,

Dizendo--que obedecessem,

Sem curar de mais porfia,

A sua amada mulher,

Que em seu logar ficaria,

E tambem a seu irmão,

Pois tinha tanta valia.

Todo o povo está contente

Do que o Imperador queria,

E acabando de comer,

A horas do meio dia,

Entrou em o aposento

Onde a Imperatriz dormia,

Viu-a estar muito chorosa,

Apartada de alegria.

Como quem adivinhava

O mal, que ella não sabia,

Com o rosto dissimulado,

Encobrindo o que sentia,

Disse-lhe d'esta maneira,

Com pena que padecia:

--Minha amada companheira,

Minha doce companhia,

Lume de meus claros olhos,

Espelho em que eu me via;

Porque estaes assim chorosa

Com tão sobeja agonia?

Porque de ver-vos assim,

A alma se me saía?

Mas se vós quereis, senhora,

Deixarei a romaria,

Mandarei outrem por mim,

Pois não se escusa esta via.

Respondendo a Imperatriz

D'esta maneira dizia:

«Não olheis vós, meu senhor,

A fraqueza, que em mim havia,

Porque eu como mulher

Nunca deixar-vos queria;

Nem estar de vós apartada

Só um momento de um dia.

Mas o que vós promettestes

Outrem cumprir não podia,

Que seria grão peccado,

Que Deos muito extranharia.

Por tanto, Nosso Senhor

Seja sempre em vossa guia,

Que eu vos encommendarei

A elle e a santa Maria.

Despediu-se o Imperador

Sem cuidar de mais porfia,

Abraçando a Imperatriz

Que mil lagrimas vertia,

Pois no coração lhe deu

Que mui tarde o veria.

E depois d'elle partido

Para a sua romaria,

Esta tão nobre senhora

Quiz fazer o que devia

No governo do Imperio,

Com Albano em companhia,

Que seu marido Lodonio

Nenhuma mingua fazia.

Como este Albano era

Cheio de toda a falsia,

Amava a Imperatriz

Já de muito tempo havia;

Morria por seus amores

Que todo se desfazia,

Pela sua honestidade

D'ella não a requeria;

Que como agora tivesse

Tempo para o que queria,

Determina entrar com ella,

Pois que fazel-o podia,

Que, como governador,

Ella não extranharia.

Em estas coisas pensando

Está até o outro dia.

Ás horas que a Imperatriz

De sua cama se erguia,

Estava quasi despida,

Porque a ninguem temia:

Como viu entrar o cunhado

Toda se estremecia.

Porque sua honestidade

Tal cousa não requeria:

Como dentro entrou com ella

Mui contente em demazia,

Foi-lhe a beijar as mãos,

O que d'antes não fazia.

A Imperatriz tão casta,

Assombrada em demazia,

Cobriu-se com um roupão

De ouro e de pedraria;

Com rosto mui vergonhoso

Encobrindo o que sentia,

Levantou-se logo em pé

Descalça na pedra fria,

Assombrada e mui turbada

Espera o que lhe dizia.

Disse-lhe o traidor cunhado,

Sem olhar o que devia:

--«Perdoae-me, alta Princeza,

Minha grande ousadia,

Que d'onde ha força de amor

Não póde haver cortezia.

Muitos dias ha, senhora,

Claro espelho e luz do dia,

Que desejo descobrir-vos

O que encobrir não podia;

Que por vosso grande amor

Triste estou sem alegria,

Se vós me não daes remedio,

Sem nenhum eu ficaria.

Por tanto se vós quereis,

Grão prazer receberia

De vos casardes commigo,

Sem cuidar de mais porfia,

Levantemo-nos c'o Imperio,

Pois que fazer-se podia,

Sendo nós Governadores

Ninguem nol-o tolheria.

Se vós, senhora, temeis

Pelo que o povo diria,

Eu irei matar meu irmão

Estando na romaria.

Far-lhe-hei dar tal peçonha,

Que morra antes de um dia.

Foi-lhe a Imperatriz á mão

Do mais que dizer queria,

E abrazada toda em mágoa

D'esta sorte respondia:

«Por certo, falso cunhado,

Vós tendes grande ousadia,

Vosso grande atrevimento

Grão castigo merecia:

Em que viva me queimassem,

Nunca tal consentiria,

Porque a fé e lealdade

Que a meu marido devia,

Em que me dessem mil mortes

Eu nunca a quebrantaria!

Tirae-vos diante de mim,

Traidor cheio de falsia.»

Vendo-a elle tão irada,

A grande pressa saía

Da camara, onde estava

Que assim se despedia.

Temendo que aos seus brados

Muita gente acudiria;

Determinou entrar de noite

Na camara onde dormia,

E que com tapar-lhe a bocca,

Seu desejo cumpriria.

Descobrindo isto a um pagem

Que fiel lhe parecia,

Porque o acompanhasse

Na traição que commettia,

Pareceu-lhe a este pagem,

Que mui culpado seria,

Se ali se deshonrasse

Pessoa de tal valia;

Determinou de dizer-lhe,

Antes que chegasse o dia,

Porque não viesse a effeito

O que elle fazer queria.

Como a Imperatriz o soube,

Com grã pressa em demazia,

O mandou logo prender

Na casa d'onde dormia;

Mandou-o pôr era uma torre,

Que dentro do paço havia.

Depois que o Imperador

Acabou sua romaria,

Cumprindo sua promessa

Como a tal senhor cumpria,

Determinou de tornar-se

Com muita grande alegria;

Porque esperava de vêr

A quem tanto lhe queria.

Mandou diante um correio

Em que a saber lhe fazia,

Como seria com ella

Antes do oitavo dia;

Com a qual a Imperatriz

Foi alegre em demazia:

Fel-o a saber á cidade,

Porque assim fazer devia,

Para fazer grandes festas

A quem tanto merecia.

Foi-se direita á prizão

Onde o cunhado jazia,

Disse-lhe:

«Senhor cunhado

Não tenhaes tal fantazia,

Porque já vem vosso irmão,

Tomemos grande alegria;

Eu vos perdôo o passado,

Pois que ninguem o sabia;

Recebei o Imperador

Com toda a cavallaria,

E levareis um vestido

De ouro e argenteria,

Que está feito para vós,

Que é de muita valia.

Tirou-o da prizão fóra,

Foi com elle em companhia,

Porque ninguem conhecesse

O mal que feito havia.

Cuidava o falso cunhado

Em como se vingaria

De quem lhe fez tal pezar,

Pois já tel-a não podia.

Foi-se receber o irmão

Pela pósta ao outro dia,

Vestido todo de dó

Que o cavallo lhe cobria;

Chegando onde elle estava,

Vestido assim como ia,

Fez-lhe grande acatamento,

Fingindo mais que sohia;

Quando viu o Imperador

Certo não o conhecia,

Mas depois de o conhecer,

Mui turbado lhe dizia:

--Dizei-me por Deos, irmão,

Por que assim o dó trazia,

Como está a Imperatriz,

Minha fiel companhia?

Dizei-me se é viva ou morta?

Tirae-me d'esta agonia,

Que meu triste coração

Grão sobresalto sentia.

Respondeu o falso irmão

Com mui grande ousadia:

--«Eu vos direi a verdade

Pela fé que vos devia,

E por que sois meu irmão,

A quem mentir não podia.

Depois que d'aqui partistes

Para ir á romaria,

Deixastes a Imperatriz,

E eu com ella em companhia,

Para governar o Imperio

De Roma e sua senhoria.

Prouvera a Deos fôra eu

Sepultado em terra fria,

Antes de ficar com ella,

Pois tal traição commettia.

Estando, senhor, dormindo

Fóra de tão grã falsia,

Entrou de noite commigo

Na camara onde dormia,

E chegando á minha cama

D'esta sorte me dizia:

«Que por mim perdida andava

Já de muito tempo havia,

Que casasse eu com ella,

Sem cuidar de mais porfia:

E que logo Imperador

N'essas horas me faria,

E quando vós viesses,

Que ella vos mataria

Com muito forte peçonha,

Que não vivesses um dia.»

E porque não consenti,

Disse que eu a accommettia,

E fez-me logo prender,

O que ella merecia.

Até agora preso estive

Com muito grande agonia.

Esta é, senhor, a verdade,

Que de mim saber querias.

Quando o nobre Imperador

Tam maldita nova ouvia

D'aquella que tanto amava

Mais que a vida, em que vivia,

Caiu do cavallo em terra,

Uma hora se amortecia,

Fizeram-n'o tornar em si,

Com lhe deitar agua fria;

Cobriu-se logo de dó

Com o que o irmão trazia;

Todo o amor que lhe tivera,

Em odio se convertia.

Sem mais falar com ninguem,

Que a tristeza lh'o tolhia,

Determinou dar-lhe a morte,

Que ella tam mal merecia.

De noite secretamente,

O mais quieto que podia,

Entrou dentro da cidade,

Á meia noite seria;

Mandou tres homens dos seus

Sem outra mais companhia,

Que matassem a Imperatriz

Antes que viesse o dia,

N'uma floresta cerrada

Por onde gente não ia,

E vestida a enterrassem,

Porque assim fazer cumpria;

E se isto não fizessem,

A vida lhes custaria.

Mandou-lh'a logo entregar

C'o vestido que trazia,

Para receber aquelle

Que tão mal a recebia.

Vendo-se ella assim levar,

Suspeitando o que seria,

Como discreta, que era,

Cheia de sabedoria,

Levantou o rosto ao céo,

D'esta maneira dizia:

«Encommendo a Deos minh'alma

E á virgem santa Maria,

Porque me criou de nada,

Por sua bondade pia.

Lembrae-vos, Senhor, de mim,

Pois sem culpa padecia,

Não olheis os meus peceados,

Nem o mal, que merecia;

Mas vossa misericordia,

Que todo o mundo cobria.

Eu perdôo a meu cunhado

Todo o mal que fazia,

E tambem a meu marido,

Porque enganado vivia.»

Os homens que a levavam

Onde padecer havia,

Viram sua formosura

Co'a lua, que então saía,

Disseram uns aos outros:

==Mal empregada seria

A morte a esta senhora,

Pois que tem tanta valia;

Gozemos primeiro d'ella

Que a coma a terra fria.

N'isto se determinaram,

Sem cuidar de mais porfia.

Respondeu a Imperatriz:

(Bem vereis o que diria.)

«Fazei o que vos mandaram,

Não cureis de fantazia;

Deixae a minha limpeza

Para quem a merecia,

Que se tocasses em mim,

A vida vos custaria.»

Não cuidaram os algozes

No que a senhora dizia,

Antes remetteram a ella

Com muito grande ousadia.

A innocente cordeira,

Vendo que a gente a despia,

Começou a dar taes gritos,

Que a floresta retinia;

E como ainda era noite

Em grande parte se ouvia.

Acertou de ouvil-a um Conde

Que muita gente trazia,

Que vinha de Jerusalem,

Onde muita gente ía.

Quiz Deos que aquella noite

Por ali fizesse via,

Para livrar a Princeza

Da pena que padecia.

Como taes gritos ouviu

Do cavallo se descia,

E com muita grande pressa

Na floresta se mettia;

Seguiram-no seus criados,

Cada um como podia,

Ao som dos tristes gritos

A gente toda o seguia;

Foram dar n'aquella parte,

Onde a coitada gemia,

Que com mui grande fraqueza

A força lhe fallecia,

E se um pouco mais tarda

Sua honra se perdia.

O Conde mui piedoso,

Que Clitaneo se dizia,

Vendo tão grande maldade,

Com grã pressa em demazia,

Disse: Matae, meus criados,

Quem tal traição commettia.

Todos foram logo mortos

Antes d'uma ave-maria;

E a Imperatriz ficou livre,

Porque mal não merecia.

Deu-lhe a Imperatriz as graças

Do bem que feito lhe havia;

Quando isto aconteceu,

Já era mui claro dia.

E o Conde tão assombrado,

Que quasi emmudecia

De ver sua formosura

Mais que todas quantas via,

Logo suspeitou que era

Senhora de grã valia,

Assim por seu parecer,

Como pelo que vestia.

Disse-lhe d'esta maneira

Com mui grande cortezia:

«Não me negueis vós, senhora,

Isto que agora diria,

Porque não queria errar

Contra vossa senhoria:

Vós sois de alta linhagem,

Isto eu o juraria;

Se vós me dizeis quem sois,

Grã prazer receberia;

Quem vos trouxe a este logar

Com tão falsa companhia?

Dizei-me toda a verdade

Sem cuidar de mais porfia.

Respondeu a Imperatriz,

Porque encobrir se queria:

«Eu sou mal afortunada,

Que não sei porque nascia,

Por um falso testemunho

Perdi minha grã valia;

Não vos posso mais dizer,

Porque escusado seria:

Senão, quero vos rogar

Por Deos e santa Maria,

Me quereis levar comvosco

O que eu não merecia;

Servir-vos-hei como escrava,

Sempre de noite e dia.

Foi o Conde mui contente

De fazer o que dizia;

Deu-lhe uma cavalgadura

De muitas que ali trazia.

Chegaram á pousada

Com muito grande alegria,

Onde foi bem recebido

De sua mulher Sophia;

Contou-lhe o que passou

Em a sua romaria;

Tambem lhe apresentou

A senhora que trazia;

Contou-lhe como a achara,

Que nada não lhe mentia.

Beijou-lhe a Princeza as mãos

Inda que ella não queria,

Tomou-lhe mui grande amor

A Condessa em demazia,

Que não comia sem ella,

Com ella folgava e ria;

Mais que sua irmã carnal,

Era o que lhe queria,

Até o menino de teta,

Que pouco maior seria,

Lh'o deu á Imperatriz,

E sempre com ella dormia.

Tinha o Conde um irmão,

Que Nathão por nome havia,

O qual por esta senhora

Graves penas padecia:

Não tinha nenhum prazer

O dia que a não via.

Determinou descobrir-lhe

Como por ella morria;

E um dia, tendo logar,

Quando a Condessa dormia,

Disse-lhe d'esta maneira

Com grande dor que sentia:

--Mui resplandecente aurora,

Claro sol do meio dia

Que fez o Eterno Pintor,

Que todas as coisas cria.

Minha alma por vós padece,

Minha vida se perdia;

Por isso me deu o amor

Esta tão grande ousadia,

Que ousasse a descobrir

O que o coração sentia.

O que vós tendes roubado

É liberdade e alegria;

Essas crystalinas mãos

De aljofar e pedraria

Me deixae beijar, senhora,

Pois que tem tanta valia.

Não consintaes que padeça,

Quem a vida só queria,

Para vos poder servir,

Como ella merecia.

Querendo-lhe a mão tomar,

A Imperatriz se desvia,

Em ira toda abrazada,

Resposta lhe não dizia:

«Senão olhara, senhor,

O mal que n'isto faria,

Eu manifestara ás gentes

Vossa louca ousadia.

Tirae-vos diante de mim,

Não cureis de mais porfia,

Ou dil-o-hei á Condessa,

Minha senhora Sophia,

E tambem ao senhor Conde,

Que de mim tanto se fia.

Sem curar de mais palavras,

Na camara se recolhia,

Queixando-se da fortuna,

Porque tanto a perseguia.

Ficou tão triste Nathão,

Quanto dizer não podia,

Por tão áspera resposta

Como d'ella ouvido havia.

Todo o amor que lhe tivera,

Em tedio se convertia;

Determina de vingar-se

Por qualquer maneira ou via.

Como a noite foi cerrada,

Que já ceado se havia,

O Conde e a Condessa

E toda a mais companhia,

Cada um em seu aposento

A dormir se recolhia,

E tambem a Imperatriz

Á cama d'onde dormia;

Levava comsigo o menino,

Como d'antes o fazia.

Deixou a candeia acceza,

Como de costume havia.

Assim como se deitou

Logo se adormecia,

Com o menino nos braços,

Porque muito lhe queria.

Estava o falso espreitando

Como a cordeira dormia,

Cançada de muitos choros,

Que de continuo fazia,

Lembrando-lhe seu marido,

E o bem que d'elle perdia;

E que sendo Imperatriz

De tanto estado e valia,

Agora como escrava

De uma vassalla se via,

E que de um seu irmão

Tanta affronta recebia.

Como viu este malvado,

Que o somno a embebia,

Tirou a porta do couce,

Com um engenho que trazia,

E foi-se direito á cama,

Onde o sobrinho dormia,

Degollou-o c'um cutéllo

Mui agudo em demazia.

Depois que o teve morto,

Que com pé nem mão bolia,

Deixou o cutéllo nas mãos

Da innocente que dormia,

E saíu cerrando a porta,

Melhor que elle podia.

Era o sangue de tal sorte

Que do menino corria,

Que o corpo da Imperatriz,

Olhos e mãos lhe enchia;

Como o tinha nos braços,

Toda de sangue a cobria;

Entrando-lhe pela bocca,

Acordar logo a fazia.

Vendo na mão o cutéllo,

E o menino que jazia,

Começou com grandes gritos

A publicar o mal que via,

Dizendo; «Acudi depressa

Minha senhora Sophia,

Que mataram vosso filho

Minha doce companhia.»

Ás vozes que ella dava,

A Condessa se erguia,

Que ainda estava na cama,

Porque era antes do dia,

E seu marido com ella

Mui triste em demazia.

Vendo o filho como estava,

Em terra logo caía,

Estava tal como morta,

Que com pé nem mão bolia.

Á coitada da Imperatriz

A alma se lhe saía,

Não podia suspeitar

Quem tanto mal lhe fazia;

E ainda que suspeitasse,

Pouco lh'aproveitaria.

E n'isto chegou o irmão,

Que de prazer não cabia,

Porque tanto se vingara

De quem tanto a offendia.

Disse o irmão a Clitaneo,

Chorando, demais seria:

--Quem matou o meu sobrinho,

Grande castigo merecia.

Mandae-m'a vós queimar logo,

Sem curar de mais porfia;

Porque ali tem o cutelo

Com que fez tão grã falsia.

Estas palavras dizendo,

A Condessa em si volvia,

Levantando-se em pé,

Com o grande pezar que havia,

Viu estar a Imperatriz,

Que finada parecia,

Seu rosto maravilhoso

Feito côr de pedra fria;

Seus olhos fontes de lagrimas

Com o chorar que fazia;

Tinha o coração cerrado,

Falar a ninguem podia,

Ainda que perguntavam,

A ninguém não respondia.

Estava como pasmada

Com estas coisas que via.

A Condessa piedosa,

Com o bem que lhe queria,

Não podia esta senhora

Crer que tal ella faria;

Mas o malvado cunhado

A todos os induzia,

Que lhe dessem logo a morte

Que ella tão bem merecia;

E se matar a mandava,

Que elle mesmo a mataria,

Por matar a seu sobrinho,

Que tanto bem lhe queria.

Chorando singularmente

Mostrando que se doía;

E para mais a commover

O cutélo lhe trazia,

Todo coberto de sangue

Do innocente que morria.

A pomba sem fél chorava

A tudo quanto ali via,

Não querendo desculpar-se

Porque crida não seria,

E não por temor da morte,

Que d'ella não se temia;

Mas antes continuamente

A Deos sempre a pedia,

Que quem vive sempre triste

A morte lhe é alegria.

E mais ella, que estava

Com tão sobeja agonia:

Acordou fazer-se muda,

Pois falar-lhe não valia.

A quanto lhe perguntavam

Vendo que não respondia,

Cuidando então a Condessa,

Que culpada não seria,

E que matára seu filho

Alguem que mal lhe queria;

E que ella ora com pezar

De tal sorte emmudecia,

E dizendo a seu marido

Isto que cuidado havia,

Parecia-lhe bem ao Conde

O que a Condessa dizia,

Por não dar tão cruel morte

A quem tão bem a servia.

Floresta de varios romances · 第 6 / 10 段